terça-feira, 18 de março de 2014

Portugal e o Futuro

Escrito por Orlando Vitorino





«(...) Era o marxismo que naturalmente estava indicado para ocupar o lugar vago deixado na alma russa pela sua não-aceitação cultural, pelo seu radical niilismo e pelo seu sonho idealista, messiânico e apocalíptico da Parúsia. 

Foi, com efeito o marxismo que deu corpo a todo o revolucionarismo russo, que, parafraseando Turgueniev, poderemos dizer que vivia no estado gaseiforme - embora de gases tóxicos e em pressão explosiva.

A história do marxismo na Rússia é, depressa, a história do leninismo e, mais até, a história do próprio Lenine. 

(...) o Universo bolchevista é um Fim, mas um Fim que só se poderá atingir em sonho, e sonho de natureza das profecias de Soloviev sobre o Anticristo: uma humanidade bastando-se, na plenitude dos seus apetites satisfeitos, vivendo e morrendo na fusão gregária, pandemonista, de cada homem no Oceano do humanismo comunista...». 

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).


«(...) O grito de alarme, lançado frequentemente até à pouco, a saber, que o percurso da técnica deve ser dominado, o seu ímpeto sempre mais forte para novas possibilidades de desenvolvimento submetido ao controlo - este grito testemunha por si só a apreensão que se espalha. Ignora que se exprime na técnica uma exigência de que o homem não pode impedir o cumprimento, que pode ainda menos ver e dominar. Entretanto - e sobretudo isto é significativo -, estes gritos de alarme calam-se cada vez mais, o que não quer dizer que o homem controla seguramente a técnica. O silêncio traduz muito mais o facto de que face à reivindicação do poder pela técnica o homem se vê reduzido à perplexidade e à impotência, quer dizer, à necessidade de se conformar, pura e simplesmente - explícita ou implicitamente -, ao carácter irresistível da dominação tecnológica. Quando se aceita, antes de mais, nesta submissão ao inevitável, a concepção corrente da técnica, adere-se então nos factos ao triunfo de um processo que se reduz a preparar continuamente os meios, sem nunca se preocupar com uma determinação dos fins...». 

Heidegger («Língua de tradição e língua técnica»). 


«(...) Foi Hegel para a filosofia nórdica o sistematizador enciclopédico que Aristóteles terá sido para a filosofia grega. Foi também o seu derradeiro pensador optimista, o último em quem não aflorou a suspeita sequer de que o mundo espiritual a que pertencia ia entrar em crise. Não só o via aberto a todo o futuro como nele encerrava todo o passado, para lá da modernidade, de romanos e gregos, do remotíssimo oriente até antes da criação do mundo. Concebeu de tal modo, e com tal génio, a ideia, que a ideia pensada constituía todo o pensamento, futuro e antigo, humano e divino. Dizia que o seu pensamento era o pensamento de Deus antes da criação do mundo e dizia que o pensamento de qualquer singular filósofo continha, já pensado, o pensamento de todos os homens que o precederam. 



Martinho Heidegger



Todavia, Martinho Heidegger diz-nos que Hegel, "com a sua determinação especulativa e dialéctica da história", se viu inibido de considerar "a verdade e o seu reino" como sendo a finalidade da filosofia e, muito embora, "tenha fixado o reino da pura verdade como fim da filosofia", atribui-lhe por objecto ou por essência "a actividade da vontade absoluta". Todavia, repetimos, Heidegger diz-nos que o pensamento de Hegel, com justa razão considerado a sistematização da filosofia nórdica, é um sistema da vontade, inibido de ter a verdade por sua finalidade ou seu princípio. 

Dizia também Hegel que "a filosofia é filha do tempo", mas com a condição de ultrapassar os limites do seu tempo ou de neles encerrar todos os tempos passados e futuros. O que Heidegger nos afirma é, porém, que, sistema da vontade, o hegelianismo é bem a filosofia de um tempo que não ultrapassou e nele encontra seus bem demarcados limites. E propõe que o filósofo, em vez de hegelianamente assumir todo o pensamento até ele pelos homens pensado, antes se despoje de tudo o que foi pensado ao longo dos tempos e reverta àquela origem - de que parece ver mais próximos os pré-socráticos - onde o saber da verdade, ou a mesma verdade, terá tido porventura uma expressão imediata. 

Há nesta proposta de Heidegger uma espécie de má consciência ou de dramática visão da crise, se não da nulidade, de toda a filosofia nórdica. Significativamente, é hoje Heidegger o mais qualificado representante dessa filosofia e embora, na proposta reversão do pensamento ao saber original, todos os seus sentidos se abram aos filósofos gregos, os pensadores que mais demorada e atentamente parece ter estudado foram Duns Escoto e Frederico Nietzsche, a ambos dedicando volumosos escritos: Escoto, como temos visto, representa o decisivo impulso da filosofia nórdica; e Nietzsche é quem vislumbra e primeiro o proclama, num sentido o fim dessa filosofia, noutro sentido a inferioridade dela perante o pensamento dos povos meridionais, não só o dos antigos gregos mas também o dos católicos da renascença e das lutas luteranas e o dos seus contemporâneos itálicos e franceses. Na sua visão perturbada, não consegue porém desprender-se da filosofia que, em sua exaltação genial, repudia e condena, e paradoxalmente atribui à vontade aquele primado que constitui a substância dessa filosofia. 

Com Nietzsche e até Heidegger, define-se o século da crise e porventura o encerramento da filosofia moderna, cuja perduração já parece apenas institucional. Um discípulo de Heidegger, Herbert Marcuse, vai já ao ponto de dar tal encerramento por concluído, afirmando que Hegel é o derradeiro dos filósofos e, com ele, a filosofia transita à sociologia ou teoria social. 

Marcuse vê bem que uma filosofia que fez da vontade seu fundamento, apenas se pode apresentar como filosofia enquanto elabore o processo que, abdicando da soberania da verdade e sacrificando o amor ao saber, conduz ao predomínio da acção em que a vontade se manifesta. A missão da filosofia moderna terá sido portanto a de negar o princípio da verdade. Derradeira e mais perfeita sistematização dessa filosofia, o pensamento de Hegel, concebendo o espírito como "o negativo que qualifica a razão e o intelecto" será o pensamento da negação incessante, factor dinâmico da dialéctica e da história. 

Estaremos pois a assistir ao anoitecer da filosofia nórdica, estaremos talvez no crepúsculo de uma civilização. Não vamos agora lembrar a antiga sabedoria mítica com a imagem, tão grata a Hegel, do pássaro de Minerva que levanta voo ao anoitecer. Uma funda decepção paira neste fim do dia que na liberdade julgou ter sua luz solar mas que, ao desligá-la da verdade e fazer dela o assunto da vontade, essa mesma liberdade comprometeu». 

Orlando Vitorino («Refutação da Filosofia Triunfante»). 





Portugal e o Futuro 



Leonardo Coimbra



Os dois grandes pensadores da nossa época são o português Leonardo Coimbra e o alemão Martinho Heidegger. Um, homem do centro da Europa, talvez centro da terra, o outro, homem da periferia da Eurásia, homem do Finisterra.

A nossa época é a da desolação do mundo, designação de Leonardo que Heidegger utiliza. A desolação do mundo é descrita nos mesmos termos pelos dois pensadores: é o império da técnica no vazio da existência. Para ambos, a técnica e o igualitarismo são solidários. Portanto, o império da técnica é também o império do igualitarismo.

Leonardo, que não assistiu à Segunda Guerra Mundial, só conheceu a formação do império do igualitarismo no império comunista russo. Heidegger, que sofreu a guerra mundial no centro da catástrofe e viveu ainda mais quarenta anos, conheceu a formação do império da técnica no império tecnológico americano e pôde dizer que a Europa – isto é, a civilização pois só há civilização criada pela filosofia e só há filosofia na Europa – está sendo esmagada entre o império russo e o império americano.

Nenhum dos pensadores assistiu à implosão do império comunista russo. Semelhante implosão aguarda o império tecnológico americano.

Heidegger não previu nem uma nem outra implosão, e morreu no desespero do seu pensamento que é o desespero do característico pessimismo da filosofia alemã, afirmando que “só um Deus nos pode salvar”.

Leonardo anunciou o inevitável termo do império comunista que tinha perante si e que descreveu, com suas razões de ser e sua intrínseca falácia, num dos livros fundamentais do pensamento contemporâneo que intitulou A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, mas hoje vemos que podia ser intitulado O Mundo de Hoje e o Homem de Sempre ou a Desolação do Mundo e o Homem de Sempre. Aí, como Heidegger, associa o igualitarismo à técnica com uma minúcia saturada de um conhecimento da ciência positiva que o alemão não possuía, e descreve a técnica como o último estádio de um pensamento científico desviado da origem que o tornou possível: a relação de caridade, isto é, do amor em acto, entre o homem e a natureza que o cristianismo trouxe. O último estádio, disse eu, do pensamento científico porque a tecnologia que se forma sobre os triunfos da técnica dispensa o pensamento científico como a ciência positiva dispensara o pensamento metafísico.

Ambos os pensadores – um ao outro se desconhecendo – entendem igualmente que toda a filosofia ou toda a metafísica (para os dois são o mesmo) é o platonismo.

Diz o português: é a reactualização do platonismo; diz o alemão: é o percurso do platonismo. Para Heidegger a transcendência não interfere no pensamento e, por isso, o platonismo segue o seu percurso sem qualquer interferência do cristianismo. Para Leonardo, o platonismo alcança a plenitude no cristianismo, sem o qual seria, como Heidegger entende, o portador do niilismo, da técnica e da irrealidade do mundo e do homem.

Jesus Cristo às portas de Jerusalém


Compreende-se então, o desespero de Heidegger perante o império do igualitarismo que inviabiliza o pensamento, e perante o império da técnica, que anuncia, pela voz de Nietzsche, derradeiro filósofo alemão, a morte de Deus e a morte do homem.

Compreende-se também que a realidade que o cristianismo trouxe ao mundo e ao homem, irreais do platonismo, levasse Leonardo a demonstrar a necessária vitória do homem de sempre sobre o mundo desolado do império do igualitarismo e da tecnologia.

Se os dois pensadores do mundo de hoje são um português e um alemão, se o mundo, como toda a realidade (ou, numa linguagem mais metafísica, o “ser”) são o que for o pensamento – e nesta identidade de pensar e ser estão também concordes Leonardo e Heidegger, aliás segundo uma tradição que remonta ao remoto originário Parménides - , se, enfim, “toda a filosofia é situada” como diz José Marinho, e a sua situação é a radicação na entidade espiritual do povo em que é pensada, como entende Álvaro Ribeiro, então temos de concluir que o mundo é, hoje, dramaticamente, e será no futuro, talvez sem tragédia, o que forem a Alemanha e Portugal. Todo o futuro se decidirá no conflito entre o pensamento português e o pensamento alemão, entre Leonardo e Heidegger. Se a implosão do império comunista russo decidiu a favor de Leonardo, também assim decidirá a implosão do império tecnológico americano, implosão igualmente suposta no platonismo reactualizado de Leonardo?

Consideremos a questão seguindo uma linha mítica, de acordo com este colóquio ou seminário. Entende Heidegger que a palavra é a morada do ser e que o poeta é o guardião da palavra. O seu poeta é Hölderlin. Entende Leonardo que a poesia é a voz dos mitos. Os seus poetas, poetas mitogénicos, são Pascoaes e Camões.



Túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerónimos (Lisboa).



Uma pátria é a entidade espiritual que emerge da acção histórica quando a acção histórica a tornou real. A acção histórica de que emergiu Portugal em sua entidade espiritual foram os descobrimentos. Neste seu sentido ou movimento, a acção histórica contém um pensamento a que a poesia, muito mais do que os acontecimentos que a compõem, dá expressão num mito, enquanto a filosofia não a concebe numa ideia. O mito encontra-se n’Os Lusíadas, a ideia na filosofia de Leonardo e seus epígonos. Desta, já deixámos as alusões suficientes. Do mito convém ao tema do colóquio que falemos.

O mito cria-se sobre a viagem do Gama, desvendando os oceanos até alcançarem não a Índia, como ensinam os historiadores nas escolas e em seus tomos, mas a sabedoria. O fim da viagem – e todo o autêntico fim, ou causa final, é também o princípio – o fim da viagem está na Ilha do Amor (dos Amores para os profanos). Aí, a sabedoria é revelada ao Gama pela deusa Tétis em seu templo no alto das montanhas donde se avistam os mares, os continentes, os mundos terrestres e celestes.

Alcançado o fim, os nautas regressam porque, como diz Sampaio Bruno, “só se viaja para regressar”. Mas chegados ao lugar da partida e do regresso, os homens do Estado e da República, ambiciosos por natureza, escondem ou fazem desaparecer os livros da sabedoria, como o Tratado das Causas, as Décadas e a Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros, escondem a razão porque o cosmógrafo dos navegadores, Pedro Nunes, desdenha a geografia de Copérnico e conserva a de Ptolomeu, e fazem do descobrimento que levou à Ilha do Amor um vulgar caminho marítimo da Índia para negociar especiarias ao abrigo de um frágil império comercial que depressa se desfaz. É o reverso da entidade espiritual que emergira enfim da acção histórica. É o retrocesso na história universal, isto é, na história destinada ao uno ou à unidade do mundo. É a silenciosa traição.



Mosteiro da Batalha



Expulsos da Índia, esses homens do Estado e da República fixam-se a meio do caminho, prendem-se à África sem civilização onde vão explorando os nativos e perdendo o sangue. É a longa, triste e ruinosa decadência. Quatro séculos de decadência, até chegarmos hoje ao fundo da noite. Mas é na noite que levanta voo o pássaro de Minerva.

Então se erguem sinais do futuro. O luminoso sinal é ter encontrado em Leonardo o seu conceito e a sua ideia o pensamento que faz emergir a entidade espiritual de Portugal, isto é, da Pátria, da acção histórica que conduziu. Sinal ainda envolto em sombras é o abandono, enfim, do esgotante agrilhoamento à África, é o movimento populacional, militar e político que liberta Portugal da inutilidade africana. Não foram as populações colonizadas que se libertaram dos portugueses, foi o povo português que se libertou, enfim, dos colonizados.

Estes sinais continuam a ser naturalmente combatidos pelas inércias mergulhadas em longos séculos de decadência.

Ao sinal luminoso de Leonardo ainda as instituições bem instaladas fazem por encobrir quanto podem, mas já podem pouco. Ao sinal de libertação dos grilhões africanos ainda o envolvem em brumas sebásticas a nostalgia dos reaccionários de mãos dadas com o europeísmo dos revolucionários. Aos revolucionários, oculta-lhes a ingénua ignorância o fundo desespero que Heidegger sondou na Europa sujeita ao igualitarismo, à técnica e ao niilismo, à morte de Deus e à morte do homem.

Em sua respeitabilíssima santa simplicidade, tanto os reaccionários como os revolucionários estão longe de poder saber que o futuro se há-de decidir do confronto, que tem a expressão suprema, com raízes na remota origem e no sempre presente princípio da civilização, entre o pensamento de Martinho Heidegger e de Leonardo Coimbra. Nada mais, por agora, é preciso ou convém acrescentar (in As Linhas Míticas do Pensamento Português, Colóquio, Fundação Lusíada, Lisboa, 1955, pp. 43-48).







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