sábado, 22 de março de 2014

Um novo livro de José Marinho

Escrito por Álvaro Ribeiro



Arc de Triomphe (Paris).

«Na classificação das ciências positivas e das disciplinas filosóficas há quem siga tão de perto a nomenclatura francesa que chega a enunciar os problemas em termos muito mais obscuros do que se utilizasse a linguagem comum, preferindo as palavras que cegam às palavras que fazem ver. Esquecemo-nos de que beneficiámos da disciplina escolástica por mais três séculos do que os Franceses, de que deveríamos permanecer quanto possível fiéis à nomenclatura de Aristóteles, e parecemos ignorar até as vicissitudes semânticas de cada palavra na história da nossa língua. Chegamos a ponto de denominar à francesa os sistemas de proveniência espanhola, inglesa e alemã.

A prova de que por de mais utilizamos textos franceses é-nos dada em muitos adjectivos que na desinência deixam vestígios de tradução demasiado literal. Termos como platoniano, aristoteliano, espinosiano, kantiano, hegeliano, etc., mostram que foram formados mediante o platonien, aristotélien, spinosien, kantien, hegelien, quando mais portuguesas formas existem para os adjectivos referentes a Platão, Aristóteles, Espinosa, Kant e Hegel. Estes exemplos bastam para indicar a classe inteira de abstardamento idiomático que devemos ao abuso da língua francesa como intérprete do pensamento filosófico.

O modo por que são entre nós traduzidos os livros franceses, geralmente tão fiel que escolhe as palavras de maior semelhança morfológica, tem por efeito repelir para o esquecimento e retirar o uso dos vocábulos diferentes que deveriam figurar na nossa nomenclatura e na nossa terminologia. Raros são já os tradutores e os escritores que ainda reagem fiéis ao espírito do próprio idioma, evitando que desvios de expressão permitam desvios de pensamento em nossos livros de filosofia. Teixeira de Pascoaes, em escritos notáveis, chamou a atenção dos poetas para as palavras portuguesas que não possuem equivalente semântico nas outras línguas, e a tais palavras chamou por isso intraduzíveis.

De palavras intraduzíveis dava Teixeira de Pascoaes como exemplo os seguintes substantivos: abismo, ermo, espectro, fantasma, luar, medo, mistério, nevoeiro, saudade, silêncio, solidão e sombra, e os adjectivos lúgubre, oculto e remoto. Só nós, Portugueses, sabemos usar de tais palavras com significação poética, mas quando exprimimos o nosso saber com sinónimos ou definições que os dicionaristas consolidam, desvalorizamos a poesia idiomática. Este câmbio vocabular facilita a argumentação de quantos impugnam, em nome de um falso supra-nacionalismo humanista, a tese profunda de Teixeira de Pascoaes.




Se, efectivamente, não existem sinónimos perfeitos, cada palavra portuguesa, ao sair do uso corrente, repelida pela força da tradução, leva consigo e retira do idioma a potência evocadora de um sentido, de um conceito ou de uma ideia. Deste empobrecimento do léxico resulta um enfraquecimento mental. Ilusório é julgar que algum benefício compensa a influência desnacionalizadora da tradução.

O uso e o abuso da leitura e da tradução de livros franceses aclima e cultiva certas formas sintácticas e estilísticas que amaneiram, dificultam ou inibem o que naturalmente tenderíamos a dizer segundo o modo vernáculo do povo português. A prosódia e a sintaxe francesas, com o seu classicismo e racionalismo, formadas no tempo de Vaugelas, Descartes e Bossuet, são perniciosas para a expressão de um pensamento como o nosso que, não sendo de estrutura moderna, não se reveste de forma clássica, e, sendo de tradição medieval, em tudo anseia por liberdade».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).


«(...) É notável o modo como Álvaro Ribeiro, mostrando e demonstrando, em A Arte de Filosofar, a aptidão da nossa língua para a expressão filosófica, nos adverte para a hegemonia cultural que a Alemanha e a França efectivamente exercem no domínio linguístico, estilístico e literário dos outros povos, a que não escapa, por desleixo próprio, o povo português. Exemplos deste desleixo, oriundos sobretudo de más traduções de livros e notícias, são a importação de adjectivos e substantivos estrangeiros, mesmo quando graficamente nacionalizados. É o caso da tradução à francesa, demasiadamente literal, dos adjectivos platonien, aristotélien, hegelien, respectivamente vertidos em platoniano, aristoteliano e hegeliano.

Deste abuso resulta o que Álvaro Ribeiro designava por «abastardamento idiomático», tão presente, como actualmente se pode observar, em textos e expressões redigidas e proferidas por universitários. É o caso daqueles que, referindo-se à filosofia de José Marinho, usam e abusam do adjectivo «marinhiana», pois ao introduzir um a, abafam e abatem em feia monotonia a altiva sonoridade do falar português...».

Miguel Bruno Duarte («De Montargil a Estremoz», in Noemas de Filosofia Portuguesa).



Barragem de Montargil



MENSAGENS LITERÁRIAS - UM NOVO LIVRO DE JOSÉ MARINHO

A publicação de um livro de José Marinho assinala um acontecimento de repercussão fundamental na espiritualidade portuguesa. É sempre o resultado de um labor profundo, austero e sincero, mas também um documento de difícil leitura que só detém a atenção das pessoas inteligentes. Escrita mediante frases perplexas e circunlóquios dubitativos, sem dogmatismo na afirmação ou na negação, um livro de José Marinho semeia perguntas e interrogações à seriedade mental do leitor esclarecido, mas projecta também as reflexões e as respostas que, escondidas em terreno de actualizada cultura, aguardam o momento de serem reconhecidas à luz tradicional da filosofia perene.

O autor da Teoria do Ser e da Verdade, apesar dos seus dons de eloquência oral e escrita, parece-nos mais um ocultista do que um iluminista, já que a sua profissão ou confissão não é propriamente a de dizer, de clamar, de proclamar. Na sobriedade dos seus textos modelares só os espíritos mais diligentes lograram discernir e alcançar as teses que revelam a singularidade do mais original, quer dizer, do mais extraordinário pensador português novecentista. No dizer de um crítico assaz exigente como é Alberto Ferreira, José Marinho possui uma linguagem susceptível de ser entendida, visto que se pode encontrar, mediante conveniente esforço analítico, o seu conteúdo significativo (Real e Realidade, 149).

Afirma ainda Alberto Ferreira que quatro únicos pensadores possuem linguagem filosófica: António Sérgio, Vieira de Almeida, José Marinho e Delfim Santos. Tal atributo não lhes tem sido muito generoso, pois não lograram sem equívocos a aceitação do favor público, se medirmos o êxito das suas doutrinas nos limites da respectiva comunicabilidade. Elogiado por quantos lhe admiram o talento dialéctico ou por quantos estimam seu fundo humanismo e humanitarismo, José Marinho não beneficiou até agora da palavra amiga de alguém que, sem preconceitos nem ressentimentos, lograsse circunscrever por crítica pura a validade das suas asserções transcendentais ou transcendentes.

Algo de valioso tem sido escrito em Portugal sobre filosofia e respectiva didáctica. Leonardo Coimbra, seus colegas universitários Ângelo Ribeiro e Newton de Macedo, seus discípulos mais ou menos fiéis como Eugénio Aresta, Augusto Saraiva, Sant'Anna Dionísio e Delfim Santos foram autores de textos que, dedutivamente coligidos, formariam um documento notável sobre a crise espiritual portuguesa no século XX. Efectivamente, só na altura especulativa a que o filosofar autêntico oferece jus, poderíamos ver quanto a sucessão do positivismo (Comte), do evolucionismo (Spencer) e do materialismo (Lenine) desenha os três actos da tragédia em que se envolve ou revolve uma república perdida para o Reino de Deus.


Jesus Cristo anuncia o Reino de Deus


O Professor José Marinho, que durante decénios ou vinténios se absteve de prativar a crítica filológica à pedagógica (sem esconder seu desdém pelos seus coetâneos e contemporâneos que se dedicavam a explicar as «causas da decadência dos povos peninsulares» e a preconizar a reforma da mentalidade ou a instauração da filosofia), resolveu, enfim, prestar o seu auxílio tardio, mas superior e eficiente, a quantos militam, sacrificam e morrem pela convicção de que só uma intuição portuguesa nos dará a verdade capaz de garantir o nosso ser. Afastado da prática docente onde prestou as provas mais válidas do que seja um verdadeiro didacta de adolescentes, José Marinho assume agora a sublime coragem intelectual de propor, ante a situação do povo português, a tese clara de que a «filosofia é o fundamento, o processo e o fim de toda a educação». O escritor actua com aquela prudência que é sempre indispensável ante uma situação positivista, ou neopositivista, que toma para paradigma didáctico a instrução científica, ou a divulgação científica, bem avisado como foi de que qualquer tentativa para «acordar do sono dogmático» (Kant) será imediatamente seguida de repressão, represália ou vingança por quantos negam a Liberdade, o Espírito, Deus.

A educação não é uma batalha, e admitindo, como nós admitimos, que ela exija um mínimo de constrangimento, julgamos de mau gosto e de mau agouro designá-la por imagens que provoquem ou atraiam a aguerrida luta entre alunos e professores. Tudo quanto seja trabalho pacífico, disciplinado, hierarquizado, pressupõe demorada e informada reflexão imparcial sobre os princípios, os meios e os fins. Nada disso encontraremos na bibliografia portuguesa das oficializadas «ciências pedagógicas», cuja expressão absurda e contraditória não permitiria augurar resultados certeiros, distintos ou célebres, porque epistemologicamente não há tais ciências, e porque etimologicamente a palavra pedagogia, sendo de raiz infantil ou pueril, tem uma acepção muito mais restrita do que a palavra didáctica, extensiva esta a todos os ramos ou graus de escolaridade.

Filosofar é, para José Marinho, aprender a pensar, ensinar a pensar. Tal é o escândalo notável e notado neste opúsculo de 100 páginas que a Fundação Calouste Gulbenkian editou sob o título de Filosofia, Ensino ou Iniciação? Nenhum português medianamente instruído imaginará sequer que pensar seja designação adequada a uma disciplina liceal ou universitária, e portanto a qualquer das ciências positivas ou negativas, porque para ele, homem da rua, pensar é uma actividade natural, espontânea e permanente que pode, em qualquer momento, manifestar por seus ditos ou escritos.

Fundação Calouste Gulbenkian

José Marinho não se deixa influir por uma psicologia assente no naturalismo animal ou no naturalismo humano. A tese marínica, expressa em termos velados ou nebulosos, produz efeito tónico em quem a souber assimilar, e surpreenderá aqueles que, menos atentos às minúcias dos programas oficiais de instrução pública e aos preceitos didácticos dos metodólogos imponentes, observam que, em muitas escolas demasiadamente burocratizadas, o ensino está longe de ser verdadeiro pensamento, quando não é exactamente o contrário do próprio pensamento. Ora um país que não forme pensadores, que não ensine a pensar nos graus determinados pelos números dos programas escolares, jamais será um produtor de ciência ou de técnica, e seu povo ficará para sempre ajoelhado em servilismo perante a didáctica estrangeira, importando livros, utensílios e professores.

A teoria do pensar, digamos, a gnosiologia, a epistemologia e a lógica são hoje disciplinas ditadas, difundidas e divulgadas por escritores de erudição anglo-americana, os quais, tão fiéis aos princípios de Locke, Berkeley e Hume, como aguerridos detractores de Aristóteles, negam a tradição filosófica da cultura europeia, destituem a alma humana, ou o espírito humano, de todos os atributos significativos de liberdade, de actividade e criação, atendem apenas ao destino do indivíduo como animal social que mora e morre na Terra, propõem-se deslocar sacrilegamente, sem saberem para onde, a existência de Deus. Uma didáctica que apele apenas para o intelecto passivo, paciente ou recipiente, já que exalta a anterioridade de experiência, sempre subjectiva, individual, nominalista, sobre a razão universal, não é, nunca poderá ser, uma didáctica da arte de pensar: não passa de mera «formação» do animal doméstico que responde com resposta certa a um estímulo exacto, medindo a sua intelecção pelo êxito estatístico. A teoria do intelecto activo, magistralmente exposta por Aristóteles, ressurge e esplende agora entre as desculpáveis confusões do estruturalismo.

Todo este tema aparece superiormente analisado nos sete últimos parágrafos numerados da segunda parte do estudo, merecendo a atenção de quem se preocupa com os destinos da psicologia em Portugal. A tendência para ver na didáctica uma técnica, uma aplicação da técnica, enfim, uma psicotécnica, é contrariada pelo protesto de José Marinho, receoso de que o templo da ludicidade, que outrora foi a escola, venha a ser transformada em mais uma oficina de desumanização. As mais belas páginas do filósofo servem de aviso aos legisladores, aos professores e aos sacerdotes para que a tempo vejam os efeitos da psicologia inglesa e do pragmatismo sobre o pensamento e a acção dos Portugueses no Mundo.

Lisboa

A história da filosofia portuguesa, que ainda está por escrever, há-de revelar-nos que, na fidelidade à linha aristotélica, exprimimos um pensamento original e superior, o qual manteve garantia de verdade na relação com o monoteísmo de judeus, cristãos e islamitas. O princípio inalienável da filosofia portuguesa é a ideia de Deus, conforme ficou demonstrado por Sampaio Bruno, mas a Deus também está referida a universal filosofia, se aceitarmos o testemunho pitagórico. Entre os metodólogos que estão em seu livre direito de confessar e professar o ateísmo das ciências positivas, a psicotécnica escolar há-de situar-se em oposição à filosofia portuguesa.

O autor de Elementos para uma Antropologia Situada afirma sem receio que «todo o homem é um ser religioso, mesmo quando descrente», pelo que a tese também é válida para o homem português. Esta sua tese está em plena coerência com a tese subsequente de que a filosofia seja muito menos um ensino do que uma iniciação. Ora a iniciação caracteriza-se por não ser uma aprendizagem de maior ou menor ritual mas por ser a porta ou a entrada em melhor ambiente espiritual, sociedade superior de espíritos purificados, visivelmente representada pelo templo. Se o homem é um ser religioso, se por sua ansiedade vive em demanda da ligação amorosa, a qual só é verdadeiramente garantida por Deus, o alastramento metódico, progressivo e catastrófico do ateísmo contemporâneo solicita uma explicação metafísica, a qual costuma ficar petrificada nas palavras deslocação, descida, ou queda.

Ensino ou iniciação? Escola ou templo? Professor ou mestre? - Eis o que, em seu propósito dubitativo, José Marinho nos apresenta em termos de opção ou oposição, escondendo talvez que a verdade não resulta de uma ou outra atitude demasiadamente humana, que recorrem às urnas ou às armas, sabendo com certeza a lição sagrada do invisível e do inaudível. José Marinho aconselha e habilita o leitor a resolver por si, a resolver pela filosofia, os problemas enunciados ao longo do seu denso escrito, e o leitor agradecido não deixará de significar à Fundação Calouste Gulbenkian o valor excepcional de tão feliz, honrosa e célebre publicação (in Diário de Notícias, ano 109, n.º 38 412, Lisboa, 15 de Fevereiro de 1973, pp. 17 e 19).


José Marinho


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