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sábado, 14 de abril de 2012

Humanum Genus (iii)

Escrito por Leão XIII





«A tolerância é, como diz Giantulli, "uma táctica habilidosa, frequentemente bem sucedida, para iludir a realidade aos superficiais. É verdade que a maçonaria mostra a máxima condescendência com as mais variadas doutrinas filosóficas e com as formas de pensamento mais estranhas. Mas o que não tolera de maneira nenhuma é que o maçon "possa mostrar-se débil" perante a Verdade revelada. Deste modo, sob o pretexto de ensinar a liberdade e a ausência de preconceitos, edifica uma cilada permanente contra a fé dos inscritos, particularmente a católica"».

José Antonio Ullate Fabo («O Segredo da Maçonaria Desvendado»).


«Um cristão católico não pode viver a sua relação com Deus segundo uma dupla modalidade, nem manter dois tipos de relação simbólicas com Deus. Um cristão católico não pode, simultaneamente, participar plenamente na comunhão fraterna cristã e ver o seu irmão, a partir da perspectiva maçónica, como um profano».


Dominique Rey («Pode um Cristão ser Maçon?»).


«[As organizações-fachada da maçonaria] são organizações sem uma relação visível com a maçonaria, mas totalmente dependentes do seu pensamento e das suas directrizes. Os seus directores ou são mações, geralmente desconhecidos como tal, ou não-mações de comprovada docilidade em relação às inclinações e aos projectos da maçonaria. A táctica e o segredo maçónicos impedem, ou pelo menos dificultam em grande medida, que se conheça com certeza quais são estas organizações, sobretudo enquanto se mantêm em funcionamento e com uma viva influência.

(…) Chamam-se [lojas encobertas] as lojas cuja existência só é conhecida pelos mações que a elas pertencem e pelos dos graus superiores (30-33). Os seus membros costumam ser personalidades dos âmbitos político, literário, militar, judicial, empresarial e dos meios de comunicação social que dessa forma introduzem mais fácil e eficazmente a concepção maçónica no seu meio sociocultural. As lojas encobertas são como que a espinha dorsal da maçonaria, pela sua influência, tão eficaz quanto invisível, nos organismos sociopolíticos, culturais e ético-morais; os seus membros mais representativos e influentes estão ocultos e dispostos a avançar em obediência a uma ordem. A descoberta de um esconderijo de droga numa loja da Calábria, em Itália, permitiu "descobrir 26 lojas maçónicas. Destas, só quatro eram conhecidas; as restantes eram lojas encobertas" (Civiltà Cattolica, 2 de Abril de 1994, pp. 75-76).

(…) As obediências maçónicas costumam ter lojas encobertas. Em Espanha, a loja Europa (Barcelona), integrada na Grande Loja, ou maçonaria regular, é constituída sobretudo por políticos, sobretudo do PSOE. Os mações camuflados da CiU pertencem principalmente à loja encoberta da Grande Loja Simbólica, ou maçonaria irregular. No ano de 2002, um mação pertencente a um dos graus mais elevados perguntou-me: "Por que razão fala no seu Diccionario de lojas encobertas tanto do PSOE (Partido Socialista Obrero Español, sobretudo na sua dependência catalã, o PSC) como da CiU, mas nada diz do PP (Partido Popular)?" Indique-me nomes, e a sua loja constará da próxima edição. Agora já sei que a loja P3 é constituída por políticos do PP, ao que parece de forma exclusiva. Pertenciam à P3 alguns dos dirigentes da Junta Gallega quando Manuel Fraga Iribarne era seu presidente, mas ele não é mação, porque recusou o convite. A P3 tem ressonâncias da P2 (Propaganda Due), pelo menos quanto ao nome, mas, segundo parece, também por admitir um grande número de membros, muitíssimo maior do que o da P2. Ultimamente, aumentou significativamente o número de membros da P3.











De la Cierva fala da loja P2, de Licio Gelli, da loja encoberta do Grande Oriente (maçonaria irregular) e até apresenta uma lista (com nome, profissão, etc.) de 922 membros (pp. 213-238). Entre eles figura Silvio Berlusconi (antigo chefe do Governo italiano), Giacomo Agnesi, Aldo Alasia (director da Olivetti), Roberto Calvi (presidente do Banco Ambrosiano), o banqueiro Michele Sindona, Federico Barttfeld (embaixador argentino de Bucareste), Luis Alberto Betti e Oswaldo Brana (embaixadores argentinos), Franco di Bella (director de Il Corriere della Sera), Lodovico Bevilacqua e Giovanni Fabbri (editores), Artemo Franchi (presidente da Federação Italiana de Futebol), Pasquale Longo (presidente do Rotary), José López Rega (ministro do Governo argentino), Giampiero Orsello (vice-presidente da RAI-TV), Vittorio Emmanuele di Saboia (pretendente ao trono como Vittorio Emmanuele IV), entre outros. Quando a P2 foi descoberta pela polícia italiana, entre os filiados figuravam três membros do Governo italiano, 43 do parlamento, 54 altos funcionários, 183 altos oficiais do Exército, da Marinha e da Força Aérea, 19 juízes, 58 professores universitários e vários proprietários de jornais. Mas não dedica um apartado às lojas encobertas – um vazio muito difícil, para não dizer impossível, de preencher, dada a sua natureza».

Manuel Guerra («A Trama Maçónica»).






ERROS E PERIGOS

24. Por conseguinte, aquilo que a seita dos Maçons é, e qual o fim que se propõe atingir, está exposto de maneira bastante clara no breve resumo que Nós acabamos de traçar. Os seus dogmas principais estão tão manifesta e grandemente dissociados da razão que não pode haver perversão maior. Querer destruir a religião e a Igreja que o Próprio Deus criou, e cuja perpetuidade Ele assegura pela Sua própria protecção, e trazer de volta, depois dum lapso de dezoito séculos, os usos e costumes dos pagãos, é um erro gritante e duma impiedade audaciosa. Não é menos horrível nem mais aceitável que eles queiram rejeitar benefícios que Jesus Cristo tão piedosamente alcançou, não só para as pessoas, como também para a família e para a sociedade civil, benefícios esses que, até no juízo e testemunho dos inimigos da Cristandade, são enormes. Neste esforço insano e maléfico, Nós podemos vislumbrar o ódio implacável e o espírito de vingança com que o próprio Satanás está inflamado contra Jesus Cristo. O mesmo se pode dizer do esforço persistente dos Maçons para destruir as traves mestras da justiça e da probidade, e para colaborar com aqueles que gostariam, como se fossem simples animais, de fazer tudo o que lhes dá prazer, o que conduz inevitavelmente à ruína ignominiosa e à desgraça da raça humana.

O mal também é agravado pelos perigos que ameaçam a sociedade, tanto a civil como a doméstica. Tal como Nós mostrámos noutro passo (14), o casamento, no sentir de quase todos os povos, tem algo de sagrado e religioso; e a lei de Deus determina que os casamentos não devem ser dissolvidos. Se eles forem privados do seu carácter sagrado, e se tornarem passíveis de dissolução, o resultado será que a perturbação e a confusão se instalam na família, a mulher será privada da sua dignidade e as crianças ficarão sem protecção, tanto nos seus interesses como no seu bem-estar. Descurar a religião nos assuntos oficiais, e na organização e administração pública, ignorar Deus como se Ele não existisse, é uma precipitação desconhecida até dos pagãos; porque, no seu coração e na sua alma, a noção de divindade e a necessidade de uma religião oficial estavam tão profundamente enraizadas que eles achariam que era mais fácil existir uma cidade sem terra do que uma cidade sem Deus. A sociedade humana, da qual, por natureza somos parte integrante, foi constituída por Deus, o Autor da natureza; e d’Ele, princípio e fonte, emanam com vigor perene os benefícios incontáveis em que a sociedade abunda. Como a própria voz da natureza nos ensina que devemos prestar culto a Deus pela piedade e pela santidade, como origem da vida e de todo o seu bem, é também por essa razão que os povos e os Estados se unem para louvá-lo; e portanto, aqueles que pretendem isentar a sociedade de qualquer obrigação religiosa, agem, não só injustamente, mas também com insensatez e ignorância.

25. Como os homens, pela vontade de Deus, nasceram para se unirem através da sociedade civil, e como a autoridade para governar é um vínculo tão necessário para unir a sociedade que, quando desaparece, a sociedade desmorona-se, resulta que é d’Ele, que é o Autor da sociedade, que é recebida a autoridade para governar; portanto, qualquer que seja o governante, é um ministro de Deus. Assim, decorre do fim e da natureza da sociedade humana, que é lícito obedecer às ordens justas da autoridade legítima, tal como é lícito obedecer a Deus senhor de todas as coisas; e é um grande equívoco pretender que os povos podem eximir-se ao seu dever de obediência quando assim o entenderem.


26. Do mesmo modo, ninguém duvida que os homens são todos iguais entre si, tanto no que diz respeito à sua origem e natureza comum, como no que se refere ao fim último que cada um deve atingir ou aos direitos e obrigações que daí derivam. Mas as aptidões não são iguais em todos, tal como as pessoas diferem umas das outras nas capacidades da mente ou do corpo, e como existem muitas diferenças de feitio, de personalidade e de carácter, repugna à razão a tentativa de medir todos pela mesma bitola, e de estender uma igualdade cega às instituições da vida civil. Tal como a perfeita condição do corpo depende da conjunção e da composição dos seus diferentes membros, os quais, embora difiram na forma e na função, formam, pela sua união e pela colocação nos lugares adequados, uma composição bonita de contemplar, firme na resistência, e indispensável ao uso; também, numa nação, existe uma enorme infinidade de homens diferentes que formam parte do todo. Se eles devessem ser todos iguais, e cada um procedesse à sua vontade, iria surgir um Estado muito deformado; mas se, com a diferença dos graus de dignidade, de vocação e de empregos, todos concorrerem adequadamente para o bem comum, eles darão a imagem de um Estado bem constituído no respeito pela natureza.

27. Hoje, devemos temer os maiores perigos dos erros preocupantes que Nós descrevemos. Porque, afastado o respeito por Deus e pelas leis divinas, desprezada a autoridade dos governantes, a sedição permitida e encorajada, e os ânimos populares exaltados até à ilegalidade, tendo por única restrição o castigo, seguir-se-ão uma mudança e um volta-face de todas as coisas. Claro, esta mudança e este volta-face foram planeados deliberadamente e postos em marcha por muitas associações de comunistas e socialistas; e a seita dos Maçons não é hostil aos seus pressupostos, até favorece os seus desígnios, e comunga dos mesmos princípios básicos. E se estes homens não exteriorizam duma vez por todas e universalmente as suas posições exageradas, não é por sensatez ou por falta de vontade, mas porque a religião divina não pode ser destruída, mas também porque uma parte significativa dos homens, ao recusar-se a ser escravizado pelas sociedade secretas, resiste vigorosamente às suas investidas tresloucadas.

28. Oxalá todos pudessem avaliar a árvore que produziu tais frutos, tivessem consciência da semente donde nasceram os males que nos oprimem, e dos perigos que nos ameaçam! Nós temos que lidar com um inimigo manhoso e astuto, que, bajulando os ouvidos dos povos e dos príncipes, os cativou com discursos meigos e com elogios. Insinuando-se junto dos governantes com uma pretensa amizade, os Maçons esforçam-se para os tornar seus aliados, e colaboradores na destruição do Cristianismo; e para os conduzir mais facilmente a isso, forjaram uma calúnia, acusando falsamente a Igreja de competir com os governantes em assuntos relacionados com a autoridade e poder soberano destes. Tendo, com estes artifícios, assegurado a sua própria segurança e impunidade, começaram a ter um peso significativo no governo dos Estados: não obstante, estão preparados para abalar os alicerces dos impérios, perturbando os governantes do Estado, e até acusá-los ou derrubá-los se considerarem que governam duma forma contrária aos seus anseios. Desta maneira, conseguiram enganar o povo por meio da bajulação. Proclamando em voz alta, liberdade e prosperidade, conquistaram as massas, e entusiasmando-as com uma sede de novidade, incitaram-nas a combater contra a Igreja e o poder civil. No entanto, os benefícios esperados ficaram muito aquém das promessas; de facto, as pessoas humildes, mais oprimidas do que outrora, não beneficiam na sua miséria da consolação que, numa sociedade Cristã, teriam tido com facilidade e abundância. Mas, aqueles que atentam contra a ordem que a Divina Providência instituiu, pagam habitualmente o preço do seu orgulho, e encontram aflição e miséria, onde, imprudentemente, julgavam encontrar a prosperidade dos seus desígnios.


29. A Igreja, quando manda prestar obediência, primeiro e acima de tudo a Deus, soberano de todas as coisas, é acusada errada e falsamente de invejar ou de arrogar-se para si o que pertence aos direitos dos soberanos. Ao invés, ela ensina que procede bem, quem, com convicção e consciência do dever, dá ao poder civil aquilo que lhe é devido. Ao ensinar que imana do Próprio Deus o direito de governar, engrandece a dignidade do poder civil, e contribui para captar a obediência e a boa vontade dos súbditos. Amiga da paz e defensora da concórdia, a Igreja abraça todos no seu amor maternal, e empenhada somente em ajudar os homens, ensina que não há justiça sem clemência, autoridade sem equidade, lei sem moderação; que ninguém deve sofrer uma violação dos seus direitos; que a tranquilidade e a ordem pública devem ser defendidas e que as carências dos mais pobres devem, na medida do possível, ser amparadas pela caridade, pública e privada. “Mas, por esta razão”, para usar as palavras de Santo Agostinho, “os homens pensam, ou querem que se pense, que a doutrina Cristã não convém ao bem dos Estados; porque eles não querem que o Estado se funde na solidez da virtude, mas na impunidade do vício” (15). Sabendo isto, os príncipes e os povos agiriam com sabedoria política (16), e de acordo com as necessidades do bem comum, se em lugar de se juntarem aos Maçons para destruir a Igreja, se juntassem à Igreja para repelir os seus ataques.

30. Qualquer que venha a ser o futuro, perante um tal mal tão grave e tão disseminado, é Nosso dever, veneráveis irmãos, fazer um esforço para encontrar um remédio. E porque Nós sabemos que a Nossa melhor e mais segura esperança de remédio reside no poder dessa religião divina que os Maçons odeiam na exacta medida em que a temem, Nós pensamos que é duma importância primordial chamar esse poder salvador em Nossa ajuda contra o inimigo comum. Portanto, o que quer que os Romanos Pontífices Nossos antecessores tenham decretado com o propósito de fazer frente aos pressupostos e aos esforços da seita maçónica, e o que quer que seja que eles tenham estipulado para impedir a entrada ou afastar os homens de sociedades dessa natureza, Nós ratificamos e confirmamos tudo isso com a Nossa autoridade apostólica: e confiando grandemente na boa vontade dos Cristãos, Nós rogamos e suplicamos a cada um em particular que, a bem da sua salvação eterna, proceda com escrupulosa consciência, não se afastando nem por um momento do que, sobre essa matéria, foi ordenado pela Sé Apostólica.

31. A vós rogamos e suplicamos, veneráveis irmãos, que unais os vossos esforços aos Nossos, e que procureis afincadamente extirpar esta praga asquerosa que trepa pelas veias da sociedade. Tendes que defender a glória de Deus e lutar pela salvação do vosso próximo, e com este desígnio pela frente, não vos faltarão as forças nem a coragem. Manda a prudência que avalieis quais são os melhores meios para transpor os obstáculos e as dificuldades que ides encontrar. Mas, sendo da autoridade do Nosso ministério, que Nós Próprios indiquemos qual a maneira mais recomendável de proceder, Nós queremos que a vossa primeira regra seja arrancar a máscara à Maçonaria, para que se possa ver como ela é realmente; e ensinar às pessoas, por meio de sermões e de pastorais, quais os artifícios usados pelas sociedades dessa natureza para seduzir e atrair as pessoas às suas fileiras, bem como às suas ideias depravadas e às suas acções maldosas. Como os Nossos predecessores repetiram muitas vezes, não deixeis que um homem que preza o facto de ser Católico e aspira à salvação eterna, tal como é seu dever, adira à seita maçónica. Que ninguém se deixe enganar por aquela honestidade fingida. Pode parecer que os Maçons não exigem nada que seja abertamente contrário à religião e à moral; mas, como a doutrina genérica e o objecto da seita repousam sobre o que é vicioso e criminoso, unir-se a esses homens, ou ajudá-los por qualquer maneira, não é lícito.


Capela Sistina














32. Acresce que, por meio de contínua predicação e exortação, a população deve ser induzida a aprender cuidadosamente os preceitos religiosos; e com esse fim, recomendamos vivamente que os elementos que constituem as verdades sagradas da filosofia Cristã sejam oportunamente ensinados por meio de escritos e de sermões. Com isto, os espíritos serão fortalecidos pela instrução, e ficarão protegidos contra as muitas formas de erro e as solicitações para a maldade, sobretudo na situação actual em que impera uma liberdade desmesurada de escrita e uma voracidade insaciável de aprender.

33. O trabalho é deveras grande, mas o clero partilhará os vossos esforços, se com a vossa ajuda, for induzido a isso por meio do saber e duma vida regrada. Esta obra boa e útil também requer a colaboração e o esforço daqueles que, dentre os leigos, juntam o amor pela religião e pelo seu país ao saber e a uma vida exemplar. Unidos os esforços de ambos, clero e leigos, esforçai-vos, veneráveis irmãos, por fazer com que as pessoas conheçam profundamente e amem a Igreja, pois, quanto maior for o conhecimento e o amor pela Igreja, mais se afastarão das sociedades clandestinas.


ORGANIZAÇÕES PRÁTICAS

34. Portanto, não é a desproporção que Nós usamos nesta ocasião para afirmar aquilo que Nós afirmámos noutra ocasião, a saber, que a Ordem Terceira de São Francisco, cuja regra há pouco prudentemente mitigámos (16), deve ser persistentemente apoiada e promovida, pois o fim genérico desta Ordem, tal como foi instituído pelo seu fundador, é convidar os homens à imitação de Jesus Cristo, ao amor pela Igreja e à observância de todas as virtudes Cristãs; e por conseguinte, devemos convir que contribuirá grandemente para impedir o contágio das sociedades perversas. Permitamos, portanto, que esta santa confraria se torne mais forte, contribuindo para que todos os dias cresça. Entre os muitos benefícios que se esperam disso, está o de atrair os espíritos para a liberdade, a fraternidade e a igualdade de direitos; não como os Maçons imaginam absurdamente, mas como Jesus Cristo logrou para a raça humana e São Francisco aspirou fazer: a liberdade, Nós queremos dizer, de filhos de Deus, através da qual nos libertamos dos laços da escravatura a Satanás ou às nossas paixões, ambos mestres temíveis da perfídia; a fraternidade, que tem origem em Deus, o Criador e Pai comum de todos; a igualdade, que, fundada na justiça e na caridade, não faz desaparecer todas as diferenças entre os homens, mas que, com os diferentes estilos de vida, de cargo e de objectivos, criou a união e a harmonia que concorrem para melhorar e dignificar a sociedade.

35. Em terceiro lugar, existe uma instituição sabiamente criada pelos nossos antepassados, mas marginalizada com o correr dos tempos, que agora pode ser tomada como modelo e exemplo. Nós referimo-nos às corporações dos mesteres que protegiam, sob os auspícios da religião, tanto os interesses temporais como a conduta moral dos seus membros. Se os nossos maiores, por mercê duma experiência secular, sentiram os benefícios dessas corporações, a nossa era talvez os sinta ainda mais, atendendo à oportunidade que representam de esmagar o poder das seitas. Aqueles que obtêm o sustento pelo trabalho das suas mãos, além de serem, por natureza, mais merecedores de caridade e de consolo, também estão especialmente expostos aos caprichos de homens cuja conduta se pauta pelo embuste e pela artimanha. Por conseguinte, eles devem ser ajudados com toda a simpatia possível, e devem ser convidados a aderir a associações que são boas, a fim de evitar que adiram a associações que são más. Por esta razão, Nós desejamos ardentemente, para a salvação dos povos, que, sob os auspícios e o patrocínio dos bispos, e nas ocasiões mais oportunas, essas corporações sejam amplamente reconstituídas. Para Nossa grande satisfação, irmandades deste género e também associações profissionais, já foram reconstituídas em muitos lugares. Cada uma na sua categoria, tem por objecto ajudar os trabalhadores honrados, proteger os seus filhos e as suas famílias e promover neles a piedade, a doutrina Cristã e a moral familiar. E a este respeito, não podemos deixar de mencionar essa associação exemplar, que tomou o nome do seu fundador, São Vicente, que tanto tem ajudado as classes mais pobres. As suas actividades e os seus desígnios são bem conhecidos. A sua vocação genérica é dar alívio aos pobres e aos miseráveis. O que faz com uma discrição e uma humildade, singulares; e quanto menos aspira ser vista, melhor se adequa à prática da caridade Cristã e ao consolo dos que sofrem.


EDUCAÇÃO DA JUVENTUDE

36. Em quarto lugar, com vista a atingir mais facilmente aquilo que Nós queremos, Nós recomendamos que a vossa fidelidade e a vossa vigilância se exerçam sobremaneira nos mais novos, por serem a esperança da sociedade humana. Dedicai o melhor do vosso esforço à sua educação; e não penseis que alguma precaução é suficiente para mantê-los afastados de mestres e de escolas, onde a respiração pestilenta das seitas, é de temer. Sob a vossa orientação, pais, professores de religião e padres encarregues da formação cristã devem aproveitar qualquer oportunidade, no ensino Cristão, para prevenir os seus filhos e os seus pupilos sobre a natureza infame dessas sociedades, para que eles estejam alerta sobre os vários artifícios fraudulentos com que os seus mentores costumam ludibriar as pessoas. E, aqueles que ministram à mocidade formação religiosa, procederão com sensatez de os convencerem a tomar a firme resolução de nunca se envolverem com uma sociedade sem o conhecimento dos seus pais ou o aconselhamento do pároco da sua paróquia ou do seu director espiritual.




37. Nós sabemos bem, contudo, que a reunião dos nossos esforços não será de todo suficiente para arrancar estas sementes perniciosas do campo do Senhor, a não ser que o Mestre Celestial da vinha queira ajudar-nos piedosamente nos nossos esforços. Nós devemos, por isso, implorar-Lhe, com grande e angustiada preocupação, a ajuda que a necessidade e a gravidade do perigo, requerem. A seita dos Maçons mostra-se insolente e orgulhosa do seu sucesso, e parece que é como se não existissem limites para a sua tenacidade. Os seus seguidores, ligados por um emaranhado de maldades e por desígnios secretos, ajudam-se mutuamente e uns instigam os outros a ter audácia para a maldade. Um ataque tão veemente exige uma defesa proporcional – designadamente, que todos os homens de bem formem uma associação, o mais alargada possível, de acção e de oração. Nós suplicamos-lhes, por isso, encarecidamente, que permaneçam unidos e inamovíveis contra a força invasora das seitas; e com lamentos e súplicas, estendam as suas mãos a Deus, rogando para que o Cristianismo possa florescer e prosperar, que a Igreja possa usufruir da liberdade de que precisa, que aqueles que se desencaminharam possam voltar ao espírito recto, que com o tempo o erro dê lugar à verdade, e o vício à virtude. Vamos aceitar a ajuda e a intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus, para que ela, que desde o momento da sua Conceição submeteu Satanás, possa demonstrar o seu poder contra estas seitas maléficas, nas quais revive o espírito contumaz do demónio, bem como a sua indómita perfídia e dissimulação. Imploremos a Miguel, o príncipe dos anjos celestes, que expulsou o inimigo infernal; e a José, o esposo da Santíssima Virgem, e patrono celestial da Igreja Católica; e aos grandes Apóstolos, Pedro e Paulo, pais e campeões vitoriosos da fé Cristã. Com o seu padroado, e reunidos com perseverança na oração, nós esperamos que Deus possa, piedosamente e no momento apropriado, socorrer a raça humana, que se encontra cercada por inumeráveis perigos.

38. Como sinal dos bens celestiais e da Nossa benevolência, Nós carinhosamente concedemos ao Senhor, a vós, veneráveis irmãos, e ao clero e a todas as pessoas confiadas à vossa vigilância, a Nossa bênção apostólica.

Dada em Roma, junto a São Pedro, no vigésimo dia de Abril, 1884, no sexto ano do Nosso pontificado (in ob. cit., pp. 340-350).


Leo XIII



Notas:

(14) Ver Arcanum n. 81.

(15) Epistola 137, ad Volusianum, c.v., n. 20 (PL 33, 525).

(16) (17 de Setembro de 1882), na qual o Papa Leão XIII tinha recentemente glorificado S. Francisco de Assis por ocasião do sétimo centenário do seu nascimento. Nesta encíclica, o Papa apresentou a Ordem Terceira de S. Francisco como uma resposta Cristã aos problemas sociais da época. A Constituição Misericors Dei filius (23 de Junho de 1883) expressamente relembrou que a negligência com a qual as virtudes Cristãs são tidas é a causa principal dos males que ameaçam as sociedades. Confirmando a regra da Ordem Terceira e adaptando-a às necessidades dos tempos modernos, o Papa Leão XIII tencionava trazer de volta o maior número de almas à prática destas virtudes.






quarta-feira, 11 de abril de 2012

Humanum Genus (ii)

Escrito por Leão XIII








«Muitas pessoas se deixam seduzir pela generosidade, pelo espírito de tolerância, pela abertura a um certo humanismo e por um espiritualismo com os seus ritos próprios, que encontram no seio das lojas, sem serem capazes de discernir a incompatibilidade de fundo entre o cristianismo e a Maçonaria, havendo mesmo quem se declare maçon e católico.

(…) A própria Maçonaria reconhece essa incompatibilidade. A prová-lo está o que diz a esse respeito Paul Gourdeau, antigo grão-mestre do Grande Oriente de França: "O que é importante compreender hoje em dia é que o combate que se trava actualmente condiciona o futuro, e mais ainda aquilo em que a sociedade se tornará, que assenta no equilíbrio entre duas culturas: uma fundada no Evangelho, a outra na tradição histórica de um humanismo republicano. E essas duas culturas são fundamentalmente opostas: ou a verdade revelada e intangível de um Deus que está na origem de todas as coisas, ou a verdade fundada nas construções do Homem permanentemente postas em causa porque susceptíveis de aperfeiçoamento até ao infinito. Desta batalha perpétua, reiniciada com vigor há algum tempo, dizia Malraux que o século XXI seria religioso ou não seria. É a essa afirmação, a esse desafio, que nos cabe responder" (Humanisme, n.º 193, Outubro de 1990). Albert Antoine, que foi membro do "Supremo Conselho de França de Rito Escocês" no primeiro quartel do século XX, dizia: "A Maçonaria é a única religião humana"».


Dominique Rey



«O Grão-Mestre do Grande Oriente de França, Jacques Mitterrand [irmão do ex-presidente da República de França, François Mitterrand], rebatendo umas declarações da Grande Loja Unida de Inglaterra que insistiam no requisito indispensável de acreditar em Deus, declarava ao jornal La Suisse, de 26 de Outubro de 1969, que a crença no Grande Arquitecto do Universo…

"…não é, em absoluto, uma conditio sine qua non: no seio do Grande Oriente de França verificam-se as opções mais diversas, que vão desde a religião ao ateísmo e ao marxismo. Eu próprio sou materialista ateu. Digamos que, na sua maioria, os nossos membros são agnósticos".

(…) Ulises Bacci, maçon italiano, punha o dedo na ferida ao escrever, em 1878:

"Nós protestamos contra… as deliberações das Grandes Lojas de Inglaterra e da Irlanda que não reconhecem o Grande Oriente de França (…) porque eliminou um parágrafo da sua própria Constituição, que impunha a todo aquele que quisesse ingressar na maçonaria ter a crença em Deus e na imortalidade da alma".

(…) Bacci lembrava que, muito tempo antes de o Grande Oriente de França ter tomado aquela decisão coerente, a franco-maçonaria tinha aceitado membros agnósticos e ateus sem ver nisso qualquer problema. A reacção das lojas mais conservadoras estava eivada de hipocrisia. O caso emblemático é o de Pierre Joseph Proudhon (1809-1865). No seu livro De la Justice dans la Révolution et dans l’Èglise, Proudhon narra a sua própria iniciação no grau de aprendiz da maçonaria dentro da loja "Sinceridade, perfeita união e constante amizade", da cidade de Besançon, a 8 de Janeiro de 1847:

"Como qualquer neófito, antes de receber a Luz, era um dever responder às três perguntas do costume: O que deve o homem aos seus semelhantes? O que deve ao seu país? O que deve a Deus?

Às duas primeiras perguntas, a minha resposta foi, mais ou menos, a que se podia esperar: 'Justiça a todos os homens', 'Dedicação ao meu país'. À terceira pergunta, a minha resposta foi: 'a guerra'". (Mellor, dictionn. Pág. 300, Giantulli, p. 14)».


José António Ullate Fabo («O Segredo da Maçonaria Desvendado»).





Arcanjo de Cristo



«Do ponto de vista cristão, "Demónio", "Satanás", "Diabo", etc., são termos sinónimos. "Demónio" é o mais usado no Novo Testamento (63 vezes). Seguem-se Besta (37 vezes), Satanás (36), Diabo (33), etc. O Demónio e os seus sequazes (os demónios) são seres reais, pessoais, criaturas de Deus, puramente espirituais, anjos que se revoltaram contra Deus por mera soberba, inimigos declarados de Deus, indutores dos homens ao pecado e visam o seu afastamento definitivo de Deus, ou a sua perdição eterna. Goethe acerta ao defini-lo como Der Geist, der stehe verneint: "o Espírito que se fixou na negação", ou seja, um NÃO sem possibilidade de dizer SIM. O NÃO monótono e irreversível a Deus que é Verdade e Amor, ou seja, a Mentira e o Ódio personificados. O NÃO definitivo dado a Deus, que é "aquele que é" (Ex. 3, 13-14), "desfaz" quem o pronuncia sem retorno. Poder-se-á dizer que é tão inadequado afirmar que o Demónio – e cada um dos seus sequazes – é pessoa como negá-lo».

Manuel Guerra («A Trama Maçónica»).





NATURALISMO

12. Hoje, a doutrina fundamental dos naturalistas, como é evidente pelo seu próprio nome, é que a natureza humana e a razão devem ser luz e guia de tudo. Posto isto, preocupam-se pouco com as suas obrigações para com Deus, ou pervertem-nas por meio de opiniões erróneas e vagas. Como negam que alguma coisa possa ter sido revelada por Deus, não admitem nenhum dogma religioso nem nenhuma verdade que não possa ser compreendida pela inteligência humana, nem ninguém em quem se deva acreditar com fundamento exclusivo da sua autoridade. E sendo dever especial e exclusivo da Igreja Católica pregar por palavras as verdades divinas, proclamar, com a ajuda de outras graças divinas, a autoridade do seu magistério, e defendê-lo em toda a sua pureza, é principalmente contra a Igreja que são dirigidos a raiva e os ataques dos inimigos.

13. Em todos os assuntos que se prendem com a religião, vejamos como a seita dos Maçons actua, especialmente onde tem mais liberdade para agir sem restrições, e então, cada um pode julgar por si se o propósito não é levar a cabo os objectivos dos naturalistas. Desde há muito, por meio dum trabalho longo e incessante, pretendem obter esse resultado – a saber, que o magistério e a autoridade da Igreja sejam irradiados do Estado; e com este mesmo propósito afirmam à pessoas e pugnam para que a Igreja e o Estado sejam definitivamente separados. Desta maneira, excluem das leis e a da administração a influência benéfica da religião Católica; e, em consequência, concebem que os Estados devem ser constituídos fazendo letra morta dos ensinamentos e preceitos da Igreja.


14. Não contentes por desprezarem a Igreja – o melhor dos guias – ofendem-na também com a sua hostilidade. Entretanto, com eles tornou-se legal atacar impunemente os próprios fundamentos da religião Católica, por palavras, por escrito e pelo ensino; e nem mesmo os direitos da Igreja são poupados, e as prerrogativas com que foi dotada por Deus, também não estão a salvo. Deixa-se à Igreja a menor liberdade possível para exercer a sua missão; e isto é feito por meio de leis que, em aparência, não são muito hostis, mas que, na realidade, foram concebidas e ajustadas para coarctar a sua liberdade de acção. Cada vez com maior frequência, Nós vemos leis excepcionais e gravosas que são impostas ao clero, com a finalidade de reduzir continuamente os seus efectivos e os seus meios de subsistência. Nós também vemos o que resta dos bens da Igreja ser onerado com imposições limitadoras, e submetido à vontade e ao livre arbítrio dos funcionários do Estado, e as ordens religiosas serem desenraizadas e dispensadas.


CONTRA A SÉ APOSTÓLICA

15. Mas é contra a Sé apostólica e o Romano Pontífice que o olhar destes inimigos se dirige, desde há muito tempo. Primeiramente, o Pontífice foi desapossado do seu principado temporal, baluarte da sua independência e dos seus direitos; seguidamente, foi reduzido injustamente a uma situação insustentável, devido às dificuldades que se levantaram de todos os lados; e agora, chegou a altura de os partidários das seitas declararem abertamente, aquilo que, desde há muito, conjuravam secretamente entre eles, que a autoridade sagrada dos Pontífices deve ser abolida, e que o próprio papado, instituído por direito divino, deve ser totalmente destruído. E, se fossem precisas outras provas, há um facto que tem sido revelado por diversas vezes, quer pelo testemunho de pessoas de outros tempos, quer pelo de pessoas que o fizeram ainda recentemente, que é verdade que os Maçons pretendem atacar a Igreja com uma hostilidade implacável, e que eles nunca irão descansar enquanto não tiverem destruído completamente tudo o que os Pontífices estabeleceram em matéria de religião.

16. Se aqueles que são admitidos como membros, não são obrigados a abjurar por palavras a doutrina Católica, é porque esta omissão, longe de ser desfavorável aos desígnios dos Maçons, serve melhor os seus propósitos. Em primeiro lugar, por este meio, eles enganam os ingénuos e os distraídos, e podem atrair um número muito maior de pessoas para as suas fileiras. Acresce que, como todos aqueles que querem ser admitidos, não importando qual a sua religião, eles utilizam isto para propagar o grande erro dos nossos dias – que a religião deve ser olhada com indiferença, e que todas as religiões são semelhantes. Esta maneira de pensar foi concebida para demolir todas as formas de religião, e especialmente a religião Católica, a qual, sendo a única que é verdadeira, não pode, senão com grande injustiça, ser considerada como meramente igual às outras religiões.



Baphomet



17. Mas os naturalistas vão bem mais longe; porque, tendo enveredado, em assuntos de maior importância, por um caminho errado, caem facilmente no radicalismo, seja pela fraqueza da sua natureza humana, seja porque Deus castiga com justeza o seu orgulho. Assim, acontece que eles deixam de acreditar que são certas e permanentes, coisas que são perfeitamente compreensíveis à luz natural da razão, como é o caso da existência de Deus, da natureza espiritual da alma humana, e da sua imortalidade. A seita dos Maçons, ao seguir um percurso idêntico no erro, fica exposta a estes mesmos perigos; porque, embora, em regra, possam proclamar a existência de Deus, eles próprios são testemunhas de que nem todos defendem esta verdade com uma entrega sincera da sua mente, ou com uma convicção firme. Nem escondem que o assunto relativo a Deus é a fonte das maiores discórdias entre eles; de facto, é um dado seguro que este tema causou uma grande dissensão entre eles até a uma data bastante tardia. Mas entretanto, a seita concede uma ampla liberdade dos seus seguidores, para que cada parte tenha o direito de defender a sua própria opinião, seja a de que existe um Deus, seja a de que não existe nenhum; e aqueles que defendem obstinadamente que Deus não existe, são iniciados com a mesma facilidade do que aqueles que defendem que Deus existe, ainda que, à semelhança dos panteístas, tenham noções falsas a Seu respeito: isto é, negam a realidade, mas retêm uma qualquer representação absurda da natureza divina.

18. Quando esta suprema verdade fundamental tiver sido aniquilada ou enfraquecida, também as outras verdades, que são conhecidas através da luz natural, serão derrubadas – designadamente, que todas as coisas foram feitas pela vontade livre de Deus Criador; que o mundo é governado pela Providência divina; que as almas não morrem; que à vida dos homens sobre a terra, seguir-se-á uma vida eterna.

19. Quando se apregoam estas verdades, desligadas dos princípios naturais que tanta importância têm para o pensamento e para a conduta humana, é fácil ver em que se irá transformar a moralidade, tanto a pública como a privada. Nada dizemos daquelas virtudes mais celestiais, que não podem ser adquiridas ou exercidas senão com um dom especial e a graça de Deus, os sacramentos e a felicidade que será alcançada no céu. Nós falamos agora das obrigações que resultam da probidade natural. Que Deus é o Criador do mundo e o seu providente Senhor; que a lei eterna manda que seja conservada a ordem natural, e proíbe que esta seja perturbada; que o fim último do homem é um destino muito superior às coisas humanas e para além da sua jornada terrena: estes são os princípios e a fonte de toda a justiça e de toda a moral.

Se estes forem afastados, como os naturalistas e os Maçons pretendem, perder-se-á imediatamente a noção do que é que é justo ou injusto, ou em que princípio se funda a moral. E, na verdade, o ensino da moral, que, isoladamente, encontra acolhimento junto da seita dos Maçons, e na qual eles defendem que a mocidade deve ser educada, é aquela a que eles chamam “civil”, “independente” e “livre”, designadamente, aquela que não contém nenhum valor religioso. Mas este ensino é insuficiente, desprovido de consistência, e está à mercê do mais leve impulso das paixões, de que são prova evidente os maus frutos que já começaram a aparecer. Porque, sempre que a educação Cristã foi suprimida, e estes ensinamentos se tornaram predominantes, a bondade e a integridade moral depressa desapareceram, multiplicaram-se as monstruosidades e as opiniões vergonhosas, e a audácia dos feitos maléficos aumentou vertiginosamente. Existem queixas e lamentos sobre tudo isto; e até daqueles que não o pretendem fazer, são forçados, perante a força das evidências, a corroborar os testemunhos.




20. Acresce que a natureza humana foi manchada pelo pecado original, e em consequência, tem mais propensão para o vício do que para a virtude. Para levar uma vida virtuosa, é absolutamente necessário refrear os impulsos desregrados da alma, e forçar as paixões a obedecer à razão. Neste conflito, as coisas humanas são muitas vezes desprezadas, e têm que sujeitar-se aos maiores trabalhos e contrariedades, para que a razão possa sempre triunfar. Mas os naturalistas e os Maçons, que não têm fé nestas coisas que aprendemos através da revelação de Deus, negam que os nossos primeiros pais pecaram, e consequentemente, pensam que a liberdade de escolha não é enfraquecida nem tem inclinação para o mal (13). Em lugar disso, preferem exagerar o poder e a excelência da natureza, e pondo exclusivamente nisto o princípio e a regra da justiça, nem sequer conseguem imaginar que é preciso um esforço constante e perfeitamente estável para resistir à violência e à força das nossas paixões.

Por conseguinte, Nós vemos que há homens que são publicamente tentados pelas muitas seduções do prazer; que há jornais e panfletos que não têm moderação nem vergonha; que há peças de teatro que se destacam pelo carácter licencioso; que desenhos para obras de arte são subjugados desavergonhadamente às leis do chamado verismo; que tudo é planeado para que a vida seja doce e delicada; e que todos os louvores ao prazer possam reduzir a virtude ao mais tranquilo dos sonos. Também duma forma maliciosa, mas ao mesmo tempo coerente, aqueles que agem assim, afastam-se da esperança nos bens celestiais, e reduzem toda a felicidade ao nível das coisas materiais, e por isso mesmo, terrenas. De tudo quanto Nós dissemos, o próximo facto, espantoso não tanto por si mas pelo que representa, pode servir como confirmação. Pois, como ninguém está acostumado a obedecer a homens inteligentes e astutos de forma tão submissa como aqueles cuja alma está enfraquecida e subjugada ao império das paixões, houve na seita dos Maçons quem tenha proposto abertamente de forma astuciosa e deliberada que a populaça devia ser saciada com uma autorização ilimitada para o vício, pois, quando isto tiver sido posto em prática, submeter-se-iam mais facilmente ao seu poder e autoridade para a realização dos actos mais ousados.

20. No que se refere à vida doméstica, a doutrina dos naturalistas está quase toda contida nos preceitos seguintes: o casamento pertence à categoria dos contratos comerciais, que podem ser revogados legalmente pela vontade daqueles que os celebraram, e que os dirigentes civis do Estado têm poder sobre o vínculo matrimonial; que na educação dos jovens, nada deve ser ensinado em matéria de religião como sendo uma verdade certa e permanente; e cada um deve poder seguir, quando tiver idade, o caminho que muito bem entender. Os Maçons concordam plenamente com estas coisas, e não só concordam, como contribuem para que elas possam vir a ter força legal e institucional. Porque em muitos países, e naqueles denominados Católicos, está prescrito que os casamentos não devem ser considerados legais salvo se estiverem contratualizados no rito civil; noutros lugares, a lei permite o divórcio; e noutros, estão a ser feitos todos os esforços para torná-lo legal com a maior brevidade possível. Assim, aproximam-se os tempos em que os casamentos vão ser transformados num outro tipo de contrato – a saber, em uniões cambiáveis e incertas, feitas ao sabor dos caprichos, e que, se estes mudarem, podem ser desfeitas.


Albert Pike


Com uma grande unanimidade, a seita dos Maçons também preconiza tomar para si a educação dos mais novos. Eles pensam que podem moldar facilmente as suas opiniões numa idade tão tenra e maleável, e vergá-los à sua vontade; e nada pode ajustar-se melhor aos seus desígnios do que serem eles a educar a juventude do Estado, como planeiam. Por conseguinte, na educação e na instrução das crianças, eles não permitem que os ministros da Igreja tenham qualquer participação na formação ou na instrução; e em muitos lugares, eles tentaram que a educação das crianças estivesse exclusivamente nas mãos de leigos, e que nada do que diz respeito às obrigações mais importantes e mais sagradas do homem para com Deus, deve constar das lições sobre moral.


CONSEQUÊNCIAS POLÍTICAS

22. Seguem-se as suas doutrinas sobre política, segundo as quais os naturalistas têm por adquirido que todos os homens têm os mesmo direitos, e em todos os domínios, a sua condição é igual e indistinguível; que cada um é livre por natureza; que ninguém tem o direito de dar ordens a outrem; que é um acto de violência solicitar aos homens que obedeçam a qualquer autoridade que não tenha sido constituída por eles. De acordo com isto, portanto, todas as coisas pertencem ao povo livre; o poder é constituído por mandato ou com licença do povo, por isso, quando a vontade popular muda, os governos podem ser depostos legalmente e a fonte de todos os direitos e obrigações civis está, quer na multidão, quer nas autoridades governamentais, desde que estas tenham sido constituídas no respeito pelas teorias em apreço. Também é adquirido que o Estado deve ser constituído sem Deus; que, entre as diferentes formas de religião, não há razão para que uma tenha precedência sobre a outra; e que todas devem ocupar o mesmo lugar.

23. Que estas doutrinas agradam por igual aos Maçons, e que eles pretendem constituir Estados de acordo com o exemplo deste modelo, é um facto tão conhecido que não carece de demonstração. Desde há algum tempo que eles vêm defendendo abertamente isto com toda a sua força e todos os seus recursos; e assim, preparam o caminho para um número não despiciendo de homens com a ousadia para tornar as coisas piores, no seu afã de atingir a igualdade de toda a riqueza por meio da destruição de todas as distinções de classe e de fortuna (in ob. cit., pp. 332-340).


(13) Trid, sess. vi, De Justif., c1. Texto do Concílio de Trento: "Tametsi in eis (sc. Judaeis) liberum arbtrium minime extinctum, vinibus licet attenuatum et Inclinatum".





Continua


domingo, 8 de abril de 2012

Humanum Genus (i)

Escrito por Leão XIII





Sala da Meditação na ONU



«Em cerca de 300 anos, a maçonaria conseguiu formar e conformar a opinião pública do nosso tempo, inclusive a partir dos mais elevados estratos políticos. Um exemplo ou caso concreto: no jornal Levante (edição digital, n.º 2534, 12 de Dezembro de 2004, p. 2), um jornalista perguntou ao valenciano Ramón Torres, Grande Comendador ou presidente do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceite do Grau 33 para Espanha: "No Parlamento Europeu os mações estão em maioria?". Ramón Torres respondeu: "Sim, entre 60 e 70%". E, como é lógico, votam no Parlamento Europeu em sintonia com os seus princípios e a sua ideologia. Todos se lembram do resultado de algumas votações sobre questões sensíveis e de palpitante actualidade. Observe-se que a representação das esquerdas e das direitas políticas na União Europeia ocupa aproximadamente metade do arco parlamentar. A maioria dos eurodeputados mações pertence ao grupo socialista. A percentagem restante terá de ser enquadrada no Partido Popular Europeu. Uma percentagem de 10% de flutuação é demasiado ambígua. Porque não se diz o número exacto de mações que há no Parlamento Europeu e a sua identificação pessoal? Aí entra o segredo maçónico. Além disso, tem-se a impressão de que se trata de uma percentagem considerável.

(…) A infiltração da maçonaria na Turquia ajuda a explicar a complacência com que a sua proposta de adesão à União Europeia foi recebida por não poucos eurodeputados e políticos de vários quadrantes. Além disso, os quase 100 milhões de turcos – residentes na Turquia e emigrantes sobretudo na Alemanha – serviram e servirão de álibi ou justificação arrevezada para não mencionar as raízes cristãs da Europa na sua última Constituição, elaborada sob a direcção de Giscard d’Estaing, membro do Grande Oriente Francês (Grau 32), ou maçonaria irregular, a mais anticristã. Nega-se assim uma realidade histórica. Não se trata de um futuro hipotético, mas de um passado já irreversível. A Europa é uma realidade mais cultural do que geográfica. Ela é o que é por obra do cristianismo, unitário no primeiro milénio de existência da Igreja e com várias modalidades no segundo, sendo principalmente católica nos países meridionais, ortodoxa nos orientais, protestante nos nórdicos e anglicana numa das extremidades ocidentais (a Grã-Bretanha). Além deste, há dois ingredientes e factores da Europa admitidos por todos – o legado grego e romano – que conformaram a Europa depois da avalancha dos bárbaros, graças à Igreja Católica, que conservou e transmitiu o seu pensamento através das bibliotecas dos mosteiros, das universidades, etc., e que contribuiu, entre outros aspectos, para o renascimento da arte grega por meio do mecenato dos Papas.

(…) No edifício da ONU em Nova Iorque há uma sala não muito grande dedicada à oração dos crentes e à reflexão dos descrentes em termos religiosos. Por isso, segundo a mulata que serviu de guia do meu grupo hispano-falante, não há nela nenhum símbolo religioso: nem cruz cristã, nem meia-lua islâmica, nem roda budista, etc. Quando lhe perguntaram "E esta pedra, o que simboliza? Porque está aqui?", a sua reacção foi um tanto atrapalhada.

É a mesma que há no "templo" de todas as lojas maçónicas – a "Pedra Bruta", que se encontra à esquerda do altar onde estão o Livro Sagrado, o esquadro e o compasso. É uma pedra tirada da pedreira, sem desbaste, que simboliza o homem "profano", ou não mação. Dela se irá extrair a estátua representativa do "homem perfeito, ideal", ou seja, a "Pedra Cúbica", lisa, perfeitamente talhada, que simboliza o mação aperfeiçoado por meio dos ritos de iniciação, com os seus graus, e da ajuda dos "irmãos". Eis a inspiração da maçonaria: o antropocentrismo».


Manuel Guerra
(«A Trama Maçónica»).






CARTA ENCÍCLICA SOBRE A MAÇONARIA E OUTRAS SEITAS (20 de Abril de 1884)


1. O género humano, depois, de, por inveja do Demónio, se ter separado de Deus, criador e doador dos bens celestiais, ficou dividido em dois grupos diversos e opostos: um deles combate assiduamente pela verdade e pela virtude, e o outro por tudo quanto é contrário à virtude e à verdade.








Um, é o reino de Deus na terra, isto é, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, e aqueles que quiserem, com o seu coração, estar em união com Ela, como convém para a salvação, necessitam servir a Deus e a Seu Filho unigénito com todo o entendimento e toda a sua vontade; o outro é o reino de Satanás, sob cujo mando e poder se encontram todos aqueles que, seguindo o exemplo fatal do seu chefe e dos nossos primeiros pais, recusam obedecer à lei divina e eterna, e procedem incessantemente como se Deus não existisse ou mesmo contra Deus.

2. Santo Agostinho conheceu e descreveu, com nitidez, estes dois reinos como duas cidades, contrárias nas suas leis, por serem contrárias nos seus fins; e com uma brevidade subtil, descreveu a causa eficiente de cada uma com estas palavras: «Dois amores edificaram duas cidades: o amor de si mesmo até ao desprezo de Deus edificou a cidade terrena; o amor de Deus até ao desprezo de si mesmo, a celestial» (1). Ao longo dos tempos, as duas cidades lutaram, uma contra a outra, com armas e com meios distintos, ainda que nem sempre com o mesmo ímpeto, nem com o mesmo ardor. Nos nossos dias, contudo, todos os que defendem o mal parecem estar unidos, e lutar com a maior veemência, guiados ou ajudados pela sociedade, firmemente organizada e implantada, a que chamam dos Maçons. Não escondendo mais os seus intentos, rebelam-se com a maior audácia contra a majestade de Deus, maquinam aberta e publicamente para a ruína da Santa Igreja, e isto com o propósito de despojar, se pudessem, os povos da Cristandade das bênçãos obtidas por Jesus Cristo, nosso Salvador.

Chorando Nós estes males, e sendo o Nosso ânimo movido pela caridade, sentimo-Nos constrangidos a clamar incessantemente ao Senhor: foi aqui que os teus inimigos vociferaram; e ergueram a cabeça os que te odeiam. Contra o teu povo, determinaram maus conselhos, discorreram contra os teus santos. Vinde, disseram, e façamo-los desaparecer entre as gentes (2).

3. Perante um perigo tão iminente, no meio de tão atroz, e porfiada, guerra contra o nome cristão, é Nosso dever indicar o perigo, apontar os adversários, e com o melhor na Nossa autoridade, resistir aos seus intentos e artifícios, para que não pereçam eternamente aqueles cuja salvação Nos está confiada, e que o reino de Jesus Cristo cuja defesa Nos está confiada, não só permaneça firme e inteiro, mas possa ser acrescentado com novos aumentos por todo o orbe.


ADMOESTAÇÕES DOS PONTÍFICES ROMANOS

4. Os Pontífices Romanos Nossos antecessores, na sua vigilância incessante pela salvação do povo Cristão, perceberam bem depressa quem era, e o que queria, este inimigo capital, logo que surgiu das trevas da sua conjura oculta; e tocando o clarim avisaram os príncipes e os povos para que não se deixassem enganar pelas artimanhas e ciladas preparadas contra eles.

5. O primeiro aviso do perigo foi dado no ano de 1738 por Clemente XII (3), cuja Constituição foi confirmada e renovada por Bento XIV (4). Pio VII (5) seguiu os passos de ambos, e Leão XII, na sua constituição apostólica Quo Graviora (6), reuniu as leis e decretos dos antecessores sobre esta matéria, e ratificou-os e confirmou-os para sempre. No mesmo sentido, falaram Pio VIII (7), Gregório XVI (8), e por várias vezes, Pio IX (9).


6. Logo que a natureza e o propósito da seita maçónica foi claramente descoberto pelos indícios manifestos das suas acções, pela investigação das suas causas, pela publicação das suas leis, e dos seus ritos e comentários, frequentemente complementados pelos testemunhos pessoais daqueles que estavam no segredo, esta Sé Apostólica denunciou a seita dos Franco-Mações, e proclamou publicamente que a sua natureza era contra a lei e o direito, era não menos perniciosa à Cristandade do que ao Estado; e proibiu todos de se filiarem na sociedade com as penas que a Igreja não aplica senão a pessoas com culpas excepcionais. Os sequazes, indignados com isto, tentaram eludir ou enfraquecer, em parte, com desprezo, em parte com calúnias, a força daquelas censuras, acusando os sumos Pontífices que as decretaram, quer de ter excedido os limites da moderação, quer de terem procedido injustamente. Foi por essa maneira que procuraram eludir o peso e a autoridade das Constituições apostólicas de Clemente XII, Bento XIV, Pio VII e Pio IX (10); Ainda que, dentro da própria sociedade, tenha havido homens que reconheceram inequivocamente que os Pontífices Romanos actuaram no seu pleno direito, de acordo com a doutrina e a disciplina Católica. Os Pontífices receberam o mesmo assentimento, e em termos vigorosos, de muitos príncipes e chefes de governo, que cuidaram, quer de denunciar a sociedade maçónica à Sé Apostólica, quer de condená-la eles próprios promulgando leis para esse efeito como aconteceu, por exemplo, na Holanda, Áustria, Suíça, Espanha, Baviera, Sabóia e noutras partes de Itália.


CONFIRMAÇÃO DOS FACTOS

7. Mas, o que importa acima de tudo é que o curso dos acontecimentos veio confirmar a previsão dos Nossos antecessores. Da sua solicitude previdente e paternal, não resultou sempre e em todos os lugares o resultado desejado; e isto, quer devido à dissimulação e astúcia de alguns que eram agentes activos na iniquidade, quer devido à leviandade impensada dos demais, daqueles a quem cumpria vigiar de maneira diligente estes assuntos. Daqui resultou que, no espaço de um século e meio a seita dos Maçons cresceu a uma velocidade difícil de prever, ao ponto de se ter tornado capaz, pela audácia e por meios fraudulentos, de se infiltrar em todos os níveis do Estado, parecendo ser o poder dominante. Uma mudança e um progresso tão rápidos causaram na Igreja, no poder dos príncipes e no bem-estar dos povos, os efeitos nefastos que haviam sido previstos pelos Nossos predecessores. Chegou-se a uma situação tal que razões graves para recear, não certamente pela Igreja – cujo fundamento é firme bastante para que não possa ser derrubado pelo esforço de homens – mas daqueles Estados nos quais prevalece o poder, quer da seita de que temos vindo a falar, quer doutras seitas não dissemelhantes que se comportam como suas discípulas ou subordinadas.

8. Por estas razões Nós logo que ascendemos à cabeça da Igreja vimos e sentimos claramente que era Nosso dever usar da Nossa autoridade contra um mal tão grave. Nós temos por diversas vezes, sempre que surge uma ocasião, atacado certos pontos cruciais do saber nos quais se faz sentir de maneira particular a influência perversa das opiniões Maçónicas. Assim, na Nossa carta encíclica, Quod Apostoli Muneris, Nós tratámos de refutar as monstruosas doutrinas dos socialistas e dos comunistas; depois, noutra que começa por “Arcanum”, Nós cuidámos de defender e de explicar a noção verdadeira e genuína da vida doméstica, de que o casamento é a fonte e origem; e novamente, na que começa por “Diuturnum” (11), Nós descrevemos o ideal do poder político em conformidade com os princípios da sabedoria cristã, que está maravilhosamente em harmonia, por um lado, com a ordem natural das coisas, e por outro lado, com o bem-estar tanto dos príncipes como das nações. Agora é Nossa intenção, a exemplo dos Nossos predecessores, tratar expressamente da própria sociedade maçónica, de toda a sua doutrina, dos seus propósitos, e da sua maneira de pensar e de agir, a fim de aclarar cada vez mais o seu poder maléfico, e de fazer tudo o que Nós pudermos para evitar o contágio dessa praga fatal.



ORGANIZAÇÃO «SECRETA»



9. Há vários corpos organizados que, embora difiram no nome, no cerimonial, na forma e na origem, estão tão ligados entre si pela comunidade de propósito e pela semelhança das suas ideias principais, que formam de facto um só com a seita dos Maçons, a qual actua como uma espécie de centro de onde todos partem e aonde todos retornam. Hoje, estes já não aparentam querer permanecer na penumbra; para isso, têm os seus encontros à luz do dia e perante os olhos do público, e publicam os seus próprios jornais; no entanto, observados atentamente, verifica-se que ainda conservam a natureza e os hábitos das sociedades secretas. Há muitas coisas que são mistérios sobre os quais é uma regra aceite escondê-los com todo o cuidado, não somente dos estranhos, mas, também, de muitos dos seus próprios membros; como os seus desígnios secretos e últimos, os nomes dos seus chefes supremos, e certas reuniões secretas e reservadas, bem como as suas decisões, e os meios e processos para as pôr em prática. Esta é, sem dúvida, a razão da diferença manifesta que existe entre os membros no que diz respeito aos direitos, cargos e privilégios respectivos, das diferenças de ordens e graus existentes entre eles, e da severa disciplina a que estão submetidos.

Os candidatos são obrigados a prometer – isto, por meio dum juramento especial – que nunca darão a conhecer a ninguém, em nenhum momento, nem por qualquer meio, os nomes dos filiados, as suas senhas ou quais os assuntos tratados. Assim, com uma aparência externa, e com um estilo de dissimulação que não varia, os Maçons, como os Maniqueus de outrora, procuram, na medida do possível, esconder-se e não ter por testemunhas senão os seus próprios associados. Como meio de dissimulação, apresentam-se como homens de cultura e investigadores que estão associados com a finalidade de aprender. Eles falam do seu empenho por um aperfeiçoamento cultural, e do seu amor pelos pobres; e afirmam que o seu único desejo é o melhoramento possível das condições dos povos, e partilhar com o maior número possível de pessoas os benefícios da sociedade civil. Ainda que estes propósitos sejam verdadeiros, eles não constituem a totalidade dos seus fins. Acresce que, para se filiarem, os candidatos devem jurar obediência cega aos seus chefes e mestres com uma submissão e uma fidelidade irrepreensíveis, e estar prontos a obedecer ao menor sinal da sua vontade; e se desobedecerem, submetem-se às mais duras penas e à própria morte. De facto, quando se pensa que alguém traiu os deveres da seita ou desobedeceu às suas ordens, não é raro que a pena seja infligida com tal temeridade e eficiência, que muitas vezes, o assassino não chega sequer a ser acusado e julgado pelo seu crime.

10. Mas dissimular e querer permanecer escondidos; unir os homens como escravos por meio de laços apertados, e sem uma razão aparente; utilizar homens escravizados à vontade de outros por um qualquer meio arbitrário; utilizar homens de mão para perpetrar crimes de sangue, garantindo-lhes a impunidade – tudo isto é uma monstruosidade que a própria natureza rejeita. Seja como for, a razão e a própria verdade revelam claramente que, a sociedade de que estamos a falar, está em antagonismo com a justiça e com a honradez natural. E isto torna-se ainda mais claro, com a ajuda de outros argumentos, aliás bem evidentes, que provam que a sua essência colide com a virtude natural. Porque, por maior que seja a habilidade dos homens para se esconderem e a sua capacidade para mentir, é impossível impedir que os efeitos duma causa revelem, de alguma maneira, a própria natureza intrínseca da causa que os originou. “A árvore boa não pode dar maus frutos, nem a árvore má dar bons frutos” (12). Hoje, a seita maçónica produz frutos que são perniciosos e de sabor bem amargo. Porque, de tudo aquilo que Nós mostrámos com clareza, se vê que o seu propósito principal e último, é a aniquilação de toda a ordem religiosa e política que nasceu do Cristianismo, e a sua substituição por uma nova situação conforme com a suas ideias, cujos fundamentos e leis serão elaborados com uma base meramente naturalista.

Cúpula de São Pedro


11. Aquilo que Nós dissemos, e continuamos a dizer, deve aplicar-se à seita dos Maçons entendida genericamente, e abrangendo também as associações que com ela estão geminadas e confederadas, mas não os membros individuais que delas fazem parte. Podem existir pessoas, e não serão poucas, que, conquanto não se livrem da culpa de se terem envolvido com tais associações, nunca participaram nos seus actos criminosos nem estão conscientes do fim último que aquelas prosseguem. Da mesma maneira, algumas sociedades conexas talvez não aprovassem as conclusões exageradas, o que só aconteceu por estas decorrerem dos princípios comuns, se não causasse horror a sua própria infâmia. Algumas destas, mais do que uma vez, deixaram-se levar por circunstâncias de tempo e de lugar, tanto porque procuram coisas menos importantes do que as outras costumam procurar, ou do que elas próprias gostariam de atingir. Não é por esta razão, no entanto, que devem ser consideradas independentes da federação maçónica, pois a federação maçónica deve ser julgada, não só pelas coisas que fez ou para que contribuiu, mas pelo conjunto dos princípios que professa (in José António Ullate Fabo, O Segredo da Maçonaria Desvelado, Diel, 2009, Apêndice D, pp. 325-332).


Notas:

(1) De Civ. Dei, 14, 28 (Pl. 41, 436).

(2) SI 82, 2-4.

(3) Const. In Eminenti, 24 de Abril de 1738.

(4) Const. Providas, 18 de Maio de 1751.

(5) Const. Ecclesiam. a Jesu Christo, 13 de Setembro de 1821.

(6) Const Dada a 13 de Março de 1825.

(7) Enc. Traditi, 21 de Maio de 1829.

(8) Enc. Mirari, 15 de Agosto de 1832.

(9) Enc. Qui Pluribus, 9 de Novembro de 1846, pronunciamento Multiplices inter, 25 de Setembro de 1865, etc.

(10) Clemente XII (1730-40); Bento XIV /1740-58); Pio IX (1846-78). Ver números 79, 81, 84.

(11) Conc. Trid. Ses 6 de iustif. C. 1.

(12) Mt. 7, 18.







Continua