domingo, 16 de maio de 2010

Curso de Filosofia Portuguesa (iii)

Escrito por Orlando Vitorino




Scuola di Atene, de Rafael Sanzio


HISTÓRIA DA FILOSOFIA I

HISTÓRIA DA FILOSOFIA UNIVERSAL
1
1.2. A filosofia como universal no sentido de que tem o uno por fim e princípio do pensamento.

Implicações:

a) A unidade do conhecimento, a complementaridade enciclopédica de todas as ciências e a sua sistematização unitiva (implícita ou explícita). O exemplo da filosofia antiga, designadamente do platonismo e do aristotelismo. O exemplo da escolástica, designadamente “A redução de todas as ciências à Teologia”, de S. Boaventura. O exemplo do idealismo e a “Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio”, de Hegel;

b) Dificuldades que a universalidade dos conhecimentos levanta à autonomia das ciências em relação à filosofia, uma vez que é ela que garante a universalidade do conhecimento;

c) As tentativas ou tendências epistemológicas de substituir a filosofia pela matemática na fundamentação unitária do conhecimento.

1.2. A filosofia como universal no sentido de que envolve, não na sua versão ou movimento para o uno mas na sua variedade, o pensamento singular de todos os filósofos, sentido implícito em todos os pensadores incluindo os de expressão não-filosófica e virtual ou actual em todos os povos, civilizações, culturas e línguas.

1.3. A questão decisiva da História da Filosofia:

É a história da filosofia universal, no sentido de que toda a filosofia é pensamento para o uno? Ou é ela a história universal da filosofia, a da variedade e singularidade de todo o pensamento?

No segundo sentido tem sido elaborada a generalidade das Histórias da Filosofia; no primeiro sentido a entendem aquelas que, não elaboradas expressamente, estão implícitas nos sistemas filosóficos: no positivismo, por exemplo, com sua “lei dos três estados”. Uma única foi expressamente elaborada neste primeiro sentido: a “História da Filosofia Universal” de Hegel.

1.4. Outro modo de apresentar a questão anterior pela interpretação, comparação e discussão da afirmação aristotélica:


há uma filosofia natural ao género humano

e da afirmação de Heidegger

não há filosofia chinesa, nem filosofia hindu, mas só há filosofia europeia


2. Os sistemas universais (ou universalistas) da história da filosofia:

2.1. O platonismo:

“Toda a filosofia é reactualização do platonismo” – Leonardo Coimbra.





“Filosofia e metafísica são o mesmo e toda a metafísica é uma construção do platonismo” – M. Heidegger.

2.2. O aristotelismo ou a versão realista do idealismo platónico.

2.3. O agostinianismo ou a origem da modernidade:

2.3.1. A prioridade absoluta da vontade e a destituição da prioridade do pensamento; de Santo Agostinho a Duns Escoto, de Duns Escoto a Descartes e a Kant.

2.4. O tomismo e a questão da filosofia cristã, ou a relação entre filosofia e teologia.

2.5. O espiritualismo: meditações metafísicas de Descartes, a irrealidade do mundo sensível e a formação da ciência moderna.

2.6. O idealismo alemão. Kant, Fichte, Schelling e Hegel.

2.7. O existencialismo e a ontologia de Heidegger: seu predomínio no pensamento dos nossos dias. Explicação desse predomínio.



HISTÓRIA DA FILOSOFIA II

HISTÓRIA DAS FILOSOFIAS NACIONAIS

1.º SEMESTRE

1. Introdução

1.1. A questão das filosofias nacionais.

Sua posição por Álvaro Ribeiro em O Problema da Filosofia Portuguesa (1943). Repercussão da questão em Espanha, no Brasil (o grupo da Revista Brasileira de Filosofia dirigida por Miguel Real) e nos países hispânicos da América (Eduardo Nicol).

1.2. A filosofia como pensamento no homem, sua realização como pensamento do homem. Estudo desta distinção sobre textos de Platão, Heidegger e José Marinho.

1.3. Como pensamento do homem, a filosofia é sempre filosofia situada e radicada na história, no povo, na língua e, por essa radicação, se apresenta como filosofia nacional.

Interpretação, compreensão e discussão das afirmações de:

HEGEL:

a) “A filosofia é filha do tempo”;
b) “Não há povo que exista sem metafísica”.

HEIDEGGER E ÁLVARO RIBEIRO:

a) “a palavra é a morada do ser”;
b) “não há pensamento sem palavra”.

Relação destas últimas afirmações com as teses da linguística moderna de que o significado (pensamento) reside no significante (palavra) e de que o mesmo pensamento (filosófico) está contido, virtual ou expressamente, em todas as línguas e culturas.


2. História da Filosofia Alemã:

2.1. As origens recentes (J. Boheme e Lutero) e o complexo perante a filosofia clássica: helénica, islamita, latina.

2.2. Do Romantismo (Goethe, Herder, Schlegel) para o idealismo alemão:

a) Kant e o fim da Escolástica;
b) Fichte e os “Discursos à Nação Alemã” como um dos acontecimentos mais importantes da história universal (N. Hartmann) por ter dado à Alemanha a consciência de povo;
c) Supremacia do pensamento alemão na filosofia contemporânea: de Hegel a Heidegger.

2.3. A língua alemã como a mais excelente para a expressão do pensamento filosófico (Hegel), sua aproximação do grego e superioridade sobre o latim (Heidegger).

2.4. A prioridade da vontade e da acção.



Martinho Heidegger



3. História da Filosofia Francesa:

3.1. O racionalismo cartesiano. Leitura do livro de Glucksmann “Descartes c'est la France”. Interpretação da afirmação de Hegel: Com Descartes, a filosofia, como um navio durante muito tempo perdido no mar, pôde enfim gritar: Terra!

3.2. A perfeição estilística da língua francesa: Pascal e a literatura neo-clássica.

3.3. Rousseau: a sua filosofia política em cotejo com a filosofia política hegelina; a sua filosofia da natureza em cotejo com a filosofia da natureza de Schelling.

3.4. O positivismo de Augusto Comte ou o triunfo do cientismo fundado no cartesianismo. Sua adopção como doutrina do republicanismo português e sua formação do estado brasileiro.

3.5. Actualidade: o existencialismo de Sartre, a moderna etnologia (C. Levi-Strauss), a psicanálise de J. Lacan, o estruturalismo de M. Foucault, a “nova história”.




HISTÓRIA DA FILOSOFIA II

HISTÓRIA DAS FILOSOFIAS NACIONAIS

2.º SEMESTRE

4. Outras filosofias nacionais estudadas, como as anteriores, enquanto filosofias situadas.

4.1. História da Filosofia Inglesa.
4.2. História da Filosofia Italiana.
4.3. História da Filosofia Espanhola.


5. História da Filosofia Portuguesa:





5.1. Secular latência de uma filosofia mergulhada e oculta na acção. O Leal Conselheiro de D. Duarte, primeira expressão, na Europa, do pensamento filosófico em vernáculo.

5.2. A longa persistência do aristotelismo. A nova escolástica. Livros portugueses, as Sumas Lógicas de Pedro Hispano (séc. XIII) e as Instituições Dialécticas, de Pedro da Fonseca (séc. XVI), como compêndios para o ensino da lógica em toda a Europa, até ao séc. XIX.

5.3. Os percursores: Pinheiro Ferreira, Antero, Amorim Viana e Sampaio Bruno.

5.4. A originalidade filosófica: o criacionismo de Leonardo Coimbra. Crítica da ciência, teoria da memória, doutrina do humanismo, teoria do pensamento integral.

5.5. A sistematização realista: Álvaro Ribeiro, doutrina do Estado, doutrina da razão e teoria da educação.

5.6 A sistematização metafísica: José Marinho e a Teoria do Ser e da Verdade.


FILOSOFIA E TEORIA DA ECONOMIA

1. Distinção, e respectivas noções, entre teoria da economia, ciência da economia e prática da economia.

1.1. A prática económica inerente à existência das sociedades.

1.2. A remota e longa tradição (mas sem se constituir como teoria nem ciência) da reflexão sobre a economia: de Xenofonte a David Hume.

1.3. A recente formação da ciência da economia: de Quesnay a Adam Smith.

2. Como na formação da ciência da economia e seu desenvolvimento se prolonga a polémica que sempre contrapôs a intervenção dos poderes públicos na economia e a liberdade da actividade económica. A teoria do imposto, de Ricardo.


3. Intervencionismo e liberalismo:

3.1. Como o liberalismo económico tem sido confundido com o liberalismo político embora não se identifique com ele nem o tenha por condição.

3.2. Os clássicos da ciência económica são os clássicos do liberalismo económico: Adam Smith, Malthus, S. Mill. J.B. Say, F. Bastiat. O que há de constante e de difuso nas suas concepções.




3.3. Como o intervencionismo se tem apresentado com diversas designações e formas:

a) O bulionismo português e espanhol (séc XVI e XVII);
b) O mercantilismo francês (séc XVIII, Colbert);
c) O proteccionismo inglês inspirado pelo judeu português Isaac Pinto (séc XVIII);
e) O justicialismo do inglês Godwin (fins do séc XVIII);
f) O socialismo (sécs. XIX e XX);
g) O keynesianismo contemporâneo;
h) Hoje, o intervencionismo apresenta-se, nos EUA, com a designação de liberalismo.

3.4. A questão do livre-cambismo como exemplar da polémica entre o intervencionismo e o liberalismo. Sucessivas formas da questão desde o séc. XVI em Portugal até aos nossos dias na União Europeia.


4. O triunfo contemporâneo do intervencionismo como doutrina e prática do socialismo:

4.1. Predomínio das razões de interesse social sobre as leis da ciência económica. Resultados obtidos.

4.2. Consequente ostracismo, revisão e reactualização do liberalismo clássico pelo neoliberalismo contemporâneo: A Escola de Viena, K. Menger, W. Pareto, Walras, L. von Mises, F. Hayek, M. Friedman. A polémica entre Keynes e Hayek.


5. L. von Mises e a economia como filosofia: o tratado A Acção Humana, equivalente neoliberal do tratado de A. Smith A Riqueza das Nações:

5.1. F. Hayek e a transição da teoria económica à Filosofia do Direito: Law, Legislation and Liberty.



6. A persistência do socialismo deixa de significar a persistência do intervencionismo. É uma persistência política e não económica. A partir de 1946, o socialismo adopta a economia preconizada pelo neoliberalismo. As razões daquela persistência e as condições das sociedades contemporâneas: economia e demografia, J. Monnet, A Comunidade Económica Europeia. Capacidade de conciliação com o formalismo dos diversos regimes políticos.








7. Os problemas permanentes na ciência económica:

a) A inflação: seu carácter cíclico; sua origem na emissão de moeda;
b) O desemprego: a taxa natural de desemprego; o desemprego voluntário; a miragem do pleno emprego;
c) O crescimento económico;
d) A recessão;
e) Diversidade de explicações. Diversidade de soluções.


8. As categorias económicas:

8.1. Não há ciência sem categorias. Noção de categoria.

8.2. As categorias económicas:


1ª A PROPRIEDADE

- Distinção entre propriedade e posse;
- Os fisiocratas e a fundamentação do Estado na propriedade;
- Formas de propriedade: a do corpo, a da terra, a da indústria;
- Propriedade e liberdade;
- Propriedade e justiça;
- Argumentos e práticas para a abolição da propriedade: a expropriação revolucionária, os impostos - ou progressivos ou sem limitação constitucional.


2ª O MERCADO

Articulação do mercado com a propriedade.

Os quatro princípios da categoria de mercado:

1. A lei da oferta e da procura;
2. A relação universal entre mercadorias;
3. A informação necessária ao planeamento da produção;
4. A determinação real do preço.


3ª O DINHEIRO

- A questão de o dinheiro ser ou não uma mercadoria;
- O abandono do padrão-ouro e o equilíbrio entre a quantidade da moeda e a quantidade das mercadorias;
- O dinheiro como sinal convencional e a origem do papel moeda;
- Preço e poder aquisitivo do dinheiro;
- O sistema monetário internacional, o acordo de Bretton Woods e o FMI.


9. Contribuição portuguesa para a teoria económica:

a) A neo-escolástica;
b) O relatório de Diogo Gomes Solis;
c) A internacionalização do mercado;
d) O bulionismo;
e) O direito de propriedade levado para a Holanda pelos judeus portugueses expulsos como causa do que se tem atribuído à “Revolução Industrial”.





Continua


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