quinta-feira, 6 de maio de 2010

Esgrima Lusitana (ii)

Escrito por Nuno Russo







II – A TÉCNICA PROPRIAMENTE DITA

O jogo do pau que hoje se pratica em Portugal é a evolução do antigo jogo minhoto, tecnicamente muito menos rico e que se caracterizava sobretudo pelo manejo da vara pelo meio com as duas mãos afastadas, de forma semelhante à técnica que ainda hoje se utiliza em vários Países orientais.

A nossa técnica actual evoluiu no sentido do melhor aproveitamento possível do comprimento e, consequentemente, do alcance da vara, pelo que se passou a empunhá-la por uma das pontas, com uma só mão ou com as duas mãos quase juntas. Além disso, e também em consequência deste acréscimo no cumprimento da vara, passou a técnica a basear-se na rotação desta, o que se traduz, não só numa maior rapidez e potência no ataque, como também nos permite uma maior maleabilidade e eficácia no combate contra vários adversários.

Criaram-se também defesas novas e adequadas para este tipo de trabalho. É de notar que esta evolução do jogo minhoto, que se operou em relativamente pouco tempo e que foi resultado ou de estudo propositado ou da necessidade de fazer face às diversas circunstâncias do combate real, não teve, durante esses anos de evolução, interferências de técnicas estrangeiras, mas sim, tudo se processou dentro do próprio País, o que vem provar a afirmação do mestre Frederico Hopffer, no seu livro («Duas palavras sobre o jogo do pau»), quando diz que entre todas as actividades físicas que se praticam em Portugal, é, decerto, a mais genuinamente portuguesa.





O jogo do pau actual divide-se em duas grandes escolas que por sua vez se subdividem em diferentes «estilos», conforme as várias regiões e o jeito próprio de cada um dos mestres ou jogadores.

Estas duas grandes escolas, que se situam em áreas geográficas diferentes, são chamadas a ESCOLA do NORTE e a ESCOLA de LISBOA.

A Escola do Norte tem a feição predominante do jogo de combate, mais duro e rude e com características acentuadamente rurais, a que dá o verdadeiro sentido do jogo do pau Português.

Tecnicamente caracteriza-se por um jogo, sobretudo às duas mãos, quase sempre aproveitando a rotação do pau tanto no ataque como na defesa (guardas em movimento). É um jogo a curta distância mas com uma espantosa maleabilidade pluridireccional, ideal, sobretudo no combate contra vários adversários. É o chamado jogo de feira ou varrimento.

Aqui todo o treino é orientado no sentido de proporcionar as diversas circunstâncias do combate real contra vários adversários.




Em «Fafe», terra de grandes tradições de jogo do pau (basta recordar a tão temida «Justiça de Fafe», na qual o símbolo de execução da justiça é representado por um grande cacete), além de todo este manancial técnico, conservou-se ainda um tipo de jogo muito antigo (descendente directo do antigo jogo minhoto). Este tipo de jogo é usado apenas num combate de homem para homem, não surtindo qualquer efeito quando usado contra mais de um adversário.

Se bem que nesta técnica haja um desaproveitamento em espaço e potência das possibilidades de ataque com um modelo actual de pau, isto porque aqui ele é seguro ao meio com as duas mãos afastadas (desaproveitamento da distância) e os ataques são feitos directamente e não em rotação (desaproveitamento da potência), no que respeita às defesas, pelo contrário, porque também são feitas directamente e usando a força conjunta dos braços e corpo, permite uma maior rapidez e certeza na sua execução.

Por outro lado, esta técnica é francamente eficaz em combate, quando a distância é muito curta.

Nos tempos áureos do jogo nortenho, em que o jogo era «a matar», não havia de observar regras e todos os meios e golpes se usavam, constituindo a mestria somente uma garantia maior de vencer.


Por vezes, nesses combates «a matar», o pau era munido, numa das pontas de uma lâmina ou choupa, recoberta de uma cápsula de metal que se arrancava quando a luta era eminente. Outras vezes, em vez desta lâmina usava-se uma pequena foice (a foice roçadora), que era um instrumento usado pelo homem do campo principalmente para cortar silvas e outras ervas daninhas, e que se encaixava no pau por meio do seu cabo que era oco, servindo também para estes fins bélicos.

Existia, no entanto, uma espécie de «código táctico», que os bons jogadores seguros de si, e de um modo geral, as pessoas bem-formadas, não deixavam de cumprir, o que exprimia o próprio valor do jogo: não se atacava o inimigo que não levasse pau. Quintas Neves mostra o «Manilha» atirando o seu pau para o chão depois de com ele ter desarmado e desmoralizado totalmente três adversários que lhe haviam saltado ao caminho. E ouvimos a história de um grande jogador do Porto, o Carvalho, feirante de gado, que na feira do «26» em Angeja, perto de Aveiro, depois de se ter aguentado sozinho contra todos os que ali se encontravam coligados, tropeçou e caiu no chão, tendo então o mais forte dos seus adversários saltado por cima dele, em sua defesa, intimando os demais a não tocarem no valente, sob pena de terem de se bater também com ele.

A chamada Escola de Lisboa engloba não só a técnica do jogo do pau praticada na capital portuguesa como também aquela que é praticada no Ribatejo e no resto da Estremadura. Nesta zona Sul predominou, durante largos anos, o jogo desporto e o «assalto» de exibição.




Ao contrário do jogo nortenho, em que o jogador se preparava sobretudo para enfrentar vários adversários, o jogo de Lisboa, de características desportivas, cultivou o chamado «contrajogo», que é aquele em que se opõem apenas dois adversários. Esta escola é uma modificação relativamente recente da ESCOLA do NORTE, adaptada para o combate de homem para homem, e que atingiu o seu auge no início deste século, em Lisboa, com o grande mestre Frederico Hopffer que estudou e codificou a sua técnica. Diferencia-se do contrajogo da ESCOLA do NORTE, principalmente por haver agora uma cooperação em percentagem igual do trabalho das pernas e da vara, ao passo que aquela é fundamentalmente baseada no trabalho da vara, estando o movimento das pernas inteiramente dependente desse mesmo trabalho. Além desta diferença fundamental, temos ainda a notar os ataques que são executados principalmente com uma só mão, facto que vem contribuir para um alcance ainda maior no comprimento destes; as defesas (mais vulgarmente chamadas cobertas) que são feitas directamente e não aproveitando o movimento de rotação de pau e também o uso dos «cortes» (pancadas destinadas a prejudicar activamente o efeito da outra pancada que não foi tomada com uma guarda), técnica revolucionária que faz parte da fase avançada das escolas de Lisboa.

Na região do Ribatejo acontecia, porém, que, à semelhança do que se passava no Norte de Portugal, os homens iam também para a feira, bailes e certas festividades, munidos do seu pau, e não raro havia desacatos e lutas de pau. Mas essas lutas, conquanto densas de carga agressiva, diferem essencialmente das batalhas campais que eram vulgares nas regiões do Norte, as quais se relacionam estreitamente com as estruturas tradicionais dessa zona, os padrões da cultura local, os conceitos e a visão do mundo das gentes dali.




No que respeita ao instrumento fundamental do «jogo» o Pau ou Varapau, este não deve ser excessivamente pesado mas resistente, suficientemente flexível e macio (não deve transmitir a vibração das pancadas de mãos de quem o segura). O seu comprimento é 1, 60 m, medida que nunca deve ser excedida, a fim de evitar que a vara toque no chão quando se volteia. O peso será aproximadamente 600 g. Quanto ao seu feitio, deve ser de tal forma que uma das extremidades seja levemente mais fina (aquela por onde se impunha o pau) do que a outra (aquela que bate).

As madeiras mais usadas são de marmeleiro, freixo, carvalho, castanho e lódão. Segundo informação do mestre Pedro Ferreira, antigamente, no Minho, naqueles tempos heróicos dos varredores de feiras onde todos os problemas se resolviam às pauladas, os velhos mestres aconselhavam a vara de salgueiro, quando se procurava ou esperava vários adversários. No entanto, as madeiras mais usadas são as de castanho e «LODÂO» (Celtis Australis, Lineu), sendo esta última incontestavelmente a preferida, a vara típica de todos os bons jogadores em todos os tempos, por reunir em si todas as qualidades que deve possuir um bom pau para o nosso tipo de jogo (resistência, flexibilidade, maciez e beleza natural).

Estes são, pois, os requisitos normalmente requeridos a um pau do jogo ou de combate. Contudo, aconselha-se para treino o uso dos paus pesados e defeituosos, para obrigar o praticante a um trabalho mais intenso, de modo a permitir adquirir mais facilmente uma maior maleabilidade no seu trabalho.

Ver aqui

A partir de um certo estado de adiantamento, é normal que um jogador escolha a vara a que melhor se adapte, pelo seu fetio, qualidade, peso e mesmo altura. Quanto ao «local» de jogo, não há esquisitices, qualquer um é bom (ginásios, campos de ténis, terra batida, areia da praia, etc), sendo extremamente agradável treinar ao ar livre.


A UNIÃO DAS ESCOLAS

Actualmente, o Mestre Ferreira (actual mestre do A.C.L.), conhecedor profundo da Escola do Norte, que muito novo começou a praticar, assim como da Escola de Lisboa, sobretudo no estilo dos mestres da A.C.L. e do estilo do mestre Hopffer, de que foi honroso sucessor, estudou, aperfeiçoou e codificou estas duas grandes escolas, do Norte, de Lisboa, formando um estilo próprio (a que os seus alunos puseram o nome de Escola Pedro Ferreira), onde se não distinguem já nem uma nem outra, estando ambas inseridas nesta nova grande escola.

Este mestre, juntamente com um grupo de antigos mestres e praticantes do A.C.L., fundou, em Maio de 1977, a Associação Portuguesa de Jogo de Pau, a qual destaca nos seus Estatutos posteriormente remodelados:

Capítulo I – Denominação, Sede e Fins.

Art.º 1.º A Associação Portuguesa de Jogo do Pau com a sigla A.P.J.P., é um organismo de carácter desportivo e cultural, tem duração indeterminada e rege-se pelos presentes Estatutos, pelas normas regulamentares em conformidade com a entidade responsável pelo respectivo sector.

Art.º 3.º - A A.P.J.P. tem por fim o estudo, a prática, a divulgação e a dignificação do jogo do pau como arte tradicional.


III - BENEFÍCIOS

Sob o ponto de vista de actividade de carácter psicológico, o jogo do pau encerra em si extraordinárias possibilidades, e da sua prática de carácter técnico se pode, desde já, focar o desenvolvimento da coordenação motora; a alusão empírica dos antigos mestres de que «o olho vê, o pé anda e o pau bate» refere uma atitude conjunta do aproveitamento dos recursos anatómicos e fisiológicos; a existência dum objecto exterior, cujo manejo implica grande destreza, envolve um melhoramento da capacidade de percepção e, consequentemente, uma melhoria da própria consciência do corpo.

Os diferentes ritmos a que a prática sujeita, nos seus esquemas tradicionais de treino, são tema de situações e períodos de dispêndio de energia que se enquadram, quer no trabalho dito de «endurance», aeróbico, entre as 120/140 pulsações/minuto, e que se encontra nas execuções de aperfeiçoamento técnico, de intensidade moderada, quer no trabalho dito de resistência, anaeróbica, entre as 140/180 pulsações/minuto, e que se encontram nos períodos de maior intensidade, caso de combate ou do treino mais intenso; desta forma se adquire também controle respiratório e melhoria na capacidade de recuperação.

Da prática se desenvolve o equilíbrio dinâmico, o que se associa à correcção de hábitos posturais, bem como a relaxação, linhas mestras de eficácia de execução; há ainda que considerar que a execução, de um carácter rítmico, nos esquemas técnicos de base, corresponde a um melhoramento analítico dos movimentos, que, pela sua natural correcção, visto serem originados por respostas intuitivas às solicitações surgidas, virão a ser criadas durante o contrajogo ou qualquer outro tipo de jogo; como em outra qualquer técnica de combate, nota-se um desenvolvimento aturado da percepção psicocinética, elemento que, associado aos restantes, contribui para uma melhoria geral do esquema corporal.

No tocante ao desenvolvimento da potência, o trabalho incide essencialmente na execução em velocidade, se bem que, com determinados intuitos específicos, haja vantagens na utilização de cargas superiores para aperfeiçoamento técnico.




Note-se que, não sendo o jogo do pau uma técnica de oposição directa, não é óbice o peso, a força, a idade (caso corrente o jogador encontrar a sua melhor forma entre os 30 e 50 anos) ou o sexo: existem actualmente diversas raparigas a praticar, principalmente na escola do Poceirão (concelho de Palmela), do mestre Custódio Neves. Não deve, no entanto, o jogo do pau deixar de estar inserido em esquemas de treino mais vastos, e, consequentemente, em simbiose com as leis de programação e metodologia de treino, que, sendo correctamente definidas, não vem, como se verifica, dissociá-lo das suas características fundamentais.

Sob o plano psicossociológico, o jogo do pau é de um extraordinário valor educativo, visto que é solicitado quer o esforço individual, quer em oposição a um ou mais adversários (treino, contrajogo, jogo de um para dois, de um para três, do meio, etc.) quer em esforço coordenado com o de outros, em jogos de grupo contra grupos, jogo de quadrado, da cruz, etc., campos que reflectem os aspectos multifacetados da sociedade em que vivemos, sendo ao mesmo tempo uma escola de desenvolvimento das qualidades pessoais e sociais. O carácter extraordinário de modalidade que busca o constante aperfeiçoamento é corolário daquilo que o jogo do pau representa como ARTE TRADICIONAL PORTUGUESA, que, na sua pureza, traduz uma maior integração na civilização nacional, bem como a aceitação e manutenção de uma legítima herança.

É, pois, necessário não deixar morrer esta arte, este desporto tipicamente nacional. A todos os bons portugueses se lança este alerta, muito especialmente àqueles que gostam de exercício físico em geral e também a todos aqueles que têm a cargo a difusão do desporto no nosso país.

O apoio tão necessário como merecido às escolas já existentes, a criação de novas escolas a nível nacional, a maior difusão da modalidade nas camadas jovens, a realização de encontros interescolas e regionais como também a criação bem orientada de um ambiente leal e desportivo pode ainda permitir e contribuir para que este jogo possa, sem perder o espírito bem português que o criou e o caracteriza, acompanhar a evolução dos tempos e ocupar na terra onde nasceu o lugar que bem merece (in ob. cit., pp. 123-128).





Bibliografia:


ANTÓNIO NUNES CAÇADOR, «Jogo do Pau (Esgrima Nacional)», Lisboa, 1963.

ERNESTO VEIGA DE OLIVEIRA, «O Jogo do Pau em Portugal», no suplemento de Revista da Sociedade de Geografia de Lisboa, Geographica n.º 32 – ano VIII – Outubro 1972.

FREDERICO HOPFFER, «Duas Palavras sobre o Jogo do Pau», Lisboa 1924.

GUIA DE PORTUGAL – IV – Entre Douro e Minho, II Minho.

JOAQUIM ANTÓNIO FERREIRA (da Cidade de Guimarães), «A Arte do Jogo do Pau», Porto 1886.

J. LEITE DE VASCONCELOS, «Tentame de Sistematização», volume VI, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda – 1975.

MARCELLO CAETANO, «Ordalios Prova Testemunhal e Documental», em História do Direito Português (1140-1495), Verbo.

«O Paulada», n.º 00, n.º 1 e N.º 2/3. Boletins Informativos da A.P.J.P.

RUI SIMÕES, «Jogo do Pau», do Boletim Informativo 00 A.E.P./A.P. J.P.

XANQUIM LOURENZO FERNANDES, «O Varapau», em Cultura e Arte, página cultural de o «Comércio do Porto», ano VIII, n.º 8, 10 III 1959, pp. 5-6.

Agradecemos, especialmente, as preciosas informações fornecidas pela secção de pesquisa da Associação de Jogo do Pau de Lisboa, sem as quais não teria sido possível a compilação deste trabalho.






Um comentário:

  1. Muito obrigado mestre! Artigo muito elucidativo.

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