sábado, 26 de abril de 2014

Memória e Identidade (i)

Escrito por João Paulo II




Renato Descartes


«(...) A classe de segurança com que podemos afirmar que no Universo existe o pensamento ou cogitatio é de uma qualidade incomparável com toda outra afirmação sobre existências, o qual, uma vez descoberto, obriga a fundar nele todo o nosso conhecimento do Universo. Para a teoria, a verdade primeira sobre o real é esta: o pensamento existe, cogitatio est. Não podemos partir da realidade do mundo exterior: tudo que nos rodeia, os corpos todos, inclusive o nosso, são suspeitos na sua pretensão de existir em si mesmos e com independência do nosso pensá-los. Mas é, pelo contrário, indubitável que existem em meu pensamento, como ideias minhas, como cogitaciones. Agora manifesta-se a mente o centro e suporte de toda a realidade. A minha mente dota de uma realidade indestrutível o que ela pensa, se o tomo pelo que primordialmente é - se o tomo por ideia minha. Este princípio leva a procurar um sistema de explicação de quanto há, interpretando o que aparentemente não é pensamento, não é ideia, como consistindo não mais que em ser pensado, que em ser ideia. Este sistema é o idealismo e a filosofia moderna é, desde Descartes, em sua raiz, idealista.

Se ao duvidar da existência independente do mundo exterior chamávamos à pouco um enorme paradoxo, a sua imediata consequência, que é converter esse mundo exterior em mero pensamento meu, será o arquiparadoxo que faz da filosofia moderna uma conscienciosa contradição da nossa crença vital. Desde Descartes, na verdade, a filosofia, ao dar já o primeiro passo, dirige-se em direcção oposta aos nossos hábitos mentais, caminha em direcção oposta à vida corrente e afasta-se dela com um movimento uniformemente acelerado, até ao ponto de que em Leibniz, em Kant, em Fichte ou em Hegel chega a ser filosofia o mundo visto do avesso, uma magnífica doutrina antinatural que não pode entender-se sem prévia iniciação, doutrina de iniciados, sabedoria secreta, esoterismo. O pensamento engoliu o mundo: as coisas tornaram-se meras ideias. No escrito a que antes eu me referia, Heine pergunta à sua amiga: "Senhora, tem uma ideia do que é uma ideia? Porque ontem eu perguntei ao meu cocheiro o que são ideias e ele respondeu-me: as ideias..., as ideias, pois são coisas que se vão metendo na nossa cabeça". O cocheiro de Heine conduz durante três séculos - toda a plena Idade Moderna - a esplêndida carroça barroca da filosofia idealista. A cultura vigente caminha ainda nesse veículo e não tem havido maneira de sair dele com honestidade intelectual. Os que o tentaram não saíram dele: simplesmente se atiraram pela janela e partiram a cabeça - a cabeça do cocheiro de Heine onde as coisas se tinham metido.

A superioridade do idealismo procede de ter descoberto uma coisa cujo modo de ser é radicalmente diferente do que possuem as restantes coisas. Nenhuma outra coisa do Universo, mesmo supondo que as haja, consiste fundamentalmente em ser para si, num dar-se conta de si mesma. Nem as cores, nem os corpos, nem os átomos, nenhuma matéria, portanto; o ser da cor é branquear, verdecer, azular, mas não ser para si branco ou verde ou azul. O corpo é gravidade, peso - mas não é pesar-se a si mesmo. Tão-pouco a ideia platónica consiste em aperceber-se de si mesma: a ideia do bom ou do igual não sabe o que é bondade ou igualdade. Tão-pouco a forma aristotélica consiste nesse saber-se e tão pouco o Deus de Aristóteles - apesar da sua definição, como espero veremos -, nem tão-pouco o logos de Filón e Plotino e S. João Evangelista, nem tão-pouco a alma de S. Tomás de Aquino. Trata-se, na verdade, da noção mais peculiar à modernidade.



S. João Evangelista, o "discípulo amado".


Se se me entende cum grano salis direi que o modo de ser de todas essas coisas longe de consistir em ser para si ou saber-se a si mesmas, consiste antes em todo o contrário: em ser para outro. O vermelho é vermelho para alguém que o vê, e a bondade platónica, a bondade perfeita é tal para quem seja capaz de pensá-la. Por isso o próprio mundo antigo acabou, nos neoplatónicos de Alexandria, por buscar aos objectos ideais de Platão alguém para que fossem ou tivessem ser, e pô-los com hesitação, confusamente, como conteúdos da mente divina. O mundo antigo na sua totalidade só conhece um modo de ser que consiste em exteriorizar-se, portanto em abrir-se ou ostentar-se, em ser para fora. Daqui que ao achado do ser, isto é, à verdade, chamassem "descobrimento" - aletheia, manifestação, desnudamento. Mas o pensamento cartesiano consiste, opostamente, em ser para si, em dar-se conta de si mesmo, em meter-se em si mesmo. Frente ao ser para fora, ostentatório, exterior, que conheciam os antigos, ergue-se este modo de ser constituído essencialmente em ser interior a si, em ser pura intimidade, reflexividade. Para uma realidade tão estranha foi preciso achar um nome novo: o vocábulo "alma" não servia, porque a alma antiga não era menos exterioridade que o corpo, como era em Aristóteles, e foi ainda em S. Tomás de Aquino, princípio da vitalidade corporal. Por isso é grande problema para S. Tomás a definição dos anjos, que são almas sem corpo, quando a definição aristotélica de alma inclui a vitalidade corporal».

Ortega y Gasset («O que é a Filosofia»).


«(...) A metafísica é a ciência do ser enquanto ser (ens inquantum ens). O ser é o primeiro objecto captado pela inteligência desde o seu despertar (primum notum) e o conceito de ser é aquele que a inteligência forma antes de todos os outros, pois estes não podem representar senão modos de ser. Primeiro conhecido, o ser é evidentemente conhecido por si (per se notum), imediatamente, com uma evidência que exclui a dúvida e o erro.

Apesar da sua simplicidade, o conteúdo inteligível (ou a compreensão) do conceito de ser é misterioso. À primeira vista, a sua compreensão é minimal, pois se trata de uma nota comum a tudo o que existe (ens commune), abstraindo, portanto, de todas as diferenças entre os seres para não conservar, como conteúdo inteligível, senão o mínimo requerido para não ser nada. Mas, reflectindo, vê-se que as diferenças são também do ser e que, daí, se a compreensão explícita do conceito é minimal, a sua compreensão implícita é maximal, totalitária: o conceito de ser é a representação confusa, mas adequada, de tudo o que existe.

Por isso, o conceito de ser é transcendental, quer dizer, a sua extensão é ilimitada, abrange tudo quanto existe. Mas a sua significação não poderia ser unívoca (quer dizer, idêntica em relação aos objectos significados), visto que as diferenças entre os seres são também expressas por este conceito. A sua significação é proporcional ou analógica (a palavra latina analogia é uma transposição da mesma palavra grega, que significa "relação", "proporção"): cada ser é ser à sua maneira, segundo a medida da sua natureza, da sua essência própria.

S. Tomás de Aquino

De tudo isto resulta que o conceito de ser não é um conceito genérico, ao qual se pudessem juntar diferenças extrínsecas. As diferenças não fazem senão explicitar o conteúdo implícito do conceito e determinam-no a partir de dentro.

(...) A demonstração metafísica da existência do Criador consiste em estabelecer que os seres finitos são causados pelo Ser não finito ou infinito. Deste processo racional logo resulta que o nosso conhecimento da natureza própria do Criador é puramente negativo: ele é o Ser não finito. É por isso que a dedução dos seus atributos será principalmente a de atributos negativos. Exprimem-se por vezes por termos de forma positiva (simplicidade, eternidade, unidade), mas os conceitos significados por estas formas gramaticais são negativos.

Simplicidade. - O Ser infinito é não composto. Para o mostrar, o essencial é excluir do Ser infinito a composição fundamental que constitui o ser finito e que condiciona qualquer outra composição. Não sendo finito, o Criador não poderia ser composto de esse e de essentia; ele é o Esse subsistens. Voltamos de novo aqui à doutrina da participação. Para melhor exprimir o alcance deste atributo, podem logo a seguir pôr-se de lado todas as outras formas de composição que existem no criado: mostrar-se-á, pois, que Deus não é composto de partes quantitativas como os corpos, nem de matéria e de forma, nem de substância e de acidentes; que não se pode nele distinguir sujeito concreto e essência abstracta; enfim, que ele não é um género.

A transcendência divina pode ser concebida como um corolário da simplicidade: não somente Deus não é um composto em si mesmo, mas de modo nenhum entra em composição com as suas criaturas. Ele não é nem a alma do mundo, nem a alma do primeiro céu, nem o princípio formal de todas as coisas (como o imaginaram os seguidores de Almarico de Bène), nem a matéria prima universal (como o sustentou tão disparatadamente David de Dinant). Ele é perfeitamente distinto das suas criaturas como a causa é distinta dos seus efeitos. Em resumo, todas as formas do panteísmo têm de ser rejeitadas.

Perfeição. - "Perfeito" significa antes de mais "completamente feito" (per-fectum, totaliter factum). Este primeiro sentido não pode evidentemente convir ao Incausado. Mas "perfeito" pode designar também "o que plenamente é", por oposição ao que é "perfectível", em potência. Sendo o ser sem limite, o Ser infinito é imperfectível, acto puro que exclui qualquer potência. Trata-se bem, pois, de um atributo negativo: não perfectível, não em potência.


S. Francisco acolhe e abraça Jesus Cristo.


(...) Infinidade. - Chega-se a este atributo no termo da prova metafísica da existência de Deus, visto que esta prova conclui pela existência de um Ser não finito ou infinito. Trata-se aqui de precisar o sentido da infinidade divina. É preciso distinguir com cuidado o infinito ontológico do infinito quantitativo.

O infinito ontológico é a negação do ser finito. É o infinito formal (infinitum ex parte formae), isto é, a ausência de qualquer medida que limitasse uma perfeição, uma forma. É neste sentido que Deus é infinito: a perfeição do ser (esse) não é nele limitada por uma essência. O infinito ontológico é, pois, equivalente do perfeito.

O infinito quantitativo é a negação do finito na ordem da quantidade, quer contínua (o espaço, o tempo), quer descontínua (discreta) (o número). É o infinito material (infinitum ex parte materiae), pois este infinito não é senão a indeterminação que caracteriza a matéria prima, por si privada de qualquer forma ou determinação.

O infinito material é, pois, o imperfeito, o indeterminado. Também não pode existir senão em potência, já que toda a realidade quantitativa (espacial, temporal ou numérica) em acto ou existente é necessariamente determinada ou finita».

F. Van Steenberghen («O Tomismo»).


«(...) Aristotélico, Pedro Hispano entendia a lógica como algo que precede o mundo da psicologia, pois é a partir dela que deparamos com a estrutura dinâmica do pensamento humano. Ora, elaboradas as Súmulas Logicais, não só se entregou à nobre missão de comentar o De Anima de Aristóteles, como também realizou, no Scientia Libri de Anima, uma síntese da doutrina tradicional da alma em que predominam as influências de natureza arábica. Situado no problema escolástico, preconizou ainda que as substâncias criadas encontram a sua razão de ser nos princípios da matéria e da forma. Mas, numa concepção diferente daquela que fora realizada por S. Tomás, para quem a alma era, por definição, a forma do corpo, o nosso filósofo projectou uma teoria da psique que se distinguiu pela natural propensão da alma para amar e conhecer a Deus.

Inteligido pelo Portugalense como "acto puro e simples", Deus é, além do mais, imune a qualquer espécie de potencialidade, matéria ou composição. É também, pela mesma ordem de ideias, a Primeira Inteligência "que contém todas as coisas universalmente existentes". Ou ainda, para recorrermos às palavras do mestre lusitano, Deus é "princípio e fim de todas as coisas", o que, para todos os efeitos, equivale a dizer que a ideia de Deus é o centro de toda a especulação filosófica capaz de dar uma solução adequada ao problema do homem e do mundo.

Trata-se, portanto, de uma busca racional que não dispensa, nos termos da revelação cristã, duas vias para o conhecimento de Deus: a primeira por imediação (per immediationem), que consiste na disposição da alma, uma vez liberta do mundo e das coisas corpóreas, de se elevar a um estado de iluminação em que se prepara a união com a Inteligência Divina; a segunda por mediação (per posteriora), que consiste, por seu turno, no reconhecimento da presença divina nas coisas do mundo sensível. Estamos, assim, perante um processo que, no mais alto grau, conduz a uma experiência interior em que a alma, excedendo o plano intelectivo, se entrega por completo ao conhecimento diviníssimo de Deus.


Pseudo-Dionísio, o Areopagita (Bispo de Atenas, convertido por S. Paulo).


Não se trata, pois, de um conhecimento entendido como "apreensão imediata e directa de Deus, na sua realidade ontológica, ou uma visão de Deus em si, face a face", mas, sim, do "sentimento duma presença divina", por si mesma impossível de ser traduzida pela palavra escrita ou falada. Neste sentimento, correspondente à santificação, sobressai, em Pedro Hispano, a presença da corrente intimista colhida no neo-platonismo da época, mais particularmente na "teologia negativa" do Pseudo-Dionísio. Daí todo o sentido do que Pedro Hispano designou por teofilosia, isto é, o desejo consumado em que a alma se extasia no movimento amoroso que a impele para a Suma Bondade.

Além de que, com base neste conceito de teofilosia, crucial se torna a relação que João Ferreira estabeleceu entre o sentido da rectidão natural (sindérese) e o sentimento da saudade presente em Pedro Hispano sob a forma do termo latino Desiderium. E, já agora, registe-se também a forma como Pedro Hispano encarara, com toda a naturalidade, a existência de Deus, ao contrário de certos doutores escolásticos como, por exemplo, S. Tomás de Aquino. Ou seja: o tomismo, que é, sem dúvida, uma filosofia da Europa Central, problematizou o que antes não estava problematizado, se bem que o tenha feito seguindo a orientação de um racionalismo medieval de natureza essencialmente apologética».

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa»).


«... não se pode esquecer que a Revelação permanece envolvida no mistério. Jesus, com toda a sua vida, revela seguramente o rosto do Pai, porque Ele veio para manifestar os segredos de Deus; e contudo, o conhecimento, este que possuímos desse rosto está sempre marcado pelo carácter parcial e limitado da nossa compreensão. Só a fé permite entrar no mistério, proporcionando a compreensão coerente do mesmo.

(...) Na Eucaristia, Cristo está verdadeiramente presente e vivo, age pelo seu Espírito, mas, como justamente diz S. Tomás, "nada vês nem compreendes, mas afirma-to a fé mais viva, para além das leis da Terra. Sob espécies diferentes, que não passam de sinais, está o dom de Deus".

(...) o conhecimento da fé não anula o mistério; apenas o torna mais evidente e apresenta-o como um facto essencial para a vida do homem: Cristo Senhor, "na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime", que é participar no mistério da vida trinitária de Deus».

Carta Encíclica FIDES ET RATIO do Sumo Pontífice João Paulo II


«(...) O ateísmo é, filosoficamente, um caso de analfabetismo, sem que da comparação com o analfabeto resulte depreciação injusta das virtudes e das razões do ateu. Nenhum homem culto pedirá que lhe mostrem a a existência de Deus pelos processos das ciências de observação e de experimentação, nem solicitará que lhe demonstrem a essência de Deus por subtilezas da razão discursiva. O homem culto ou letrado conhece o que obsta a que se torne imediata e patente aos nossos olhos a divindade; o homem culto ou letrado não toma o ateísmo por conclusão necessária do agnosticismo.




Capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos


Aliás, entre os Portugueses, não há o costume de negar a essência ou realidade, nem a existência ou aparição, do verdadeiro Deus. Pelo contrário, o que perturba e torna perplexo o pensamento lusíada é que a existência de Deus seja compossível com a existência do mal. O mal na consciência humana, e o mal que os homens uns aos outros transmitem, por pensamentos, palavras e obras, - eis o que causa perturbação, perplexidade e escândalo de todos quantos afirmam a existência de Deus».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Um professor pergunta a um aluno se ele reza. Este diz que sim; então o primário manda-o ajoelhar e pedir-lhe pão. Depois da pobre criança pedir pão a Deus, o primário pergunta – Deus deu-te o pão?

Não, responde a criança. Então pede-o ao camarada comunista. O pequeno obedece… E este louco, este deus primário entrega-lhe um pouco de pão… demonstrando assim a não existência de Deus (!!)».

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).





MYSTERIUM INIQUITATIS: A COEXISTÊNCIA DO BEM E DO MAL

Depois da queda dos dois poderosos sistemas totalitários - o nazismo na Alemanha e o «socialismo real» na União Soviética - que pesaram sobre todo o século XX e foram responsáveis por crimes sem conta, parece ter chegado o momento para uma reflexão sobre a sua origem e os seus efeitos, particularmente sobre o significado das ideologias que os introduziram na história da humanidade. Qual é, Santo Padre, o sentido dessa grande «erupção» do mal?

O século XX foi, por assim dizer, o «teatro» onde entraram em cena determinados processos históricos e ideológicos que evoluíram até à grande «erupção» do mal, mas constituiu também o cenário em que se deu a superação dos mesmos. Ora, será justo olhar a Europa somente a partir da vertente do mal que surgiu na sua história recente? A história moderna da Europa, marcada - sobretudo no Ocidente - pelas influências do iluminismo, produziu também muitos frutos positivos. Nisto mesmo se reflecte a natureza do mal, tal como a entende São Tomás na linha de Santo Agostinho: o mal é sempre ausência de um bem qualquer que deveria estar presente em determinado ser; é uma privação, mas nunca uma total ausência de bem. O modo como o mal cresce e se desenvolve no terreno são do bem constitui um mistério; e mistério é também aquela parte de bem que o mal não conseguiu destruir e que se propaga apesar do mal, antes cresce no mesmo terreno. Imediata é a alusão à parábola do trigo bom e do joio (cf. Mt 13, 24-30). Quando os servos perguntam ao patrão: «Queres que vamos arrancar o joio?», ele responde de forma muito significativa: «Não! Não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. Deixai um e outro crescer juntamente até à ceifa; e, na altura, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro» (Mt 13, 29-30). No texto, a alusão à ceifa evoca a última fase da história, a fase escatológica.


Anunciação


Na realidade, a parábola pode ser tomada como chave de leitura para toda a história do homem. Com diverso sentido nas várias épocas, o «trigo» cresce juntamente com o «joio» e, vice-versa, o «joio» com o «trigo». A história da humanidade é o «palco» da coexistência do bem e do mal. Isto significa que, se o mal existe ao lado do bem, então o bem persevera ao lado do mal e cresce, por assim dizer, no mesmo terreno que é a natureza humana. De facto, esta, com o pecado original, não foi destruída, nem ficou totalmente corrompida, mas conservou uma certa capacidade de bem, como o demonstram as vicissitudes que tiveram lugar nas sucessivas épocas da história.


IDEOLOGIAS DO MAL

Então, qual foi a origem das ideologias do mal? Quais são as raízes do nazismo e do comunismo? Como se chegou à sua queda?

As questões postas possuem um significado filosófico e teológico profundo. É preciso reconstruir a «filosofia do mal» na sua dimensão europeia (e não só!); e uma tal reconstrução leva-nos para além das ideologias, impelindo-nos a adentrar-nos no mundo da fé para analisar o mistério de Deus e da criação, particularmente o mistério do homem. Tais são os mistérios que procurei expor, nos primeiros anos do meu ministério como Sucessor de Pedro, com as encíclicas Redemptor hominis, Dives in misericordia e Dominum et vivificantem - um tríptico que reflecte o mistério trinitário de Deus. Tudo o que está contido na encíclica Redemptor hominis tinha-o trazido comigo da Polónia; de igual modo posso dizer que as reflexões incluídas na Dives in misericordia são fruto da minha experiência pastoral na Polónia, de modo particular em Cracóvia. Na verdade, é nesta cidade que se encontra o túmulo de Santa Faustina Kowalska, à qual Cristo concedeu ser uma iluminada intérprete desta verdade da Divina Misericórdia; verdade esta que suscitou nela uma vida mística extraordinariamente rica. Não obstante ela fosse pessoa simples e sem instrução, quantos se debruçam sobre o Diário das suas revelações ficam maravilhados com a profundidade da experiência mística que lá encontram.

Falo disto, porque as revelações à Irmã Faustina sobre o mistério da Divina Misericórdia deram-se no período que antecede a II Guerra Mundial, o mesmo em que nasceram e se desenvolveram as ideologias do mal em questão: o nazismo e o comunismo. A Irmã Faustina torna-se uma pregoeira da única verdade capaz de contrabalançar o mal daquelas ideologias: a verdade de Cristo misericordioso, ou seja, que Deus é Misericórdia. Por isso, quando fui chamado à Sé de Pedro, senti urgente necessidade de transmitir as experiências que tinha do meu país natal, mas que pertencem ao tesouro da Igreja universal.


João Paulo II


Diversamente, a encíclica Dominum et vivificantem, sobre o Espírito Santo, teve a sua gestação em Roma; e, portanto, maturou um pouco mais tarde. Cresceu na meditação do Evangelho de São João sobre tudo o que Jesus dissera durante a Última Ceia: foi precisamente naquelas últimas horas da sua vida mortal que Ele nos deu a revelação talvez mais completa do Espírito Santo. Entre as palavras então pronunciadas por Jesus, encontra-se uma afirmação de grande significado para o nosso problema: o Espírito Santo «convencerá o mundo do pecado» (Jo 16, 8). Procurei aprofundar estas palavras e isso levou-me às primeiras páginas do livro do Génesis, mais concretamente ao acontecimento denominado «pecado original». Com extraordinária perspicácia, Santo Agostinho caracterizou a natureza deste pecado como sendo «amor sui usque ad contemptum Dei - amor de si mesmo até ao desprezo de Deus» (1); foi precisamente este amor sui que impeliu os nossos pais à primeira rebelião e, a seguir, provocou a progressiva extensão do pecado a toda a história do homem. A isto aludem as palavras do livro do Génesis: «Sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal» (Gn 3, 5), isto é, sereis vós mesmos a decidir o que é o bem e o que é o mal.

Ora precisamente esta dimensão originária do pecado não podia encontrar o correlativo contrapeso senão no «amor Dei usque ad contemptum sui - amor de Deus até ao desprezo de si mesmo». Entramos assim em contacto com o mistério da redenção do homem, cuja abordagem só é possível tendo o Espírito Santo por guia. Na verdade, é Ele que nos dá a capacidade de penetrar nas profundezas do mysterium Crucis e ao mesmo tempo de nos debruçarmos sobre o abismo do mal, cujo artífice e simultaneamente vítima resulta ser o homem, já ao princípio da sua história. A isto mesmo se refere a frase «convencer o mundo do pecado»; objectivo de tal «convencimento» não é a condenação do mundo: se, em virtude do Espírito Santo, a Igreja chama o mal pelo nome, fá-lo apenas para indicar que há possibilidades de o vencer, abrindo-se às várias dimensões deste amor Dei usque ad contemptum sui, que é fruto precisamente da misericórdia. Em Jesus Cristo, Deus inclina-Se sobre o homem e estende-lhe a mão para o levantar, ajudando-o a retomar o caminho com nova força; o homem, sozinho, não é capaz de voltar a pôr-se de pé, precisa da ajuda do Espírito Santo. Se rejeitasse esta ajuda do Espírito Santo, cometia um pecado de «blasfémia contra o Espírito Santo» - assim denominado por Cristo, que o declarou também sem remissão (cf. Mt 12, 31). Irremissível porquê? Porque exclui no homem o próprio desejo do perdão; o homem rejeita o amor e a misericórdia de Deus, porque ele próprio se considera Deus, pensa que é capaz de bastar-se a si mesmo.

Fiz uma breve alusão às três encíclicas, porque me parecem ser uma apropriada interpretação de todo o magistério do Concílio Vaticano II e também das complexas situações deste momento histórico que nos foi concedido viver.


No decurso dos anos, foi-se formando em mim a convicção de que as ideologias do mal estão profundamente arreigadas na história do pensamento filosófico europeu. Vale a pena referir aqui alguns factos relacionados com a história da Europa e, particularmente, da cultura nela predominante. Quando foi publicada a encíclica sobre o Espírito Santo, alguns ambientes no Ocidente reagiram negativamente, e de forma bastante enérgica. Donde provinha tal reacção? Das mesmas fontes, donde, mais de duzentos anos antes, tinha brotado o chamado iluminismo europeu - especialmente o iluminismo francês, mas sem excluir o inglês, o alemão, o espanhol e o italiano; no caso da Polónia, o iluminismo percorria uma estrada à parte. Quanto à Rússia, é diverso: parece que não experimentou o abalo iluminista; a crise da tradição cristã chegou lá por outro caminho, explodindo mais tarde, ao início do século XX, e com uma violência ainda maior na revolução marxista, radicalmente ateia.

Para ilustrar melhor este fenómeno, é preciso remontar ao período anterior ao iluminismo, sobretudo à revolução operada no pensamento filosófico por Descartes. Aquele seu «cogito, ergo sum - penso, logo existo» desencadeou uma reviravolta no modo de fazer filosofia: no período pré-cartesiano, a filosofia - e por conseguinte o cogito ou, melhor, o cognosco - estava subordinado ao esse, que era visto como primordial. Diversamente, aos olhos de Descartes o esse aparecia secundário, enquanto considerava primordial o cogito; deste modo realizava-se não só uma mudança de direcção no filosofar, mas decididamente abandonava-se o que tinha sido até então a filosofia e, mais concretamente, a filosofia de São Tomás de Aquino: a filosofia do esse. Antes, tudo era interpretado na perspectiva do esse e procurava-se uma explicação de tudo dentro desta óptica: Deus, Ser plenamente auto-suficiente (Ens subsistens), era considerado o suporte indispensável para todo o ens non subsistens, ens participatum, isto é, para todos os seres criados e, por conseguinte, também para o homem. O cogito, ergo sum implicava uma ruptura com esta linha de pensamento: agora tornava-se primordial o ens cogitans; depois de Descartes, a filosofia torna-se uma ciência puramente de pensamento: tudo o que for esse - tanto o mundo criado como o Criador - permanece no campo do cogito como conteúdo do conhecimento humano. A filosofia ocupa-se dos seres enquanto conteúdos do conhecimento, e não como existentes fora dele.


Chegados aqui, convém deter-nos um pouco sobre as tradições da filosofia polaca, particularmente sobre o que aconteceu com a subida ao poder do partido comunista. Nas universidades, é duramente dificultada toda a forma de pensamento filosófico que não corresponda ao modelo marxista, valendo-se do sistema mais simples e radical: actuando contra as pessoas que representavam aquele modo de fazer filosofia. Muito significativo é o facto de que os primeiros a serem removidos das respectivas cátedras tenham sido os representantes da filosofia realista, incluindo expoentes da fenomenologia realista como Roman Ingarden e, da escola de Lviv-Varsóvia, Izydora Dambska. Menos fácil se apresentava a remoção dos expoentes do tomismo, uma vez que se encontravam na Universidade Católica de Lublin, nas Faculdades de Teologia de Varsóvia e Cracóvia e nos Seminários Maiores; mas, num segundo tempo, também eles foram atingidos sem piedade pela mão do regime. Eram olhados com suspeita também aqueles pensadores de vulto que mantinham uma atitude crítica face ao materialismo dialéctico. Entre eles recordo em particular Tadeusz Kotarbinski, Maria Ossowska, Tadeusz Czeowski. Do ordo universitário, não podiam obviamente ser retirados cursos como os de lógica e de metodologia das ciências; mas podiam ser obstaculizados de vários modos os professores «dissidentes», limitando com qualquer meio a sua influência sobre a formação dos estudantes.

O que aconteceu na Polónia, depois da chegada dos marxistas ao poder, produziu frutos semelhantes aos que resultaram dos processos anteriormente verificados na Europa Ocidental na sequência do período iluminista. Falou-se, entre outras coisas, de «ocaso do realismo tomista», entendendo com isso também o abandono do cristianismo como fonte do filosofar; no fim de contas, era posta em questão a própria possibilidade de alcançar Deus. Na lógica do cogito, ergo sum, Deus ficava reduzido a um conteúdo do conhecimento humano; deixava de se poder considerar como Aquele que explica cabalmente o sum humano. Não podia, por conseguinte, continuar a ser visto como o Ens subsistens, o «Ser auto-suficiente», como o Criador, Aquele que dá a existência, nem sequer como Aquele que Se dá a Si mesmo no mistério da Encarnação, da Redenção e da Graça. O Deus da Revelação tinha deixado de existir enquanto «Deus dos filósofos»; ficou apenas a ideia de Deus, como tema de livre elaboração do pensamento humano.

Deste modo desabaram também as bases da «filosofia do mal». De facto, o mal, para o realismo, só pode existir com referência ao bem e, de modo particular, a Deus, Sumo Bem. É precisamente desse mal que fala o livro do Génesis e, nesta perspectiva, podem-se compreender o pecado original e também cada pecado pessoal do homem. Mas, esse mal foi redimido por meio da cruz de Cristo; mais exactamente, foi redimido o homem que, por obra de Cristo, se tornou participante da vida de Deus. Tudo isto, o grande drama da história da Salvação, tinha desaparecido na mentalidade iluminista. O homem ficou só; só como criador da sua própria história e civilização; só como aquele que decide o que é bom e o que é mau, como aquele que existiria e agiria etsi Deus non daretur - ainda que Deus não existisse.


Ora, se o homem pode decidir sozinho, sem Deus, o que é bom e o que é mau, pode também dispor que um grupo de pessoas deva ser aniquilado; decisões deste género foram tomadas, por exemplo, no III Reich por pessoas que, tendo chegado ao poder por meios democráticos, se serviram do mesmo para actuarem os perversos programas da ideologia nacional-socialista que se inspirava em pressupostos racistas. Análogas decisões foram tomadas pelo partido comunista na União Soviética e nos países sujeitos à ideologia marxista. Neste contexto, se perpetrou o extermínio dos Hebreus e de outros grupos como as etnias ciganas, os agricultores na Ucrânia, o clero ortodoxo e católico na Rússia, na Bielorrússia e para além dos Urales; de forma semelhante foram perseguidas todas as pessoas incómodas ao regime: por exemplo, os ex-combatentes de Setembro de 1939, os soldados do Exército Nacional da Polónia depois da II Guerra Mundial, os expoentes da intelligentsia que não aceitavam a ideologia marxista ou nazista. Normalmente tratava-se de eliminações em sentido moral: a pessoa ficava impedida mais ou menos drasticamente de exercer os seus direitos.

Aqui não se pode deixar de tocar uma questão que é hoje muito actual e dolorosa. Depois da queda dos regimes construídos sobre as ideologias do mal nestes países cessaram efectivamente as formas de extermínio há pouco mencionadas. Resta ainda o extermínio legal de seres humanos concebidos e ainda não nascidos; trata-se de mais um caso de extermínio decidido por parlamentos eleitos democraticamente, apelando eles ao progresso civil das sociedades e da humanidade inteira. E não faltam outras formas graves de violação da lei de Deus; penso, por exemplo, nas fortes pressões do Parlamento Europeu para que sejam reconhecidas as uniões homossexuais como uma forma alternativa de família, à qual competiria também o direito de adopção. É lícito e mesmo forçoso interrogar-se se aqui não actue ainda uma nova ideologia do mal talvez mais astuciosa e encoberta, que tenta servir-se, contra o homem e contra a família, até dos direitos humanos?







O Parlamento Europeu


Torre de Babel







Porque é que acontece tudo isto? Qual é a raiz de tais ideologias pós-iluministas? A resposta, em última análise, é simples: isto acontece, porque se rejeitou Deus como Criador e, consequentemente, como fonte para a determinação do que é o bem e do que é o mal. Foi rejeitada a noção daquilo que mais profundamente nos constitui seres humanos, ou seja, a noção de natureza humana como um «dado real»; e, em seu lugar, foi colocado um «produto do pensamento» livremente formado e livremente passível de mudança segundo as circunstâncias. Considero que uma reflexão mais atenta sobre tal questão levar-nos-á a superar este interregno cartesiano; se se quiser falar sensatamente do bem e do mal, temos de voltar a São Tomás de Aquino, isto é, à filosofia do ser. Com o método fenomenológico, por exemplo, podem-se examinar experiências como as da moralidade, da religião ou mesmo do ser humano, daí recebendo um significativo enriquecimento do nosso conhecimento, mas não se esqueça que todas estas análises pressupõem a realidade do Ser Absoluto. Se não se parte de tais pressupostos «realistas», acaba-se por girar no vazio.


O LIMITE IMPOSTO AO MAL NA HISTÓRIA DA EUROPA

O homem fica às vezes com a impressão de que o mal seja omnipotente e domine de modo absoluto o mundo. Santidade, parece-lhe que existe, para o mal, um limite intransponível?

Pude experimentar pessoalmente as «ideologias do mal»; é algo que permanece, indelével, na minha memória. Primeiro, foi o nazismo. O que conseguia ver naqueles anos, já era terrível - falo assim, porque, então, passaram efectivamente despercebidos muitos aspectos do nazismo. A real dimensão do mal que grassava pela Europa não foi percebida por todos, nem sequer por nós que estávamos mesmo no centro daquela voragem: vivíamos submersos numa grande erupção de mal; só gradualmente começámos a dar-nos conta da real entidade do mesmo. É que os responsáveis faziam muitos esforços para esconder seus crimes aos olhos do mundo: tanto os nazistas, durante a guerra, como mais tarde, no Leste da Europa, os comunistas procuravam esconder à opinião pública aquilo que faziam. Durante muito tempo, o Ocidente não quis crer no extermínio dos Hebreus; só depois é que isso veio à luz plenamente; mesmo na Polónia, não se sabia tudo o que os nazistas tinham feito e estavam a fazer aos Polacos, nem o que tinham feito os Soviéticos aos oficiais polacos em Katyn; e a lúgubre realidade das deportações só parcialmente era conhecida.











Mais tarde, já com a guerra terminada, pensava para comigo: o Senhor Deus concedeu ao nazismo doze anos de existência, passados os quais se desmoronou aquele sistema; vê-se que tal era o limite imposto pela Providência Divina a semelhante loucura - realmente não se tratou apenas de loucura, mas de «bestialidade», como escreveu Konstanty Michalski (2). A verdade é que a Providência Divina só concedeu doze anos para aquele furor bestial se desencadear. Se o comunismo sobreviveu mais tempo e, à sua frente, se abrem ainda - pensava eu, nessa altura - perspectivas de ulterior desenvolvimento, deve haver um sentido em tudo isto.

Em 1945, no fim da guerra, o comunismo aparecia muito seguro de si e muito perigoso - decididamente mais do que em 1920; tinha-se a nítida impressão de que os comunistas conquistariam a Polónia e iriam mais além, assenhoreando-se da Europa Ocidental e lançando-se à conquista do mundo. Na realidade, não se chegou a tanto; o «milagre no Vístula», isto é, o triunfo de Pilsudski na batalha contra o Exército Vermelho redimensionou as pretensões soviéticas. De facto, depois da vitória sobre o nazismo na II Guerra Mundial, os comunistas sentiram-se fortes e preparavam-se insolentemente para se apoderar do mundo, ou pelo menos da Europa: primeiramente, chegou-se à subdivisão deste continente em esferas de influência, nos termos do acordo alcançado na Conferência de Ialta em Fevereiro de 1945; este acordo só aparentemente foi respeitado pelos comunistas, que o violaram realmente de diversos modos, sendo o primeiro deles a invasão ideológica e a propaganda política não só na Europa mas também nas outras partes do mundo. Logo, nessa altura, me pareceu claramente que o seu domínio havia de durar muito mais tempo do que o nazismo. Mas quanto tempo? Isso era difícil de prever: Pensava, isso sim, que aquele mal deveria de algum modo ser necessário ao mundo e ao homem; de facto sucede, em certas situações concretas da existência humana, que o mal se revele em certa medida útil, enquanto cria ocasiões para o bem. Porventura Johann Wolgang von Goethe não designou o diabo como «ein Teil von jener Kraft, / die stets das Böse will, und stets das Gute schafft - uma parte daquela força, / que quer sempre o mal e faz sempre o bem? (3) E São Paulo, por sua vez, adverte: «Não te deixes vencer pelo mal; vence antes o mal com o bem» (Rm 12, 21). Enfim, deste modo chega-se, sob o estímulo do mal, a dar vida a um bem maior.






Se me demorei a evidenciar o limite imposto ao mal na história da Europa, foi para poder concluir que tal limite é constituído pelo bem: o bem divino e o bem humano que se manifestaram na própria história, no decurso do século passado e de milénios inteiros. Seja como for, não é fácil esquecer o mal que directamente se experimentou; pode-se apenas perdoá-lo. E o que significa perdoar, se não fazer apelo ao bem, que é maior do que qualquer mal? Tal bem, em última análise, só em Deus tem o seu fundamento; mais, somente Deus é este Bem. Este limite posto ao mal pelo Bem divino começou a fazer parte da história do homem. Disse isto mesmo, durante a minha primeira visita à Polónia, em Varsóvia na Praça Vitória; afirmei então que não era possível separar Cristo da história da minha nação. Mas poder-se-á separá-Lo da história de qualquer outra nação? Ou separá-Lo da história da Europa? Realmente só n'Ele é que todas as nações e a humanidade inteira podem «atravessar o limiar da esperança!» (in Memória e Identidade, Bertrand Editora, 2005, pp. 13-25).


Notas:

(1) SANTO AGOSTINHO, De civitate Dei, XIV, 28.

(2) Cf. sua obra Miedzy heroizmen a bestialstwem (Entre o heroísmo e a bestialidade), Czestochowa 1984.

(3) JOHANN WOLFGANG VON GOETHE, Faust, I parte, 3.ª cena, ed. Studio.


Karol Wojtyla com os pais Emilia e Karol


Continua


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