Escrito por Fernando Pessoa
«O
Chefe do Governo tem uma inteligência lúcida e precisa; não tem uma
inteligência criadora ou dominadora. Tem uma vontade firme e concentrada, não a
tem irradiante e segura. É um tímido quando ousa, e um incerto quando afirma.
Tudo quanto faz se ressente dessa penumbra dos Reis malogrados.
(...) O Chefe do Governo não é um estadista: é um arrumador. Para ele o país não se compõe de homens, mas de gavetas. Os problemas do trabalho e da miséria, como há ele de entendê-los, se os pretende resolver por fichas soltas e folhas móveis?
A alma humana é irredutível a um sistema de deve e haver. É-o, acentuadamente,
a alma portuguesa.
Às
vezes aproxima-se do povo, de onde saiu. E traz-lhe uma ternura de
guarda-livros em férias, que sente que preferiria afinal estar no escritório.
É
sempre e em tudo um contabilista, mas só um contabilista. Quando vê que o país
sofre, troca as rubricas e abre novas contas. Quando sente que o país se
queixa, faz um estorno. A conta fica certa.
O
Prof. Salazar é um contabilista. A profissão é eminentemente necessária e
digna. Não é, porém, profissão que tenha implícitas directivas. Um país tem de
governar-se com contabilidade, não
pode governar-se por contabilidade.
Assistimos à cesarização de um contabilista.»
Fernando Pessoa («O Prof. Salazar não é um estadista, é um contabilista», c. 1932-1933).
«Debalde
porém se esperaria que milagrosamente, por efeito de varinha mágica, mudassem
as circunstâncias da vida portuguesa. Pouco mesmo se conseguiria se o País não
estivesse disposto a todos os sacrifícios necessários e a acompanhar-me com
confiança na minha inteligência e na minha honestidade – confiança absoluta mas
serena, calma, sem entusiasmos exagerados nem desânimos depressivos. Eu o
elucidarei sobre o caminho que penso trilhar, sobre os motivos e a significação
de tudo que não seja claro de si próprio; ele terá sempre ao seu dispor todos
os elementos necessários ao juízo da situação.
Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando chegar à altura de mandar.»
Oliveira Salazar («Condições da reforma financeira», na Sala do Conselho de Estado, em 27 de Abril de 1928, no acto da posse de Ministro das Finanças, segundo as notas do jornal Novidades).
«Ainda
um indivíduo tão intensamente bem-dotado como o Sr. Oliveira Salazar, é
estreitamente bem-dotado, e não passa de um especialista – apto, posso admitir,
para governar nos limites da sua especialidade, que é a ciência financeira, mas
não na falta de limites da generalidade do governo. E o mal, aqui, não é que o
Sr. Oliveira Salazar seja ministro das finanças, para o que concedo que esteja
certo, mas ministro de tudo, o que é mais duvidoso.
Acresce
que o especialista, se não tem ideias gerais a corrigir não só as ideias
particulares – forçosamente inaplicáveis fora do próprio campo – da sua
especialidade, mas a própria estreiteza mental que procede da especialização,
levará para qualquer problema geral em que se deixe cair, não só a
incompetência da especialização, mas a inaptidão da imaleabilidade.
O Sr. Oliveira Salazar é, sem dúvida, mais alguma coisa que um financeiro. Infelizmente o que ele é mais é católico, e, de todas as coisas estranhas a uma especialidade, uma religião fechada, dogmática e intolerante é a pior para corrigir os defeitos da especialização, pela simples razão que os não corrige. Antes os reforça e alarga, dando-lhes uma base espiritual que os radica.»
Fernando Pessoa («Salazar o que é mais é católico»).
«Eu
tenho pessoalmente alguma responsabilidade na forma actual de organização dos
católicos portugueses. Era minha ideia em 1922 que as questões suscitadas entre
a Igreja Católica e a República se simplificariam, perdendo acuidade, uma vez
arredada a questão do regime, para o que se impunha a separação dos monárquicos
militantes e a organização, no Centro Católico, de todos os católicos que, não
se pronunciando sobre as formas de governo, acatassem o regime, sem pensamento reservado, como era
expressa recomendação do Sumo Pontífice.
Não
digo que os resultados fossem grandes; digo que de outro modo seriam menores
ainda. As boas intenções de muitos esbarram com a incultura e jacobinismo dos
políticos avançados ou dos seus sequazes, e com a pusilanimidade dos partidos
chamados conservadores. O facto é que pôde a cada momento sustentar-se, e com
aparências de verdade, que a República portuguesa era por essência
anti-católica e a sua neutralidade uma mentira, caso grave para a República e
para a Igreja num país de tradições e população católicas. O sectarismo dos
governos abriu feridas profundas na consciência da Nação, e a simpatia com que
por toda a parte, fora dos centros políticos, foram recebidas as reacções de Pimenta de Castro e Sidónio Pais e a Ditadura Nacional tem aí boa parte da sua explicação.
A
agremiação denominada Centro Católico, ou seja a organização independente dos
católicos para trabalharem no terreno político, vai revelar-se inconveniente
para a marcha da Ditadura, deve torná-la esta dispensável por uma política
superior, ao mesmo tempo que só traria vantagens para o País a transformação do
Centro em vasto organismo dedicado à acção social.
Tenho
observado como é inconveniente ao desenvolvimento e pureza da vida religiosa a
intromissão da política na religião, a confusão dos interesses espirituais com
os interesses materiais dos povos, da Igreja com qualquer organização que,
actuando no terreno político, possa ser tomada como um partido, aspirando ou
não ao governo. Sobretudo num país como o nosso, de velhas tradições católicas
mas duma religiosidade geralmente pouco esclarecida, e de um estreito feitio de
espírito nas lutas partidárias, a actividade propriamente política da Igreja
levanta-lhe e ao seu clero atritos ou desconfianças graves que a prejudicam na
acção puramente espiritual.
Devemos
crer que Ela o sente e que só razões de peso para a sua própria existência a
impelem em sentido reputado inconveniente para a expansão do seu credo e
tranquilidade das consciências. O fenómeno que está no fundo desta atitude
parece-me ser a negação, por parte dos Estados, das liberdades fundamentais que
são condição de vida da Igreja, a irreligiosidade positiva que se esconde debaixo da neutralidade oficial e a
abstracção de toda a limitação de ordem moral na actividade governativa. Se
persistissem estas causas, serão inúteis todos os esforços para extinguir uma
reacção incómoda mas no fundo legítima, e para tirar do campo político uma
organização que será, apesar da sua boa vontade, uma força perturbadora.
É
para todos evidente que o condicionalismo social português nos impõe como
regime de relações com a Santa Sé a separação, sem prejuízo das relações
diplomáticas e da Concordata no que respeita ao Padroado Português do Oriente.
Nós estamos inibidos, pelas circunstâncias e situações criadas, de reparar, de
indemnizar, de restituir além do que está feito; mas o restabelecimento das
relações operado pelo Presidente Sidónio Pais devia ter como lógica
consequência a aceitação expressa, pela Igreja, da separação que violentamente
lhe foi imposta em 1911.
Arredada do nosso caminho essa gravíssima e irritante questão, o Centro Católico perderia a sua razão de ser e estaria naturalmente indicado que a sua actividade se dirigisse à acção social, tão atrasada e tão urgente neste País. Mas também neste ponto, como noutros, não faço doutrina nem dou conselhos; limito-me a dizer o que me parece.»
Oliveira Salazar («As diferentes forças políticas em face da revolução nacional», na Sala do Conselho de Estado, em 23 de Novembro de 1932, no acto de posse dos corpos directivos da União Nacional).
«Chegámos a isto, Senhor Presidente: passou a época da desordem e da má administração; temos boa administração e ordem. E não há nenhum de nós que não tenha saudades da desordem e da má administração. Não sabíamos que a ordem nas ruas, que as estradas, os portos e a esquadra tinham que ser comprados por tão alto preço – o da venda a retalho da alma portuguesa.
Tem todas as qualidades periféricas do chefe. Falta-lhe a principal – que é ser chefe.»
Fernando Pessoa («A desordem e a má administração», 1935).
«REVISTA PRINCÍPIO: “Para si, pois, Fernando Pessoa não é o poeta enorme que dizem.”
TELMO: “É. Mas não pelas mesmas razões dos que o dizem um poeta enorme. O que admiro nele é a profundidade mágica do seu patriotismo que a inferioridade dos políticos, que sendo os mesmos vão mudando de emblema ou de clube ideológico, obrigou a projectar-se no amor da língua. Quando escreveu ‘Minha pátria é a língua portuguesa’ fê-lo por exaltação da Kabbalah e por ‘desdém por este povo humano entre quem lido’, isto é, como disse eu, pelos políticos, e também pelos literatos. A esquerda democrática não pode gostar de Fernando Pessoa, porque ele foi o maior reaccionário do séc. XX português; a direita democrática não poderá nunca perdoar-lhe o seu anti-catolicismo sistemático. Em todo este barulho à volta do seu nome há a intenção oculta de tornar banal o esoterismo sebastianista que o seu génio serviu e de, banalizando-o, destrui-lo. Fernando Pessoa expôs-se muito, “não cercou de altos muros o seu jardim”. A baixa magia tem utilizado como suporte o famoso quadro de Almada Negreiros que o representa sentado a uma mesa de Café”».
(«Conversando com Tomé Natanael», in António Telmo, Viagem a Granada).
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Deus
quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus
quis que a terra fosse toda uma,
Que
o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te,
e foste desvendando a espuma,
E
a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou,
correndo, até ao fim do mundo,
E
viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir,
redonda, do azul profundo.
Quem
te sagrou criou-te português.
Do
mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se
o Mar, e o Império se desfez.
Senhor,
falta cumprir-se Portugal!
Mensagem
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«Que
ideia fazem das suas responsabilidades os espíritos de primeira ordem do actual
momento português, os que, por terem recebido maior parte na distribuição dos
dons divinos, estão naturalmente constituídos em guia e exemplo dos demais?
Vejo com desusada insistência desculparem alguns seus repetidos malefícios com
a apregoada sinceridade das suas convicções literárias, artísticas e morais.
Basta isso? Atrevo-me a negá-lo por várias razões e sobretudo porque, além de
responsáveis pelo que produzem contra a sua consciência, o escritor e artista
são ainda responsáveis pelos desvios da sua própria inteligência e pela má
formação da sua vontade. Ser sincero é muito pouco; reconheçamos a obrigação de
ser verdadeiro e justo.
Quando
BOURGET pôs em Le disciple a tese da
responsabilidade do escritor pelos efeitos da sua obra na inteligência e na
moral dos seus admiradores e sequazes, parece ter-se operado um movimento de
espanto sobretudo nos que tendiam a formar da literatura e da arte mundos à
parte, bastando-se a si próprios, tendo em si mesmos a sua finalidade e razão
de ser, e não viam nelas manifestações humanas, integradas na vida, e
susceptíveis de a embelezar, de a melhorar, de ajudar o homem na conquista dos
seus fins últimos. Esses desconheciam as profundas realidades humanas, perderam
a rota das grandes certezas morais, criaram o amoralismo e a arte pela arte,
como frutos lindos de ver-se, mas inaproveitáveis ou nocivos. Na melhor das
hipóteses desperdiçou-se o génio em prejuízo da humanidade.
A
tese da responsabilidade pode continuar a discutir-se teoricamente,
abstractamente; mas aos homens que sentem sobre os ombros o peso da direcção
dos povos ensinou-lhes a história, quando não a observação própria, coincidir a
decadência com certas manifestações mórbidas das inteligências e das vontades,
com a pretensa emancipação do jugo de regras superiores, impostas ao homem e
derivadas da sua natureza e dos seus fins. Para elevar, robustecer, engrandecer
as nações é preciso alimentar na alma colectiva as grandes certezas e contrapor
às tendências de dissolução propósitos fortes, nobres exemplos, costumes
morigerados.
É
impossível nesta concepção da vida e da sociedade a indiferença pela formação
mental e moral do escritor ou do artista e pelo carácter da sua obra; é
impossível valer socialmente tanto o que edifica como o que destrói, o que
educa como o que desmoraliza, os criadores de energias cívicas e morais e os
sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência.
Costuma
dizer-se que a literatura é o espelho das diferentes épocas; mas se tam
fielmente as reflecte é que ajuda a criá-las. Neste momento histórico, em que
determinados objectivos foram propostos à vontade nacional, não há remédio
senão levar às últimas consequências as bases ideológicas sobre as quais se constrói
o novo Portugal. Cremos que existe a Verdade, a Justiça, o Belo e o Bem; cremos
que pelo seu culto os indivíduos e os povos se elevam, enobrecem, dignificam; cremos
que ao alto sacerdócio de buscar e transmitir a Verdade, criar a Beleza, tornar
respeitada a Virtude é inerente a responsabilidade pelas devastações acumuladas
nas almas e até pela inutilidade social da obra produzida.
E se, por se generalizar tal estado de consciência, se vier a escrever menos... Mas virá algum mal ao mundo de se escrever menos, se se escrever e sobretudo se se ler melhor? Hoje, como na crítica de SÉNECA, “em estantes altas até ao tecto, adornam o aposento do preguiçoso todos os arrazoados e crónicas.»
Oliveira Salazar («Para servir de prefácio», in Discursos, 1928-1934).
«Chamamos-lhe
por vezes jesuíta, mas esta palavra é infeliz nos seus dois sentidos, pouco
importa qual. Antes de mais, Salazar não é jesuíta porque é dominicano; os
jesuítas portugueses, seguindo a velha tradição anti-dominicana da sua Ordem,
só dizem mal dele. Depois, ele não é nada jesuíta no seu carácter, a menos que
por jesuíta queiramos dizer hipócrita. Salazar é de facto hipócrita, mas este
não é decerto o traço mais saliente ou distinto do seu carácter. Quanto aos
métodos verdadeiramente jesuítas, Salazar não os pratica. Ele é minucioso, mas
não é subtil: ele tem astúcia, mas não diplomacia: não tendo nem charme nem
leveza, é incapaz de captação, directa ou indirecta. Se o seu aspecto severo e
dissimulado lhe granjeou, na qualidade de definição fisiognomónica, este
epíteto frequente, convém sugerir aos autores que a palavra “seminarista” produz
uma fotografia bem mais exacta do ditador português.
Inteligente
sem flexibilidade, religioso sem espiritualidade, ascético sem misticismo, este
homem é o produto de uma fusão de pobrezas: alma campestremente sórdida do camponês
de Santa Comba, que apenas se alargou na sua pequenês pela educação no
seminário, por todo o inumanismo livresco de Coimbra, pela especialização
rígida e pesada do seu destino desejado de professor de finanças. É um
materialista católico (e há muito assim), um ateu nato que respeita a Virgem.
Para
ser chefe de governo de um país, entre outras qualidades que fazem
(directamente) o chefe, a qualidade principal – a imaginação. Ele talvez saiba
prever, mas ele não sabe imaginar. Ele mesmo declarou o seu desdém por aqueles
a quem chamou “os sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência”. A
frase não é clara: as suas frases, sempre límpidas, raramente são claras. Não
conseguimos entender se os sonhadores nostálgicos sonham com o abatimento e a
decadência; ou se são os sonhadores que vivem no abatimento e na decadência que
sonham nostalgicamente não sabemos o quê. Fiquemos com o essencial – o tom e a
forma da frase, cuja aplicação concreta, aliás, escapou a toda a gente.
Ele
odeia os sonhadores não porque, reparem bem, sejam sonhadores, mas muito
simplesmente porque sonham. Ele desconhece, o infeliz, que o Império Português
é o produto dos sonhos de um príncipe que não duvidava de que era necessário
imaginar uma coisa antes de a fazer, e que isso é sonhar: é preciso pensar num
resultado antes de lhe darmos forma e, acima de tudo, sonhar mais não é do que
pensar com a imaginação.
Compreendemos
bem esta linguagem. É a linguagem do baixo materialismo, tal como a podem ter o
merceeiro ou o vendedor de toalhas com o seu filho que quer tornar-se
romancista ou inventor. Sabemos bem que a vender açúcar ou crêpe Georgette ganhamos bom dinheiro; mas também pode acontecer
que o sonhador de romance ou de novas máquinas venha a ganhar, e muito rapidamente,
mais ainda. E o merceeiro e o vendedor de toalhas acabam por perder o jogo no
seu próprio terreno.
Mas
a frase de Salazar, mesmo com esta sua origem sordidamente instintiva, é ainda
mais infeliz do que parece. O ditador dirigia-se aos escritores e aos poetas;
era a eles que ele intimava a não sonhar. Ou ele quer que os escritores
portugueses escrevam sempre sem pensar, ou ele quer que nas obras destes não se
encontre nada que seja sonho. Assim, não faríamos em Portugal nada mais que
poemas ou romances sobre as coisas mais materiais da vida. Salazar revela-se
aqui Zola.
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| António de Oliveira Salazar e António Ferro |
Ele intima também os escritores a criarem valores éticos e sociais, o que nunca foi trabalho dos escritores. Que surjam consequências éticas e sociais de livros ou obras de arte, podemos admiti-lo, mas isso não é mais do que um resultado acidental. A menos, entenda-se, que o Dr. Salazar só considere como obras de arte os tratados políticos ou de sociologia, ou aquelas obras de arte, de que é difícil perceber a natureza, que possam ter um efeito análogo.»
Fernando Pessoa («Chamamos-lhe por vezes jesuíta», 1935).
«Há
tempos, num jornal do Porto, publicou Santana Dionísio um artigo, escrito na
bela linguagem do maior prosador português vivo, em que narrava a vinda de
Leonardo a Lisboa em 1935 (quando proferiu a conferência que desenvolveu no
livro A Rússia de Hoje e o Homem de
Sempre) e a visita que ele e António Alvim lhe fizeram no hotel onde estava
hospedado. Acontecia que nenhum dos discípulos de Leonardo quis assistir à
conferência porque, movidos por um anti-salazarismo que deduziam do mesmo
ensino que o Mestre lhes havia dado, viam nela uma condenável concessão, ao
ditador, do filósofo da liberdade, e o comunismo não se lhes afigurava um mal
que valesse tal concessão. Santana e António Alvim decidiram-se, no entanto, a
fazer-lhe, horas antes da conferência, aquela visita a que deram o carácter de
uma manifestação de cortesia e amizade. Leonardo não lhes falou nem na
conferência nem em política e despediu-se deles com um sorriso amigo mas
triste. Cinquenta anos volvidos, Santana Dionísio recorda o lamentável episódio
e, envergonhado, descreveu-o como quem faz uma confissão pública. O que o levou
a fazê-lo foi ter sofrido, em Portugal, a experiência do comunismo em acção e
assim verificar que o comunismo é, na verdade, um mal que vale a concessão que
Leonardo fizera a uma ditadura. Simplesmente, Leonardo não precisava de o
experimentar para o saber.
Conta-se também que, no dia seguinte ao da conferência, se deu um encontro entre Salazar e Leonardo promovido por António Ferro que a ele assistiu acompanhado do jornalista Armando Boaventura. Pouco se sabe do encontro, que foi demorado e em breve se tornou agressivo. O pouco que se sabe é que o filósofo da liberdade não poupou o ditador racionalista e que este, no final da conversa, à maneira de despedida, lhe perguntou escarninho: “Por que é que o Sr. Dr. não escreve romances?”».
Orlando Vitorino («Leonardo e a Política»).
«(...)
não me contentarei com dizer que não faço o mínimo empenho em ser do meu tempo.
Antes direi que me sinto honrado com me opor a ele; e que me não perturbam as
vulgares habilidadezinhas com que se pretende desautorizar quaisquer afirmações
da consciência livre (tão livre quão possível), em nome duma sujeição ao
colectivo que seria, a generalizar-se, um verdadeiro flagelo para a
colectividade.
O sectarismo voluntarioso, o dogmatismo sufocante, o propagandismo brutal, o simplismo sistematizado – são hoje inculcados aos novos como virtudes indispensáveis e modernas. Ousa tal forma de mentalidade falar em cultivar o povo e dirigir as gerações que surgem. Sabe que o pobre povo inculto e a juventude sôfrega de certezas simples são incapazes de a discutir. Ousa ainda – o que é grosseiro e astuto – fazer-lhes crer que os muitos males, injustiças e desconcertos da hora presente não poderão ter remédio sem a adopção de tal mentalidade primitiva. Assim, algum préstimo poderá haver em contrapor a tais desvarios quaisquer exemplos de independência no pensar, de esforço por essa independência; mesmo quando, ao menos aparentemente, hajam de passar despercebidos. O certo é sempre haver quem julgue que, sem essa independência, (não alienável senão pelo próprio, de sua livre e alegre vontade, por conselho da sua razão e em benefício de qualquer ideal) se trabalha não pela cultura mas pelo obscurantismo, se pretende não o desenvolvimento da pessoa humana mas a sua servidão ou limitação. O certo é sempre a intuição desta verdade poder ser evocada ao claro campo da consciência, lá das trevas ou penumbras em que às vezes vegeta. Por isso quaisquer exemplos de liberdade espiritual não provocam senão desespero, ódio, raiva, aliás impotentes, aos obscurantistas maquiavélicos ou ingénuos.»
José Régio («Em Torno da Expressão Artística»).
«Quando,
no início dos anos quarenta... Não, com este estilo não há no jornal espaço que
chegue. O que aconteceu foi que, naqueles tempos, Fernando Pessoa fora
"descoberto" por Gaspar Simões, que lhe iniciou as "obras
completas", por Álvaro Ribeiro, que lhe publicou os textos de prosa
filosófica; por Casais Monteiro, que lhe reuniu e prefaciou uma antologia...
Este
último escreveu nesse prefácio, com certo intuito de escândalo, o que hoje se
afigura quase académico. Mais ou menos o seguinte: "Se dermos à história
da poesia portuguesa a imagem de uma cordilheira, suas mais altas montanhas
serão Camões, Bocage, Antero, Pascoaes, Pessoa e Régio".
Naqueles
tempos, lembrava-se na tertúlia da "filosofia portuguesa" que
Leonardo Coimbra manifestava uma desdenhosa indiferença para com as pretensões
e veleidades filosóficas dos textos que F. Pessoa publicava na Águia e em revistas de Lisboa, o que
parece ter magoado silenciosamente o poeta. Lembrava-se também que Pascoaes,
tão admirado e exaltado por Pessoa, louvava nele a inteligência crítica mas
nunca o espírito poético. E José Régio... Quando andava em ensaios o
"Jacob e o Anjo", citei-lhe eu, em conversa do Parque Mayer, aquilo
de "todos nós embalamos ao colo um filho morto". Régio deu um salto,
fitou-me em riste e exclamou: "Aí está o único verso que Pessoa
escreveu!"
Certo
é que a "descoberta" e publicação das obras de Pessoa deslumbrou as
gerações. O deslumbramento prolonga-se hoje numa espécie de culto que tem os
seus sacerdotes - Gaspar Simões, Álvaro Ribeiro, António Quadros, António
Telmo, talvez J. A. Seabra, talvez Jorge de Sena, talvez Eduardo Lourenço - e
tem os seus vendilhões que o Estado abastece com a exclusividade do acesso ao
famoso espólio: 26 000 textos inéditos.
O
culto é tão avassalador que não permite o mínimo assomo de reflexão sobre a
obra de Pessoa, nem sequer a simples lembrança daquelas atitudes de homens tão
autorizados, responsáveis e sábios como Leonardo, Pascoaes e Régio.
Não
há dúvida de que sempre que se levanta um templo a um homem é preciso esperar a
ruína do templo para se conhecer o homem.
Aquilo
de Leonardo, Pascoaes e Régio - a que poderíamos juntar uns tantos outros,
talvez menos autorizados de talento, como Almada - guardarem suas distâncias em
relação a F. Pessoa, é ou não é para ter em conta?
Aquilo
de Régio só encontrar, em toda a volumosa obra do poeta, um único verso, é
coisa de verdade? Que outro verso procurar, para mostrarmos que não?
Vamos
direito à obra-prima, a Ode Marítima.
Lemos, vamos lendo, o desespero apodera-se de nós. Linha a linha, tudo é
efectivamente prosaico e com muitos ressaibos de românticas leituras, como se o
esquema emergisse, luminoso, das nocturnas alucinações de Coleridge.
Arrebata-nos, sem dúvida, mas não está feito por dentro, não tem versos. Será
possível haver o poema e não haver os versos, como na velha anedota de
Terêncio?
Passemos ao impacto, sempre perturbador, de "O Guardador de Rebanhos": "... tive um sonho como uma fotografia..." Claro que se não trata de um verso e o que nele se significa, e resume todo o sentido do poema, é ainda menos poético do que as palavras em que está dito. Perante o cadáver real de António, ali presente nos seus braços, Cleópatra sonha com "um imperador que também se chama António", isto no que é, talvez, o mais belo poema de Shakespeare que Pessoa tanto queria para modelo. Transitar da realidade ao sonho é, sim, sinal de poesia. Mas o contrário? E, para mais, não à realidade mas à fotografia, aos "fotógrafos" como Almada dizia de certos pintores realistas e abstractos.»
Ernesto Palma («A Inflação de Fernando Pessoa»).
«Aos poetas diz mais a incerteza do futuro do que a certeza do presente. Naturalmente inconformista, não se adaptaria Fernando Pessoa ao regime de Sidónio Pais, como se não adaptou ao regime instituído pela Ditadura Militar de 1926. Seria preciso que as profecias se cumprissem para que os poetas de mente profética achassem, realmente, na terra a pátria a que aspiram. Mas é precisamente porque a terra lhes não proporciona a realização dos sonhos com que acalentam as saudades de uma pátria perdida, de uma felicidade jamais usufruída neste mundo, que eles, por vezes, se entregam tão misticamente a visionar altos destinos para o país que lhes foi berço. Uma monarquia ideal baseada sobre a opinião pública, a qual representaria a própria continuidade histórica interrompida em 1578 – eis a única forma de governo que Fernando Pessoa teria acatado na plenitude dos seus poderes. Simplesmente, tal forma de governo, impossível como era, – o poeta sabia dessa impossibilidade naquela zona da sua intuição que convizinhava com o hábito, isto é, naquela zona da sua personalidade onde o homem desmentia o poeta –, porque era impossível, é que ele lhe dava a sua fé, a sua crença e a sua messiânica adesão. Aliás, anos depois, em 1935, deixando falar o homem, o homem profundamente decepcionado pela experiência, declarava, por escrito, com toda a lucidez e a mais firme decisão:
“Ideologia política: considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.”
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| 24 de Outubro de 1936: José Cabral é o primeiro a contar da esquerda, com Oliveira Salazar ao centro. |
Parece não haver dúvidas de que, fiel ainda à concepção monárquica e à ideia de Império, já então se encontrava muito para além da mística absolutista que o fizera repudiar como inadaptável a Portugal o liberalismo britânico. De resto, a publicação do seu famoso artigo Associações Secretas, vindo a lume no Diário de Lisboa de 4 de Fevereiro de 1935, aquando da apresentação na Assembleia Nacional do projecto de lei sobre a extinção das mesmas, comprova que Fernando Pessoa reputava não realizado o regime ideal em que messianicamente cria, pois seria completamente inviável que nesse regime visionado mercê da intervenção do gnosticismo, posição religiosa que pressupunha a iniciação em associações secretas e o repúdio de “todas as Igrejas organizadas”, e sobretudo a oposição “à Igreja de Roma”, fosse precisamente a Igreja de Roma a autoridade religiosa acatada, sacrificando-se-lhe todas aquelas associações que mantinham “a Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (A Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria”, conforme reza a sua declaração de Março de 1935. Aliás, para inteiro esclarecimento nosso, ele próprio declarou, nesse mesmo documento, que a sua “posição patriótica” era a de um “partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente”, o que não pode deixar de querer dizer que Fernando Pessoa em 1935 não tinha por consolidado o Quinto Império nem por restabelecido o regime da encarnação sebástica a que aspirava. Aliás, o lema que ele dizia então ser o seu: “Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação”, exprime eloquentemente a sua adesão a uma política em que o humano se antepõe ao patriótico, em que o Homem está antes da Nação. Anticomunista e anti-socialista, como se declarava, expressa e pertinentemente declarava também, em resumo das suas ideias políticas, sociais e religiosas, que o que procurava ter sempre presente era o martírio de Jacques Molay, Grão-mestre dos Templários, prometendo a si próprio “combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”. Ora Jacques Molay, queimado vivo por ordem de Filipe, o Belo, que, em conjura com o papa Clemente V, decidira exterminar a Ordem do Templo, parece ter sido, em verdade, vítima desses três “assassinos”, – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania –, os mesmos “assassinos”, segundo Fernando Pessoa, que pretendiam exterminar as “sociedades secretas”, no número das quais se contava a Maçonaria, a sociedade secreta mantenedora do emblema místico do Templo, pois a Ordem do Templo ou Templária “era-o do Templo de Salomão”, e na Maçonaria se conservava a tradição da extinta ordem dos Templários, uma vez que nela haviam ingressado, como aconteceu na Escócia, por exemplo, muitos dos templários que escaparam às perseguições de Filipe, o Belo [Ver Fernando Pessoa, prefácio da Alma Errante, obra citada, p. 15, e Histoire de la magie et de ses dogmes, obra citada, p. 264].»
João
Gaspar Simões («Vida e Obra de Fernando Pessoa»).
«REVISTA
PRINCÍPIO: “Agostinho da Silva disse, numa das suas frequentes entrevistas, que
os mesmos que, hoje, exaltam Fernando Pessoa são os que o silenciariam se ele
fosse vivo.”
TELMO:
“Reparem como o patriotismo de Fernando Pessoa é considerado um aspecto menor
do que escreveu. Até D. Afonso V (Pessoa pensava que até D. João II) Portugal
foi regido pelos Rosa-Cruzes; tal é, pelo menos, o ensino da Mensagem. A monarquia, com D. João III,
passou para as mãos dos seus inimigos. Há o análogo disto na Europa, com a
diferença que, nesta, a mutação dá-se mais cedo, quando aqui reinava D. Dinis.
É então que se começa a trabalhar para a implantação do socialismo pela
propaganda da noção de igualdade. Levou séculos, mas foi fácil. Bastou fazer
passar a inveja por generosidade. O socialismo é, pois, obra dos Rosa-Cruzes.
Tornou-se necessário para combater aqueles que se tinham apoderado da
monarquia.
Hoje,
porém, qualquer tentativa de derrubar os governos socialistas é aproveitada por
estes últimos, que aparecem como os verdadeiros representantes da Pátria.
Compreende-se assim que o monarquismo de Fernando Pessoa e o republicanismo de Sampaio Bruno sejam a mesma coisa. Não sei se me fiz compreender”.
RP:
“Perfeitamente.”
T:
“Chega-vos isto ou querem mais alguma coisa? Como vêem, sempre acabámos por
falar de ‘antiguidades’.”
RP:
“Como é que explica o interesse de José Régio pelas antiguidades?”
T:
“E vocês, como é que explicam?”
RP:
“Parece-nos uma coisa inferior num homem superior.”
T: José Régio coleccionava Cristos”».
(«Conversando com Tomé Natanael», in António Telmo, Viagem a Granada).
«O
que atrai os povos peninsulares no regime parlamentar e liberal é que esse
regime, pela sua insubsistência, a sua fraqueza e a sua prolixidade verbal, se
conjuga com a alma impotente dos seus sequazes. O que atrai o povo inglês nesse
regime é que ele se ajusta à substância do seu individualismo.
Assim,
e os ingleses não o compreendem, quando se estabelece uma ditadura nos países
latinos, estabelece-se uma disciplina. Nos países do Norte, uma ditadura seria
uma indisciplina. E, ao invés do mesmo sentido, quando nos países latinos se
abre um parlamento, a nação periga...
A ânsia de liberdade é comum ao homem são superior e ao mendigo que não quer trabalhar. Assim, as instituições liberais tanto podem significar a expressão da liberdade, como a expressão da incúria e do desleixo.»
(In Fernando Pessoa, Páginas de Pensamento Político (1910-1935), organização, introdução e notas de António Quadros).
«A confusão da maçonaria com o liberalismo é uma imagem que nos ficou da monarquia constitucional e da 1.ª República, que ainda não se desfez. Reaparece com frequência na linguagem dos políticos, o que não tem qualquer significado intelectual, mas figura em todas as pastorais emanadas do episcopado português nos últimos seis ou sete anos, o que nos deixa perplexos. Entre nós, como nalguns outros países, o chamado regime liberal que resultou da Revolução Francesa foi, efectivamente, o regime dos mações. Acontece, porém, (e o actual neoliberalismo já o demonstrou à saciedade), que tal regime pouco ou nada teve a ver com o liberalismo, mas constituía a sua dissolução, com a consequente preparação do advento do socialismo. O rosto visível que, no nosso país, a maçonaria hoje oferece, impulsionando, apoiando e comandando o regime socialista constitucionalizado pela revolução de 25 de Abril, só serve de confirmação ao que estou esclarecendo. O neoliberalismo preconizado pela revista Escola Formal é o antípoda do socialismo.
Uma última observação: a escola formal é o que há de mais contrário, não só ao esoterismo maçónico como a todo o ocultismo. A filosofia tem, decerto, uma iniciação, mas não no sentido esotérico e ocultista que se tornou habitual atribuir a toda a iniciação. O ocultismo é um culto romântico, muito expandido nos nossos dias, e tanto mais sedutor quanto menos sábias são as inteligências e orgulhosas as subjectividades.
A
filosofia é, por definição, o que se oferece, no seu todo, a todas as
inteligências e só pode existir por residir totalmente na natureza de cada ser
humano. "Um homem que não é um filósofo - disse o mestre da 'filosofia
portuguesa' que é José Marinho - é tudo menos um homem". Que a maior parte
dos homens não tenha a consciência disso, nem a reflexão nem o saber, que a
maior parte dos homens o ignore e se satisfaça nos actos da vida prática e da
vontade dominadora, ou sublime essa ignorância nas imagens e ritos do culto
religioso, não pode significar que a filosofia dependa de um saber secreto e
oculto. O que só se tornou acessível a alguns, raros, não significa que tal
acessibilidade seja negada ou condicionada por alguma secreta iniciação
ocultista. É possível que os homens, movidos pelo espírito do mal, que é a
vontade de persistir na ignorância, e atormentando-se, torturando-se e mentindo
uns aos outros, forcem os melhores de entre eles a uma existência segregada e,
portanto, a uma acção segregada. É possível que a história de Portugal seja
mais verdadeira no que tem de secreto do que no que tem de patente. É possível
até que a verdade "não venha nem se vá"... Mas nada é oculto.
Se tudo fosse oculto, como disse o poeta festejado, ou apenas o de que tudo depende, então não haveria, como também o poeta concluiu, nem procura nem crença, nem filosofia nem religião».
Orlando Vitorino («A Filosofia como Imagem da Pátria»).
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| Ver aqui, aqui, aqui e aqui |
«O
conflito europeu, a revolução russa de 1917, a experiência das frequentes
mutações políticas em Portugal, levam-no [Fernando Pessoa] a trabalhar, nesses
anos de pós-guerra, entre 1918 e 1919-1920, nos ensaios cujos títulos deveriam
ser, em princípio, O Preconceito Revolucionário
e Teoria do Sufrágio Político, além
dos cinco Diálogos sobre a Tirania,
dos quais reunimos bastantes fragmentos. Quatro ou cinco anos depois,
interessou-o naturalmente a breve revolta militar de 18 de Abril de 1925, de inspiração sidonista,
conhecida pelo Movimento das Espadas, e escreve então a propósito o curioso
diálogo “Na farmácia do Evaristo”.
Mas
foi evidentemente o Golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, com a sua
consolidação em 1928, que o apaixonou como um fenómeno de possível influência
profunda no destino português. Viu-o, não propriamente como um regime, mas como
uma ditadura militar de interregno, como um Estado de Transição, necessário sobretudo
para resolver a cisão do país entre Monárquicos e Republicanos (forças que
considerou idênticas na sua força real e, por isso, anulando-se mutuamente) e
para deter a onda de estrangeirismo e a quebra do ideal nacional que a
República Nova do Sidónio não tivera tempo para resolver. É grosso modo o tema
do opúsculo O Interregno – Defesa e
Justificação da Ditadura Militar em Portugal, que publicou em 1928, ainda
em edição do sidonista Núcleo de Acção Nacional.
É
menos conhecido que Fernando Pessoa, revendo em boa parte as suas posições,
escreveu em 1932 um segundo folheto, que não concluiu nem chegou a organizar
devidamente, mas para o qual chegou a escrever as muitas páginas que
apresentamos, e que deveria chamar-se de novo O Interregno ou O Interregno e as Suas Consequências. A sua “Introdução”
principiava, sintomaticamente: “Escrevi, em princípios de 1928, um folheto com
o mesmo título que o presente. Dou hoje esse escrito por não escrito; escrevo
este para o substituir”.
Começa
então um período crítico em relação ao regime saído do 28 de Maio e da “Revolução
Nacional”, manifestado não só por alguns textos daquele segundo folheto, como
por várias poesias satíricas (“Sim, é o Estado Novo”, “António de Oliveira
Salazar”, “Poema de Amor em Estado Novo”) e ainda por outros escritos. Decerto,
como o leitor verá, a sua crítica não é tão violenta quanto as que dirigiu à “República
Velha” e à sua classe política. Não esqueçamos as relações de amizade entre
Fernando Pessoa e António Ferro, que viabilizaram a edição da Mensagem e depois lhe multiplicaram por
cinco o valor do prémio literário do Secretariado de Propaganda Nacional (S.
P. N.), atribuído (estranhamente) pelo júri na categoria de prémio de 2.ª
categoria (menos de 100 páginas).
Mas, como veremos, foi precisamente devido ao teor do discurso que Salazar proferiu por ocasião da distribuição de prémios do SPN (entre os quais o que lhe foi atribuído) que a sua atitude crítica se acentuou. Nos últimos tempos, Fernando Pessoa idealizou sobretudo uma monarquia nova, mediada por uma república presidencialista do estilo sidonista; esta deveria ser uma república aristocrática, capaz de conciliar o ideal de uma “oligarquia dos melhores” (contrária à “oligarquia das bestas” dos tempos de Afonso Costa) com os princípios do que chamou um nacionalismo liberal.»
António Quadros (Introdução in Fernando Pessoa, Páginas
de Pensamento Político – 1910-1935).
«(...) – Que me diz ao Fernando Pessoa político?
– Sobre isso nada lhe posso dizer com segurança. Nunca falei com ele sobre política e compreende-se, pois eu não sou político. Sou liberal, é certo, mas sou-o por egoísmo. Quero a liberdade pela mesma razão por que o sapateiro quer que haja sola: é que sem sola o sapateiro não pode fazer sapatos, e eu, também, sem liberdade não posso trabalhar intelectualmente. Em todo o caso, quanto ao Fernando Pessoa político, a impressão que tenho é a de que em política era o mesmo que em poesia. Tinha a arte de tornar o "sim" igual ao "não" e vice-versa… Em suma, um "blagueur" genial. Houve um esboço ("a lápis…") do Fernando Pessoa: foi o Santa-Rita Pintor, outro "blagueur", cujas "blagues" andavam na boca de toda a gente, em Lisboa, há uns trinta ou trinta e cinco anos. Era considerado naquela altura o maior pintor de Portugal e creio que nunca pintou nada…
– Já que falou do Santa-Rita Pintor, diga-me: que pensa do movimento futurista?
– Nesse movimento houve um poeta, um verdadeiro poeta: Mário de Sá-Carneiro. Esse, sim, foi um poeta de raiz, porque não era nada estilizado. E no domínio das artes plásticas, houve, ou há, o Almada, que como artista tem incontestável mérito.
– Tinha terminado a nossa conversa. As opiniões nela manifestadas, discutíveis como todas as opiniões, e, talvez, não definitivas, revestem-se de alto interesse, dada a categoria de quem as emitiu. Valia a pena virem a lume? Ocorrem-nos as palavras famosas de Fernando Pessoa. "Tudo vale a pena se a alma não é pequena"…».
Fernando Pessoa apreciado por Teixeira de Pascoaes
«O estilo, palavra proveniente de stylus, que outrora designou um utensílio, substituído depois pelo cálamo e pela caneta, significa mais verdadeiramente um orgão espiritual. Sempre a noção do estilo figurou associada à personalidade humana. Só assim é lícito interpretar a célebre frase do Conde de Buffon, tantas vezes citada sem rigor textual nem referência bibliográfica, e traduzida por “o estilo é o homem”.
Foi
num trabalho apresentado à Academia de Paris, mais conhecido por Discours sur le Style (1753), que o
naturalista Buffon expôs a sua doutrina segundo a qual na beleza literária está
a condição de sobrevivência das obras científicas. Traduzimos assim o texto
admirável: “Só as obras bem escritas hão-de passar à posteridade; não há
garantia segura de imortalidade na cópia de noções, na singularidade das observações,
nem sequer na surpresa dos achados; se os livros em que há de tudo isso
tratarem apenas de assuntos minúsculos, se forem escritos sem gosto, nem
nobreza e sem génio, ninguém os salvará do esquecimento; porque as noções, os
factos e os descobrimentos passam muito bem de um livro para outro, e ganham
até em ser aproveitados por escritores mais hábeis. É que todas essas coisas
são estranhas ao homem, enquanto que o estilo é o próprio homem”. Esta doutrina
individualista bem merece ser meditada pelos escritores que, longe das
actividades literárias, desprezam ou desdenham a arte de escrever.
A estilística tem por fim estudar os processos pelos quais o artista livremente altera as formas culturais que lhe são propostas e, no caso especial do artista da palavra, os processos de alterar a expressão linguística dentro dos limites reconhecidos pela fonética, pela semântica e pela sintaxe. A estilização é uma actividade pela qual o homem afirma a sua liberdade, e ao afirmar a liberdade vai traçando o seu destino, em luta contra a necessidade das formas, das figuras e das matérias naturais. Estilizar é, pois, acrescentar um valor espiritual, ou, por outras palavras, imprimir carácter superior às formas empiricamente observáveis.»
Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).
O Salazar de Fernando Pessoa
As
qualidades mentais e morais necessárias para a conquista do poder político, ou
tendentes a essa conquista, são inteiramente diferentes daquelas necessárias
para governar o Estado. Pode-se dizer, até, que mais se podem ter por opostas
que por sequer análogas. Pode haver, é certo, um ou outro homem que ambas
reúna, como pode haver quem seja, ao mesmo tempo, filósofo e atleta; mas em
ambos os casos se trata de uma excepção, e os dois tipos ou grupos de qualidades permanecem diferentes e até opostos.
São
três as maneiras de conquistar o poder: a astúcia e a intriga, nos regimes
autoritários, como a monarquia absoluta; a eloquência e a capacidade de
persuasão, com a concomitante capacidade de mentir aos outros, como nos
sistemas democráticos; e a violência, nos regimes impostos revolucionariamente,
sejam eles de que tipo forem.
Destes
três tipos de qualidades, a astúcia e a intriga, ou antes, a habilidade de
empregá-las, são qualidades em certo modo úteis no governo do Estado, sobretudo
nas relações externas e naquelas internas que com essas se assemelham (como as
relações com os diferentes sectores de opinião e seus chefes). A capacidade de
comandar revolucionariamente pode implicar ou não uma vantagem no governo;
depende do género de revolução que se comandou. Se a revolução foi espontânea,
profunda, realmente popular – um motim em ponto enorme –, como a Revolução
Francesa, então o seu dirigente ou dirigentes, não tendo sido mais que
dirigentes ocasionais, nenhuma qualidade têm, como tais, que sirva em qualquer
modo para o governo dos Estados. Se a revolução é só da superfície, feita por uma
minoria organizada num país desorganizado, apático e servil, então os
organizadores da revolução algumas qualidades têm que há que ter o homem de
governo: são, pelo menos, chefes e organizadores. Tal foi, em ponto pequeno, a
nossa Revolução de 5 de Outubro; tal foi, em ponto grande, a Revolução Bolchevista. Em ambos a maioria do
país era monárquica, sendo apenas, republicana num caso, comunista no outro, a
minoria mais bem organizada; tendo a primeira como espinha dorsal a Ordem
Maçónica, a segunda por principal esteio as organizações secretas judaicas. Não
quer dizer isto que não fossem inevitáveis ambas revoluções; quer simplesmente
dizer que não partiram do âmago da nação, mas propriamente do estado ou
condição da nação.
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| Afonso Costa, "o mata-frades", assina a Lei da Separação do Estado e das Igrejas (20 de Abril de 1911). |
O
certo, porém, é que os homens saídos, para governar, desses dois movimentos,
realmente governaram com certas qualidades. No caso da Rússia, povo passivo e
com hábitos de escravo, o caso correu com mais perfeição, dada a unidade ou
quase-unidade de chefia, e a concordância quase total, entre os chefes. Em Portugal,
país a que noventa anos de liberalismo haviam dado já outra mentalidade, o caso
nem se passou, nem se poderia passar, assim. Se, por exemplo, todo o poder
tivesse ficado – real quando não aparentemente – nas mãos de Afonso Costa, o
país teria sido bem governado e administrado. De nada, ou de pouco, são
realmente culpados Afonso Costa, António José e Camacho; a sua verdadeira falha
é que eram três e não um. E acresce que a emergência para o primeiro plano,
sucessivamente, de personagens até ali do segundo, reflexo da cisão na chefia,
e efeito de ambições de várias espécies que se tornavam realizáveis, mais complicou
o assunto – e esses recém-vindos, ou recém-vindos ao plano de governo, nada
haviam chefiado na propaganda, nada haviam organizado, de importante pelo
menos, dentro do Partido. O único período útil na vida governativa da República
Constitucional foi o Governo Provisório; é que nele a cisão na chefia não
estava mais que esboçada, e que decidiu, e muito bem, governar em ditadura,
contra os seus princípios fundamentais – os princípios a cuja sombra haviam
pregado e feito a revolução e conquistado o poder.
É
curioso e oposto, o caso do 28 de Maio. Este foi, como a Revolução Francesa,
uma Revolução Nacional, saída deveras do âmago da nação, diversamente vítima, e
diversamente revoltada contra, a quase plena anarquia, de rua a cabeça, em que
o desmanchamento dos partidos e a eclosão de novos desconhecidos tinham lançado
o país. Análogo à Revolução Francesa em carácter, embora diverso em realização –
visto que era um movimento contra-revolucionário –, o 28 de Maio tinha
forçosamente que resultar numa situação caótica. Revolução espontânea (pouco
importa que a executasse o Exército, pois alguém, algum grupo, havia de ser o
mandatário instintivo da Nação) não trazia consigo programa algum. O Chefe que
trouxe, grande figura de soldado, foi um chefe inteiramente ocasional; não
conspirou, revoltou-se, como ele muito bem disse. Nada tinha organizado do que
comandou. O período entre 28 de Maio de 1926 e 27 de Abril de 1928 – a vinda de
Salazar ao poder – é talvez dos períodos mais perigosos para a Nação que ela
tem tido em sua longa vida. Não por este ou aquele elemento externo ou visível,
mas pela surda confusão, pela permanência, sob forma diferente, da anarquia que
o 28 de Maio viera para extinguir, sem saber como. O pior evitou-se logo de
início, com a entrega ao general Carmona da chefia da Nação. O seu grande
prestígio mantinha, ao menos, a seu lado a maior parte da Força Armada. Assim –
e ainda assim com violentas interrupções, como o 7 de Fevereiro – se manteve a
ordem na rua, por pouco que ela se mantivesse nos espíritos. Outras figuras de
prestígio, como o coronel Passos e Sousa, firmavam, ao menos, os alicerces da
defesa da ordem. No resto, porém, confusão: a Revolução Nacional continuava sem
ideias, pois não eram suas as dos integralistas – as únicas com sistema e
coerência, mas de um grupo reduzido e, com razão ou sem ela, detestado, ou por
monárquicos, ou por católicos, ou por antidemocráticos, pela grande maioria da
Nação.
A
vinda de Salazar trouxe enfim o Chefe de Acção Nacional. Gradualmente se sentiu
a sua chefia, foi primeiro um prestígio de pasmo, pela diferença entre ele e
todas as espécies de chefes políticos que o povo conhecesse; um prestígio psicológico,
sim, antes de mais nada, porque o que primeiro se descobriu de Salazar, à parte
o seu carácter ascético (traço que, de
per si, não dá prestígio, mas geralmente reforça o que outras qualidades
imponham), é que era, ao contrário dos vulgares chefes políticos, um homem de
ciência, de trabalho e de poucas palavras, e, ao contrário dos portugueses
vulgares, incapazes de pensar claramente e de querer firmemente, um espírito
excepcionalmente claro, uma vontade omnimodamente forte. Veio depois o
prestígio administrativo, do financeiro – prestígio que o povo, incapaz de
criticar ou perceber uma obra financeira, imediatamente aceitou por virtude do
prestígio já dado. Por fim, mais tarde, atraindo já certas classes cultas que
ficaram um pouco retraídas, veio o prestígio do chefe político, do organizador
da Constituição e do Regime Corporativo. Muito embora se não concorde com uma e
outro, as classes para quem por ambos Salazar se prestigiou são classes que não
ligam necessariamente a admiração à concordância. Por mim falo, que dessa
classe sou.
É
evidente que por «povo» entendo a massa geral da Nação – a que não está
enquadrada num partido político, subservientemente. Desde que alguém entra para
um partido político, deixa de ser povo para ser político. Quando dizemos, por
exemplo, «o povo inglês», entendemos, não os indivíduos, firmemente filiados nos partidos políticos
(são muito poucos, em relação ao país, pois os partidos políticos ingleses são
simples «directórios» e não partidos no nosso sentido), mas aquela massa não
filiada que, oscilando em suas opiniões ou tendências, ora vota quase em peso
nos laboristas, ora, quase em peso, passa a votar nos conservadores.
Como
certo comerciante meu amigo, homem fora de literaturas, que nunca ouvira um
verso meu e o não compreenderia se o ouvisse, várias vezes afirmou ser eu um
grande poeta – isto porque o ouviu a alguém literário e (inconscientemente para
ele) eu lhe fazia muito bem a sua correspondência estrangeira. Havendo um
prestígio que se sinta e entenda, todos os outros prestígios, ainda do que não
se entenda ou sinta, naturalmente se lhe ajuntam, logo alguém, comece a
dizê-los.
Em
outras palavras, Salazar é considerado um grande ser, um homem de inteligência
clara e de vontade firme. Não é lógico, mas é humano, e entre os homens é o
humano que vinga.
Quando um homem tem como qualidades marcantes aquelas que mais notavelmente faltam ao povo a que pertence, o seu prestígio é imediato, embora seja, talvez, sempre um prestígio frio e constrangido – um prestígio intelectual, sem elemento emotivo.
(In Que Salazar Era o Salazar de Fernando Pessoa, Textos de Fernando Pessoa, com comentários e uma Cronologia de Um Ditador Longo de Manuel S. Fonseca, Guerra e Paz, 2021, pp. 85-88).
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