sábado, 8 de março de 2014

Afonso Botelho e o problema universitário

Entrevista a Afonso Botelho



Alameda Universitária de Lisboa

«Mais do que fixar o que o aluno deve aprender, importa a um sistema de ensino superior valorizar a interrogação, ou a possibilidade prévia, do que aprende, de rejeitar a matéria fixada, e nos termos em que se fixou. Tal condição, que é própria do grau superior do ensino universitário, consente e promove o exercício da inteligência do adolescente na sua função de discriminar e dinamizar o saber. Interrogar é, assim, o verbo que proporciona ao espírito a manifestação da inteligência, do intelecto activo, antecedente da enunciação da "matéria", que aquele, primeiro, identifica e, depois, escolhe.

(...) O exame é, contudo, o obstáculo mais grave exactamente porque inverte o sentido da interrogação, dando toda a iniciativa ao examinador e afastando a "matéria" da individuação intelectual do estudante, da sua capacidade de identificação e de escolha».

Afonso Botelho


«(...) Não vemos na secular história das instituições de ensino exemplos bastantes para podermos falar na possibilidade de uma fecunda relação universitária de mestre-discípulo. Mas fomos discípulos de Leonardo Coimbra. E embora saibamos que só ocasionalmente Leonardo Coimbra foi professor universitário, embora não tenhamos sido seus alunos na Universidade – como José Marinho, como o Padre Dias de Magalhães – ao seu magistério atribuímos um exemplo fecundo do ensino universitário. Para quê? Para não perdermos a esperança nas instituições e assim sermos o reverso do poeta que "onde punha a esperança as rosas murchavam logo".

Bem vemos, pois, como é difícil tratar este problema do ensino. Mas se somos escritores e se somos senhores da nossa responsabilidade poderemos deixar de o tratar? E, ao tratá-lo, poderemos levar às evidentes consequências a crítica, que é o ponto de partida? Ou será, noutro extremo, o problema insolúvel? E se o é, podemos aceitá-lo como tal ou iludimo-nos em sucessivas, frustradas soluções? E todos nós, desde António Sérgio, que ainda terá vivido a grande esperança na reforma constitucional da República, desde Marcello Caetano e Delfim Santos, que viveram a confiança num poder quase criador do Estado, desde Magalhães Godinho, que tudo transfere para uma alteração mais estadual do que real, até Álvaro Ribeiro, que não desespera onde as rosas murcharam, e quando olha Saturno já vê nascer Apolo; até Afonso Botelho e António Quadros, últimos companheiros no mesmo drama, que já é mais vivo nos que se lhes vêm seguindo – todos nós havemos de sofrer ou de sorrir, com paciência ou com ironia, a esta velha história de que o "rei vai nu".

Todos nós o vemos nu, mas creio bem que temos já os ouvidos fechados à voz do primeiro homem de coragem que há-de conseguir gritar-nos isso que todos nós estamos vendo».

Orlando Vitorino

«Nas Faculdades de Letras, a "filosofia", entendida como produto ou manifestação departamental, equivale à revolta das Letras contra o Espírito. Por outras palavras, a filosofia não é uma actividade de gabinete, isto é, não é susceptível de desenvoltura e recriação pneumática em gabinetes gélidos onde os estudantes ou os candidatos a profissionais da "filosofia" se prestam a exames, vexames ou até a interrogatórios quase policiais com a mera finalidade de passar à cadeira e, por conseguinte, obter o diploma de fim de curso. De resto, os profissionais em questão destinam-se, na sua maioria, a engrossar as fileiras de funcionários públicos do ensino médio, onde, caso consigam singrar, limitar-se-ão a inculcar aos adolescentes um programa curricular praticamente ditado pelas directrizes ideológicas de uma agência especializada das Nações Unidas, mais particularmente da UNESCO».

Miguel Bruno Duarte




Afonso Botelho e o problema universitário

No inquérito aos pensadores católicos iniciado há algumas semanas nesta página da Flama, cabe hoje a vez de ouvir o escritor Afonso Botelho, personalidade bem conhecida pelo mérito dos seus livros e pela sua acção social nos ambientes culturais. Autor de livros que não escaparam à observação do público, tais como O Drama do Universitário e Estética dos Painéis, para não citar mais elementos de uma vasta bibliografia, o nosso entrevistado exerceu as funções de chefe dos Serviços da Campanha Nacional de Adultos.

Convidado a prestar as suas declarações sobre o problema universitário, o ilustre escritor acedeu gentilmente. A princípio ficámos embaraçados na escolha da primeira pergunta, mas logo tomámos a decisão de começar a entrevista abruptamente para não perder tempo. E assim dissemos:

- Continua o sr. dr. Afonso Botelho ainda interessado pelos problemas do ensino? Não esqueço o efeito do seu ensaio O Drama do Universitário, tão discutido por altura da sua publicação.

- Continuo, mas de um modo muito diferente daquele com que escrevi esse meu livro. Hoje penso e sinto a Universidade intelectualmente, ao passo que há cinco anos escrevia porque participava intimamente nos destinos da instituição universitária. Escrevi grande parte do livro enquanto estudante e sinto-me honrado por isso, esquecendo assim as críticas, sobretudo dos professores, que procuravam esconder a razão dos argumentos na motivação pessoal do autor. Estas críticas parecem-me falsas não só relativamente àquela obra mas também na dialéctica da cultura portuguesa em que a maior deficiência está na falta de participação pessoal nas ideias e nos problemas.

Se a Universidade na minha opinião deve ser dos estudantes, só os estudantes enquanto tais, isto é, enquanto sofrem as humilhações morais e intelectuais provenientes do desvirtuamento da Universidade, estão em condições de escreverem, de falarem ou de pensarem sobre ela.


Afonso Botelho


- Quer dizer, se bem entendo o pensamento que o sr. dr. expressou já em O Drama do Universitário, a Universidade será uma corporação dos estudantes. E os professores? De que modo participariam nesta Corporação?

- Na verdade sempre pensei e afirmei que a instituição universitária pertence aos estudantes. Hoje estou ainda mais convencido disso e dou até ao verbo pertencer o seu mais amplo significado. A experiência ensinou-me que as manifestações parciais da autonomia dos estudantes perdem-se tanto nos Conselhos das Faculdades como no silêncio com que a opinião pública acolhe e isola as mais legítimas reclamações. E enquanto não se entender a Universidade como uma corporação só dos estudantes, todas as tentativas, conscientes ou inconscientes, de restaurar a Universidade apenas podem ser consideradas como reclamações, sujeitas portanto, mesmo quando legítimas, a não serem atendidas por motivos de interesse geral ou pela natural disposição para o esquecimento. Só depois de se fazer presente esta ideia é que poderia ser útil responder à sua pergunta, visto que o destino que caberia aos professores na Universidade só estaria em causa depois dela pertencer aos estudantes. Nesta situação surgiria uma alternativa; ou os professores entrariam na corporação também como estudantes, ou seriam seus funcionários.

- Quer o sr. dr. dizer que lhe repugna considerar os professores como empregados da Universidade, quaisquer que sejam as categorias ou nomenclaturas com que encubram a sua situação servil, ou de serviço, perante o Estado?

O nosso entrevistado não respondeu porque seguia talvez outra linha de pensamento. Resolvemos insistir:

- Em vez de empregados do Estado, os professores seriam talvez empregados dos estudantes ou da respectiva Corporação. Não é assim?

- De modo nenhum, pois do meu ponto de vista a Universidade não se relaciona directamente com a cultura. Da confusão entre a Universidade e a cultura provêm as consequências que cada estudante tem ocasião de verificar diariamente, pois nas aulas ou nas publicações de carácter universitário fica patente que os assuntos culturais surgem sempre diminuídos e empobrecidos, parecendo imediatamente aos auditores ou leitores que eles são expostos em segunda mão. Com efeito, a Universidade considerada como fonte de cultura tem que ser sempre inferior aos meios actuais de difusão cultural, mais directos e mais fiéis, às verdadeiras fontes de criação que foram e serão exclusivamente as obras individuais.








- Desculpe, mas neste ponto não estou de acordo consigo. Parece-me, que separando o espírito e a cultura, o autor e o professor, diminuirá muito a importância e a missão da Universidade...

- Pelo contrário, a separação que eu faço não serve para diminuir a Universidade mas para a dignificar, visto que não reputo a cultura como a manifestação mais elevada do espírito humano. Acima da cultura coloco a sabedoria e acima dos autores, a verdadeira autoria que é, como quem diz, a inspiração divina na participação da Verdade. Separando a Universidade da cultura, liberto-a daquela situação inferior em que a espera uma derrota certa na concorrência dos outros meios e das outras instituições culturais.

- Então qual a verdadeira missão da Universidade segundo o seu ponto de vista?

- Já que você fez e muito bem a distinção entre autor e professor posso dizer-lhe que a Universidade, para mim, não deve preparar professores, isto é, homens com licença para expor e examinar, mas futuros autores ou seja, homens dispostos a encontrar a autonomia dos seus actos na relação transcendente com o princípio de toda a autonomia, ou de toda a autoria. Daí que a relação mais elevada que pode haver entre o corpo docente e o corpo discente passe a ser, na Universidade que prevejo, a relação mestre-discípulo. Para ela deve tender a convivência quotidiana de professores e alunos, embora ela só se consiga raramente porque raros são os verdadeiros mestres e pouco frequentes os bons discípulos. No entanto, volto à mesma ideia afirmando que tal relação mestre-discípulo só se realizará se o professor entrar na Corporação Universitária na qualidade de estudante e se, portanto, só aos estudantes couber o governo da mesma Corporação.

Terminam aqui as declarações do nosso ilustre entrevistado. Ao compilar as notas para a redacção deste texto pareceu-me ver que as teses do dr. Afonso Botelho são hoje as seguintes:

1. A Universidade deve ser a Corporação dos estudantes, e por eles dirigida.
2. Os professores são também estudantes mais adiantados e mais experimentados.
3. Mestres e discípulos colaboram na realização de uma obra que está acima da cultura divulgadora.
4. Não há, portanto, lugar para exames nem para desigualdades humilhantes de categorias sociais ou profissionais dentro da Universidade.

(in Flama, ano XIV, n.º 522, Lisboa, 7 de Março, 1958, pp. 11 e 18. Conversa originalmente editada com o título: "A instituição universitária pertence aos estudantes").

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