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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Meditação

Escrito por Jiddu Krishnamurti 








A mente meditativa é silenciosa. Não é o silêncio que o pensamento pode imaginar; não é o silêncio de um calmo anoitecer; é o silêncio que vem quando o pensamento - com todas as suas imagens, palavras e percepções - cessa completamente. Esta mente meditativa é a mente verdadeiramente religiosa - religiosidade que não é tocada pelas igrejas, os templos ou os cânticos.

A mente religiosa é a explosão do amor - de um amor que não conhece a separação. Para ele, o longe é perto. Não é o amor de um só, ou de muitos; é, antes, um estado de amor no qual toda a divisão desaparece. Tal como a beleza ele também não cabe na medida das palavras. E só a partir deste silêncio a mente meditativa actua.

(...) A meditação é uma das maiores artes da vida - talvez a maior, e não é possível aprendê-la de ninguém. Nisso reside a sua beleza. Não está sujeita a nenhuma técnica, e portanto a nenhuma autoridade.

(...) É curioso como a meditação se torna uma constante presença: não há um fim nem um princípio para ela. É como uma gota de chuva: nela estão todos os regatos, os grandes rios, os mares e as quedas de água... A gota de chuva alimenta a terra e o homem; sem ela, a terra seria um deserto. Sem a meditação, também o coração se torna um deserto, um lugar abandonado.

(...) Silêncio e amplidão interior andam juntos. A imensidão do silêncio é a imensidade da mente em que não existe centro.

(...) Andar sempre à procura de «experiências transcendentes», mais variadas e intensas, é uma forma de fugir da realidade presente, daquilo que é, ou seja, de nós mesmos, da nossa própria mente condicionada. Uma mente desperta, inteligente, livre, que necessidade tem dessas experiências? A luz é luz; não anda à procura de mais luz.

(...) Se nos esforçamos por meditar, não estamos a meditar. Se nos esforçamos por sermos bons, a bondade não floresce. Se cultivamos a humildade, ela fica ausente.

(...) A meditação é a brisa que entra quando deixamos a janela aberta; mas se deliberadamente a mantemos aberta, com o propósito de atrair a brisa, ela não aparece.

(...) Temos de descobrir por nós mesmos - e não por intermédio de quem quer que seja - o que é a meditação. Tem-se aceitado a autoridade de instrutores, salvadores e mestres. Se realmente queremos saber o que é a meditação, temos de pôr completamente de lado toda a autoridade.

(...) Não sei se alguma vez reparastes que, quando estais totalmente atentos, há interiormente completo silêncio. E nessa atenção não existe nenhuma fronteira, nenhum centro, ou seja, nenhum «eu» que esteja atento. Essa atenção, esse silêncio, é um estado de meditação.

(...) Meditar é compreender o que é - ou seja, o facto - e ir para além dele.

(...) Meditar é estar inocente do tempo.

(...) Meditar é descobrir se há um campo que não esteja já contaminado pelo conhecido.



A meditação é o desabrochar da compreensão. A compreensão não está dentro das fronteiras do tempo; o tempo nunca traz compreensão. A compreensão não é um processo gradual em que se vá juntando pouco a pouco, cuidadosamente e pacientemente. A compreensão acontece agora ou nunca; é um relâmpago «destruidor», - e não uma coisa monótona; é desse estilhaçar que se tem medo e, assim, procura-se evitá-lo, consciente ou inconscientemente. A compreensão pode alterar o curso da nossa vida, o modo de pensarmos e agirmos; pode ser agradável ou não, e ser um «perigo» para os nossos relacionamentos. Sem compreensão, o sofrimento continua. O sofrimento só finda através do autoconhecimento, através da atenção a cada pensamento e emoção, a cada movimento daquilo que se revela a nível consciente e daquilo que está oculto. Meditação é a compreensão da consciência - a da superfície e a oculta - e é também a compreensão do movimento que está para além de todos os pensamentos e emoções.

(...) A meditação não é um meio para atingir um fim, não há nenhum fim, não há nenhum chegar; ela é um movimento no tempo e fora do tempo. Qualquer sistema, qualquer método, prende o pensamento ao tempo. A atenção, sem escolha, a cada movimento do pensamento e do sentir, a compreensão dos seus motivos, dos seus mecanismos, permitindo que o pensamento e o sentir «floresçam», é o nascer da meditação. Quando o pensamento e o sentir florescem e morrem, a meditação é um movimento além do tempo. Nesse movimento há êxtase; nesse vazio total há amor, e com amor há destruição e criação.

A meditação é aquela luz que, na mente, ilumina o caminho da acção; e sem essa luz não existe amor.

Meditação nunca é prece. A prece, a súplica nascem da autocomiseração. Suplica-se quando se está em dificuldades, quando há sofrimento; mas quando há felicidade, não há qualquer súplica. A autocomiseração, tão profundamente entranhada no ser humano, é a raiz da separação. O que está separado, ou o que a si mesmo se pensa separado, sempre em busca de uma identificação com algo que não esteja separado, apenas acarreta mais divisão e dor. A partir desta confusão, suplica-se aos céus, ou ao marido ou a alguma divindade criada pela mente. Esta súplica poderá encontrar uma resposta, mas a resposta é o eco da autocomiseração, na sua separação. A repetição de palavras, de orações, é auto-hipnótica, fecha a pessoa em si mesma e é destruidora. O isolamento provocado pelo pensamento dá-se sempre dentro do campo daquilo que é conhecido, e a resposta à prece é a resposta desse conhecido.

A meditação acontece longe de tudo isto. Nesse campo, o pensamento não pode entrar, não há lá nenhuma separação e, portanto, nenhuma identidade. A meditação acontece em abertura total; o secretismo não tem nela lugar. Tudo está à vista, tudo é bem claro; então, existe a beleza do amor.

(...) A crença é completamente desnecessária, tal como os ideais. Crenças e ideais dissipam energia que é necessária para perceber o revelar do facto, aquilo que é. Crenças e ideais são meios de se fugir ao facto e, nessa fuga, o sofrimento é infindável. O findar do sofrimento vem com a compreensão do facto, de momento a momento. Não há nenhum sistema ou método que dê essa compreensão; só uma atenção sem escolha ao facto a conseguirá. Meditar de acordo com um sistema é evitar o facto, que é aquilo que somos. Compreendermo-nos a nós mesmos, e compreender a constante mudança dos factos que nos dizem respeito, é de longe mais importante do que «meditar» tendo em vista «encontrar deus» ou ter visões, sensações, ou outras formas de entretenimento.






(...) Na meditação temos de descobrir se é possível um cessar dos conhecimentos, e libertarmo-nos, assim, do conhecido.

(...) Meditação não é concentração, já que esta é exclusão, resistência e, portanto, conflito. A mente meditativa pode concentrar-se, só que então não há exclusão, resistência. A mente que apenas se concentra não pode meditar.

Na compreensão do que é meditar, há amor; e o amor não é produto de sistemas, de hábitos, de se seguir um método. O amor não pode ser cultivado pelo pensamento. O amor pode surgir quando há completo silêncio, um silêncio no qual aquele que medita está inteiramente ausente. A mente só pode estar em silêncio quando se apercebe do seu próprio movimento como um processo de pensar e de sentir. Para se compreender este movimento de pensar e de sentir, na observação desse movimento não pode haver condenação alguma. Observar desta maneira é disciplina - não a do conformismo, mas uma disciplina fluida, livre.

(...) As palavras «tu» e «eu» separam: esta divisão não existia naquele estranho silêncio e naquela serenidade. E quando olhámos através da janela, espaço e tempo pareciam ter desaparecido; e o espaço que divide deixou de ter realidade. Aquelas folhas, aquele eucalipto e o azul brilhante da água não eram diferentes de nós.

(...) A meditação é um movimento no desconhecido e do desconhecido. Nós não existimos, só o movimento existe. Somos demasiado insignificantes ou sentimo-nos demasiado «importantes» para este movimento. Ele não tem nada atrás dele ou à sua frente. É aquela energia que o pensamento-matéria não é capaz de tocar. Este movimento é pervertido pelo pensamento, porque o pensamento é o conhecido, é produto do ontem; e está prisioneiro de penosos e duros esforços de séculos e, assim, é confuso e tem falta de lucidez. Faça-se o que se fizer, o conhecido não pode atingir o desconhecido. Meditar é morrer para o conhecido.

(...) A meditação não tem princípio nem fim; nela não há nem sucesso nem fracasso, nenhuma acumulação e nenhuma renúncia; é um movimento sem finalidade, e para além do tempo e do espaço. Experienciá-la é negá-la, pois aquele que a experiencia está preso ao tempo e ao espaço, à memória e ao re-conhecer. A base para a verdadeira meditação é aquela atenção passiva, disponível, que é libertarmo-nos da autoridade e da ambição, da inveja e do medo. A meditação não tem qualquer sentido sem esta liberdade, sem autoconhecimento; enquanto psicologicamente houver escolha não há autoconhecimento. Essa escolha implica conflito, e este torna impossível a compreensão de o que é. Entregar-se a qualquer fantasia, a quaisquer crenças românticas, não é meditação; o cérebro deve despir-se de todo o mito, de toda a ilusão e busca de segurança e enfrentar a realidade da falsidade de todos eles.

Não existe qualquer separação; tudo se encontra no movimento do meditar. A flor é a forma, o aroma, a cor e a beleza que é o seu todo. Se a despedaçarmos, de facto ou por palavras, então deixa de existir a flor, fica apenas uma lembrança do que era, o que nunca é a flor. A meditação é a flor inteira na sua beleza, a murchar e a viver.

Meditar é libertarmo-nos do pensamento; é um movimento no êxtase da verdade.

(...) Meditar é transcender o tempo. O tempo (psicológico) é a distância que o pensamento percorre na sua busca de sucesso pessoal. A viagem é assim sempre ao longo do velho caminho, revestido de uma nova aparência, novas paisagens, mas sempre a mesma estrada, que não conduz a lado nenhum - excepto à dor e à infelicidade.

Só quando a mente transcende o tempo é que a verdade deixa de ser uma abstracção. Então, a felicidade profunda não é uma ideia derivada do prazer mas uma realidade não verbal.

Esvaziar a mente do tempo é o silêncio da verdade, e assim ver é agir; portanto não existe nenhuma divisão entre o ver e o agir. É no intervalo entre ver e agir que nascem o conflito, a infelicidade e a confusão. Aquilo que está fora do tempo é eterno.

A meditação é um estado da mente que olha tudo com completa atenção, não fragmentariamente, mas de maneira total.










Meditar é destruir a «segurança», e há grande beleza na meditação, não a beleza das coisas produzidas pelo homem ou pela natureza; é a beleza do silêncio. Este silêncio é o vazio no qual, e a partir do qual, todas as coisas fluem e têm a sua existência. Não pode ser conhecido; o intelecto e a emotividade não podem chegar até ele; não há caminho para o silêncio e um método para tentar alcançá-lo é invenção de um cérebro ambicioso. Todos os caminhos e meios de que se serve o «eu» calculista têm de ser completamente destruídos; todo o movimento para a frente ou para trás, o modo como funciona o tempo, tem de cessar, sem nenhum amanhã. Meditação é «destruição»; é um perigo para aqueles que desejam levar uma vida superficial e uma vida de fantasia e de mito.

A morte a que a meditação dá origem é a imortalidade do novo.

Meditar é algo realmente maravilhoso, quando acontece. Posso falar sobre a meditação, mas a descrição não é o que é descrito. Cabe a cada um de nós aprender tudo isto, olhando para nós próprios - nenhum livro, nenhum professor pode ensinar-nos. Assim, não dependamos de ninguém, não nos juntemos a organizações «espirituais»; temos de aprender tudo isto a partir de nós mesmos. E então a mente descobrirá coisas inacreditáveis. Mas para tal, não pode haver fragmentação e por isso tem de haver imensa estabilidade, percepção rápida e flexibilidade. Para uma mente assim não há tempo e o viver tem, portanto, um sentido completamente diferente (in J. Krishnamurti, Meditações, Editorial Presença, 1999).


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Dualidade

Jiddu Krishnamurti em diálogo com os budistas 









Conversa com os mestres budistas Walpola Rahula e Irmgard Schloegl, com o Professor David Bohm e outros


WR: Quer dizer que estamos a falar em termos de dualidade.

K: Toda a linguagem é dualista.

WR: Você não pode falar, eu não posso falar sem ser em termos dualistas.

K: Sim, para comparar. Mas eu não estou a falar disso.

WR: Neste momento está a falar do absoluto, do supremo... Quando falamos de bom e mau estamos a falar dualisticamente.

K: Não, por isso é que quero sair deste assunto.

WR: Não se pode falar do absoluto, em termos de bom ou mau. Não há nada chamado bom absoluto ou mau absoluto.

K: Não. A coragem é o contrário do medo? Quer dizer, se não existir o medo, existe a coragem? Ou é uma coisa completamente diferente?

WR: É uma coisa completamente diferente.

K: Por isso, não é o contrário. A bondade nunca é o contrário da maldade. Então, de que estamos a falar quando dizemos: «Vou modificar-me, mudar do meu condicionamento, que é mau, para a libertação desse condicionamento, o que é bom?» Portanto, a libertação é o oposto do meu condicionamento. Por isso, não é liberdade de todo. Essa liberdade tem origem no meu condicionamento, porque estou enredado nesta prisão e quero libertar-me. Trata-se de uma reacção à prisão, não se trata de liberdade.

WR: Não percebo bem.

K: Vamos considerar por uns minutos o seguinte: o amor será o oposto do ódio?

WR: A única coisa que se pode dizer é que onde há amor não há ódio.

K: Não, a minha pergunta é diferente. Eu pergunto: o ódio é o oposto do afecto, do amor? Se é, então, nesse amor, há ódio porque tem origem no ódio, no seu oposto. Todos os opostos têm origem no seu oposto. Não?

WR: Não sei, isso é o que o senhor diz.

K: Mas é um facto. Olhe, se eu tenho medo, cultivo a coragem. Está a ver, para afastar o medo, tomo uma bebida ou qualquer coisa semelhante e tudo o mais para me ver livre do medo. E, no fim, digo que sou muito corajoso. Todos os heróis de guerra recebem medalhas por isso. Porque têm medo, dizem: «Temos de ir em frente, matar», ou fazem qualquer outra coisa e tornam-se muito corajosos, heróis.

WR: Isso não é coragem.

K: Eu digo que qualquer coisa com origem no seu oposto contém o seu próprio oposto.

WR: Como?







K: Se alguém odeia e, no fim, diz: «Tenho de amar», esse amor nasce do ódio. Porque sabe o que é o ódio e diz: «Não posso ser isto, tenho de ser aquilo». Portanto, aquilo é o oposto de isto. Assim sendo, o oposto contém isto.

WR: Não sei se é o oposto.

K: É assim que nós vivemos. É assim que nós agimos. Sou sexual, não devo ser sexual. Faço voto de celibato - não «eu» - as pessoas fazem voto de celibato, que é o oposto. É assim que estão sempre presas neste corredor de opostos. E eu questiono todo este corredor. Acho que ele não existe; nós inventámo-lo mas, de facto, ele não existe. Quero dizer, por favor, isto é apenas uma explicação, não aceitem qualquer coisa como certa.

IS: Pessoalmente, como hipótese de trabalho, considero este canal de opostos como um factor de humanização e nós estamos enredados nele.

K: Oh não, não é um factor de humanização. É como dizer: «Eu fui uma entidade tribal, agora tornei-me uma nação e, mais tarde, acabarei por me tornar internacional.» Continua a ser tribalismo em acção!

DB: Acho que vocês os dois estão a dizer que nós, de alguma forma, progredimos, na medida em que não somos tão bárbaros como éramos antes.

IS: Isso é o que eu quero dizer com factor de humanização.

K: Questiono que seja de humanização.

WR: Não gosto de entrar em extremos.

K: Isto não são extremos, são apenas factos. Os factos não são extremos.

DB: Está a dizer que isto não é progresso genuíno? No passado as pessoas eram em geral muito mais bárbaras do que são agora. O senhor diria que esse facto realmente não significa muita coisa?

K: Nós ainda somos bárbaros.

DB: Sim, somos, mas algumas pessoas dizem que não somos tão bárbaros como éramos.

K: Não tão bárbaros.

DB: Vamos ver se nos entendemos. Então, diria que isso não é importante, que isso não é significativo?

K: Não, quando digo que sou melhor do que era, isso não tem significado.

DB: Acho que temos de esclarecer isso.

WR: Em sentido relativo, dualista, não aceito isso, não o vejo assim. Mas, em sentido absoluto, último, não há nada disso.

K: Não, último, não - nem mesmo posso aceitar essa palavra «último». Vejo como o oposto surge no dia-a-dia, não no «sentido supremo». Sou ganancioso, isso é um facto. Tento tornar-me não-ganancioso, o que é um não-facto, mas, se permanecer com o facto de que sou ganancioso, posso, efectivamente, fazer alguma coisa a esse respeito. Assim, não há oposto. Por exemplo, a violência e a não-violência. A não-violência é o oposto de violência, um ideal. Por isso, a não-violência é um não-facto. O único facto é a violência. Desta forma, posso lidar com factos, não com não-factos.









WR: Então qual é a sua posição?

K: A minha posição é que não há dualidade mesmo na vida diária. Trata-se de uma invenção de todos os filósofos, dos intelectuais, visionários, idealistas, que dizem que existe o oposto, que trabalham para provar ou alcançar isso. O facto é que eu sou violento, é tudo, lidemos com isso. E, para lidar com isso, não inventemos a não-violência.

IS: A questão agora é: como hei-de eu lidar com isso já que aceitei o facto de que sou violento?

K: Aceitar, não, é um facto.

IS: Tendo compreendido isso.

K: Podemos então continuar, eu mostro-lhe. Mas, primeiro, tenho de ver o que estou a fazer agora. Estou a evitar o facto e a fugir para o não-facto. Isso é o que se passa no mundo. Por isso não fujam, permaneçam com o facto. São capazes disso?

IS: Bem, a questão é: somos capazes, mas, muitas vezes, não gostamos de o fazer.

K: Claro que somos capazes. É como ver alguma coisa perigosa e dizer: «É perigoso, não me vou aproximar.» É perigoso fugir do facto. Pronto, acabou-se, não fujamos. Isso não quer dizer que vamos treinar, que vamos praticar não fugir. Não fugimos, é tudo. Creio que os gurus, os filósofos, inventaram o fugir. Desculpem.

WR: Não se trata de fugir, é completamente diferente, é errado pôr a questão nesses termos.

K: Não, não é.

WR: Não podemos fugir.

K: Não, estou a dizer não fuja, veja, não fuja, veja. Mas, em vez disso, dizemos: «Não consigo ver porque estou enredado nisso.»

WR: Percebo, compreendo muito bem o que está a dizer.

K: Então, não há dualidade.

WR: Onde?

K: Agora, na vida quotidiana, não em sentido absoluto.

WR: O que é a dualidade?

K: A dualidade são os opostos. Violência e não-violência. Sabe, toda a Índia tem vindo a praticar a não-violência e isso não faz sentido. Apenas há violência, é com isso que temos de lidar. Os seres humanos têm é de lidar com a violência, não com o ideal da não-violência.

WR: Concordo plenamente que quando vemos o facto é com ele que temos de lidar.

K: Sendo assim, não há progresso.

WR: Isso é apenas uma palavra que se pode usar de qualquer forma.

K: Não, não é de qualquer forma. Quando tenho um ideal, para atingir esse ideal, preciso de tempo. Certo? Por isso, vou evoluir nesse sentido. Portanto, nada de ideais - só factos.

WR: É isso mesmo. Qual é a diferença? Qual é a discussão entre nós? Ambos concordamos que só existem factos.



O Taj Mahal em Agra (Índia).



K: O que significa que, para ver os factos, não é preciso tempo.

WR: Certamente que não.

K: Portanto, se não é preciso tempo, posso vê-los agora.

WR: Sim, de acordo.

K: Pode vê-los agora. Por que razão não os vê?

WR: Porquê? Essa é outra questão.

K: Não, não é outra questão.

DB: Se levarmos realmente a sério que o tempo não é necessário, podemos talvez esclarecer todo o assunto agora mesmo.

WR: Sim, o que não significa que todos os seres humanos sejam capazes, algumas pessoas são capazes.

K: Não, se eu sou capaz de ver o facto, você também é.

WR: Acho que não, não concordo consigo.

K: Não se trata de uma questão de concordar ou discordar. Contudo, quando temos ideais diferentes dos factos, é preciso tempo para lá chegar, é preciso progresso. Preciso de conhecimento para progredir. Isso tudo está implicado, certo? Então, é capaz de abandonar os ideais?

WR: É possível.

K: Ah, não! A partir do momento em que usa a palavra «possível», o tempo está implicado!

WR: O que quero dizer é que é possível ver os factos.

K: Faça isso agora - desculpe, não pretendo ser autoritário - quando diz «é possível», já se afastou do facto.

WR: Quero dizer, tenho de dizer, que nem toda a gente é capaz.

K: Como sabe?

WR: É um facto.

K: Não, isso não aceito.

IS: Talvez possa dar um exemplo concreto. Se eu estiver numa prancha, bem alto, sobre uma piscina, e não souber nadar e me disserem: «Limita-te a saltar, relaxa completamente e deixa que a água te leve», isso é completamente verdade, eu sou capaz de o fazer. Não há nada que mo impeça, excepto o medo de o fazer. Acho que é esta a questão. Claro que somos capazes, não há qualquer dificuldade, mas há este medo primário que não nos deixa raciocinar, que nos faz esquivar.

K: Por favor, desculpe, não estou a falar disso, não é isso que estamos a dizer. Mas, se percebermos que somos gananciosos, por que razão havemos de inventar a não-ganância.?

IS: Não sei, porque me parece tão óbvio que se eu sou ganancioso, então, sou ganancioso.





K: Então, por que razão temos o oposto? Porquê? Todas as religiões dizem que não devemos ser gananciosos, todos os filósofos dignos desse nome dizem: «Não sejam gananciosos» ou outra coisa qualquer. Ou dizem: «Se forem gananciosos não vão para o céu.» Por isso, através da tradição, por meio dos santos, e tudo o mais, cultivou-se sempre esta ideia de oposto. Ora, eu não aceito isso. Eu digo que isso é uma fuga a isto.

IS: E é. É, quando muito, um ponto intermédio.

K: É uma fuga a isto, certo? E não resolve o problema. Por isso, para lidar com o problema, para o eliminar, não posso ter um pé lá e outro cá. Tenho de ter os dois pés aqui.

IS: E se os meus dois pés estiverem aqui?

K: Espere, isto é apenas uma comparação, nada mais. De facto, não há oposto que implique tempo, progresso, prática, tentativa, vir a tornar-se, toda a gama disso.

IS: Então eu vejo que sou ganancioso ou violento.

K: Agora temos de aprofundar uma coisa completamente diferente. Poderá o ser humano libertar-se da ganância agora? Essa é a questão. Não futuramente. Repare, não me interessa não ser ganancioso na próxima vida ou depois de amanhã, o que é que isso interessa? Quero libertar-me da dor, do sofrimento, agora. Então, não tenho quaisquer ideais. Certo? Tenho apenas este facto: sou ganancioso. O que é a ganância? A própria palavra é condenatória. Há séculos que a palavra «ganância» permanece na minha mente e a palavra condena imediatamente o facto. Ao dizer: «Sou ganancioso», já condenei o facto de o ser. Mas serei capaz de olhar para o facto sem a palavra e todas as suas implicações, o seu conteúdo, e a sua tradição? Observe. Não podemos compreender a profundidade do sentimento de ganância ou libertarmo-nos dele se estivermos enredados em palavras. Então, como a ganância diz respeito a todo o meu ser, digo: «Está bem, não vou ficar preso nela, não vou usar a palavra "ganância".» Certo? Mas esse sentimento de ganância ficará, então, livre da palavra, separado da palavra «ganância»?

IS: Então, não fica. Continue, por favor.

K: Só assim vejo o facto, só assim vejo o facto.

WR: Sim, sem a palavra.

K: Por isso, a palavra não tem valor, acabou. Aí é que está a dificuldade. Quero libertar-me da ganância, porque tudo no meu sangue, na minha tradição, na minha educação, na minha cultura me diz para me libertar dessa coisa feia. Por isso, estou constantemente a esforçar-me por me libertar dela. Certo? Não fui educado nesses moldes, graças a Deus. Por isso, eu digo: «Está bem, tenho apenas o facto, o facto de que sou ganancioso. Quero compreender a natureza e estrutura dessa palavra, desse sentimento. O que é? Qual é a natureza desse sentimento? É uma lembrança? Se é uma lembrança, estou a observar a presente ganância com as lembranças do passado. As lembranças do passado dizem-me para a condenar. Serei capaz de a observar sem as antigas lembranças?

Vou aprofundar isto um pouco mais porque a lembrança do passado condena a ganância e, assim, fortalece-a. Se ela é uma coisa nova, não a condeno. Mas, como não é, porque é nova mas tornada antiga pelas lembranças, memórias e experiência, condeno-a. Ora, serei capaz de observar sem a palavra, sem a associação de palavras? Isto não precisa de disciplina ou treino, não precisa de um guia - apenas isto - sou capaz de a observar sem a palavra? Sou capaz de olhar para aquela árvore, para uma mulher ou um homem, para o céu, o firmamento ou um pássaro, sem a palavra e descobrir o que são? Mas se alguém surge a dizer: «Eu mostro-lhe como se faz», então estou perdido. E, o «como fazer» é tudo do que tratam os livros sagrados - desculpem - de todos os gurus, dos bispos, dos papas (in Será que a Humanidade pode mudar?, Dinalivro, 2007, pp. 40-48).