segunda-feira, 7 de maio de 2012

Judaísmo, cabala e maçonaria

Escrito por Fernando Pessoa 








«O pensamento é um acto que não se socializa».


(...) «Creio que o paganismo representa a mais verdadeira e a mais útil das fés; creio mesmo que não representa uma fé, mas uma visão intelectual da verdade».

(...) «Mais que propriamente o dos neoplatónicos, meu é o paganismo sincrético de Julião Apóstata».

(...) «Há, por fim, a iniciação divina. Esta, não a dão nem exotéricos ou esotéricos menores, como a exotérica, nem até Mestres ou Esotéricos Maiores como a esotérica; vem directamente, e por cima destes todos, das mesmas mãos do que chamamos Deus».



«A distinção das sociedades iniciáticas em três funções e em três formas é muito clássica. Encontramo-la, por exemplo, em Fernando Pessoa. No Caminho da Serpente, Pessoa distingue três Ordens: uma Ordo Serpentis, uma Ordo Solis, e uma Ordo Sebastica, que seria "oculta e sem exterior"».

(...) «As sociedades verdadeiramente esotéricas, colegiais na maior parte dos casos, são concebidas como verdadeiros laboratórios de pesquisa. Conduzem os seus adeptos às fases terminais das Vias Reais; Via do Despertar; Via do Corpo de Glória, Via da Pedra ao Rubro, Via Essencial, Via Extrema, as expressões são muitas para designar essa fase onde o indivíduo, liberto de tudo o que é humano, liberto até da libertação, acede realmente à imortalidade consciente e torna-se um deus, relativamente ao seu antigo estado humano. Neste nível, é quase deslocado falar de organizações ou de sociedades, criações humanas; os termos "Assembleia" (ekklesia), de "Ordo", no sentido sacerdotal do termo, seriam mais adequados. As ordens internas verdadeiras são, na sua maioria, estruturas "flutuantes" que vão e vêm, aparecem aqui e ali, passam com facilidade de uma forma a outra. Integraram a impermanência como modo de funcionamento estrutural. Na realidade, não existem verdadeiramente escolas esotéricas, mas sim Linhagens, nas quais a relação entre o Mestre (aquele que domina a arte e a disciplina, e que pode ser um colectivo) e o aluno, ou Discípulo (aquele que aplica a disciplina para atingir a arte), constitui a base desse trabalho terminal e muito interno. Os nomes dessas Linhagens, Assembleias e Ordens "Serpentinas" aparecem e desaparecem, são raramente pronunciados; permanecem desconhecidos, mesmo dos historiadores do Esoterismo».

(...) «Ergon ou Parergon, um pelo outro, o outro pelo um, o Raio de Elias Artista sela aquilo que é cumprido in Christus; Christus não devendo ser aqui entendido no seu sentido religioso, o ungido que religa, mas no sentido solar de Absolutidade...».

Rémi Boyer («A Tradição Maçónica e o Despertar da Consciência»).






Ahura Mazda



Zoroastro e Ptolomeu (A Escola de Atenas).







«Entre os Egípcios, como entre os Persas da religião mazdeana de Zoroastro, como depois de Jesus, em Israel, como para os cristãos dos dois primeiros séculos, a ressurreição foi interpretada de duas maneiras: uma material, absurda; a outra espiritual, teosófica. A primeira é uma ideia popular, adoptada pela Igreja, depois da repressão do gnosticismo. A segunda é a ideia profunda, a ideia dos iniciados. No primeiro caso, o corpo material volta à vida, o que é, numa palavra, a reconstituição do cadáver decomposto ou disperso. Isso era o que se supunha que iria acontecer com a volta do messias no dia do juízo final. É inútil acentuar o materialismo grosseiro e absurdo de tal concepção.

Para o iniciado, a ressurreição tinha um significado diferente: ela relacionava-se com a doutrina da constituição  ternária do homem, significando a purificação e a regeneração do corpo sideral, etéreo e fluídico, que é o próprio organismo da alma e de algum modo a cápsula do espírito. Essa purificação pode ocorrer desde esta vida, pelo trabalho interior da alma e um certo modo de existência. Para a maioria dos homens, ela só se efectua depois da morte».

(...) Visto do exterior e do ponto de vista terrestre, o drama messiânico termina na cruz. Embora sublime, falta-lhe o cumprimento da promessa. Visto de dentro, do fundo da consciência de Jesus, do ponto de vista celeste, ele tem três actos. A Tentação, a Transformação e a Ressurreição marcam os pontos altos. Em outros termos, essas três fases marcam: a iniciação do Cristão, a revelação total e o coroamento da obra. Correspondem àquilo que os apóstolos e os cristãos iniciados dos primeiros séculos chamaram os mistérios do Filho, do Pai e do Espírito Santo».

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados»).


«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida»; «Ninguém vai ao Pai senão por mim»; «Aquele que não colhe comigo, desbarata»; «Sem mim, não podeis fazer nada».




Idealidade Judaica, Cabala e Maçonaria

A idealidade judaica manifesta-se de três formas diferentes, todas elas eivadas do materialismo central da raça, ritmo do pêndulo da vida que a anima. A primeira forma é o seu patriotismo tradicionalista; e patriotismo tradicionalista, seja de que nação for, é o modo mais material do sentimento da prática ou da raça. A segunda forma é a especulação cabalística, em que, embora se pretenda subtilizar, por interpretações de três ordens, o conteúdo do Pentateuco, e de mais que o Pentateuco, nunca se atinge uma vera abstracção ou uma espiritualidade verdadeira: material, considerando o que pretende ser, é ainda o Nome Inefável, materiais os Sephiroth, os Arcanjos, os Anjos e as Esferas Celestes, através de quem vem até nós a Sua emanação. A terceira forma – não mais recente, mas mais recentemente sensível – é o idealismo social em todos os seus modos, desde o igualitarismo até ao naturismo; e essa é material por sua mesma natureza.







São estas as três formas da idealidade judaica, e, embora todas manifestem o materialismo central da raça, não são materiais em seus intuitos; não há por isso que duvidar da sinceridade daqueles judeus em quem os vemos. Do tradicionalismo rácico, é certo, ninguém duvida ou duvidou; aliás, os anti-semitas não têm nem tiveram senão vantagem em aceitá-lo. As outras duas formas têm sido diversamente consideradas pelos inimigos dos judeus: a primeira como sincera na origem mas não em certos modos do seu uso, a segunda como insincera; e como ambas elas servindo – uma por utilização, outra por invenção – para desintegrar e dissolver a civilização cristã, em a qual os judeus adversariamente vivem.

Acusam os cabalistas, de cuja sinceridade original se não duvida, de, primeiro através da Rósea Cruz, terem criado a Maçonaria, Ordem supostamente anticristã, e de, mais tarde, por diversas vias, se terem infiltrado nela, para, presumivelmente, contrariar e vencer as expansões cristã e templária que se manifestaram, depois da Oração de Ramsay, na criação dos Altos Graus e sobretudo da Stricta Observância de von Hund ou dos seus Superiores Incógnitos. Acusam os idealistas sociais de, por meio de doutrinas igualitárias, para tal fim inventadas, pretenderem mergulhar, e de facto estarem mergulhando, a sociedade aristocrática que é a de Europa na decadência e na anarquia, para, evidentemente, sobre os escombros construírem o Reino e o Reinado de Israel. E acusam a Maçonaria de ter provocado a Revolução Francesa e os judeus de terem provocado a Revolução Russa.

Antes de mais, entendamo-nos bem sobre qual é a matéria de que se está tratando. Trata-se do idealismo judaico e da sua sinceridade ou não sinceridade; não se trata da acção política dos judeus. Essa é evidente e natural; tem-se aproveitado, não só da Maçonaria e da Ideologia igualitária, mas de tudo quanto, de origem judaica ou não judaica, possa de facto, devidamente utilizado, servir para dissolver a civilização tradicional, Greco-Romana e Cristã, da Europa e do mundo europeizado. E legitimamente se tem aproveitado, pois aos judeus assistem os mesmos direitos que aos outros povos: o direito de defesa e o direito de império – o primeiro em absoluto, o segundo se o concedemos aos outros. Nem foram os judeus, ou a Maçonaria, ou qualquer outra força estranha, que provocou ou poderia provocar, a Revolução francesa, ou a Revolução russa, ou qualquer outra verdadeira Revolução. As revoluções são provocadas pelo Poder tirânico que as torna, passado certo ponto, inevitáveis. Foi a tirania do Czarismo que fez a Revolução russa. As forças estranhas não fizeram mais que aproveitar-se, conforme puderam, da matéria social incoordenada em que as tiranias, depois das revoluções que provocaram, deixaram os povos que regiam.


Origens da Maçonaria




O problema das origens da Maçonaria, e sobretudo do Grau de Mestre, que é o seu futuro, é confuso e obscuro, ao último ponto: ninguém fora ou dentro da Ordem, se pode orgulhar de ter achado para ele uma solução, simples ou composta, que satisfaça senão a quem a deu. Uma coisa, porém, se pode afirmar: a Maçonaria não é uma Ordem judaica, e o conteúdo dos graus fundamentais, que vulgarmente chamam simbólicos, não é judaico em espírito, mas só em figura. Se se quiser dar um nome de origem à Maçonaria, o mais que poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbólicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quanto à redacção deles, certamente um produto do século dezoito inglês, em toda a sua chateza e banalidade. O quadro judaico dos três graus e o cenário judaico do drama do Terceiro podem ser considerados naturais em uma terra e um tempo protestantes. O protestantismo foi, precisamente, a emergência, adentro da religião cristã, dos elementos judaicos, em desproveito dos greco-romanos; por isso se serviu ele sempre abundantemente de citações, tipos e figuras extraídos do Velho Testamento. Ninguém crê, porém, ou diz que a Reforma, pense-se dela o que se pensar, fosse um movimento judaico.


Ordem do Templo e Rosa-Cruzes

À parte disto, os dois primeiros graus maçónicos, menos simbólicos que emblemáticos, não conduzem definitivamente a coisa nenhuma; e o grande mistério do grau de Mestre – que é, por assim dizer, a Rosa de toda a Cruz Maçónica – é um símbolo vital mais abstracto, que cada qual pode interpretar no sentido que entender. E assim de facto se tem interpretado – a ele e à parte simbólica dos outros dois – através do vasto esquema divagativo dos Altos Graus e dos Graus Velados – estes, aliás, já fora e além da Maçonaria. Tudo, desde o catolicismo ao ateísmo, se tem reflectido nesses graus interpretativos. Se há Altos Graus que são nítida e materialmente cabalísticos, e até anticristãos, também os há que são espirituais ou cristãos, desde o sobregrau do Sacro Real Arco até àquele grau crípto em que Hyram é erguido como Cristo. Sucede, até, que o mesmo grau do mesmo rito pode ter conteúdos diferentes sob diferentes Obediências: assim é que o Grau 18, propriamente Príncipe Rosa-Cruz, do Rito Escocês, é «filosófico», na América (depois da reunião de Pike), menos talvez que «filosófico» na Maçonaria francesa e suas congéneres, mas plenamente cristão (como aliás não poderia deixar de ser) sob as Magnas Obediências britânicas. Em resumo, nada e tudo se tem reflectido na Maçonaria: nada nos graus simbólicos, que de per si se não explicam; tudo nos Altos Graus e nos Graus Velados, onde cada fabricante de ritos, de católico a ateu, deixou o rastro dos seus preconceitos e das suas preocupações. Mais em resumo ainda: a Maçonaria é, nas suas bases, insuficientemente dogmática e definida para que o seu conteúdo se possa afirmar isto ou aquilo, judaísmo ou outra coisa qualquer.

A presença de elementos cabalísticos nos graus simbólicos, afirmada por alguns com vislumbres de razão, também não provou a origem judaica da Maçonaria. Quando a Maçonaria emergiu e se constituiu declaradamente, em seus graus fundamentais, já de há muito a Cabala tinha intérpretes não-judeus e por esses fora cristianizada, para o que, aliás, eminentemente se prestava. A presença de elementos cabalísticos na Maçonaria não prova, pois, uma origem judaica. De resto, esses elementos cabalísticos resumem-se em dois – o sentido simbólico do Templo de Salomão e a Palavra Perdida. O sentido simbólico do Primeiro Templo pode ser, na Maçonaria, de origem templária, e portanto cristã, pois a Ordem do Templo era-o «do Templo de Salomão», e não se sabem ao certo os pormenores da iniciação secreta nessa Ordem. Quanto à Palavra Perdida do Grau de Mestre, se de facto relembra o Nome Perdido do cabalismo judaico, não é necessariamente da mesma natureza. Sabe-se em que consiste a essência do Nome Perdido dos cabalistas; não se sabe que espécie de Palavra é que o Mestre morreu para não revelar. A maior autoridade maçónica de hoje interpreta a Palavra Perdida de um modo nitidamente não judaico: Verbum Christus est, diz.




























O que acaba de dizer-se da Maçonaria, com mais forte razão se pode dizer dos Rosicrúzios, que, misturados com ela na antecâmara da sua vida emblemática, bem pode ser que a houvessem fundado, ou contribuído para a sua fundação, como sistema especulativo. A grande Fraternidade é cristã e católica (embora não-romana) nas suas dedicações. Os Rosicrúcios eram é certo, cabalistas, como eram em dois sentidos, alquimistas; mas eram cabalistas cristãos, como eram (sobretudo) alquimistas espirituais. Como vários outros, aproveitaram-se da Cabala e lhe deram um sentido e um complemento cristãos; por isso com mais razão se poderiam queixar os judeus de que os Irmãos se haviam servido da Cabala para fins antijudaicos, do que os cristãos de que eles tinham introduzido a Cabala na substância do cristianismo, onde, aliás, desde o Quarto Evangelho, já toda a alma dela existia. Acresce, quanto à Rósea Cruz, que os grandes expositores dela, desde antes do seu aparecimento até nossos dias, têm sido declaradamente místicos cristãos, e, ainda que, o voto de castidade absoluta, a que (por motivos que nada têm com virtude) a Fraternidade obrigou o candidato, é a coisa menos, judaica, embora «cabalista» que se pode conceber.


Budistas, Gnósticos e Rosa-Cruzes

Os dois ramos (aparentemente) mais notáveis da propaganda oculta, o Budismo Esotérico e os Rosa-Cruz, destinaram-se a preparar o mundo, cada um em sua esfera de acção, para a formação da Nova Jerusalém, ou verdadeira Igreja Católica. E, como operavam em regiões diferentes, e para crentes de religiões diversas, dispunham a sua propaganda do oculto de acordo com as redisposições e crenças desses. Assim sendo, sua doutrina essencial, como de todos os ramos do ocultismo, o Segundo Advento de Cristo e a fundação, com ele, da vera Igreja Católica, preparavam o estado de alma, só hoje definindo-se, para esse Advento e essa Fundação, de maneiras diferentes.

A Natureza de Jesus Cristo é dupla – para os ocultistas como para os teólogos cristãos. É a um tempo divina e humana. Para os teólogos e para os crentes cristãos, ambos exteriores à compreensão deste assunto, a dupla natureza entende-se de maneira diversa que para os ocultistas. Para estes, Jesus Cristo é ao mesmo tempo um Adepto, como o Buda, ou outro Iniciado qualquer, e o Filho de Deus, ou Logos, e, como tal, acima de qualquer nível de adeptismo. Como o primeiro é Jesus, ou Ieschu, e viveu na terra cem anos antes da época que no mundo cristão se supõe, sendo justa a interpretação dos hierólogos radicais – ressalvado o materialismo dela – de que os mitos cristãos se reuniram em torno da figura do Ieschu ben Pandira que foi enforcado e lapidado em Lyda, na véspera da Páscoa, no reinado de Alexandre Janneo. Como o segundo é Cristo, e não pertence a este mundo senão como Deus, que o criou, e é substância dele, lhe pertence. Os Gnósticos, que eram ocultistas, ou pelo menos místicos superiores, assim viram, mas separaram as duas naturezas, adorando só a divina, que lhe era necessariamente superior, e não a humana, que, quando muito, só em grau, que não em género, o poderia ser. Mas os Gnósticos foram condenados por herejes, e como herejes repulsos, e extintos, pelo menos aparentemente. Não foi porém a Igreja que os extinguiu assim, senão o Destino que fez a Igreja poder assim extingui-los. A ideia que apresentavam vinha fora do seu tempo, nem poderia servir aos fins dos Condutores do mundo, embora estes soubessem bem que era mais verdadeira que a que iria ser espalhada e desenvolvida entre as nações pela Igreja Católica.


Os Budistas, para trabalharem para a convergência dos homens para o Segundo Advento, apresentaram sempre Jesus aos seus sequazes como um Adepto, pois, se o apresentassem como Deus, ou como Deus e Adepto ao mesmo tempo, nem seriam compreendidos nem aceites pelas populações budistas. Precisavam manter nelas o respeito preparador de Jesus; fizeram-no pondo-o como respeitável no nível que seria compreendido. Só a Teosofia é que, finalmente, declarou o Segundo Advento, e, ainda assim, como deveras lhe compete, não insiste muito na outra face da Figura, na face transcendente e divina.

Os Rosa-Cruz, por outra parte, tendo de ministrar, embora veladamente, o mesmo ensinamento a outras populações, apresentaram-no de diverso modo. Não se referiram, senão de modo tão velado que só o compreendesse quem pudesse compreendê-lo, a Jesus, ao Adepto; apenas aludiram ao Cristo, ao Filho de Deus. Assim nada, no que diziam, feria a fé católica ou cristã dos seus leitores.

Do mesmo modo não aludiram os Rosa-Cruz, em seus escritos, claramente à doutrina da reincarnação, elemento físico do ocultismo todo. Tal doutrina, embora contida em verdade no verdadeiro cristianismo, não está nele dada esotericamente. Ensiná-la seria ferir as populações cristãs, erguer o ódio das Igrejas cristãs, prejudicar a preparação que os seus livros serviam de efeituar» (in António Quadros, Fernando Pessoa – Iniciação Global à Obra, Arcádia, 1982, pp. 182-189).


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