quinta-feira, 3 de junho de 2010

O ideal civilizador dos Portugueses é imensamente superior (incomparavelmente superior) àquele que tem sido proclamado na ONU

Escrito por Álvaro Ribeiro








«Mestre daqueles que sabem», no dizer suavíssimo de Dante, continua Aristóteles a exercer o melhor protectorado sobre quantos pensadores se dedicam aos estudos filosóficos» – escreveu Álvaro Ribeiro no começo do seu mais recente livro, Liceu Aristotélico. Foi na verdade, o Filósofo «sem émulo nem par», o grande, talvez o único preceptor das linhas fundamentais de pensamento deste outro valoroso combatente, padrão imorredoiro na história da filosofia portuguesa, que é mestre Álvaro Ribeiro. Que a sua humildade e sensibilidade, nos perdoe tais palavras, justíssimas e intencionais apesar de por muitos regateadas. Álvaro Ribeiro foi-nos mestre; foi-nos o primeiro alicerce lançado no estudo da história da filosofia portuguesa. Os mais pensadores que vieram, enriquecendo o tema com novos aspectos e considerações, desde as atitudes de adesão acrítica e de negação ingénua, até aos reflectidos estudos de quem analisa o problema nas suas dimensões de equilíbrio e na sua fundamentação racional, vieram-lhe na esteira, surgiram da revolução do seu primeiro livro, O Problema da Filosofia Portuguesa, em 1943. «A filosofia portuguesa representa uma aventura espiritual de fidelidade a Aristóteles», haveria de escrever mais tarde o autor portuguesíssimo. E demonstrava-o cabalmente.

Há dias Álvaro Ribeiro parece-nos desanimado. O ano de 1963 foi-lhe ingrato, num rosário amargo de dores físicas e morais. «Um ano improdutivo», exclama. E logo: «Lutei por uma causa perdida!». Com esta pequena introdução, com esta lúcida e excelente entrevista, que fez favor de nos facultar, pretendemos apenas demonstrar o contrário. Nenhuma causa é perdida, se justa, leal e necessária. Muito fez Álvaro Ribeiro! Muito lhe deve a cultura nacional, muito lhe devemos todos nós, sobretudo aqueles que do pensador admirável aproveitaram as lições. Para quantos, pois, a homenagem aqui proposta por José Valle de Figueiredo?

Mas demos lugar às importantes respostas, de ordem filosófica, pedagógica e política – mais expressivas que quantas palavras alheias – pelo filósofo português concedidas:

Qual o seu pensamento actual acerca da filosofia portuguesa?

O problema da filosofia portuguesa preocupou-me e ocupou-me durante vinte anos, de 1940 a 1960. Creio que cumpri o meu dever. Sem renegar as teses então formuladas, porque elas são para mim as chaves interpretativas dos nossos acontecimentos políticos, – desde 1140, desde 1640, – limito-me hoje a observar o que da filosofia portuguesa vão pensando e dizendo as novas gerações.

Vem então de uma meditação histórica, ou de uma reflexão política, a problemática que tanto absorveu o seu pensamento durante esses vinte anos.

Sinceramente o confesso, mas o momento de mais séria acuidade foi, para mim, a Segunda Guerra Mundial. Perante a posição nacional de neutralidade (que não está em questão), era de esperar que o bloco vitorioso, fosse ele qual fosse, viesse mais cedo ou mais tarde pôr em discussão o problema da legitimidade da nossa independência política. Assim aconteceu depois de 1960. As razões da independência política, ou seja, da autodeterminação de cada povo, só podem ser razões filosóficas, ou, por outras palavras, a projecção futurista ou futurante de autonomia cultural. As chamadas razões históricas e razões geográficas não são, efectivamente, razões. São apenas elementos utilizáveis para a constituição de um raciocínio completo ou silogismo.










É fácil de perceber onde Álvaro Ribeiro deseja chegar… E a pergunta nasce «per si»:

Alude porventura às discussões na ONU?


Sem dúvida. Eram de esperar por quem tivesse estado atento aos trabalhos da UNESCO. Sempre pensei que o ideal civilizador dos portugueses é imensamente superior, incomparavelmente superior, àquele que tem sido proclamado nas assembleias das Nações Unidas. Tal superioridade só pode ser conhecida até à evidência por quem estudar o assunto pelos métodos adequados à investigação filosófica. Nos termos vulgares da oratória parlamentar, de submissão a preconceitos, não é possível uma argumentação de valor transcendente, pelo que só resta à defesa o recurso de apelar reiteradamente para a energia moral.

As publicações da UNESCO afiguram-se-lhe de carácter predominantemente sociológico, e até positivista, não é verdade?

A proliferação de estudos sociais e de estudos sociológicos, em todo o hemisfério designado por ocidental, com a multiplicação de gabinetes, centros, institutos, faculdades e outras escolas, acusa uma tendência doutrinária que me parece perigosa na medida em que tende a minimizar, ou a minorar, os estudos de psicologia. A sociologia sem psicologia conduz à inversão, e portanto à falsificação, dos métodos explicativos e racionais. Ora a UNESCO está impregnada deste sociologismo tão internacionalista como abstracto, contra o qual não podem deixar de opor-se todos os intelectuais religiosos e todos os intelectuais espiritualistas que meditem sobre o destino transcendente da Humanidade.

Perguntámos então ao insigne mestre como deveriam proceder, em face da situação mundial, os intelectuais portugueses. A resposta é tanto mais dolorosa quanto verídica…

No último decénio, fiz o possível por dizer em livros e em artigos de jornais, primeiro no Diário Popular então dirigido por Luís Forjaz Trigueiros, e depois no Diário de Notícias, o que de urgência me parecia ser útil para formar um escol de nacionalistas autênticos, quero dizer, dotados de pensamento filosófico. Os meus escritos causaram boa impressão em meia dúzia de intelectuais mais novos, mas as minhas teses e as minhas propostas ninguém as honrou com meio dia de análise, exame, meditação ou estudo.

E voltamos ao assunto premente duma causa que, de maneira alguma, poderemos julgar perdida…

Não mereceu a filosofia portuguesa qualquer atenção do ensino público?

É inegável que nem da Universidade, nem do liceu, recebeu o problema da filosofia portuguesa, tal como fora então enunciado, a mínima colaboração válida. Aliás, como se verifica pela leitura dos programas oficiais, o Estado não prescreve que o ensino da filosofia (portuguesa) seja ministrado por textos de autores portugueses. Falta, portanto, o reflexo, a crítica, a superação das obras dos pensadores antigos pela docência dos novos professores. Não há continuidade didáctica nem tradição escolar. Assim se explica que a maioria dos diplomados pelas nossas escolas superiores, com a excepção dos que frequentaram a Faculdade de Letras, descreiam ou duvidem do pensamento nacional, porque o ignoram. Tremenda é a observação quando afecta até os historiadores e os militares…






Quer então dizer que atribui aos métodos utilizados no nosso ensino, a falta de um pensamento activo e actuante?

Temos de notar que, depois de proscritos o ensino de Aristóteles por decisão do Marquês de Pombal, nunca mais a Universidade foi favorável à expressão de uma filosofia livre, autêntica, original. Não foram universitários Amorim Viana, Antero de Quental, Cunha Seixas, Domingos Tarroso, Sampaio Bruno, etc. Quanto a Leonardo Coimbra, só por um decénio (1920-1930), pouco mais ou menos, lhe foi permitido ensinar de cátedra, pois oficialmente não passava de um obscuro professor de matemática e desenho. Tem sido a Universidade portuguesa dotada de professores cuja competência e cujo saber, aferidos por provas legais, nos parecem acima de qualquer discussão, mas para realizar obras originais, profundas e influentes no domínio da filosofia são indispensáveis outras condições, as quais relaciono com a altíssima inspiração de Deus.

A história da filosofia portuguesa não foi ainda publicada em livro. Apenas conhecemos o trabalho, antiquado e esgotado, de Lopes Praça. Como explicar tão grande falta?

Do que disse, na resposta à pergunta antecedente, pode inferir-se a dificuldade que agrava o trabalho universitário de escrever e ensinar a história da filosofia portuguesa. Colocada no fim de um curso na Faculdade de Letras, a disciplina de História da Filosofia em Portugal não pode deixar de obedecer a um programa delineado segundo a história da filosofia nos outros países, quer dizer, por um programa estrangeiro. Os resultados de tal ensino não podem ser senão contraproducentes por deprimentes, conforme verificamos em quase todas as expressões da nossa literatura.

Para terminar, pode dizer algumas palavras sobre a originalidade, as características e as teses da filosofia portuguesa?

É difícil responder brevemente. A perspectiva que adopto para apreciar o pensamento filosófico português, na sua evolução histórica, é o da sua maior ou menor fidelidade a Aristóteles, os seus desvios para a esquerda ou para a direita, em referência à Ética Nicomaqueia, e assim na sucessão do iluminismo, do positivismo e do materialismo, depois do Marquês de Pombal até aos nossos dias. Objectar-se-á que a fidelidade a Aristóteles é contraditória com a existência de um pensamento moderno, profundo e original. Simplesmente, a coordenar com a sistemática aristotélica, há a vivacidade e a vigência das três tradições judaica, cristã e islâmica, como factores expressivos da alma nacional. A nossa filosofia só o pode ser em relação com uma tecnologia definida ou indefinida, patente ou oculta. Nessa verdade, está a erudição dos caracteres da filosofia portuguesa mas também a significação mais alta da nossa missão civilizadora, e com ela, dos destinos superiores da Pátria.













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