Escrito por Wenceslau de Moraes
«O
plano de Nobunaga de unificar o país foi prosseguido pelo seu servidor Toyotomi
Hideyoshi.
Hideyoshi
era outra figura notável. Da posição humilde de soldado de infantaria tornou-se
na pessoa mais poderosa do país. Indivíduo extremamente astuto e competente, as
suas capacidades foram reconhecidas por Nobunaga, em cujas forças serviu desde
1558. Parece também que Nobunaga gostava particularmente dele, tendo-lhe dado a
alcunha de “Macaco” (Saru), devido às
suas características bastante simiescas. Foi promovido, reconhecido como
estratega brilhante e tornou-se num dos principais generais de Nobunaga.
(...)
Em certos aspectos, Hideyoshi tornou-se parecido com o seu senhor Nobunaga.
Começou a revelar uma crueldade e um sentido de grandeza pessoal semelhantes. A
ninguém era permitido perturbar o seu mundo e os seus mensageiros que lhe
trouxessem más notícias corriam o risco de ser serrados ao meio. O seu grande
mestre da cerimónia do chá, Sen no Rikiu (1522-1591), que também tinha servido Nobunaga
e que não se poderia considerar novo nem ameaçador, teve problemas com
Hideyoshi e também foi obrigado a suicidar-se.
O
mundo de Hideyoshi não lhe bastava e pensou na conquista da China para formar
um império pan-asiático. Como primeira fase deste grande esquema, as suas
forças invadiram a Coreia em 1592, mas foram repelidas pelas forças conjuntas
da Coreia e da China. A sua campanha ficou prejudicada pelo facto de ele
próprio não ter estado no terreno. Tentou novamente em 1597, mas também esta campanha
foi abandonada, porque Hideyoshi morreu de doença em Setembro de 1598.
Três anos antes da sua morte e para assegurar a continuidade da hegemonia dos Toyotomi, Hideyoshi estabeleceu um conselho de cinco dos maiores dáimios do Japão, os Cinco Grandes Anciãos. Um deles era Tokugawa Ieyasu, um dos grandes sobreviventes da história do Japão.»
Kenneth Henshall («História do Japão»).
A cerimónia do 'chá-no-yu'
No
tempo do generalíssimo do Império, chamado Toyotomi Hideyoshi, mais conhecido
na história pelo grande Taiko-sama, quase todos os generais eram chajin, isto é, ferventes apaixonados da
cerimónia do chá-no-yu. Em 1585, o
próprio Taiko-sama organizou um chá-no-yu
colossal nas vizinhanças de Quioto, ainda hoje memorado como festa de
inigualável esplendor: uma extensão de quinze quilómetros quadrados era ocupada
por inúmeros quiosques, onde os generais preparavam o chá; todos, nobreza e
plebe, os ricos e os mendigos – um exame humano! – tinham entrada; Hideyoshi
visitou todos os poisos e por suas próprias mãos preparou chá, que ofereceu aos
chefes favoritos.
Relembrando o passado, justamente num período de efervescências guerreiras culminantes no Japão, talvez pareça estranho, talvez pareça cómico, que esses rudes heróis de tão grandes façanhas, os indomáveis veteranos das guerras na China e na Coreia, despissem armaduras, tirassem os dois sabres da cintura, para virem votar horas quiméricas a aquecer a água sobre brasas e a preparar o chá... Mas o contraste, por si, explica o facto: era precisamente essa dura existência de batalhas e de lances sangrentos, de inclemências de vida nómada, de longo cogitar em estratagemas e em argúcias, que impunha aos homens dirigentes a doce trégua do chá-no-yu. O convívio com os partidários e os amigos, o desfilar do povo alegre e reverente, a verde paisagem de repouso, a solenidade hipnótica dos gestos, tudo contribuía para oferecer um curto aprazimento àquele gente, que assim ia apagando da memória os amargores sofridos, estreitando simpatias, retemperando forças para as próximas lutas.
(In O Culto do Chá, Relógio D’Água Editores, Ilustrações de Yoshiaki, 2008, pp. 37-38).
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