sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A força dos políticos... e o desprezo dos povos (i)

Escrito por Orlando Vitorino







Há quem diga que o prestígio dos políticos é coisa que só se mantém pela força: ou pela força manifesta, violenta e policial, ou pela força que emana, discreta, da simples existência do poder que os políticos exercem.

Há quem diga que numa sociedade livre e tranquila - que os políticos serão os primeiros a não querer que exista - a carreira política não poderá deixar de ser uma carreira desprezada. Ainda não há muitos decénios, era isso que acontecia em alguns países. De que acontecia nos EUA, dá-nos notícia Galbraith no livro «A Sociedade da Abundância». De que acontecia nas fulgurantes e remotas origens da nossa civilização, dá-nos notícia «O Político» de Platão. De que sempre acontece inevitavelmente, dá-nos notícia «O Príncipe», de Maquiavel.

Quando a força emanada do poder cessa ou se interrompe, o prestígio dos políticos que a utilizam esvai-se, e à imagem do herói, do santo e do sábio, substitui-se a imagem do medíocre, do oportunista e, até, do déspota e do monstro. Logo, porém, o novo político que ocupou o poder (jamais vazio), revela não ser diferente daquele que o antecedeu, e logo se tece uma teia de comparações em que muito jogam os interesses criados a perdidos e em geral leva a uma revalorização temporária do político substituído no poder.

Será a tal fenómeno que estamos assistindo hoje em Portugal com a imagem de Salazar. Indiscutível durante todo o seu longo consulado, logo que ele terminou se viu a sua imagem de herói, de sábio e de santo minada e desfeita pelo que primeiro lhe sucedeu e, dado o golpe de Abril, substituída pela imagem de um déspota e um monstro. Mas em três breves anos, os novos senhores do poder perderam toda a credibilidade ao deixarem cair sobre os portugueses o cortejo de impostos, imposições, prisões, torturas, sevícias, pobreza, sacrifícios, exigências de mais sacrifícios, promessas de mais pobreza, o cortejo apocalíptico de que acusavam e denegriam o seu percusor. E a imagem criada e difundida do déspota e do monstro começou a diluir-se, depois de refluir ao esvaído prestígio e anda neste momento envolta da auréola melancólica dos bons tempos perdidos.

É neste ambiente que adquirem maior relevo e maior importância os testemunhos que revalorizam o homem de cujo negro destino seus sucessores fizeram a base e a justificação do poder que lhes caiu nas mãos. Entre tais testemunhas, distingue-se pela larga documentação, correcção de opiniões e juízos, serenidade e seriedade de exposição, o livro de Franco Nogueira, «Salazar», de cujos anunciados quatro volumes já foram publicados dois. Limitado o primeiro à biografia pessoal e privada, só vamos aqui considerar o segundo que se ocupa da acção do político desde que, em 1928, «restaurou as finanças» até ao início da guerra civil espanhola.

Guernica (Pablo Picasso).


Não temos por Salazar a admiração que por ele têm os mais sinceros salazaristas e os mais directos anti-salazaristas, mas não embarcamos na imagem de propaganda que dele difundiram os seus actuais sucessores nos poderes do Estado. Pensamos, objectivamente, correctamente, que foi o melhor político português deste século, mas o que pensamos dos políticos não se afasta muito daquilo que nos ensinaram a pensar, conforme citamos, Platão e Maquiavel.

Do livro de Franco Nogueira, o mais significativo, e do qual depende tudo o que de Salazar se julgue, é o seguinte:

No que, em primeiro lugar, consistiu a obra de Salazar foi na «restauração das finanças»; para além disto, a sua acção governativa e política é feita de tão grande perplexidade de pensamento como de dura decisão pragmática. Isto, que sabíamos, vem Franco Nogueira confirmar. Restauradas as finanças, a acção de Salazar tem de passar ao campo da economia - criação de riqueza, desenvolvimento da produção, investimento público e privado, etc - e aí, dí-lo expressamente Franco Nogueira, não fez mais do que seguir e executar o que Ezequiel de Campos preconizara. Teve de passar, depois, às instituições do Estado, mas essas dependem já imediatamente do pensamento político que se tenha, e Salazar não só nada tem de original como se exprime e actua sem uma convicção capaz de resistir aos imperativos do mais imediato pragmatismo. Franco Nogueira resume o pensamento político de Salazar nos seguintes termos: «era uma síntese da democracia cristã de Leão XIII, das doutrinas económicas de Le Play, do princípio da vitória pela vontade de Gustave Le Bon, do historicismo de Maurras».






Essencialmente, tratava-se, pois, de uma ausência de pensamento político, tratava-se de um puro pragmatismo embora orientado, sem dúvida, por um hábil e admirável talento pessoal. E é essa ausência de pensamento político que deverá explicar todo o destino e todo o aparentemente contraditório desenvolvimento da salazarismo: desde o liberalismo inicial a que recorreu para «restaurar as finanças» até ao socialismo a que veio gradualmente cedendo, guiado pela exigência de autoridade necessária a todo o pragmatismo, e que veio gradualmente instituindo através do corporativismo de Estado, da organização da segurança ou previdência social, da institucionalização dos contratos colectivos de trabalho, da conservação de censura estabelecida pelos militares, da minoração do valor do ensino (tendo sobraçado todas as pastas ministeriais, desde a das Finanças até à Defesa, Salazar nunca quis ser Ministro da Educação, o que é tanto mais estranho num ditador que queria dar de si a imagem do professor e sábio) e sua sujeição à utilidade administrativa e económica... (in Escola Formal, n.º 4, Out./Nov. 1977).

Continua


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