Escrito por Amorim de Carvalho
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| A tertúlia das tardes de Sábado em casa de António Sérgio, em 1939; da esquerda para a direita: Álvaro Salema, Agostinho da Silva, Castelo Branco Chaves, Pedro Nascimento, António Sérgio e Fernando Rau. |
«António Sérgio observava que as correntes anti-intelectualistas que iam surgindo na
doutrinação cultural da Europa em pleno século XX traziam consigo uma terrível
ameaça política, pois iriam conceder ao sentimento e à vontade o poder de
conduzir os povos, o que resultava na exaltação expressiva dos pedagogos e na
invocação inoportuna aos demagogos. O pensador previa que, de invocar o
sentimento ou a vontade, o povo legitimaria o uso grosseiro da força ou o abuso
terrível da violência, seria ludibriado pelos seus mentores improvisados,
exaltaria o poder forte e executivo que de tudo abusaria perante a paralisação
do poder judicial, representante político da inteligência cartesiana. Coerente
com o seu intelectualismo, defendia a representação parlamentar dos conflitos
sociais, o respeito pelas liberdades fundamentais que estavam prescritas na
constituição política, preconizava a formação de um escol na governação
pública, tinha por ideal a Monarquia.
A
formação de um escol, ou de uma aristocracia, era para António Sérgio o
primeiro problema ou, seja, o problema da Pátria. Tão certo é que, onde não há
um escol nacional domina necessariamente um escol estrangeiro, por eleições
astuciosamente falsificadas ou por ostensiva ditadura internacional. Nas
condições contemporâneas de recrutamento do escol, António Sérgio foi
considerado um teorizador da razão burguesa, ou do racionalismo burguês.
Efectivamente,
nunca António Sérgio se mostrou defensor do ímpeto popular ou plebeu que
movimentou a Revolução Francesa. A sua colaboração efémera no grupo dos Homens Livres foi a prova do seu
idealismo. Sobre o ensaísta recaía a dúvida se era um aristocrata ou um
democrata, um individualista ou um socialista, um ateu ou um cristão, pois
esquivava a resposta às perguntas directas, e assim o seu democratismo e o seu
cristianismo apareciam como prudentemente depurados pela razão judiciosa, como
que desligados das raízes sentimentais, instintivas e inconscientes a que os
doutrinadores românticos os ligavam.
(...)
Havia, na atitude de António Sérgio, no raciocinar a partir de ideias claras,
distintas e separadas, como que a tendência voluntarista para tudo submeter a
esquemas prévios; mas assim manifestava a obstinada incompreensão do movimento
psicológico que procede sempre da Natureza para a Arte, da noite para o dia, do
obscuro para o luminoso e consequentemente a incompreensão do descobrimento
histórico, o que o levou a desvalorizar a maioria dos heróis portugueses. Foram
os reis de Portugal, desfigurados e vilipendiados em obras de Oliveira Martins,
Teófilo Braga e Júlio Dantas, que davam consentimento a escritos menores de
diversos panfletários, mas o mesmo ataque estendia-se aos príncipes e a todos
os titulares da nobreza, do que resultaria necessariamente a indignação
reaccionária dos seus representantes na actualidade, os homens da batina, da
capa e da espada. Essa atitude tornou-se evidente quando no justo combate a uma
revivência do sebastianismo, António Sérgio se excedeu a julgar a política de
D. Sebastião, o que provocou a réplica e a tréplica de quantos académicos
estavam interessados na apologia dos reis e consequentemente da realeza, mas
suscitou também a antipatia de outras individualidades nacionalistas não
subordinadas a determinados tipos de instituições pretéritas. Habilitado,
porém, com aquela propedêutica trivial que antecede os estudos filosóficos,
quer dizer, habilitado pela gramática, dialéctica e retórica a discernir os
paralogismos escritos pelos seus adversários, António Sérgio era o vencedor de
quantas polémicas conduzia segundo o racionalismo francês do século XVIII.
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A
literatura historicista que António Sérgio criticou na revista Lusitânia representava, todavia, a
perplexidade de um povo que havia esquecido a sua razão de ser, a sua origem e
a sua independência. José Leite de Vasconcelos, Mendes Correia e Damião Peres
procuravam em vão, esclarecer e resolver positivamente um problema teológico-político, segundo a expressão de Benedito
Espinosa. A historiografia, sendo a expressão do anacronismo, ao inserir a
tradição nas fórmulas linguísticas e nos modos de pensamento de novos leitores,
adultera inevitavelmente a verdade.
Na
gradual desvalorização das figuras nacionais, que realizou nos sucessivos
volumes dos seus Ensaios, segundo um
critério anti-romântico de desmistificação integral, António Sérgio foi
desenhando uma interpretação economista da História
de Portugal, alicerçada aliás em documentação fidedigna, mas, incorrendo no
anacronismo de atribuir pragmática inteligência a um povo que se movia por
fanatismo obstinado, transmitiu aos seus leitores o consentimento para o
materialismo histórico. Apoiando-se na doutrinação de António Sérgio, alguns
escritores consideravam como obstáculos ao progresso cultural, político e
social muito de quanto a tradição histórica e a diferenciação regionalista
continuavam a manter entre nós, e de aí concluírem ser indispensável, antes de
mais, destruir quanto nos torna diferentes dos outros povos peninsulares,
europeus e americanos. A unificação internacional dos meios de cultura
facilitaria essa demolição, depois da qual se pensaria então em construir a
sério a nova sociedade ou o novo mundo, adiamento cómodo que dispensa de pensar
o que conviria para já fazer.
Assistiu
António Sérgio ao sucessivo aparecimento de vários escritores marxistas que se
dedicaram à chamada tarefa de revisão histórica e à divulgação dos respectivos
resultados em termos de ensino liceal. O novo escol doutrinado a contradizer o
velho critério do ensaísta, libertar-se-ia de preconceitos nacionalistas, mas
seria, afinal, por sua vez guiado por mentores ou monitores ultrapireneicos,
tanto aqueles que de longe nos enviam os livros e os ofícios, como aqueles que
chegam até nós para exibirem a sua luzida e polida mediocridade. A pedagogia de
António Sérgio, pela reforma de mentalidade, não lograva libertar os
Portugueses de outra modalidade de demagogia.
Deve-se,
portanto, a António Sérgio a tendência para depreciar os valores nacionais, não
só os históricos mas também os presentes, analisados à luz de uma crítica fria.
Este juízo sobre a existência ou a situação, facilitou aos discípulos a
formação de tropos severos e adversos à Pátria. Assim qualquer plumitivo pôde
passar a dizer que os Portugueses eram incapazes de se governar bem, de
promover as técnicas industriais e as técnicas educativas, de formar uma
cultura própria, incapazes, como eram, de cultivar certos géneros literários,
como o romance, o teatro e o ensaio, enfim, adversários ou inimigos do
Espírito.
Pensador profundamente sério, culto e ágil, António Sérgio realizou uma útil crítica filosófica às doutrinas que a moda trouxera do estrangeiro ao nosso país, e fundamentou-se na dialéctica dos princípios firmes, fortes e tradicionais. No nosso ambiente literário, artístico e político, António Sérgio é ainda hoje invocado e citado pelas felizes observações de crítico, compositor, divulgador, e letrados há que o julgam o primeiro nosso pensador original. Neste aspecto, a valorização de António Sérgio como único mestre de filosofia transgride os limites do razoável, porque além do mais significa ignorância da História de Portugal.
Temos de enfrentar sem receio a verdade de que, no século XX, Portugal assistiu ao aparecimento de filósofos vários que pretenderam renovar todos os ramos da cultura. Jornalistas, historiadores, literatos, políticos e eclesiásticos uniram-se como adversários de quantos pensadores ilustres ousaram abrir caminhos novos ao advento do Espírito, e a derrota oficial da filosofia portuguesa caracteriza o drama intelectual da nossa centúria. A posição de António Sérgio ficará, na determinação deste movimento, a ser um marco talvez tão notável como a profecia de Fernando Pessoa, o qual, ao anunciar o advento do Super-Camões, não fazia mais do que exaltar a sua original interpretação do transcendentalismo panteísta.»
Álvaro Ribeiro («A Literatura de José Régio»).
«A glória da reforma da instrução que a energia fera do Marquês tornou possível, não se deve atribuir ao pensamento, no fundo negativo, desse déspota monstruoso: honremos sim a memória dos Vernei, Ribeiro Sanches, Azeredo Coutinho, D. Francisco Lemos, Monteiro da Rocha, Frei Manuel do Cenáculo, Padre Figueiredo, Jacob de Castro e semelhantes».
António
Sérgio («O Problema da Cultura e o Isolamento dos Povos Peninsulares»).
«Têm
mau agoiro as consagrações oficiais. Destinam-se, quase sem excepção, a exaltar
homens de relativo e circunstancial valor ao suscitarem a reflexão e o balanço
da obra que eles fizeram, levam a denunciar-lhes a efemeridade e marcam-lhes em
geral o fim. Receio bem que seja isso o que está acontecendo com António
Sérgio.
Digo que o receio porque me habituei, nos anos de juventude, a ver nele uma espécie de contraponto da vida espiritual portuguesa, qualquer coisa como o negativo de que o positivo carece ou, para empregar uma metáfora de que ele gostaria, uma espécie de mantissa no logaritmo; e também porque se me afigura muito provável que essa função contrapontística passe a ser desempenhada por gente muito inferior ao que António Sérgio foi, gente incapaz de respeitar as verdades e as realidades cujo saber ele, no mesmo acto de se lhe opor, ainda respeitava, admirava e invejava. A negatividade de António Sérgio muito nos ajudou, aos homens da minha geração, a valorizar isso mesmo que negava. Quando, por exemplo, Sérgio nos incitava a preferir a matemática à poesia, tentando iludir-nos dizendo que na matemática residia a mais íntima e alta poesia, ao que nos levava era a fortalecer o nosso culto pelos grandes poetas que ele detestava, por Nobre, por Junqueiro, sobretudo por Pascoaes e, depois, por Fernando Pessoa e José Régio, até tendo em conta que este último nunca deixou de nos recomendar o magistério de Sérgio. Quando, noutro exemplo, ensaiava desviar-nos dos caminhos abertos por Leonardo Coimbra e polemizava com Santana Dionísio e José Marinho, o que conseguia era levar-nos a descobrir como esses caminhos são os do verdadeiro pensamento e autêntica filosofia, caminhos muito mais fecundos e libertadores do que os dos seus ruminantes exercícios de “razão raciocinante”. Quando, num último dos muitos exemplos que temos à mão, se desesperava em persuadir-nos de que uma nação não é mais do que uma sociedade e de que uma sociedade nacional não é mais do que uma empresa económica, o que obtinha era fazer-nos pensar a realidade espiritual das pátrias.
Foi no domínio da opinião, da opinião pública e vulgar por definição e, por redundância, opiniosa, que os exercícios raciocinantes de Sérgio encontraram fácil audiência e recrutaram dóceis e obedientes prosélitos. Devemos contudo fazer justiça a Sérgio reconhecendo que não era essa audiência e esse proselitismo que o satisfaziam. Tão depressa os via manifestarem-se logo exprimia o seu descontentamento que chegava a levar até à polémica com esses mesmos que, no fervor da obediência, correntemente a desenvolviam na adopção de uma ideologia, geralmente a marxista. Foi o caso de António José Saraiva que viu, estupefacto, como o tão falado “rigor racionalista” do seu mestre não era mais do que um “caprichismo polémico”».
Orlando Vitorino («António Sérgio acaba às mãos de António Quadros»).
«Não é possível conceber uma política independente da ética, nem uma ética independente de um sistema de filosofia. É certo que muitas vezes os escritores políticos não confessam o sistema filosófico a que se encontram necessariamente submetidos, mas o facto não vale de argumento. George Orwell apresenta-nos a caricatura da filosofia alemã na medida em que eleva ao exagero de 1984 as consequências terríveis do comunismo e do nazismo. Convém, pois, não esquecer que a filosofia alemã, através dos seus intérpretes nacionais e estrangeiros, conseguiu dominar o pensamento europeu dos séculos XIX e XX. Em Kant vemos subordinada a razão teórica à razão estética e a razão estética à razão prática, o que tem por corolário inevitável o predomínio social dos técnicos. A vontade, com o seu dualismo de potência e resistência, assume em Fichte a representação dialéctica. Karl Marx propõe o mito da luta de duas classes (mito no qual será possível converter todas as representações dinâmicas da sociedade), para descrever a evolução em termos de materialismo histórico.»
Álvaro Ribeiro («George Orwell: 1984 ou a verdade ao alcance das mãos»).
ÁLVARO RIBEIRO. A FILOSOFIA E A POLÍTICA
Os
que, não há muito tempo, promoveram uma justa homenagem ao filósofo José
Marinho, promovem agora, com a mesma justiça, uma homenagem ao filósofo Álvaro
Ribeiro. A ambos admiro e por ambos tenho aquela já longa amizade que se
cimentou no persistente convívio dialogal de sentimentos, emoções e ideias.
Porque se trata hoje de uma homenagem a Álvaro Ribeiro, é de Álvaro Ribeiro e a
pretexto de Álvaro Ribeiro que vou falar.
Parece
que um dos temas indicados seria, precisamente, o de comentar o seu pensamento
filosófico. Desse pensamento me ocupei em estudo incluído num dos meus livros;
e, por isso, e à guisa de abertura deste artigo, me limito a condensá-lo nestes
pontos essenciais: a validez da crença; a autenticidade duma tradição portuguesa,
isto é, duma realidade portuguesa no mundo e na história; e o valor da palavra
portuguesa, isto é, do pensamento que se exprime na língua portuguesa. Tudo
isto seria sintetizável na seguinte fórmula ou filosofema: Portugal tem no
mundo uma missão humana que se exprime no estilo da sua cultura.
A
cultura portuguesa estará infusa,
mesmo quando não consciencializada, na maneira de ser, de pensar e de sentir
dos portugueses, mas é a filosofia, a «arte de filosofar», na terminologia de
Álvaro Ribeiro, que explicita e consciencializa essa cultura, que a explica
nos seus valores, que a conduz, a
desvia dos equívocos e enganos. Tudo isto se envolve duma teologia, porque
Álvaro Ribeiro encontra relações sobrenaturais entre cultura e culto, entre o
Homem e Deus. Há pois uma revelação portuguesa. Posto este princípio religioso
de crença, que nada deve ou quase nada deve à racionalização das inferências e
provas, a filosofia de Álvaro Ribeiro passa a ser uma cadeia discursiva e
lógica dum cerrado racionalismo.
Abstraindo do pensamento de Álvaro Ribeiro a fundamentação metafísico-religiosa (que debati no meu estudo acima referido), uma relação quero estabelecer – por mais surpreendente ou impossível que pareça a certos espíritos superficiais – entre Álvaro Ribeiro e António Sérgio, dois pensadores tão diferentes e tão opostos. Mas a verdade é que a «reforma da mentalidade» sergiana, como condição redentora do nosso país, na linha duma característica portuguesa permanente de universalidade testemunhada pela história, é, mutatis mutandis, a arte (filosófica), em Álvaro Ribeiro, de conduzir a nação portuguesa no seu próprio «movimento» – para se empregar a palavra aristotélica no profundo sentido que ela tem em Aristóteles e no aristotelismo de Álvaro Ribeiro. Não interessam os diferentes pontos de partida nem, se se quer, os diferentes pontos próximos ou longínquos de chegada, nas duas visões filosóficas da história e do destino de Portugal, em Ribeiro e Sérgio; o que interessa é saber que em ambos o problema cultural da nação é o esclarecimento desta pelas suas elites. E não há autênticas elites sem um pensamento filosófico. Esta conclusão é crucial em Álvaro Ribeiro, para quem não há alta e segura política num país onde a filosofia não exista ou onde a filosofia não seja devidamente considerada. Marx vira isto claramente, forjando o materialismo dialéctico (teses, antíteses e sínteses em que assenta o seu comunismo) e forjando o materialismo histórico (primado dos valores económicos e biológicos sobre os valores espirituais e as elites).
O
totalitarismo fascista foi, historicamente, uma consequência reaccional do
comunismo; quer dizer: apareceu como, sobretudo, uma resposta defensiva à subversão comunista. Hoje, ambos são de resposta reciprocamente
reaccional, de um em relação ao outro. Digo «reaccional», falando de ambos, e
não reaccionário, como os comunistas dizem referindo-se ao fascismo, porque
reaccionários são os dois – fascismo e comunismo – em relação à democracia com
suas liberdades individuais e direitos de cidadania, que há-de assentar também
numa filosofia. O problema mais importante da nossa época, no plano
político-social (tese que tenho sustentado) é o da reformulação da democracia e
liberdade e direitos políticos em termos que a defendam (defendendo-se ela
automaticamente) dos atentados do comunismo e do fascismo. Sem democracia, ou
com uma democracia incapaz de se defender institucionalmente, comunismo e
fascismo, por serem reciprocamente reaccionais, condenariam ou condenam as
nações a viverem num processo de alternância pendular –
comunismo-fascismo-comunismo-fascismo... –, portanto numa permanente ditadura,
num permanente reaccionarismo. Mas, com esta distinção a fazer: uma ditadura
comunista é imensamente mais difícil de ser combatida (se não impossível) do
que uma ditadura fascista, como o provam os factos, pelo que a alternância
pendular das duas ditaduras ou dos dois reaccionarismos só se efectua entre um
pré-comunismo que ainda procura instaurar-se em pleno, mas já ditando a sua
lei, e um fascismo já instaurado que simetricamente se lhe opõe. A razão
explicativa deste facto parece-me estar no seguinte: O regime fascista está
ainda preso a vários princípios e condições sociais que persistiram, afirmando,
apesar de tudo, o indivíduo humano (com certos direitos e, sem dúvida, também
nos seus privilégios que cumpre abolir), de modo que o próprio Estado, por mais
dominador e tirânico que seja, é assumido por indivíduos humanos que se sentem
na presença ineludível de outros indivíduos e de elites, cuja oposição
combatem, mas com os quais não deixam, e necessariamente não deixam, de sentir
relações de humanização, pelo menos potenciais, e por aí se infiltram as
críticas e as doutrinas anti-fascistas. (É claro que estou a fazer uma distinção
entre o fascismo mussoliniano e o nazismo de Hitler com o qual o comunismo de
Staline fez pacto de amizade, de partilha e de auxílio que ajudou Hitler na guerra contra as democracias, pacto quebrado só depois da invasão da
Rússia pelos alemães). Ora, nos regimes comunistas, o indivíduo é, desde logo,
e definitivamente, considerado uma peça económica (o trabalhador), pelo facto
mesmo da colectivização, não havendo entre os indivíduos-trabalhadores outra
relação que não seja a de peças de uma grande máquina económica, com um só
patrão sem apelo, que é o Estado, de modo que o Estado é sentido, pelos
indivíduos privilegiados que o representam (burocracia, forças armadas,
polícia) como uma peça privilegiada da mesma máquina; eis por que só indivíduos
excepcionais, verdadeiros heróis, podem libertar-se moralmente da desumanização deste condicionalismo
económico-social imposto, e representam verdadeiras elites portadoras da
humanidade, mas elites que, ou são imediatamente esmagadas ou têm de fugir,
levando consigo a desesperança política. Isto explica porque um homem como
Soljenitsyne, prémio Nobel russo expulso da Rússia, formulou a revolução
anti-comunista a fazer, não em termos políticos, mas em termos morais: «O meu
programa não é político, é moral (...). É preciso apenas recusar as mentiras
(...) No dia em que algumas dezenas de milhares de pessoas, depois algumas
centenas de milhares recusarem a mentira, o sistema soviético desmoronar-se-á
rapidamente» (L’Express, 25-11-1974).
A esperança da paz seria maior no mundo.
É
nos momentos de queda de uma das ideologias reaccionárias, que a ideologia da
democracia e da liberdade (representadas conscientemente pelos intelectuais das
suas elites) tenta quebrar o processo de alternância
fascismo-comunismo-fascismo..., mas, aqui mesmo, a ideologia democrática tem de
combater o reaccionarismo triunfante (comunista ou fascista) em condições
particularmente difíceis, porque: 1.º, se triunfou o reaccionarismo fascista,
os democratas são apodados de comunistas, pelos intelectuais das falsas elites
fascistas, e como tais são perseguidos; 2.º, se triunfou o reaccionarismo
comunista, os intelectuais das suas falsas elites apropriam a terminologia da
democracia e chamam fascistas aos autênticos democratas, com o que é fácil
convencer as massas que não têm uma compreensão cívica e humana da política e
da sociedade. Neste caso trágico das massas facilmente conduzíveis, o
reaccionarismo triunfante beneficia da herança do reaccionarismo deposto.
Não
basta, pois, uma filosofia política. Têm-na o fascismo e o comunismo. É preciso
que a filosofia política, qualquer que ela seja, e qualquer expressão nacional
que represente, contenha uma concepção humana
do homem e da vida social. Fora desta humanidade
todas as soluções de problemas sociais são falsas e trágicas soluções; as
sociedades humanas não podem ser, se humanas, concebidas segundo os modelos de
colectivização das sociedades animais. Está aqui a ilusão do socialismo em
liberdade, de que não há exemplo na história; porque, ou resvala no comunismo,
caindo-lhe nas malhas, ou se integra na própria democracia que pretendeu
substituir, reduzido à condição fecunda de uma ideologia reformista. Exemplo,
entre vários: a Suécia, onde o sector privado detém 95% da economia. Chamar a
isto socialismo é, positivamente, abusar das palavras, e então tudo é
socialismo. Chamemos-lhe, pois, social-democracia, o centro em relação aos dois
totalitarismos – o fascismo e o comunismo. Esse centro detém o mais humano
pensamento filosófico em política. Entende-se um pensamento de discussão,
porque aberto à pluralidade das ideias e das particularidades étnicas e
nacionais. Aberto mesmo à discussão com comunistas e fascistas, o que ambos
estes não podem suportar – por mais inteligentes que sejam como intelectuais –
e por isso, ou também por isso, comunismo e fascismo têm de ser ditaduras
permanentes de um só partido e de pensamento filosófico único.
Após
este longo parêntesis, voltemos a Álvaro Ribeiro e ao que está implícito e
explícito na sua tese: não há política séria sem uma filosofia, e não há
filosofia séria que não assente na liberdade de pensar. Atenção a este ponto,
que talvez eu não tenha debatido suficientemente ou não tenha feito compreender
suficientemente no meu referido estudo sobre Álvaro Ribeiro: quando ele diz que
é contra o livre pensamento «autodidáctico», di-lo no sentido – muito comtiano,
por sinal – de ser contra o livre pensamento dos ignorantes, quer dizer, em
política, contra o livre pensamento actuante dos actuantes (o que em política é
perigoso), o que, em toda a amplitude da filosofia de Álvaro Ribeiro, se refere
aos que ignoram a autenticidade duma «tradição» portuguesa, duma «cultura»
portuguesa a esclarecer e a conduzir no próprio «movimento» que a caracteriza.
Isto compete às elites e, superiormente, às elites de pensar filosófico.
«... Seja de prever, diz Álvaro Ribeiro, a reintegração das raças, dos povos e das nações no plano da fraternidade universal, certo é que, enquanto durarem os processos da existência no mundo, teremos de reconhecer nas sociedades étnicas e historicamente diferenciadas uma resistência anímica aos prematuros, ainda que subtis, processos de absorção. Um espírito autónomo inspira ao povo o desejo de perviver em estado de independência política, porque só nessa liberdade lhe será possível acertar e assinar compromissos de carácter internacional... A história prova assim a existência de um Espírito que convém educar, para que se manifeste gloriosamente em actos de culto, cultura e civilização. Dar vida a esse espírito é mais do que um ministério, é verdadeiramente um magistério, porque só um mestre sabe, pode e quer realizar verdadeiramente a obra de educação nacional» (Escola Formal, p. 181).
«Ao
assumir de qualquer modo a responsabilidade docente, diz ainda Álvaro Ribeiro,
o Estado torna-se também responsável pelo destino da cultura, pela realização
de fins espirituais. Cumpre-lhe, pois, assegurar a protecção devida aos artistas,
aos escritores e aos pensadores, que são os verdadeiros criadores da cultura,
evitar que eles desistam de exercer as actividades a que haviam sido chamados
por vocação, assegurar a continuidade na produção de valores nacionais. A
História julga o Estado, não só pela boa ou má administração das escolas, mas
também pela situação social em cada época atribuída à ciência, à literatura e à
filosofia... A educação política, nitidamente delineada em fórmulas masculinas,
varonis e viris, pressupõe (...) o arquétipo inegável do homem superior...
Através das variantes [do homem superior, dos cultos, das culturas e das
civilizações] permanece constante o ideal para que tende o processo admirável
que podemos dizer de evolução, libertação ou redenção. Educar não é ensinar as
novas gerações a adaptarem-se à presente organização social, o que teria por
consequência um anacronismo, nem à futura organização social, o que teria por
consequência um utopismo; – educar é despertar em todos os educandos as
possíveis virtualidades de superação idealista.» (A Razão Animada, pp. 170-1).
E
mais esta citação que tem o seu valor de síntese: «Veremos que, ao longo dos
últimos séculos, a liberdade humana exaltada pelo humanismo, por um humanismo
sem garantia divina [não esqueçamos a base teológica do pensamento de Álvaro
Ribeiro], foi decaindo à medida que surgiram o iluminismo, o positivismo e o
socialismo (ibid., p. 293).
Não discutamos sobre o que parece ser, em Álvaro Ribeiro, uma alusão ao despotismo iluminado, fenómeno complexo que se liga ao iluminismo filosófico, com seus contraditórios aspectos; nem tão pouco sobre o positivismo que chega também a um despotismo iluminado (não foi o ditador, que Comte condenou em Napoleão, sim o «retrógrado» – É. Bréhier); mas fixemos, pela sua particular aplicação ao momento político internacional, a referência de Álvaro Ribeiro ao socialismo (evidentemente que na acepção geral desta palavra, que engloba o comunismo), contendo, a meu ver, a parte incontestavelmente válida da passagem transcrita que leva necessariamente não só à deterioração do sentimento da pátria (como também pensava Basílio Teles), mas ainda à perda da liberdade humana e à decadência da cultura pela separação de cultura e elite, ou subordinação do conceito de elite ao de massa. Álvaro Ribeiro não citou o fascismo que eu tenho considerado num jogo reaccional e reaccionário com o comunismo. Na verdade, tanto os comunistas como os fascistas, uns e outros igualmente e contrapolarmente reaccionários, combatem frequentemente o conceito elítico da cultura (os comunistas por detestarem a discussão livre das ideias, chamando «agressão ideológica» ao pensamento que se lhes oponha, e ainda para adularem as massas; os fascistas pela primeira razão indicada), mas a verdade é que toda a cultura, até a cultura ao simples nível etnográfico, é elítica. Cultura ao serviço do povo, no sentido de cultura para as massas no seu estado permanente de massificação, é uma demagogia obscurantista que só serve a ditadura sobre as massas orientadas por um pensamento único.
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A cultura, em verdadeira democracia, há-de ser desmassificadora, elevando as massas à consciência de pessoas que pensam por elas mesmas, que votam por sua livre escolha. Numa sociedade de cultura-massa, duma máquina que o Estado patrão domina; numa sociedade de cultura livre e democrática, necessariamente esclarecida pelas suas elites, contam as pessoas acima das massas, ou pessoas a libertar da condição massa, cujos problemas sociais (das pessoas como trabalhadores) têm solução humana no primado espiritual dos homens livres (das pessoas como cidadãos). Na época que atravessamos, em que só os países de segura educação democrática podem fazer face aos perigos de desumanização fascista ou comunista (mais grave a comunista), é fundamental a necessidade duma democracia formulada ou reformulada pelas elites, no sentido que tenho dado a «elites», para quebrar a alternância pendular reaccional dos dois reaccionarismos: fascismo-comunismo-fascismo-comunismo...
Isto,
que era fundamental, não foi tomado em conta – e desastrosamente o não foi – no
passado português removido; e não vemos que disso se tome conta no presente, em que
os que menos têm ideias são os que mais impõem ideias.
Esta
é a lição que me parece dever-se tirar da obra filosófica de Álvaro Ribeiro. Os
que conhecem essa obra e a minha crítica em livro, a essa obra, sabem que nem
sempre estou de acordo, ou até que muitas vezes o não estou. Mas isso é no
conjunto de um pensamento que oferece inúmeros caminhos de direcção filosófica.
No entanto, sempre rendi ao filósofo notável que é Álvaro Ribeiro a homenagem
que é devida ao seu alto espírito. No que estou absolutamente de acordo com
Álvaro Ribeiro é no que ficou sintetizado neste artigo: toda a política séria
há-de ser uma filosofia, toda a filosofia política séria há-de aceitar a
discussão de ideias.
Noutra
conjuntura portuguesa, a minha homenagem a Álvaro Ribeiro seria prestada
trazendo outros temas ao primeiro plano. Por exemplo, este: que devemos a
Álvaro Ribeiro, a ele mais do que a nenhum outro, nas últimas décadas, o
interesse em Portugal pela filosofia, animando, estimulando vocações
filosóficas, sistematizando ele próprio o seu pensamento filosófico e reunindo
à sua volta numerosos e valiosos discípulos. Não quero dizer que outros não
tenham participado vigorosamente nesta promoção da filosofia em Portugal – e
lembro o querido José Marinho, por exemplo, – a estabelecer a discussão duma
«filosofia portuguesa», na qual o próprio autor destas linhas polemicamente
entrou; mas Álvaro Ribeiro fez pela promoção ou re-promoção, se querem, da
filosofia em Portugal o que uma História da Filosofia Portuguesa tem de
assinalar, necessariamente, se escrita com honestidade.
O querido Álvaro Ribeiro foi assim, no ingrato e difícil clima intelectual do nosso país, um verdadeiro herói do pensamento. Muito lhe deve a nossa pátria, pelo muito que ele deu à sua cultura.
(Amorim de Carvalho in Álvaro Ribeiro, As Portas do Conhecimento – Dispersos Escolhidos, Instituto Amaro da Costa, Lisboa, 1987, pp. 371-377).
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