quarta-feira, 23 de maio de 2012

Franco-Atirador (i)

Escrito por António Quadros








O Governo Mundial


Destacam-se agora alguns trechos significativos de um dos livros mais emblemáticos de António Quadros, titulado Franco-Atirador. Nele, o autor traça a dialéctica entre uma ideologia unificadora supranacional e a coexistência de comunidades nacionais e patrióticas. Desse modo, mostrara-se particularmente sensível ao eventual surgimento de uma supranacionalidade federativa ou imperial, viesse ela da ONU ou das sucessivas Internacionais de ordem capitalista ou socialista.

Aliás, António Quadros propusera-se explicitar como uma tal ideologia utópica e totalitária seria ultrapassada pela própria realidade, não obstante a perpetuação de guerras, divisões e toda a espécie de conflitos internos e externos. Porém, a verdade é que, sem prejuízo da lúcida percepção manifesta pelo autor sobre a relação de forças entre as potências mundiais, não vira até que ponto a dialéctica entre tais potências resultaria no que já hoje vários e distintos autores designam por Nova Ordem Mundial. Em poucas palavras, António Quadros não se apercebera da aliança oculta entre banqueiros internacionais e socialistas revolucionários com vista a reforçarem interesses e benefícios mútuos.

O caso, rigorosamente falando, radica no sistema monetário internacional que já hoje reúne todas as condições indispensáveis para controlar as finanças, os mercados, a educação, os recursos naturais e a população mundial. Não há, pois, uma divisão rígida entre capitalismo e socialismo, ou entre o capital e o alegado sistema de distribuição da riqueza. Existe sim – conforme já demonstrado por Antony Sutton no seu livro Wall Street and the Bolshevik Revolution – uma oligarquia financeira internacional que dispõe do socialismo para, mediante o seu potencial destrutivo, neutralizar toda e qualquer resistência aos seus planos de dominação mundial.

Acentuemos ainda que fora António Quadros quem apelara para uma «revolução criadora» na Universidade, ou, se quisermos, para uma renovação da criatividade intelectual no âmago do ensino superior. Pode, enfim, parecer uma ilusão alimentada pelo autor, dado o grau de consciência que sempre manifestara perante a grave situação de um ensino comandado pelas grandes culturas imperiais, quando não pelas máquinas político-ideológicas que introduziram entre nós o cientismo, o marxismo, o estruturalismo, etc. E daí que um dos alvos preferidos de António Quadros residisse precisamente no positivismo universitário ou académico.






Entretanto, os manuais da dita «Disciplina de Filosofia», ministrada no ensino médio, constituem um verdadeiro caso de insanidade mental relativo a quem, por um lado, os elabora, depois a quem os produz para fins editoriais, e, por último, ao professorado directa ou indirectamente obrigado a prescrevê-los e a segui-los no meio escolar. Ora, nos manuais se encontra a mais inacreditável série de esquemas, definições e falsas oposições, como entre empirismo e racionalismo, empírico e científico, sensação e intelecto, experiência e razão, etc. Continua-se, inclusivamente, a transmitir um cientismo próprio da «escola analítica», além da particularidade relativa à necessidade sempre fictícia de situar o pensamento filosófico no seu contexto histórico-cultural.

A filosofia não é uma disciplina, um domínio ou uma área do saber. Apresentá-la como tal, sobretudo na forma irracional que a cultura universitária lhe confere, equivale a produzir a animosidade dos adolescentes numa idade assaz sensível na formação da personalidade. Depois, há ainda a questão de como todo o ensino se fundamenta em directrizes internacionais provenientes de agências especializadas como a Unesco, envolvendo técnicos e financiamentos que executam, de uma forma gradual e programada, o modelo global de organização do ensino.

Enfim, é de, facto, na Universidade que o globalismo encontra o seu melhor aliado. E não é, pois, por acaso que um número considerável de jornalistas, economistas e intelectuais sejam constantemente solicitados por órgãos de Comunicação Social para assim inculcaram nos mais desprevenidos a crença no globalismo invasor. Seja como for, mal sabia ainda António Quadros qual é, na verdade, o maior intento das forças e das potências do mal que pairam nos bastidores da Nova Ordem Mundial.

Miguel Bruno Duarte





«INTERNACIONAIS», INTERNACIONALISMO, NACIONALISMO E IDEAL UNITIVO


ABATER AS FRONTEIRAS:








Abater fronteiras! Riscá-las dos mapas! Apagá-las das almas.

Eis um ideal que se renova em cada geração: um ideal romântico, que aspira à imediata realização do homem universal, do homem transcendente às nações e aos nacionalismos, às pátrias e aos patriotismos. Ideal que mergulha as suas raízes no «passado» cultural da humanidade. Podemos detectar as antigas pegadas deste ideal na civilização helenística supranacional, visionada por Alexandre; no romano-centrismo imperial de César e de Augusto; na afirmação cristã de que os homens pertencem a uma pátria que não é deste mundo, e de que portanto só tem sentido a cidade universal dos homens enquanto potencial cidade de Deus; consequentemente, nas tentativas e nas teorizações de uma República Christiana, dos Impérios sonhados por Frederico, ou por Carlos V, ou até mesmo do V Império lusocêntrico, Império do Espírito Santo, conciliador de todas as desavenças e todas as cisões através do Espírito da Verdade, ou ainda do Império Napoleónico, agora galocêntrico...

Com a crise do conceito de Império - pois que a supranacionalização era conquistada e imposta afinal de contas por uma pátria centralizadora e absolutista -, deu-se a canalização do mesmo ideal para um princípio a que podemos chamar o internacionalismo.


AS «INTERNACIONAIS»

O facho do antinacionalismo teórico e revolucionário foi levantado pelos partidos socialistas e comunistas. Mas as Internacionais não conheceram melhor fortuna do que os Impérios. A I Associação dos Trabalhadores durou dez anos. A sua existência não resistiu à cisão entre os comunistas, dirigidos por Marx e Engels, e os anarquistas, encabeçados por Bakunine. Não resistiu sobretudo à guerra europeia de 1870, que despertou o espírito nacional na França e na Alemanha. A segunda guerra europeia - de 1914-18 -, marcou o fim da II Internacional, cujos adeptos, na sua maioria, fraquejaram perante o apelo patriótico. A III Internacional, inspirada por Lenine, foi russo-cêntrica, o famoso Comintern. O seu fim foi apressado pela luta entre Trostky e Estaline e, é bem evidente, pela terceira guerra europeia. O domínio soviético, a reaparição do velho nacionalismo russo foram postos em relevo pela cisão da Jugoslávia de Tito e pela satelização da Europa de Leste; mais recentemente, pela revolta da Hungria e pela invasão da Checoslováquia. Em vez do Internacionalismo, a ressurreição do antigo conceito de Império, com a Rússia a exercer a função desempenhada nos tempos passados por Roma, pela Alemanha, pela Espanha, com homens de confiança do tipo sátrapas a dirigir os países satélites, com Partidos transformados em grupos de pressão, trabalhando a favor da «pátria-mãe do socialismo mundial».

Situação que não podia deixar de explodir: todos estes países e partidos lutam hoje por «vias nacionais» para o socialismo, insatisfeitos perante a ideia de uma vassalagem contrariante da sua liberdade. Fala-se de uma IV Internacional, que seria a Internacional dos estudantes, inspirada por Mao-Tsé Tung, por Che Guevara, por Trostky, Internacional simultaneamente anticapitalista e anti-soviética, mas a sua realização seria por certo ainda mais frágil do que as tentativas anteriores.





Em escala um pouco mais reduzida, outras Internacionais agitam as almas e atraem muitos espíritos: por exemplo a chamada Tricontinental - Organização de solidariedade dos povos da África, da Ásia e da América Latina -, concebida para lutar contra o capitalismo e a aliança euro-norte-americana; por exemplo a OEA, a Organização dos Estados Africanos; num pólo oposto, as Internacionais dos países capitalistas, cujas dificuldades de realização não são menores: a Europa-nação, a Europa do Mercado Comum, a Europa das democracias liberais; o pan-africanismo e o pan-europeísmo foram precedidos pelo pan-americanismo mas também este está em regressão, tão ténues são as afinidades sociais, económicas, culturais e políticas entre as três Américas: a da língua inglesa, a da língua espanhola e a da língua portuguesa.

Em suma, em qualquer das suas interpretações - a imperialista ou a internacionalista, a capitalista ou a socialista, a democrática ou a absolutista -, o ideal de um mundo sem fronteiras desfaz-se constantemente contra o rochedo forte da realidade.

Ideal defendido retoricamente, ardorosamente, teimosamente, em vez de progredir, no entanto retrocede. Continuam as utopias de ficção científica a figurar uma era futura em que já não há guerras porque já não há nações. Mas, entretanto, a tendência do real é para a pulverização em número cada vez maior de países: tal acontece na África e na Ásia, por exemplo; e são inúmeras as reivindicações separatistas de províncias que querem voltar a ser pátrias, como por exemplo o país Basco, na Espanha; a Bretanha, na França; a Escócia e o País de Gales na Grã-Bretanha; o Quebec, no Canadá; a Ucrânia, na União Soviética; o Biafra, na Nigéria - para citar apenas alguns casos de agitação muito recente e para não mencionar os países divididos em dois pela estratégia internacional das grandes potências: a Alemanha, a Coreia, o Vietname. Há quem demonstre, por outro lado, que a única forma de resolver o problema do totalitarismo russo ou chinês - países que, pelas suas dimensões excessivas não poderiam ser governados senão em regimes de ditadura - é a sua divisão em várias nações, de acordo com os vários grupos étnicos.

O último desenvolvimento teórico do ideal supranacional - ideia inteligente, sem dúvida - é o que, inspirado no pensamento federalista de Denis de Rougemont, preconiza a substituição das nações por regiões. É uma tese que mergulha as suas raízes no microcosmos sui generis da Suiça. Mas podemos transformar o mundo inteiro numa Suíça? Talvez.


O FENÓMENO NACIONAL

Talvez. Mas o certo é que - e é o objectivo deste comentário - não se avançará jamais um passo no sentido do ideal supranacional, enquanto não se meditar apropriadamente nas causas de tantas dificuldades. É costume atribuírem-se as resistências a maquiavelismos e a interesses económicos ou políticos de toda a sorte. Termos de ir bem mais fundo, para apreender na sua complexidade o fenómeno nacional.



Aristóteles



Aristóteles compreende-o, quando mostrou que o homem, ser da natureza, está submetido às categorias: categorias de tempo e espaço, categoria de modo, entre outras. Cada comunidade humana vive na sua hora e no seu tempo: não é possível unificar este horário das evoluções civilizacionais por um acto político; cada comunidade habita no seu ponto do espaço, frio ou tropical, continental ou insular, montanhoso ou desértico: não é possível atribuir a todas, indistintamente, o mesmo clima; cada comunidade tem o o seu modo de ser, isto é, a sua maneira de se colocar perante os problemas do nascer, do viver, do morrer, perante a natureza ou Deus, perante a sociedade ou o Homem, e manifesta-o não só na sua religião, na sua filosofia, na sua arte e na sua cultura erudita, mas também na sua língua, nos seus costumes, no seu folclore: uma pátria é uma estrutura e parece ainda muito cedo para resolver o mundo pluralista das estruturas diferentes, numa só estrutura uniforme, ainda quando a técnica pareça acelerar o processo de aculturação. (A técnica não tem ao seu alcance criar comunidades concretas e vivas).

Unificar a Europa, unificar o mundo? Eis o que só será possível quando todos nos pusermos de acordo sobre o sistema político ideal, sobre o sistema educativo ideal, sobre o sistema de moral ideal, sobre o sistema religioso, ou místico, ou ideológico que efectivamente coincide ou mais se aproxima da Verdade última. Grande tem sido a tentação de cortar o nó górdio e fazer como Alexandre: impor um sistema, criar um Império. Mas seria apenas a aparência artificial de um sistema, seria um Império condenado ao ciclo sem fim das rebeliões e das contestações, como as dos países helenizados ou romanizados ontem, como os das nações sovietizadas hoje.


A UNIDADE VIÁVEL

Teremos então de aceitar a realidade multinacional como definitiva, com o seu risco permanente de guerras catastróficas? Sejamos sensatos. Se a pátria é uma comunidade estrutural, todavia a aliança e a fraternização supranacional e sobretudo supranacionalista é uma possibilidade que podemos e devemos desenvolver. Simplesmente: tem-se mandado o carro à frente dos bois, o que não é maneira de andar para a frente. Por outras palavras, tem-se querido realizar por intermédio da dialéctica política e, portanto, sem respeito ao outro o que deveria principiar pelo diálogo intelectual e filosófico, não contaminado pelo espírito da intolerância e da paixão.

Cada pátria tem em primeiro lugar que ser ela própria, desenvolvendo ao máximo todas as suas virtualidades e potencialidades peculiares e irredutíveis a uma generalidade vaga, pois só assim poderá dialogar activamente com as restantes. E tem em segundo lugar que aprender a ouvir as outras, sem juízos preconcebidos, sem complexos de inferioridade ou de superioridade, sem teimosias. Enquanto tal não suceder - e estamos muito longe desse escopo -, é prematuro pensar em unidade. Pois que a unidade terá um dia que se fazer, mas sem diminuições, sem abandonos, sem perdas, sem a destruição, em suma, da variada riqueza cultural do mundo. O sistema aprenderá de todos os sistemas, em vez de os desprezar ou ignorar. Será tão maleável quanto o é a múltipla insatisfação do homem de todos os meios e todos os espaços. Será tão exigente quanto o são os valores e os movimentos de ideias mais profundos e elevados do grande leque multicultural. Mas só assim será. Ou então o mesmo ideal unitivo não cessará de causar tiranias, totalitarismos, absolutismos e a sua contrapartida, contestações, revoltas e revoluções, quando não guerras por uma imagem do internacionalismo (a democrática, a comunista...), mais do que por um conceito de nação... (in Franco-Atirador, Espiral, 1970, pp. 165-169).










Continua


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