segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Lendas de Silves

Escrito por Garcia Domingues 




Silves



Introdução

É já sabido que o Al-Gharb, o Ocidente do Andaluz, configura o que nós hoje, Portugueses, chamamos o Algarve. Trata-se, pois, de um ponto geográfico que, vertendo para o mar Verde, surge como o contraponto do Andaluz oriental cujas águas correm para o mar Azul. Outrora descrito como o paraíso de que então falavam os poetas andaluzes em suas epístolas para Bagdade e Damasco, o Algarve, malgrado a sua crescente descaracterização urbanística, continua a maravilhar e a espelhar o Céu cujo sol reverbera o corpo em terra dos verdes e das águas.

Mas não só de luminosidade física está o Algarve pleno e radiante, pois, qual narrativa entretecida de alegorias, metáforas e símbolos, o que mais surte, no subconsciente poético do Garbe, é a imaginação erótica e amorosa em clima de alegria, festividade e tradição. É como se, num universo paralelo ao d'As Mil e uma Noites, despontasse uma sabedoria unitiva do mais alado platonismo com o mais sensual e concreto aristotelismo. Enfim, tudo aí concorre para, por um lado, reatar o património ariano e semita da virtude feminina de que a “moura encantada”, em terra algarvia, constitui a expressão de uma singular e profunda tradição popular, e, por outro, para concitar um menos árido e dogmático saber no domínio das subtilezas quodlibéticas entre judeus, muçulmanos e cristãos.



Castelo de Silves



De facto, o carácter alegórico e mitológico da mulher ideal transparece neste universo único e singularmente português. Aliás, é esse mesmo universo que permite realizar a instância analógica que, do visível ao invisível, ou do natural ao sobrenatural, invoca, em nós, o acto de conceber que vai da sensualidade do amor carnal ao beijo espiritual capaz de quebrar o encanto da Bela Adormecida. Por outras palavras, incita-nos à velada compreensão de como a matéria-prima, insubstancial e insubstante, transita à existência por virtude do princípio criador e substancial representado na forma e no acto.

Ora, que melhor modo senão o lendário para entrever como o encanto é, de alguma forma, a «prisão» da luz na sombra? Daí as lendas de Silves conforme averbadas por Garcia Domingues no seu Guia Turístico da Cidade e do Concelho de Silves.

Miguel Bruno Duarte





Lenda das Amendoeiras

É muito antiga esta lenda das amendoeiras e foi atribuída a muitas regiões. Parece que tem a sua origem mais remota na Pérsia, país tradicional de campos de amendoeiras e de gentileza. No entanto, ela surge também na Turquia e no Próximo Oriente. Em Espanha ela foi atribuída às cidades de Córdova e de Sevilha, em relação com Al-Mu’tamid. Mais exactamente, aplicada aos amores de Al-Mu’tamid e de Romaiquia, tudo indica que foi referida a Silves. É esse parecer da distinta investigadora espanhola Rubiera Mata, que procurou enquadrá-la com maior rigor interpretativo.






Uma princesa nórdica morreria de saudades por não ver a neve, paisagem própria da sua terra. Para lhe agradar, um rei do sul que a raptara teria mandado cobrir os campos de amendoeiras cujas flores alvas lhe lembrariam a neve.


Lenda da Moura Encantada

Depois da reconquista cristã formou-se no povo de Silves uma lenda recolhida no século passado.
Na noite de São João, à meia-noite, aparece na Cisterna Grande do Castelo de Silves uma moura encantada navegando sobre as águas num barco de prata com remos de ouro e entoando hinos da sua raça. É uma princesa que aguarda a chegada de um príncipe da sua fé que pronuncie as palavras mágicas necessárias para a desencantar.


Lenda do Mouro de Chapéu da Aba Larga

Há também no Castelo de Silves uma lenda de um mouro encantado. Ele apareceria, com o seu chapéu de aba larga, de manhã, na parte norte do Castelo, desafiando as pobres lavadeiras que iam lavar às pequenas toalhas de água que por aí surgiam. De um modo geral, as lavadeiras faziam-lhe surriada e ele vingava-se desencadeando sobre elas chuva de pedra.

Quando no Castelo foram inventadas as prisões, o mouro desapareceu. No entanto os presos diziam que todas as noites sentiam, pela meia-noite, um estremecimento em todo o Castelo e ouviam, até de madrugada, o mouro remexendo em papéis velhos.

Castelo de Silves









Lenda da Zorra Berradeira

É também lenda muito antiga de Silves a da Zorra Berradeira. Segundo esta lenda havia no Odelouca uma Zorra Berradeira que durante a noite atroava os ares com os seus berros. A Zorra Berradeira era um verdadeiro monstro com o aspecto de cabra. Tinha silvos de fúria. Os seus berros, de noite, anunciavam desgraça iminente. Ninguém os queria ouvir. Contavam-se casos de pessoas que os tinham ouvido e logo lhes haviam sucedido tremendas infelicidades, sobretudo mortes de pessoas queridas.


Lenda da Velha das Castanhas

Na zona da Atalaia, junto da foz do Odelouca e em frente da Ilha de Nossa Senhora do Rosário, existe uma furna conhecida como a Furna Velha das Castanhas. Diz-se que vivia aí uma velha muito feia e má que estava sempre assando castanhas. Quando algum barco aí passava, descendo o rio, deviam os que fossem nele, lançar-lhe uma moeda, sem o que a velha fazia bruxaria e metia o barco no fundo.

Esta lenda parece ter origem num imposto de portagem mas, por outro lado, liga-se com a da Zorra Berradeira, pois a furna também tinha o nome de Furna da Zorra.


Lenda do Pego do Pulo

O Pego do Pulo, segundo informação que tomámos, fica junto da Fonte Nova, na curva que o rio Arade faz, depois do Cais, para tomar o rumo de Matamouros.

Diz a lenda que aí morreu o último Senhor árabe de Silves, Aben Afan, quando procurava a salvação na fuga.



 Ponte romana de Silves sobre o rio Arade.



Homens antigos de Silves asseguravam que à meia-noite, na noite de São João, se ouvia nitidamente, nesse local, o ruído do galope do cavalo de Aben Afan até ao Pego e depois alguém bradar: «Salta meu cavalo!». Finalmente ouvia-se o estrondo da queda do cavalo na água e o estertor do cavalo e do cavaleiro, enquanto se distinguia o tropel de outros cavalos com seus cavaleiros, fugindo aos portugueses que os perseguiam.


Lenda do Monte das Cabeças

O Monte das Cabeças fica situado em frente do Enxerim, a oriente da ribeira do mesmo nome. Segundo uma lenda antiga era o local de um cemitério mouro e na noite de São João, à meia-noite, os que aí repousavam eram visitados pelos seus parentes também já falecidos. Aí surgiam então cenas de festas macabras que só podiam ser presenciadas por quem fosse muito corajoso. Essas festas só terminavam ao alvorecer. Uma lavadeira do século passado assegurava que presenciara uma delas, verdadeiramente horrorosa.

Tendo passado pelo local há pouco tempo, foi-nos afirmado, por gente do povo, que aí tinha havido uma força no tempo das guerrilhas e que muita gente aí teve os seus últimos dias (Garcia Domingues, Guia Turístico da Cidade e do Concelho, Câmara Municipal de Silves, 2.ª edição, 2002, pp. 63-65).


Um comentário:

  1. Que interessante e curioso para contar aos nossos filhos que adoram histórias e lendas do nosso país e em particular da nossa terra!

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