quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Grande Deturpação (ii)

Escrito por Orlando Vitorino





'Arca de Fernando Pessoa'




SEGUNDA ILUSTRAÇÃO

que mostra como o Estado se mancomuna com a universidade para espoliar e deturpar o património dos portugueses

com a história dos 26 000 inéditos de Fernando Pessoa

Em 1935, morria Fernando Pessoa. Deixava numerosos textos dispersos por diversas publicações, um único livro editado e inúmeros inéditos guardados numa arca.

Em 1942, Luís de Montalvor, que dirigia as Edições Ática, iniciou, com Gaspar Simões, a edição das Obras Completas do grande poeta. Planearam eles a edição de modo a terminá-la no ano seguinte: "Esperamos - diziam na introdução ao primeiro volume - poder organizar os volumes subsequentes de maneira a que as Obras Completas de Fernando Pessoa possam estar inteiramente publicadas no decurso do próximo ano". Todavia, achavam tal prazo demasiado demorado e quase se desculpavam: "Quando se trabalha com cuidado é preciso trabalhar devagar. Fernando Pessoa merece-o".

Passaram-se, desde então, mais de trinta anos, e a publicação das Obras Completas está longe de ver o seu termo. Luís de Montalvor morreu e Gaspar Simões, não sabemos porquê, abandonou a tarefa: haviam, ambos, publicado os quatro primeiros volumes em 1946, sem dúvida os mais seriamente organizados.

No ano seguinte, em 1947, já sem a interferência de Gaspar Simões mas com uma breve nota circunstancial de David Mourão-Ferreira, reedita-se a Mensagem.

Anos mais tarde, em 1952, é Eduardo Freitas da Costa quem organiza o 1.º volume dos Poemas Dramáticos, cujo 2.º volume ainda não apareceu.

Surgem depois, em 1956, dois volumes com o título inadmissível de Poesias Inéditas de Fernando Pessoa, organizados por Jorge Nemésio com o auxílio de Freitas da Costa e uma nota paternal e credencial de Vitorino Nemésio.






Em 1965, entra em cena Jacinto Prado Coelho com um volume de título também inadmissível: Quadras ao gosto Popular. Eram versos que Fernando Pessoa reunira num "envelope verde", anotando do lado de fora: "quadras". Jacinto P. Coelho entendeu por bem acrescentar " ...ao gosto popular", e juntar-lhes um longo ensaio onde diz ter sido G. R. Lind quem "em boa hora exumou as quadras" Percebe-se?

Com esta entrada em cena de Jacinto P. Coelho, o "espólio" de Fernando Pessoa parece ter caído definitivamente nas mãos dos "universitários", o que deve ter coincidido com a negociação desse "espólio" pelos solícitos familiares do poeta que, da Inglaterra, o ofereceram por um milhão de dólares à Fundação Gulbenkian [passagem truncada] depois o vieram entregar ao Estado não sabemos em que condições.

Jacinto P. Coelho está especializado nesta espécie de tutoria universitária dos espólios literários. É ele quem preside à edição das Obras Completas de Teixeira de Pascoaes e de Camilo juntando aos volumes, a título de prefácio, textos escolares tão inadequados que uma instituição particular, ao adquirir grande quantidade de exemplares das obras de Camilo, pôs como condição não figurarem neles tais "prefácios". Mas com Pascoaes e Camilo o mal não é tão grave como com Fernando Pessoa, pois as obras deles estão, em outras edições, publicadas à muito.

Nas mãos de Jacinto P. Coelho, a edição das obras de Fernando Pessoa tornou-se ainda mais demorada. Depois das Quadras, saiu mais um volume com o título inadmissível de Poesias Inéditas, agora Novas Poesias Inéditas. Saiu em 1973, oito anos depois das Quadras, e foi "elaborado" por Maria Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno - quem são? senhoras que, numa singela "nota prévia", expressam o seu agradecimento - porquê? - ao seu professor Dr. Jacinto Prado Coelho.

No ano seguinte, 1974 - mas segundo o prefaciador, Jorge de Sena, já encomendado pelo editor em 1958 - sai o volume Poemas Ingleses, revertidos em português pelo dito prefaciador, por Casais Monteiro e por José Blanc de Portugal. No prefácio, Jorge de Sena fala das "homéricas contendas burocráticas" para conseguir cópias dos originais que só acabaram por ser autorizadas graças "aos porfiados esforços do escritor Luís Amaro".






Entretanto, organizados pelos mesmos Jacinto P. Coelho e G. R. Lind, são publicados dois volumes de textos em prosa que aqueles organizadores dizem ter "estabelecido". Embora editados pelo mesmo editor, embora organizados pelos mesmos organizadores, embora sendo igualmente de Fernando Pessoa, estes volumes aparecem, porém, fora das Obras Completas. Percebe-se? E o mesmo acontece a um terceiro e quarto volumes de prosas, esses com o título de Textos Filosóficos, reunidos e prefaciados por outro "universitário", António de Pina Coelho.

Entretanto, mais de trinta anos decorridos sobre a data marcada por Luís de Montalvor e Gaspar Simões para a total publicação das obras de Fernando Pessoa, a maior parte deles continua por editar. Uma ou outra indiscrição vai-nos revelando que "a maior parte dos escritos continuam a aguardar a luz da publicação" (A. Pina Coelho, introdução aos Textos Filosóficos, p. XI), ou que, segundo informação do poeta austríaco Max Holzer, que teve acesso à famosa "arca", se encontram inéditos cerca de 26 000 textos!

Como é possível que a mais importante obra inédita do génio poético português continue entregue a tais tratos e escondida dos portugueses? Daqui apelamos para o Secretário de Estado da Cultura, por cujo pelouro cremos que estes assuntos correm, para que mande editar imediatamente, sem atender a outro critério que não seja o da sua publicação integral, todos os textos inéditos deixados por Fernando Pessoa.

Ora como assim houvéssemos denunciado na Escola Formal a existência de 26 000 inéditos no espólio de Fernando Pessoa entregue à guarda de J. Prado Coelho, como houvéssemos mostrado o que isto constitui de roubo e burla dos portugueses assim espoliados do que só a eles pertence e como, ainda, houvéssemos requerido que, para pôr termo ao escândalo, o Governo mandasse editar imediatamente os referidos inéditos para cujo trabalho de edição nos oferecíamos (reservando as edições escolhidas" e críticas para depois), ora foi assim que o Professor Joel Serrão veio anunciar que, por incumbência do Professor Prado Coelho, publicaria ele - ele ou duas senhoras, decerto também professoras e decerto por ele marxisticamente condicionadas - três volumes de textos políticos inéditos escolhidos no espólio do poeta. O Pessoa que do socialismo dizia "vária horrorosa subgente sindicalista, socialista e outras coisas", vai pois aparecer-nos, em três volumes de textos escolhidos, purificado de seus pecaminosos dizeres e, com certeza, socialista. Preparando a purificação, o referido professor vai já dizendo, aliando Pessoa a António Sérgio, que são os dois as máximas figuras intelectuais deste século o que, evidentemente, não significa coisa nenhuma pois, se significasse, o Professor não o diria.



Que Fernando Pessoa seja, com Pascoaes, Junqueiro e Régio, um dos grandes poetas deste século, nenhuma objecção suscita e toda a gente o sabe. Agora António Sérgio, personalidade feita de alguns aspectos estimáveis e alguns outros insusceptíveis do menor apreço e caracterizada por uma total ausência de génio, seja sobreposto àqueles que, como Bruno, Leonardo ou José Marinho, foram, neste crepúsculo em que os morcegos são professores, "as aves de Minerva que levantam voo ao anoitecer", é afirmação que só pode ocorrer a um funcionário público ao serviço do socialismo.

Mais uma vez requeremos a quem de direito, e não sabemos quem seja, que mande arrancar o espólio de Pessoa de quem o espolia e, para usarmos a linguagem dos mandantes, o restitua ao povo a quem pertence.


TERCEIRA ILUSTRAÇÃO

que nos mostra como os intelectuais não são de esquerda com a história de uma decepção do poeta Miguel Torga

Miguel Torga publicou mais um belo volume, o XII, do seu Diário. Abrange ele o período que precedeu e sucedeu ao 25 de Abril de 1974. As observações e comentários que o compõem são o espelho de uma profunda decepção. Homem que sempre foi da "esquerda", da "velha esquerda", alimentou até àquela data a ilusão de que a "esquerda" continha os valores e princípios de liberdade e individualismo que prestigiaram, justamente, a esquerda liberal do século passado. Com o 25 de Abril e o que se lhe seguiu, Miguel Torga, como muito mais gente, verificou com amargura e espanto que a "nova esquerda" ou, simplesmente, a "esquerda" nada tinha que ver com os princípios da liberdade: é uma organização de "massas" com uma doutrina totalitária, demagógica, terrivelmente estatista e censória, poderosamente controladora de toda a vida pública e privada, eleitoralmente esmagadora e profundamente injusta.



Salvador Dalí




Este Diário de Miguel Torga poderá também contribuir para desfazer um erro difundido nos ambientes de cultura pouco ou mal informada, nos quais se confundem os intelectuais com os bem pensantes. Consiste esse erro na suposição de que os intelectuais são homens de esquerda. Ora a verdade é, rigorosamente, o contrário. Salvo uma ou outra raríssima excepção - talvez o caso de Picasso que se deixou ir levando, decerto o caso de Sartre que há poucas semanas Ionesco demonstrou "não saber o que quer" - não há, em qualquer país, um intelectual significativo que a "esquerda" de hoje não tenha de abominar; como não há, na orientação actual dos diversos géneros da actividade intelectual, um nome que a mesma esquerda não tenha de repelir: o cinema com Ingmar Bergman; a sociologia com R. Aron ou G. Gurvitch; a economia com Ludwig von Mises, Frederico Hayek ou Milton Friedman; as artes plásticas com Salvador Dalí ou Almada Negreiros; a novelística com Proust, Joyce, Lawrence ou Faulkner; o teatro, com Pirandello, Beckett, Anouilh ou Ionesco; a poesia com Claudel, Pound, Eliot, Pascoaes, Pessoa ou Régio; a filosofia com Unamuno, Heidegger, Ortega, Jaspers, Leonardo ou José Marinho. todos estes nomes são os de homens que defendem valores que a actual "esquerda" condena radicalmente. Poderão, alguns deles, não se declarar em termos - para um intelectual necessariamente simplistas e grosseiros - de "esquerda" ou "direita". Mas não há dúvida de que a "esquerda" tem, inevitavelmente, de os abominar como, efectivamente, abomina. E só lhe resta, então, ou recorrer à falsificação da poderosa propaganda que possui para fazer famosos intelectuais medíocres, como aconteceu com o dramaturgo comunista B. Brecht e como vimos entre nós acontecer durante anos com os neo-realistas, hoje ridicularizados, ou recorrer à mentira pura e simples, como fez o desembaraçado "leader" Salgado Zenha ao chamar a José Régio o "camarada socialista" (in ob. cit., pp. 152-157).

Continua


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