segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Führer

Escrito por Orlando Vitorino






Introdução

O próximo escrito, de Orlando Vitorino, foi publicado no primeiro e último número da revista Bárbara, em 1997. Nele se demonstra como o sozi (1) Manuel Maria Carrilho, catedrático empenhado na intervenção socialista e totalitária do Estado, não passa de um inimigo do pensamento e de toda a tradição clássica e cristã desde Platão a Heidegger. Como tal, nada se omite sobre quem, Ministro da Cultura, não só anunciou, entre nós, a total estatização da cultura, como ainda se dispôs a ampliar essa poderosa e omnipotente empresa a sectores tão vitais como os da economia, da política e da existência social e profissional dos Portugueses.

Entretanto, se o perigo parece ter passado quando Manuel Maria Carrilho deixou cair tão filantrópica Pasta da Cultura - que outros sucessores logo assumiram na condição de não deixar morrer a estratégia gramsciana da organização marxista e comunitária da cultura -, a verdade é que, findo, em 2009, o seu papel de ideólogo activista na Unesco, procura agora uma oportunidade canina para pôr em prática o que vai ensinando na Universidade segundo a ideologia mundialista da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Ora, essa mesma ideologia proclama o fim da filosofia clássica, embora ainda não se exprima nos termos do socialista de cátedra que já deu por literalmente garantido que um jovem de quinze anos sabe hoje muito mais coisas do que sabia Aristóteles (sic).

Para socialistas como Manuel Maria Carrilho, a cultura é, portanto, um fenómeno social e político total desde o património até à produção erudita e monografista das universidades. O liberalismo, ou o sistema da liberdade, não pode, como tal, ter lugar numa cultura e numa sociedade feitas à imagem fáustica e apocalíptica do Führer. Segundo essa imagem, o universo será socialista ou, simplesmente, não será coisa nenhuma.

Enfim, o homem-massa, não obstante sua dissimulada quão vazia retórica da tolerância e da solidariedade, não está verdadeiramente interessado em discutir ideias, já que toda a cultura, sob a pesada e poderosa estatização socialista, representa apenas uma plataforma de consenso tácito mas obrigatório para quem deseje ser reconhecido nos postos-chave de uma sociedade planificada e politicamente totalitária. Assim, para um socialista toda e qualquer discussão, nominalmente democrática, só pode ser admitida desde que directa ou indirectamente atinente aos meios técnicos de confiscação da propriedade e da riqueza alheia. Assim, se já Aristóteles afirmara que não vale a pena discutir com quem não aceita princípios universais, a verdade é que será totalmente inútil e vão procurar dialogar com quem e para quem os princípios, os conceitos e as ideias, uma vez abolidos, estão ultrapassados e fora de todo o consenso politicamente correcto.


(1) Sozi significa socialista. Curiosamente, o termo nazi surgiu historicamente por analogia com sozi (cf. Marlis Steinert, Hitler, Verbo, 2006, p. 127).

Miguel Bruno Duarte




O Führer*


Charlie Chaplin, em O Grande Ditador (1940).











Chama-se Manuel Maria Carrilho e é Ministro da Cultura.

Ao mesmo tempo que tomava o poder nas mãos do Estado, publicava um livro – Aventuras da Interpretação – que nos oferece a rara oportunidade de sabermos o que, não só ele enquanto Ministro da Cultura, mas todo o Governo a que pertence e até todos os poderes do Estado, querem fazer dos Portugueses. É que – diz-nos o livro – nas sociedades contemporâneas a cultura é um fenómeno social total, envolve portanto toda a existência social dos Portugueses. Ao enunciar depois a estatização da cultura, literalmente a intervenção do Estado em todos os domínios da cultura, uma intervenção administrativa e técnica, profissionalizada e competente, tal intervenção envolve, naturalmente, os outros serviços do Estado, isto é, não só o Governo, que é um dos orgãos do Estado, mas todo o Estado. Compreende-se que, em consequência, o Ministro inclua no domínio da cultura onde vai ser feita a estatização, sectores da existência social especificamente não-culturais. Diz literalmente que a estatização da cultura vai desde a escola ao mercado, desde a indústria ao emprego, desde o património ao estímulo da criação. Note-se bem: o mercado, a escola, a indústria, o emprego, que têm, na composição do Governo, seus Ministérios próprios. Todos eles irão sumir-se na estatização a que o Ministro da Cultura vai proceder.

Não se trata de mais um caso de megalomania. Manuel M. Carrilho é Ministro da Cultura, e o Chefe do Governo que o escolheu, no único aceno de bom-tom intelectual que nos fez, já se abonou da autoridade de Rorty e Rawls recomendada por ele.

O Ministro da Cultura não fala ao acaso. Antes acompanha a estatização a que nos vai sujeitar pela doutrina da qual a deduziu. Todos sabemos que as doutrinas da estatização total caracterizaram o nazismo alemão e o comunismo russo e lhes são inseparáveis. Insolitamente, o nosso Ministro vai buscar a sua aquilo a que chama a filosofia contemporânea e identifica com a filosofia dos norte-americanos.



Martinho Heidegger



Emergirá ela da sociedade contemporânea porque, diz-nos o Ministro, toda a filosofia é o que for a sociedade. Ora a sociedade contemporânea tem características que nenhuma outra sociedade anterior teve e a sua filosofia necessariamente corta com toda a filosofia tradicional, desde Platão a Heidegger. Em vez da tradição, a tradução. Quer o Ministro dizer: a filosofia tradicional ou será traduzida na filosofia contemporânea ou será simplesmente eliminada. Desta eliminação dá, entre outros, o exemplo recente do francês Deleuze, uma espécie de trânsfuga à tradução que começou por esboçar, e o exemplo remoto de Aristóteles que será abolido do ensino uma vez que, assegura seriamente, um jovem de quinze anos sabe hoje muito mais coisas do que sabia Aristóteles (sic). As características inéditas da sociedade contemporânea serão a ecologia, a comunicação cibernética e o homem mediático. A filosofia contemporânea estará determinada por essas características. A ecologia determinará um sistema do Direito no qual não será apenas o homem a ter personalidade jurídica mas também os animais, os vegetais e os minerais (sic). A comunicação cibernética – instantânea e planetária – determinará que as ideias não sejam mais do que convicções partilhadas por todo o mundo. O homem mediático determinará que, perfilhando ele por definição aquelas convicções, a verdade não seja senão o consenso. À margem destas determinações, a filosofia tradicional, que desde a Grécia e o Cristianismo irradiou da Europa, não será mais, já não é senão, nas expressões do nosso Ministro, um ranço, uma tontice, um cemitério de sucata. Chama-lhe também tribal. Não se julgue, porém, que a filosofia contemporânea é uma filosofia a fazer. Ela já aí está, toda feita, e muito segura e convicta de si. É o neo-pragmatismo, irradiante das universidades norte-americanas onde foi formado – sempre segundo o Ministro da Cultura – a partir de certos europeus fugidos ao nazismo que Heidegger caucionou. Expõe-a M. M. Carrilho, não por conta própria mas por conta de autores e livros, quase todos norte-americanos, que se vai aventurando a interpretar ou a usar, pois, para o autor das Aventuras da Interpretação, interpretar é usar.

O neo-pragmatismo tornou-se possível graças ao corte com a filosofia tradicional, corte realizado pelo trio Marx-Freud-Nietzsche, e à consequente extinção da filosofia europeia. A extinção terá sido revelada pelo nihilismo de Nietzsche que será… o quê? Nada mais do que o zero em que acabou aquela filosofia vinda do remoto platonismo.

Desse nada emergindo, a filosofia contemporânea acrescentar-se-á à lei positivista dos três estados como um quarto estado. A lei do positivismo faz suceder ao estado teológico o metafísico, ao metafísico o positivo (ou científico). Assegura-nos o Ministro da Cultura que ao estado positivo sucedeu já, nos nossos dias, o estado neo-pragmático, tal como à ciência sucedeu a tecnologia.

Suceder equivale a ultrapassar. Ultrapassada a teologia, o neo-pragmatismo dá por abandonada toda a transcendência e glorifica-se no anúncio nietzschiano de que “Deus está morto”, anúncio do qual o Ministro da Cultura teve precoce conhecimento, confidenciando-nos ser ateu desde os quinze anos. Ultrapassada a metafísica, dá por abandonado o ranço da discussão dos princípios, das ideias, da verdade, dos conceitos, enfim, das essências. Ultrapassada a ciência, dá por abandonada a necessidade, a causalidade e, com elas, a experiência orientada pela razão. Não mais essencialismos, racionalismos, universalismos. Que fica? Sumariamente fica isto: no lugar onde esteve o que foi ultrapassado ou eliminado e deixou lugar – porque Deus e a transcendência, o imutável e o atemporal, os princípios e os fins, eliminam-se sem deixarem lugar – põe-se: a retórica (onde esteve a lógica), a linguística (onde esteve a filologia), a contingência (onde esteve a necessidade), a linguagem sem significado, sem sentido e sem palavra (onde esteve a consciência), a metáfora (onde esteve o conceito), as consequências e os efeitos (onde estiveram as causas), os hábitos de acção, crenças ou convicções (onde esteve a razão).





É o extermínio do pensamento (um dos livros que o Ministro usa chama-se A Derrocada do Pensamento), o extermínio da filosofia, da arte e da ciência onde o pensamento se manifestou. É o extermínio da civilização, a europeia, que o pensamento criou e suporta, e da sua cultura da qual M. M. Carrilho está sendo, entre nós, o paradoxal Ministro. É o mundo da contingência, inseguro e sem fundamentos, o mundo no qual a existência é uma errância no vazio (única expressão, entre todas as que sublinhámos, que não é de Carrilho).

Como é possível? Como é possível afirmar tais coisas, preconizar-nos a imposição pelo Estado de tais absurdos, e ser tomado a sério seja por quem for, seja pela Universidade na qual o Ministro é professor, seja pelo Governo do qual o professor é Ministro e faz gestos de ser mentor? É certo que o Ministro tem atenuantes. As de nunca falar por conta própria, de não ter ideias, nem conceitos, nem opiniões, o que não ofende nem se estranha pois o Ministro é já o nobre exemplo de estar abolido o pensamento. Nunca falando por conta própria, fala sempre por conta dos neo-pragmatistas americanos. Vale apena, já agora, vermos a estrutura mental que lhes atribui.

Tudo começa pela negação da realidade das ideias e do que só por elas se dá: princípios, formas, conceitos, essências. Em vez das ideias, o que há são convicções que, assegura-nos o Ministro, é o que as ideias sempre foram (sic). As convicções formam-se e firmam-se pelas perspectivas e pelos consensos. Em certo momento, alguém – um homem de talento senão de génio – colocado num certo ponto de vista, obtém uma certa perspectiva que o leva a formar uma certa convicção, a qual pode adquirir, senão impor (mediante a comunicação cibernética e o homem mediático característicos da sociedade contemporânea) um certo consenso, com isso se alargando, como crença, ou hábito da acção, a uma certa contextualidade e aí valendo como um certo paradigma. Este processo de formação das convicções é o mesmo para todos os domínios do conhecimento, para todas as disciplinas. E como todo o conhecimento é hoje interdisciplinar, o processo poderia dizer-se universal se esta palavra não fosse daquelas que estão banidas do vocabulário neo-pragmático. Como chamar-lhe então? Comunista, comunitário, solidário parecem ser as designações que o Ministro escolheria.

Cada disciplina deriva de um dos momentos do processo cujas designações sublinhámos. A ética, por exemplo, dado o saudável abandono da religião pela moral (o Ministro não distingue entre ética e moral), deriva do consenso e o consenso é, para o efeito, o bem-estar (sic). O direito, abandonados os princípios, deixa de se deduzir da justiça ou da liberdade para derivar da contextualidade (é aqui que o Ministro fala do ranço dos princípios e enaltece a justiça sem metafísica recomendando um livro de Rawls). A ciência, eliminada a experiência segundo o método da razão (aliás, todo o método é para abolir), deriva do paradigma ao qual se atribui a origem das revoluções científicas como fez T. Kuhn, autor que é estranho o Ministro não recomendar. Último exemplo, a política, domínio por excelência de interdisciplinaridade, provém de todo o conjunto do processo e é aí que M. M. Carrilho privilegia o tal homem de talento senão de génio que forma as convicções e as faz partilhar comunitariamente como hábitos de acção em toda a existência social do homem mediático que somos todos nós. Aquele homem de talento senão de génio é, afinal, o FÜHRER de que fala Heidegger, o FÜHRER a quem os homens desejarão entregar todos os poderes quando a sua existência, exterminado o pensamento, não for mais do que uma “errância no vazio”.

Reconhecer-se-á o Ministro da Cultura neste Führer? Ou guardá-lo-á, prestável, para que nele se reconheça o Chefe do Governo que já, na sua pegada, cita Rorty e Rawls? Reconhecer-se-ão os norte-americanos, tão ciosos da sua democracia, na imagem que, para os servir, o Ministro da Cultura dá dos seus filósofos? Reconhecer-se-ão estes nessa sinistra imagem tão surpreendente como um absurdo que encontre quem o ouça? Continuarão os paupérrimos editores da nossa praça a ser financiados – por quem? – para publicarem livros sem mercado como aqueles em que o nosso Ministro se autoriza louvando por prodigiosas as respectivas traduções? E a União Europeia da qual o nosso Governo recebe o seu sustento? Não está ela empenhada, como já publicamente anunciou, em defender a cultura da Europa dos avanços que sobre ela faz o imperialismo americano? Com que olhos verá um Governo, cujo mentor, este Ministro da Cultura, a dá, no que ela tem de essencial, por um cemitério de sucata? (in Bárbara, Revista Liberal, 1, Setembro de 1997, Edições Ledo, pp. 5-7).









* Todas as palavras e frases em itálico transcritas neste artigo são literalmente expressões usadas pelo Ministro da Cultura. M. M. Carrilho, no seu livro.

Este artigo foi escrito há coisa de dois anos e entregue para publicação a um dos jornais portugueses de mais leitores, do qual, durante alguns anos, o autor deste artigo foi assíduo colaborador. Aliás, como o leitor já observou, o artigo é do mais actual e profundo interesse, exposto com uma objectividade que nenhum sectarismo macula e com uma discursividade literária exemplar. O assunto documental de que trata é de primeira importância para os portugueses, pois constitui uma ameaça à sua liberdade mais íntima. Assunto documental, dizemos, porque expõe a doutrina defendida e preconizada em livro pelo Ministro da Cultura, cujas funções não podem deixar de ser os de mentor do actual governo socialista. Precisamente porque se abona ou documenta com as afirmações de um membro do Governo, a Redacção do Jornal teve de sujeitar a sua publicação à aprovação do respectivo Director, o que só demonstra que os membros do Governo são intocáveis, nesta democracia socialista sem censura. Desde então, já lá vão 10 ou 11 meses, o Director do Jornal tem o artigo retido, o que demonstra que o medo das represálias do Governo é asfixiante e abafa toda a comunicação social.

Ingénuo salazarismo que tivemos. O controlo secreto da comunicação social é muito mais eficaz do que a Censura legalizada, não tem que dar satisfações a ninguém pois não há rosto a quem as pedir, espalha, com seu secretismo, um medo que só aproveita aos medianos e incapazes e permite badalar que vivemos com perfeita liberdade de expressão a qual, de facto, não existe.















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