quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"Vocês argumentam muito!" (ii)

Entrevista a Garcia Domingues




Castelo de Silves


De novo, a conversa muda de direcção sem motivo aparente, aliás como acontece em todos os diálogos. Garcia Domingues é um estudioso do pensamento árabe que é uma das três tradições portuguesas conjuntamente com a cristã e a hebraica. As palavras do nosso interlocutor mais uma vez nos surpreendem:

L – Os árabes contribuíram para a formação de Portugal?

GD – Em meu parecer, os muçulmanos não influenciaram a formação da nossa Pátria, pois no pensamento árabe do tempo não se distinguiam figuras de relevo, como poetas, filósofos e teólogos.

Se os árabes contribuíram em algum aspecto para a definição da nossa nacionalidade foi apenas no que respeita ao território e aos aspectos demográficos. Não há influência nítida e demonstrável do pensamento árabe no Norte. Não encontrei verdadeiramente essa influência… Engraçado, sou arabista e pareço um anti-árabe.

L – Existia algum diálogo entre cristãos e muçulmanos?

GD – Não, nunca houve um verdadeiro diálogo. O que aconteceu foi uma coexistência que, raro em raro, não foi pacífica.

L – Mas os moçárabes facilitaram a Reconquista, até mesmo a conquista do Algarve. Muitos deles, entre os quais um tal Garcia Rodrigues, frequentavam as cortes dos chefes mouros e dos Cheikes dando a conhecer os pontos fracos das suas defesas. Como sabem, o Conde Sesnando que tinha sido durante muito tempo primeiro ministro da Taifa de Sevilha, auxiliou o Rei Fernando Magno na conquista de Coimbra.

A ajuda desses povos foi de tal modo importante que quando o Rei D. Afonso Henriques fez prisioneiros moçárabes gerou um protesto dos monges de Santa Cruz de Coimbra.


L – Podemos entender que há uma realidade de Portugal mesmo antes da conquista?

GD – Estou convencido de que sim. Antes da formação do Reino deram-se eventos que determinaram a constituição de substractos etnográficos que facilitaram as conexões que lhe deram unidade e origem.

No território ocidental sempre existiu uma tendência para se criarem forças independentistas. Houve durante muito tempo a Taifa de Badajoz que incluía Beja, Évora, Santarém, Lisboa, Coimbra e Viseu que foi ocupada pelos Reis de Castela e, posteriormente, recuperada pelos Almorávidas. Por outro lado, existira antes o Reino dos Suevos, que correspondeu a todo o nordeste peninsular até à região de Coimbra.


Estes Estados correspondem em muito, ao actual território português e, nesse sentido, pode-se afirmar que são o prenúncio da formação do território português, pois influenciaram profundamente a unidade geográfica e populacional da região.

Mas penso que a determinação do território português partiu da consciência dos Barões durienses que se reuniram em redor de D. Afonso Henriques. Não é possível conceber que o Reino de Portugal tenha sido constituído por um garoto de catorze anos e pela vontade dos Barões que passavam todo o tempo a lutar entre si.




Estátua de D. Afonso Henriques








A verdade é que houve uma série de enleios, de complicadas uniões políticas. Se os moçárabes não tivessem acompanhado o movimento dos Barões durienses, Portugal não existia.

L – Mas se essa realidade não residia no território, no povo ou na língua, temos de admitir que ele deriva de um plano mais próximo do filosófico que de um plano político…


GD – Sim, essa realidade era espiritual. Lembro-lhes que o Cristianismo já existia há muitos anos na Península e que, por exemplo, na época dos romanos foi criada a seita de Prisciliano, cuja influência se fez sentir nas regiões nortenhas onde existiam pequenos núcleos de culto e cultura religiosa. Decerto que contribuíram para essa unidade.

L – Parece-nos, contudo, que a origem de Portugal se pode colocar num plano espiritual, mas nunca num plano religioso já que não havia uma harmonia religiosa.

GD – No plano religioso e eclesiástico é claro que houve problemas. Por exemplo, a oposição de Braga a Santiago de Compostela contribuiu para a formação da nacionalidade.

Também não devemos deixar de considerar a contribuição das ordens religiosas para a construção da nossa Pátria. As ordens de Cluny e de Cister. Digamos, o Cristianismo fez desaparecer muitos cultos e, noutros casos, assimilou-os.

L – Afirmou que os árabes não tiveram influência na formação de Portugal. Contudo, a língua portuguesa possui elementos muçulmanos…

GD – Não, não. A língua portuguesa é moçarábica. Não podemos esquecer que a região de Coimbra era um importante centro moçarábico. Os moçárabes são cristãos de cultura antiquíssima da Península Ibérica.

Os problemas da língua pátria relacionam-se com o aparecimento do cristianismo peninsular. Há palavras que evoluíram especialmente no moçárabe. Por exemplo, há uma terra perto de Vila Real de Santo António chamada Caçela. Esta palavra vem do latim Castella, que significa castelos. No castelhano, a palavra evolui para castilla. Portanto, não é deste castilla que resulta Caçela. A passagem do ST para o ç só se verificou no moçárabe, o que prova a influência moçarábica. Forneço-lhes outro exemplo: no Algarve diz-se grizéus, nome dados às ervilhas verdes. Gri significa verde acinzentado no sul de França e na costa levantina de Espanha. Daí vem griziu que dá grizeu, o que só aconteceu no moçárabe. A influência é mais moçárabe do que árabe…

L – É possível relacionar o messianismo português com o pensamento árabe?

GD – Não o relaciono com o árabe, mas antes com o hebraico. Os árabes têm a ideia do Mahdi.





Ver aqui




O messianismo sebastianista é um valor nacional extraordinário. É uma prova de sobrevivência de Portugal. O sebastianismo é popular, nasceu de circunstâncias trágicas e pavorosas. No entanto, não o concebo como uma mística religiosa universal.

L – Revertendo às relações entre o Islamismo e o Cristianismo. Hoje, existe diálogo entre estas duas religiões?

GD – Sim. A prova é que se está a realizar. O ponto de contacto tem sido a Espanha e as famosas reuniões de Córdova. Nestas iniciativas fazem-se ofícios religiosos cristãos e muçulmanos no mesmo espaço físico, a Mesquita Catedral de Córdova, embora em separado.

A Igreja Católica sempre se recusou a participar nos congressos de religiões que se realizavam em Chicago porque não considerava os outros cultos como realidades positivas no domínio religioso. De tal modo assim era, que julgava uma ideia herética o diálogo entre religiões.

Depois do Vaticano II, a hierarquia eclesiástica modificou a sua posição e levou a efeito os encontros de Assis que contou com budistas que, até então, não eram considerados. Penso que a mudança de atitude se deve à II Guerra Mundial e à insistência dos intelectuais europeus, que procuram conhecer o mundo muçulmano.

L – Considera esse diálogo possível no domínio da teologia?

GD – Há uma coisa em comum: a unidade de Deus. Até certo ponto entre cristãos e muçulmanos pensa-se que se está adorando o mesmo Deus, um Deus único anunciado por Abraão, que se relaciona igualmente com o judaísmo. Portanto, parece tratar-se da mesma divindade. Na realidade, entre Cristianismo e Islamismo existem semelhanças que permitem o aproximar das duas religiões, apesar de as concepções teológicas e simbólicas divergirem.

No entanto, penso que esse diálogo tem um sentido político. A Europa não vê com bons olhos a união do mundo muçulmano à União Soviética.


Aliás, a escolástica foi influenciada pelo pensamento árabe, e até houve doutores em Paris que defendiam as ideias de Aristóteles segundo a interpretação de Averróis. Recordo que S. Tomás de Aquino conheceu os textos árabes de Aristóteles.

O historiador espanhol Miguel Asín Palacios, a maior figura do arabismo peninsular, tentou demonstrar a influência da mística islâmica na mística cristã. Pessoalmente, não descortino essa influência no misticismo português.

Mais uma vez a conversa muda de orientação. Recuando no tempo. Voltámos à filosofia.




Colunas na Sé Catedral de Silves



L – A sua tese de doutoramento causou um certo mal-estar nos meios universitários. O senhor é apontado como um dos responsáveis pela introdução em Portugal do pensamento germânico contemporâneo…

GD – É verdade. Quando apresentei a minha tese, o ensino universitário ignorava a filosofia alemã e as correntes mais modernas do pensamento. Exposições sobre o pensamento germânico não existiam. Mais do que isso: a metafísica tinha sido desprezada pelos programas inventados por Matos Romão. Nem Vieira de Almeida queria a disciplina de metafísica.

A minha tese provocou uma espécie de revolução…

L – Cremos que também um dos primeiros divulgadores do pensamento de Heidegger…

GD – Um dia, Delfim Santos chamou-me a atenção: “Você não está a interpretar bem o pensamento de Heidegger”. De qualquer modo, considero que neste filósofo alemão a ideia de ontologia tem muita importância, mais até do que a ideia do Nada ou a sua posição ateísta.


Na minha perspectiva, a filosofia heideggeriana é uma filosofia da existência e da realidade, ou melhor, é uma real ontologia. Mas a ontologia é ainda insuficiente… Heidegger corresponde a um esforço de investigação do pensamento que não conduz a qualquer conclusão.

A noção de ser é difícil de conceber. Não sei o que seja. É preciso muita coragem para explicitar este conceito.

Julgo que a filosofia tem de se preocupar com as relações entre o ser e o devir. É desta reflexão que resulta a metafísica moderna.


Heidegger


L – Segundo Álvaro Ribeiro, o ser é um verbo…

GD – Não, não é só o verbo.

L – Álvaro Ribeiro dizia nas tertúlias que Heidegger sempre que descobria uma palavra, escrevia um tratado de filosofia…

GD – Não concordo muito com os filologismos de Heidegger, mas devemos atender a uma realidade: uma ideia ou conceito é muitas vezes formado a partir de palavras. Ora, temos de analisar como é que foram formados. Em filosofia tem-se que atender sempre à filologia, a uma filosofia da linguagem.

Há a análise da palavra e dos termos, por assim dizer, no domínio da gramática e, depois, existem as relações entre os conceitos e as ideias, e as correlações, tudo no mundo do pensamento. O pensamento não é a língua.

L – Nos nossos dias, a ética tem sido desvalorizada a favor da moral. Que significado atribui a esta realidade?

GD – Hoje, despreza-se a ética, o que equivale a uma decadência do pensamento, ou se quisermos, a um vácuo. É pavoroso!

A moral pública não é, em verdade, uma moral e muito menos pode garantir uma ética. Mas é evidente que o Estado tem de ter normas convencionais ligadas aos costumes.

Em relação à ética não sabemos qual o padrão a seguir. Devemos, contudo, investigar, pois é essa a finalidade do pensamento. É possível manter uma ética independente da religião?

L – Podemos relacionar o que acaba de dizer com o Diabo?

GD – O Diabo é uma insinuação no sentido do mal, de algo que é errado em termos de ética. É um anjo mau que aflige? Do ponto de vista teológico pode ser que sim. Os muçulmanos admitem espíritos diabólicos e duendes.


No catolicismo, o Diabo é um princípio errado.



Arcanjo S. Miguel calcando o Demónio.



Posso conceber que haja comunicação com o mundo espiritual e com os espíritos. Se existe uma influência com determinado sentido nefasto, dizemos que estamos em presença de uma instigação diabólica.

L – Para si, o que é a morte?

GD – Segundo Aristóteles, a morte é a extinção das funções vitais, mas haveria algo de substancial no indivíduo que perduraria para além dos tempos. É muito estranha esta teoria segundo a qual os homens não são eternos, porque de acordo com Platão e as perspectivas platonizantes, os seres humanos poderiam ser eternos. Se nós sempre existimos e vamos existir, então não há dificuldade porque estamos em transição.

Agora, é difícil conceber como é que, de repente, se apareça e, depois, se desapareça, mas continuando a existir.

De qualquer modo, a teoria clássica de todas as religiões é que fomos criados por Deus e possuímos uma alma imortal. Não só as religiões, mas todo o homem quando pensa não pode imaginar que morra sem deixar vestígios. Todas as religiões admitem que o espírito continua para além da vida terrena.


Para os místicos é simples: a alma junta-se a Deus de onde provém. A maioria dos homens são místicos.

L – Nos tempos modernos tem sentido falar-se em experiência mística? Pode-se relacionar a fenomenologia com a mística?

GD – Penso que sim. A fenomenologia não é um caminho para a mística, mas facilita a compreensão dos seus problemas. A comunicação com o mundo espiritual é de todos os tempos. A interrogação é esta: qual é esse mundo transcendente que está sobre nós?

Finalmente, o nosso anfitrião faz uma pausa, indiciando que estava a chegar ao fim esta conversa. Apenas acrescentou: “ Vocês argumentam muito”. Para o bem e para o mal, pensámos nós, na nossa juventude… (ob. cit., pp. 31-35).


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