quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Ocupação do Japão

Escrito por Kenneth Henshall



 

«Os japoneses, exactamente como os alemães na Europa, ajustaram negociações de paz doze meses antes da sua rendição. Como não estavam em guerra com a URSS, serviram-se da sua embaixada em Moscovo para enviar exploradores. Estaline, com planos ambiciosos respeitantes ao Japão, utilizou naturalmente estes emissários para fazer avançar os seus projectos. Mais tarde os japoneses entraram em contacto pessoal com o general MacArthur e fizeram-lhe proposta de paz, propostas que coincidiram exactamente com a concepção aceite entre os dois beligerantes ao terminar a guerra em 1945. O general MacArthur, comandante-chefe das Forças Armadas americanas no Pacífico, aceitou as promessas japonesas e tomou as disposições necessárias para acabar com os combates o mais rapidamente possível. O que aconteceu depois foi inconcebível, e uma pessoa tem dificuldade em acreditar nisso, mas é, meu Deus, a estrita verdade.

Dois dias antes da partida de Roosevelt para Ialta – e sete meses antes da capitulação final do Japão –, o Presidente americano recebeu do general MacAthur um memorando de quarenta páginas, contendo um documento não oficial mas emanado de uma fonte autorizada, na qual os japoneses faziam as citadas ofertas de paz. MacArthur pediu instantemente que as negociações se ajustassem às propostas formuladas. Agora examinemos a situação exacta nesse momento crucial. Roosevelt não levou com ele esse memorando. Ele jaz nos arquivos do Alto Comando e o seu teor está na base da redacção do ultimato enviado pelos Estados Unidos aos japoneses, exigindo a capitulação. POR CONSEGUINTE DEPOIS DO HOLOCAUSTO DE HIROSHIMA, OKINAWA E NAGASAKI. Assim a bomba atómica nunca deveria ter sido lançada sobre Hiroshima. Os japoneses sabiam perfeitamente, no fim de 1944, que a guerra estava, para eles, virtualmente perdida. Do mesmo modo, os americanos, ou melhor os “Iniciados”, grão-mestres e cúmplices de Roosevelt, sabiam-no. Logo que recebeu o documento o Presidente americano, pondo-o de lado, comentou desdenhosamente: “MacArthur é o nosso melhor general mas é um pobre político...”».

Deirdre Manifold («Fátima e a Grande Conspiração»).

 

«“Ordena-se ao comandante supremo [MacArthur] que ajude secretamente a popularizar e a humanizar o imperador. O povo japonês não deve ter conhecimento deste plano”, pode ler-se numa directiva de Julho de 1946 do Departamento de Estado, Guerra e Marinha dos EUA. Além da imunidade na acusação por crimes de guerra, MacArthur ajudou a moldar a imagem histórica de Hirohito que chegou aos nossos dias. Praticamente da noite para o dia, as fardas e o cavalo branco do imperador deixaram de ser vistos, e os seus súbditos descobriram a existência de um governante civil estranhamente afável, para quem podiam olhar e até falar impunemente.

Imperador Hirohito montando Shirayuki (8 de Janeiro de 1938).

Foram divulgadas fotografias de Hirohito com a mulher e o filho primogénito sentados à volta de uma mesa de jantar, a saborear uma refeição simples, a ler os jornais ou a regar as flores do jardim. A propaganda americana brutal e por vezes racista contra Hirohito, que tinha sido comum durante a Segunda Guerra Mundial, foi substituída por uma que exaltava o imperador como um homem decente, amante da paz e de espírito democrático, preso contra a sua vontade numa lamentável aventura militarista que sempre deplorou.

Tornou-se assim um monarca constitucional com poderes meramente cerimoniais, à semelhança do modelo britânico. No dia de Ano Novo de 1946, num discurso radiofónico, Hirohito renunciou formalmente à sua divindade e o xintoísmo deixou de ser a religião do Estado.»

(Hirohito. O Imperador guerreiro, Protagonistas da Segunda Guerra Mundial, 2024).




«Com o final da guerra, as artes marciais sofreram um declínio por algum tempo, fazendo com que a existência do Aikido no futuro fosse duvidosa. No entanto, Morihei tinha muita fé no novo Aikido, o que nos fez trabalhar todos juntos para colocá-lo de volta em seu devido lugar no Japão dos pós-guerra. Quando parecia que a confusão prevalecia em consequência dos desastres deixados pela guerra, foi decidido mudar novamente o quartel-general do Aikido para Tóquio. No dia 9 de Fevereiro de 1948, o Ministério da Educação deu permissão para o restabelecimento do Aikikai, com reservas. Durante esse tempo, o dojo principal em Tóquio era chamado o Dojo Ueshiba e Quartel-General Mundial do Aikido.»

(Introdução de Kisshomaru Ueshiba, in Morihei Ueshiba, «Budo: Ensinamentos do Fundador do Aikido»).



A Ocupação do Japão

As tropas aliadas começaram a chegar ao Japão no final de Agosto de 1945 e a Ocupação começou, oficialmente, depois da rendição de 2 de Setembro. Os Japoneses tinham receado represálias brutais dos Aliados, mas ficaram bastante tranquilos com o discurso de aceitação da rendição do homem que iria chefiar a ocupação, o general dos Estados Unidos Douglas MacArthur. MacArthur salientou a importância de pôr de parte o ódio e visar um futuro de paz. Também expressou a sua confiança no povo japonês para reconstruir o país e recuperar a sua dignidade.

Os seus homens não o desiludiram. Houve, inevitavelmente, alguns casos de tratamento brutal, mas, em geral, as tropas de ocupação revelaram benevolência em relação ao seu anterior adversário. Os Japoneses, por seu lado, foram extremamente cooperantes. Em consequência, o número das forças ocupantes pôde, em breve, ser reduzido de 500 000 para apenas 150 000 elementos.

Evidentemente, para além das preocupações imediatas e graves com a alimentação e a habitação[1], o povo japonês estava num estado de grande confusão e ansiedade. A sua fé na superioridade divina e na invencibilidade do Japão, com que tinha sido doutrinado, estava agora consideravelmente abalada. Também o estava a sua fé nos seus líderes políticos e, sobretudo, nos líderes militares. Muitos Japoneses sentiram cólera e desilusão face a esses líderes e também que tinham sido traídos por eles. Alguns tinham mesmo sentimentos negativos para com Hirohito, embora não tanto em relação à própria instituição imperial.

MacArthur tranquilizou os Japoneses, não apenas com o seu discurso, mas, sobretudo, com o seu modo de agir. Estando então com 65 anos, era general desde os 38 (nessa altura, foi o general mais novo de sempre da história dos Estados Unidos). Era um homem nascido para comandar, um homem digno e autoconfiante, firme, mas também benevolente e possuía uma convicção quase messiânica no seu destino divino para moldar a História. Em alguns aspectos, fazia recordar os oligarcas Meiji, com a sua mistura de democracia e autoritarismo e, decerto, com a sua convicção de que era ele quem mais sabia o que era melhor para o povo que governava. Para uma nação acostumada a ser dirigida, foi um novo líder bem-vindo. Foi aclamado pelos Japoneses como um novo xógum, como o imperador americano do Japão e mesmo como um Deus. Os seus próprios homens costumavam dizer por graça que quem acordasse de manhã bem cedo podia vê-lo caminhar sobre as águas do fosso do Castelo Imperial, a pouca distância do seu quartel-general[2].

O General Douglas MacArthur assina a acta de rendição do Japão, a bordo do USS Missouri.

Em teoria, a Ocupação era uma acção aliada e não um assunto apenas americano e muito menos uma actuação a solo. O título oficial de MacArthur era Comandante Supremo das Potências Aliadas (CSFA). Destas potências, a China e a União Soviética não enviaram tropas para o Japão, mas as tropas da Comunidade Britânica tiveram um papel efectivo, se bem que limitado, na Ocupação, ficando confinadas sobretudo a uma zona na parte ocidental de Honshu[3]. As quatro potências aliadas mais importantes – os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a União Soviética e a China – formaram um Conselho Aliado, no final de Dezembro de 1945, em Tóquio, onde tinham reuniões quinzenais. Havia também uma Comissão do Extremo Oriente com todos os 11 países vitoriosos, que se reunia em Washington desde 1946 para decidir a política geral da Ocupação que devia ser então retransmitida pelo Conselho Aliado.

Todavia, na prática a Ocupação foi um assunto quase só americano e MacArthur era manifestamente o mestre de cerimónias. Pôs de parte o Conselho Aliado como sendo um "aborrecimento" e a Comissão do Extremo Oriente por ser “pouco mais do que uma tertúlia”. Queria prosseguir o seu trabalho e, de qualquer modo, os planos que ele e Washington tinham em mente já tinham começado na sua maior parte a ser aplicados.

Quer Washington, quer MacArthur tinham planos, não só para o desmantelamento do modo de funcionamento do Japão militarista e totalitário, mas grandes perspectivas sobre a construção de uma nova nação de natureza utópica. Washington iniciara o seu planeamento já em meados de 1942, com um notável contributo dos New Dealers[4]. Os planos de MacArthur parece que foram feitos mais tarde, mas, felizmente, eram bastante semelhantes aos do seu governo.

As políticas de Washington eram muitas vezes elaboradas por figuras “sem rosto” do Departamento de Estado, como Hugh Borton e George Blakeslee. Borton, em particular, um homem voluntariamente apagado, reputado pelo seu conhecimento sobre o Japão, mas pouco conhecido pelo seu papel na reconstrução do país, parece ter intervido na maior parte das políticas da Ocupação. Estas políticas foram transmitidas, na sua maior parte, através de uma directiva entregue a MacArthur em Outubro de 1945. Era a Basic Initial Post Surrender Directive to Supreme Commander for the Allied Powers for the Occupation and Control of Japan [Directiva Preliminar Básica Pós-Rendição para o Comandante Supremo das Forças Aliadas de Ocupação e Controlo do Japão], mais propriamente conhecida como JCS1380/15 (JCS significando Junta dos Chefes de Estado-Maior [na sua sigla inglesa]). 

A directiva planeava para o Japão uma democracia idealizada de inspiração norte-americana. O imperador, se se mantivesse, deveria ter um papel puramente simbólico como chefe da nação. Os direitos civis e as liberdades pessoais deveriam ser garantidos, se necessário fosse, através de uma nova constituição. Todos os adultos, incluindo as mulheres, teriam direito de voto. As forças armadas e a polícia ao velho estilo deveriam ser abolidas e as zaibatsu desmanteladas. Todos os que pertencessem às forças armadas, ao governo e às empresas que tinham contribuído para o esforço de guerra deveriam ser afastados de qualquer cargo de responsabilidade. Seriam encorajados os sindicatos e protegidos os direitos dos sindicalistas.

As ideias de MacArthur eram muito semelhantes, embora expressas num estilo mais grandiloquente. Nas suas memórias, fez um paralelo entre as suas ideias e as de Alexandre, o Grande, César e Napoleão, tendo escrito:

“Tinha de ser economista, cientista político, engenheiro, gestor industrial, professor e até uma espécie de teólogo. Tinha de reconstruir um país que havia sido quase completamente destruído pela guerra. [...] O Japão tinha-se tornado no maior laboratório do mundo para realizar a experiência de libertar um povo de um poder militar totalitário e para liberalizar o governo a partir de dentro. Era evidente que a experiência tinha de ir muito mais longe do que o objectivo principal dos Aliados: destruir a capacidade do Japão para desencadear outra guerra e punir os criminosos de guerra [...].

Senti que as reformas em que eu pensava seriam as que iriam fazer com que o Japão se integrasse no pensamento e na acção modernos que favorecem o progresso. Em primeiro lugar, destruir o poder militar. Punir os criminosos de guerra. Formar a estrutura do governo representativo. Modernizar a Constituição. Realizar eleições livres. Emancipar as mulheres. Libertar os prisioneiros de guerra. Emancipar os camponeses. Criar um movimento sindical livre. Encorajar a economia livre. Abolir a opressão policial. Desenvolver o poder livre e responsável. Liberalizar a educação. Descentralizar o poder político. Separar a religião e o Estado. [...]”.

Para restabelecer a dignidade e o moral  japoneses, encorajou-os a não abandonarem tudo o que era japonês, mas “a procurar uma saudável mistura entre o melhor deles e o melhor que nós tínhamos”.

O facto de, na maioria dos casos, MacArthur estar fundamentalmente a cumprir ordens não equivale a negar o seu papel extraordinariamente decisivo. A própria JCS1380/15, embora lhe transmitisse ordens gerais, de algum modo, paradoxalmente, também confirmava o seu poder pessoal. Dizia-lhe claramente que, “para além dos poderes convencionais de um ocupante militar de território inimigo, V. tem o poder de tomar todas as medidas por si julgadas convenientes e apropriadas para levar a efeito [...] as disposições da Declaração de Potsdam”. Por vezes, iria utilizar esse poder pessoal.




 

A desmilitarização foi o primeiro passo do ambicioso programa “conjunto” MacArthur-Washington de construir um novo Japão. Com esta finalidade, o Exército e a Marinha foram desmobilizados em poucos meses. O Japão foi despojado dos territórios que tinha ganho por meios militares, regressando, de facto, à situação de antes da Guerra Sino-Japonesa de 1894-1895. Foram dados passos para iniciar a repatriação dos três milhões de efectivos militares e de um número semelhante de civis dispersos por toda a Ásia. Foram dadas ordens para o Japão pagar indemnizações às nações que vitimara. Alguns navios japoneses foram dados aos Aliados, mas outro equipamento de guerra e armas foram destruídos, incluindo, como tarefa prioritária e contra os desejos do próprio MacArthur, os seus aceleradores de partículas. Entre 1946 e 1948, aproximadamente 700 000 indivíduos foram escrutinados e cerca de 200 000, que se considerou terem sido, nos termos da JCS1830/15, “expoentes activos do nacionalismo militante e da agressão”, foram “saneados” dos seus cargos. Também estes saneamentos, pelo menos na dimensão que atingiram, parecem ter sido feitos contra o próprio juízo pessoal de MacArthur.

Talvez a mais significativa de todas as medidas de desmilitarização tenha sido a inclusão na nova Constituição, esboçada no início de 1946 pelo pessoal do CSFA, da famosa cláusula de “não guerra” relativamente ao Japão. Esta foi incluída pessoalmente por MacArthur, mas não necessariamente concebida por ele, porque a sua origem exacta ainda é desconhecida[5]. Na íntegra, o artigo (o artigo IX) diz o seguinte:

“Aspirando sinceramente a uma paz internacional baseada na justiça e na ordem, o povo japonês renuncia para sempre à guerra como direito soberano da nação e à ameaça e ao uso da força como meio de resolver questões internacionais.

Para cumprir o objectivo do parágrafo precedente, nunca mais serão mantidas forças terrestres, navais ou aéreas nem quaisquer outros meios de fazer a guerra. Não será reconhecido o direito de beligerância por parte do Estado”.

A punição dos criminosos de guerra fazia também parte do processo geral de desmilitarização. No Julgamento de Crimes de Guerra de Tóquio, que decorreu entre Maio de 1946 e Novembro de 1948, no recém-criado Tribunal Militar do Extremo Oriente (que incluía todas as 11 nações vencedoras), foram julgados 25 homens por crimes importantes (de classe A), como os de terem planeado e levado a efeito a guerra. Foram todos considerados culpados, em graus diversos, por uma justiça que foi por vezes designada como “justiça do vencedor”. Sete deles, incluindo o general Tojo e o ex-primeiro-ministro Hirota (o único civil), foram condenados à morte e subsequentemente enforcados. Foram realizados julgamentos noutros locais, como Singapura, Filipinas e Hong Kong. Nestes tribunais locais, mais de 5000 Japoneses foram considerados culpados de vários crimes mais específicos (de classes B e C), como o de grande crueldade para com prisioneiros de guerra, tendo sido executados cerca de 900.



Desde o início, havia a opinião generalizada, tanto no Japão como no exterior do país, de que os indivíduos a julgar eram, em larga medida, bodes expiatórios. Muitos dos que poderiam ser considerados mais culpados nunca foram levados a julgamento. Entre os que escaparam ao julgamento conta-se o pessoal da Unidade 731, que tinha realizado inúmeras experiências de guerra biológica e química em civis e prisioneiros de guerra. Toda a questão da 731 foi silenciada pelos Americanos, que ofereceram imunidade em troca de dados científicos das experiências, que eram proibidas quer pela sua própria ética, quer pela lei. O mesmo se passou, segundo foi afirmado, com o caso da Operação Lírio Dourado, o nome de código da apropriação da imensa pilhagem realizada pelas forças japonesas da Ásia, aparentemente com a cumplicidade de membros da Casa Imperial e, alegadamente, das autoridades americanas.

A omissão mais controversa de efectuar um julgamento aconteceu no caso de Hirohito. Esta omissão surpreendeu até a maioria dos Japoneses, por muito que se tenham sentido aliviados. Na América, na Austrália e em outros países aliados havia decerto muitos que pensavam convictamente que Hirohito devia ser levado a tribunal, na esperança de que fosse considerado culpado e enforcado[6]. A posição do governo americano acerca do imperador era fundamentalmente a de proceder com cautela. Não havia realmente desejo de dissolver a própria instituição imperial, porque tinha uma função útil em manter a nação unida, em manter o moral do país e em legitimar a política de ocupação. Os especialistas do Japão no Departamento de Estado não desconheciam a importância, profundamente enraizada, que tinha para o povo japonês o exercício do poder ser legitimado por uma alta autoridade, para que este poder se tornasse assim aceitável. Sem esta legitimação, podia instalar-se a anarquia e o país tornar-se permeável ao comunismo. Para além disso, com o imperador no seu papel, seria mais fácil manter os orgãos da Administração Central a funcionar. Este assunto era importante, porque, em contraste com o caso da ocupação do velho e familiar inimigo, a Alemanha, que era muito menos construtivo e muito mais destrutivo, havia poucas pessoas nas forças de ocupação do Japão que tivessem os conhecimentos e a confiança necessários para instalar uma máquina administrativa de substituição adequada a este estranho povo. Os especialistas do Japão como Borton eram muito raros.

Todavia, no que respeita à pessoa de Hirohito, havia menos simpatia nos círculos governamentais. Muitos gostariam de o ver afastado, fosse sendo julgado e executado, ou abdicado e sendo substituído por um novo imperador. Este tipo de solução poderia até tornar as coisas mais fáceis para um novo começo. Aliás, uma nova era iniciava-se, tradicionalmente, com um novo imperador. Para além disso, muitos Japoneses pensavam que Hirohito deveria, pelo menos, abdicar[7]. Porém Hirohito manteve-se. Para além do conhecidíssimo argumento de que desconhecia as atrocidades cometidas e/ou que não tinha realmente participado na guerra e que fora enganado pelos seus generais, afirmou como justificação ora que os imperadores (sobretudo os divinos) não podem abandonar simplesmente essa função, ora que tinha o dever de continuar para ajudar a reconstruir o Japão[8].

O grande salvador de Hirohito foi MacArthur. Encontraram-se em privado no fim de Setembro e MacArthur ficou muito impressionado com ele. Parece ter havido uma forte afinidade pessoal entre ambos. Em especial, partilhavam o ódio ao comunismo. MacArthur pensou que manter pessoalmente Hirohito, e não apenas a instituição imperial, constituiria a salvaguarda mais eficaz contra a anarquia e o comunismo. Nas suas memórias, haveria de dizer que sentia que Hirohito não era pessoalmente responsável por qualquer crime. Era uma interpretação generosa dos acontecimentos, e talvez mesmo deliberada[9]. Porém, num memorando convincente à Junta dos Chefes do Estado-Maior, em Janeiro de 1946, MacArthur fez a defesa vigorosa da manutenção do inocente Hirohito, alertando para as terríveis consequências que os planos da Ocupação sofreriam se tal não fosse aceite. Foi. Hirohito manteve-se. Não apenas evitou o julgamento e uma possível execução, mas, graças a MacArthur, conseguiu até evitar ter de abdicar.



Pode ter sido este o objectivo de MacArthur, mas haveria de deixar em muitos uma permanente desconfiança em relação a um certo tipo de continuidade com o Japão anterior à guerra. Esta desconfiança haveria de perdurar até aos dias de hoje, sobretudo nos países asiáticos que sofreram sob o domínio japonês, mas também nos Japoneses desejosos de progresso.

Hirohito manteve-se, mas não pôde evitar uma mudança no seu papel e na sua imagem. Teve se de tornar um símbolo para o povo e ganhar a sua aceitação e o seu respeito sob a forma de afecto, e não como temor ignorante perante uma divindade encarnada. Alinhando com a política de Washington e a própria concepção de MacArthur sobre os perigos de um deus-imperador, Hirohito teve de tornar-se um mero mortal[10]. Esta transformação haveria de reduzir grandemente o perigo de um ressurgimento da doutrinação do sistema do imperador, que se pode ver no Rescrito Imperial sobre a Educação e nos Kobutai no Hongi. Neste sentido, esta mudança era mais uma medida contra a possibilidade de qualquer ressurgimento do militarismo. Como medida relacionada, o Estado xintoísta seria desmantelado. O xintoísmo foi declarado uma religião e a religião seria legalmente separada do Estado. Reverenciar o seu deus-imperador deixaria de ser um dever nacional para os Japoneses.

A Directiva sobre o Xintoísmo, que desmantelava o Estado xintoísta, foi publicada pelo pessoal do CSFA em Dezembro de 1945. No mesmo mês, o pessoal do CSFA elaborou também o rescrito conhecido habitualmente como Declaração de Humanidade (Ningen Sengen), que Hirohito leu na rádio no dia 1 de Janeiro de 1946. A versão oficial é que foi escrita pelo próprio Hirohito, mas isso é evidentemente duvidoso. De facto, quando viu o texto, Hirohito ficou muito contrariado por ter de renunciar à sua ascendência divina e, de maneira subtil mas significativa, conseguiu transformá-la, em vez disso, em renúncia ao seu estatuto de deus vivo. Percebendo que a democracia estava a ser imposta ao país, também conseguiu que o rescrito começasse com a reafirmação da Carta de Juramento de 1868, acentuando assim a continuidade entre a monarquia e a democracia desde a Restauração. Em todo o caso, a versão final da Declaração difundida pela rádio em Janeiro incluía algumas frases-chave como esta: “a falsa concepção de que o imperador é divino e que o povo japonês é superior às outras raças e destinado a governar o mundo”. MacArthur e Washington ficaram muito agradados.

A humanização de Hirohito e o seu papel como símbolo do povo seriam também formalmente consolidados pela Constituição, uns meses mais tarde. Esta transformava a sua função de monarca absoluto em “símbolo do Estado e da unidade do povo, ficando a dever a sua posição à vontade deste, no qual reside o poder soberano”.

1946

A partir de então, Hirohito, agora um imperador do povo, teve de se deslocar em viagens para se encontrar com as pessoas, apesar do seu manifesto incómodo. A sua imagem de tio “velho e inofensivo”, usando fatos que lhe assentavam mal, foi imaginada pelo pessoal do CSFA para ajudar à sua aceitação, tanto no país como no estrangeiro. Em breve apareceram livros e artigos populares que punham em destaque a sua vida privada, as suas qualidades humanas e os seus sucessos académicos como naturalista. Mostravam-no como um intelectual civilizado e amante da paz, cujos pensamentos estavam sempre com o povo, um imperador humano que tinha sido falsamente retratado pelos militares e outros grupos malevolentes. Salientava-se a sua coragem em se ter pronunciado para se terminar com a guerra. O facto de não ter abdicado era transformado num ponto de honra, porque ele mesmo tinha reconhecido as consequências “insuportáveis” da Declaração de Potsdam, que tinha decidido pessoalmente aceitar. Por outras palavras, foi ainda mais manipulado por especialistas de relações públicas do que o seu avô Meiji tinha sido.

(In História do Japão, Edições 70, 2005, pp. 197-205).



[1] (...) Foi destruída, aproximadamente, uma casa em cada cinco em todo o país (mais de metade das casas em Tóquio e Osaca) e a comida era desesperadamente escassa. As forças de ocupação entregaram alguns alimentos, mas não de forma substancial até ao início de 1946. Em finais de 1945, muitos japoneses gastavam todas as suas energias apenas a tentar obter comida suficiente para se manterem vivos.

[2] (...) Theodore Cohen, ele próprio uma figura importante na Ocupação, afirma repetidamente que os que rodeavam MacArthur tinham habitualmente sentimentos contraditórios, por um lado respeitando-o, mas, por outro, irritando-se com a grande importância que exibia e com a incapacidade de reconhecer o que os outros realizavam. (...)

[3] A China estava ocupada com perturbações internas. Os Soviéticos exigiram a sua própria zona de ocupação em Hokkaido e quando lhes foi negada, recusaram-se a enviar tropas que servissem sob um comandante americano. As tropas britânicas eram australianas na sua maioria. (...)

[4] (...) Os New Dealers eram liberais que apoiavam o New Deal, as reformas sociais e económicas introduzidas na América pelo presidente Roosevelt, durante os anos 30, para aliviar os efeitos da Depressão. Tinham por preocupação principal alcançar uma distribuição mais igualitária da riqueza e reformas laborais que apoiassem os sindicatos e não tanto os interesses das grandes empresas. (...)

[5] Muitos comentadores ocidentais atribuem-na sem mais a MacArthur, enquanto muitos Japoneses preferem hoje acreditar que teve origem japonesa. De facto, é um caso clássico de “atirar as culpas”, quando se esperaria que fosse um caso de “apropriação indevida dos créditos”. É inquestionável que MacArthur redigiu a cláusula e a enviou à equipa do CSFA que trabalhava na nova constituição. Um dos elementos dessa equipa, Richard Poole, confirma-o, atribuindo a cláusula ao próprio MacArthur (vd. a entrevista em “Reinventing Japan”) que, todavia, nas suas memórias (MacArthur 64, pp. 302-304) nega que tenha sido ideia sua e afirma que a iniciativa foi do então primeiro-ministro Shidehara Kijuro. Yoshida Shigeru, que sucedeu no cargo a Shidehara, relembra nas suas próprias memórias (Yoshida 61, p. 137) a sua impressão de que MacArthur a sugeriu a Shidehara, e não o contrário, como afirma MacArthur. Em alternativa Theodore McNelly (McNelly 8, pp. 79-80) levanta a possibilidade de que poderia ter vindo de Shidehara, mas em resposta a uma sugestão de Charles Kades, que era responsável pela equipa que redigia a Constituição e que estava muito influenciado pelo Pacto Kellogg-Briand de 1928. Para alargar as possíveis fontes, Robert Ward (Ward 87ª, pp. 23-24) chama a atenção para um plano para o Japão, do Departamento de Estado, redigido em 9 de Maio de 1944 por Hugh Borton, que se refere ao “amplo consenso que existe agora de que não se deve permitir que o Japão, no período pós-guerra, possua exército, marinha de guerra ou força aérea”. Embora este plano de Washington em particular se refira ao período “pós-guerra» e não a uma disposição permanente e, por outro lado, possa não ter sido especificamente enviado a MacArthur, um documento anterior, o SWNCC 150/2, de Agosto de 1945, refere-se claramente a um desarmamento “completo e permanente” do Japão. (Vd. Dower 93b, p. 168, embora Dower pense que a origem da cláusula esteja em Tóquio e não em Washington). O próprio Borton (Borton 55, nota 5 às pp. 423-424) atribui o “princípio da renúncia à guerra” a MacArthur e, mais tarde (Borton 67, p. 16), atribui a ideia de desmobilizar as forças armadas ao seu colega George Blakeslee, do Departamento de Estado. Numa perspectiva mais ampla, também não deve ser esquecido que, meio século antes, o próprio Japão tinha desmobilizado o exército da Coreia.







[6] Num inquérito de opinião realizado em Junho de 1945, 77% dos Americanos queriam que Hirohito fosse severamente punido e em 18 de Setembro desse ano uma resolução conjunta, declarando que Hirohito devia ser julgado como criminoso de guerra, foi apresentada ao Senado e remetida a uma Comissão. Muitas figuras importantes de outros países aliados, como o primeiro-ministro da Nova Zelândia e líderes da Austrália, da União Soviética, da Holanda e da China, era também da opinião de que Hirohito devia ser julgado. (...)

[7] Entre as figuras dessa altura que pensavam que ele deveria ter abdicado, logo de imediato ou na primeira fase da Ocupação, incluem-se o primeiro-ministro a seguir a ela (Agosto-Outubro de 1945), o príncipe Higashikuni Naruhiko. (...) Entre as que, mais tarde, partilharam esta opinião estiveram o romancista Mishima Yukio e o romancista-político Ishihara Shintaro, ambos fortemente nacionalistas. Tsurumi (87, p. 26) analisa as contínuas reservas japonesas e, entre outras coisas, acentua que a incapacidade de Hirohito se afastar favoreceu a ideia de que os governantes não necessitavam de assumir a responsabilidade das suas decisões.

[8] Constituindo um exemplo interessante do pensamento de Hirohito, foi encontrada em 2003, pelo seu Chefe da Casa Imperial, Tajima Michiji, a chamada “apologia escrita por ele em 1948 (por altura do veredicto do Julgamento de Tóquio). Usando explicitamente a palavra “derrota”, parece que, na apologia, Hirohito aceita a responsabilidade da derrota em termos da sua “falta de virtude” e também diz que estaria a esquivar-se à sua responsabilidade para com a nação se abdicasse naqueles tempos difíceis. Embora seja quase certo que não foi escrita por ele pessoalmente, é também quase igualmente certo que reflecte com rigor o que ele pretendia dizer. Nunca foi publicada. Vd. East, vol. XXXIX, nº 2, Julho/Agosto de 2003, pp. 4-14. Deve notar-se que a abdicação de Hirohito, sobretudo no rescaldo da guerra, tornaria mais fácil o seu julgamento.

[9] Há uma grande controvérsia acerca da responsabilidade de Hirohito em relação à guerra. Como Pearl Harbor, o assunto não deve ser demasiado simplificado. As obras relevantes vão desde a crítica (com Bergamini 71, Behr 89 e Bix 92 e 00) ao apoio (como Mosley 66 e Shillony 73). Muitos comentadores tendem a manter opiniões semelhantes às de Stephen Large (92), que tem, no fundo, uma posição equilibrada e modernamente simpática, no sentido de que Hirohito era um homem fraco, vítima de circunstâncias demasiado poderosas para que pudesse lidar com elas. Ou seja, era mais culpado de omissão do que de acção, por não ter posto fim ao comportamento condenável de outros. Por outro lado, os textos recentes e detalhados de Bix, em particular, sugerem que pode ser mais adequado um ponto de vista bastante menos favorável. Entre outras razões, Bix apresenta uma lista de exemplos do envolvimento activo de Hirohito em assuntos como o planeamento militar estratégico, como quando pressionou para que fosse usada a força aérea na campanha de Guadalcanal, insistindo mesmo contra a opinião do seu estado-maior no terreno. (Vd. Bix 92, pp. 352-354, e 00, Parte 3, passim.) Entre os seus críticos, condena-se também a sua demora em fazer cessar a guerra, permitindo assim que o número de baixas fosse muito superior. (Vd., por exemplo, Takashashi 03, pp. 9-10.)

[10] MacArthur 64, pp. 284 e 310-311. Vd. também Ward 87a, p. 7, acerca de uma recomendação de Washington, aparentemente da iniciativa de Hugh Borton, logo em Maio de 1944, de que a divindade de Hirohito não devia ser apoiada.




Última imagem de Yamamoto em vida. Ver aqui

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