terça-feira, 14 de julho de 2026

O ensino da teologia e a filosofia portuguesa

Escrito por Álvaro Ribeiro



 

«Um professor pergunta a um aluno se ele reza. Este diz que sim; então o primário manda-o ajoelhar-se e pedir-lhe pão. Depois da pobre criança pedir pão a Deus, o primário pergunta – Deus deu-te pão?

Não, responde a criança. Então pede-o ao camarada comunista. O pequeno obedece...  este louco, este deus primário entrega-lhe um pouco de pão... demonstrando assim a não existência de Deus (!!).»

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).

 

«O ateísmo é, filosoficamente, um caso de analfabetismo, sem que da comparação com o analfabeto resulte depreciação injusta das virtudes e das razões do ateu. Nenhum homem culto pedirá que lhe mostrem a existência de Deus pelos processos das ciências de observação e de experimentação, nem solicitará que lhe demonstrem a essência de Deus por subtilezas da razão discursiva. O homem culto ou letrado conhece o que obsta a que se torne imediata e patente aos nossos olhos a divindade; o homem culto ou letrado não toma o ateísmo por conclusão necessária do agnosticismo.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Cabe ser extremamente cauteloso e prudente quando se fala de agnosticismo e ateísmo. Pois assim como os crentes, no passado mais distante, e ainda também em nossos dias, simplisticamente desatendem a funda indicação de S. Paulo segundo a qual “há muitas moradas na casa do Pai”, assim também, no século passado e no presente, ensaístas, filósofos até, desatendem com frequência que designações como agnóstico ou ateu correspondem a diversíssimas situações reais perante o mistério do Ser ou perante o que seriamente caiba admitir como Deus ou divino, e ainda também perante o que valorativa ou desvalorativamente se designe por transcendente, ignoto ou incompreensível. Em relação com o que estamos tratando cabe notar que, em Portugal e na Europa, uma parte dos filósofos ou dos homens cultos se obstinam em não atender toda a importância da noção kantiana, ou já husserliana, de transcendental. É tão obstinado o sentido da “imanência desorbitada”, tão absorvente em pensadores lógicos e dialécticos a confusão entre noções mais restritamente lógicas e noções onto-teológicas ou onto-fenomenológicas, que se vai de geração para geração dificultando o possível esclarecimento ou o mínimo acordo possível quanto aos termos, para ser simplesmente viável algum diálogo autêntico entre filósofos ou homens com responsabilidades de pensamento.»

José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).

 


«Lembrando os nomes de Carlos Darwin, Herbert Spencer e Henrique Bergson, entre os pensadores que mais contribuíram para o desaparecimento da antropologia fixista, e que encerraram a era da filosofia mediterrânea para abrirem a da filosofia atlântica, não podemos deixar de evocar os estudos geográficos dos Portugueses e as consequentes navegações em busca das ilhas afortunadas no Oriente, – dando a esta palavra o significado mais alto, que não é o do ponto cardeal onde nasce o sol, mas o de luminosa e divina origem do Ser. Doutrina evolucionista é somente a que se refere à antropologia, à evolução da humanidade, pelo que não convém usar da palavra evolução no estudo das várias doutrinas transformistas das espécies biológicas. A antropologia evolucionista, que pode ser expressa sem contradição das verdades tradicionais, demonstrando que o homem primitivo era diferente do homem decaído, mortal e ocidental, permitirá talvez resolver alguns problemas de teologia bíblica e de apologética religiosa que por enquanto atormentam as consciências piedosas.

A verdade criacionista de que Deus moldou o homem à sua imagem e semelhança, não oferece dificuldade a quem pensar no tempo imenso, no tempo imensurável, que mediou entre o nascimento de Adão e o primeiro pecado a que todas as tradições se referem e a cuja obscuridade relacionam um cataclismo cósmico. Talvez nos seja lícito até representar esse período adâmico, idílico e edénico antes do que contamos hoje como tempo, antes da periodicidade, antes da história. Assim revistas, as nossas ciências positivas, como a paleontologia, a anatomia comparada e a embriologia, que estudam a Natureza já alterada pelo sofrimento e pela morte, não fornecem aos descrentes argumentos que necessariamente refutem e invalidem a tradição que fez doutrina entre povos de diferentes civilizações.

Impiedosas pareceram sempre, aos olhos dos filósofos, todas as tentativas de aplicar aos acontecimentos pré-históricos a gnosiologia positivista, e, portanto, de ver na letra dos livros inspirados e sagrados a confirmação dos raciocínios conjecturais das ciências de observação e de experimentação. O pensamento gnósico não poderá fazer mais do comparar o presente com o passado, comparar o corpo humano com a matéria orgânica existente antes de Adão, violentar por conjectura intelectualista um segredo natural, se não um mistério divino. Ao pensamento sófico repugnará a representação minorada nos quadros empíricos do espaço e do tempo, e ao pensamento pístico nunca as fórmulas da razão discursiva hão-de parecer suficientes para descrever o processo por que a humanidade foi criada por Deus.

A dignidade que o corpo humano reveste na configuração apolínea e a beleza que ele assume no ambiente natural, por muito que signifiquem esteticamente, não são atributos que nos obriguem a ver nessa imagem o tipo mais elevado, ou arquétipo, da antropologia. O formalismo estético não nos parece muito compatível com a mobilidade indispensável ao conceito de encarnação. O aprofundamento dos problemas humanos conduz-nos aos segredos naturais, e estes, por sua vez, nos remetem para os mistérios divinos.


Expulsão de Adão e Eva, por Alexandre Cabanel.

Toda a maravilha da infância se nos apresenta mais lúcida quando relacionada com o conceito de evolução, porque se o infante é aquele que tem dentro de si o verbo, mas ainda não fala, de sempre a humanidade superou a animalidade. A criança inocente, que há-de falar, tem dentro de si o sinal da origem divina. Eis o que explica a analogia entre a evolução e a educação, eis o que justifica a educação religiosa, na variedade e liberdade de cultos.

Quem medite na significação do sacramento do nome, que é o baptismo, não terá dificuldade em a relacionar com a tríade Letra-Verbo-Espírito. A própria liturgia cristã, com a água e o sal, com a água salgada, parece querer dar ao infante a possibilidade da fala, e, portanto, a possibilidade da oração. Os outros sacramentos, mais filosóficos, promovem a educação, e, com a educação, a evolução integral da humanidade.

Se relacionarmos a teologia com a eternidade, a antropologia com o tempo e a cosmologia com o espaço, para acertarmos a nossa terminologia, compreenderemos que o conceito de evolução só no bergsonismo atinge pleno sentido. A antropologia existencialista, descrevendo embora a situação do homem no tempo, abstém-se de recorrer àquele conceito que em si contém implicações cosmológicas e teológicas.  A afinidade entre o tempo bergsonista e o movimento aristotélico, aliás cedo apontada pelos críticos, refuta a possibilidade de contagem do tempo pelo movimento de deslocação, ou movimento mecânico.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 

«O homem foi criado por Deus, mas a criação não cessou com a queda do homem na história, depois do pecado original. A razão imagina pelo estudo científico do homem actual a antropologia revelada pelo texto sagrado, mas porque seria impiedade alterar uma letra deste texto tem de considerar pseudo-científicas as conclusões do evolucionismo darwinista.

Observando o homem existente, verificamos pela figura que o corpo ostenta – a posição vertical – e pela liberdade de movimentos, harmónicos com a autonomia da cabeça; pelas expressões da sua imaginação significando uma certa iniciativa; pelo dom da palavra e relativo exercício do raciocínio verificamos que ainda conserva os vestígios da primitiva realeza adâmica, hoje perdida. Tudo se passa, porém, como se ele fosse, de facto, um animal inteligente e munido de vontade somente: Também os outros animais são munidos de vontade e de inteligência; sempre que querem alimentar-se ou reproduzir-se têm aptidão para relacionar os meios com os fins e é essa aptidão que caracteriza a inteligência. No homem a relação dos meios com os fins é mais complexa, a sua inteligência animal exprime-se superiormente nas várias ciências económicas e financeiras. É este um modo de dizer irónico que Álvaro Ribeiro utiliza para chamar o homem para mais nobres e altos fins, aqueles a que, segundo a sua natureza, há-de aspirar se tomar consciência de que é um artista, isto é, uma pessoa dotada de razão e de imaginação. Como é que é possível que só alguns homens tomem consciência disso? É que, na maioria dos homens, a imaginação, presa à carne que de si criou, arrastou consigo a razão para formas de perversão em que as palavras ou significam sentidos, isto é, as imagens do mundo sensível ou se articulam por abstracções entre a técnica e a metafísica.


A mulher, o homem e a serpente, por Byam Shaw (1911).

O pecado original é um pecado de imaginação ou, se preferirdes por ser mais claro, um pecado de magia. Álvaro Ribeiro insurge-se contra as explicações do pecado original que nele vêem a relação carnal entre o homem e a mulher. Já Adão tinha conhecido Eva quando se deu o pecado de que temos notícia pelo Génesis.

Há uma degeneração na carne que serviu de carro ou de veículo ao amor de Adão por Eva quando ele a conheceu. Os cinco sentidos ou sensos, como prefere dizer Álvaro Ribeiro, puras irradiações do sentido interno, o sensorium communis dos escolásticos, pelo pecado original emergiram na carne e a imaginação passou a confundir-se com a sensação. Com efeito, sem a imaginação não seríamos capazes de reconhecer uma rosa. Sem a imaginação nunca a sensação seria percepção.

Deixemos, porém, este assunto que é o mais difícil e misterioso da obra de Álvaro Ribeiro, mas retenhamos a ideia de que o homem é uma tríade vivente composta de corpo, alma e espírito. A alma é mediadora entre o corpo e o espírito em analogia ou correspondência da imaginação entre a sensação e a razão.»

António Telmo («Teoria da Imaginação em Álvaro Ribeiro», in Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa, Ciclo de Palestras).

 

«A antropologia fixista é desesperante para quem considere a actual situação do homem no mundo. A doutrina evolucionista, pelo contrário, abre a porta à esperança que se nutre de especulações filosóficas. Tal é o significado da afirmação, já divulgada, de que o homem é ser que vive no tempo.

Compreende-se, por isso, que todos os pensadores cristãos tivessem reagido contra a interpretação darwinista da antropologia evolucionista. Situar o homem no mais alto grau da escala zoológica, e, distingui-lo dos outros animais por certos predicados e epítetos, para depois conjecturar que ele ocupa esse posto em consequência de obscuras forças biológicas ou químicas, é reduzir a criação e sua admirável enteléquia a uma interpretação progressivista de obscuridade entre o ponto inicial e o ponto final. Se o corpo é a substância e a alma o acidente, ou se o corpo é mera forma que naturalmente está sujeita a transformação, geração e corrupção, – não há lugar para o princípio de semelhança ou de analogia entre o homem e Deus, não é sequer possível a religião.

Graves responsabilidades são as dos teólogos que por métodos positivistas pretendem fazer a apologia do Génesis. O erro de considerar a paleontologia como pré-história obriga a explicar positivamente o aparecimento tardio do corpo humano no plano da criação e a aceitar princípios que não se integram na doutrina religiosa. Estabelecer a compatibilidade dos livros sagrados com os livros científicos não é suficiente nem eloquente afirmação das verdades tradicionais.

God Judging Adam by William Blake, 1795.

A dúvida não se resolve pelo dualismo. O que importa é interpretar o pecado original e a queda de Adão, substituindo os conceitos positivistas por outros mais depurados, para que numa gnosiologia transcendente seja dado mais perfeito significado a termos discutíveis como carne, terra e matéria. Saber que o mundo sentido não é todo o mundo sensível – é saber que facilita a intelecção da ontologia do mal.

Qualquer concessão às hipóteses sobre as quais assenta o transformismo impede-nos de ter sentimento de admiração pela Natureza, retira fundamentação e legitimidade à Ética, dá-nos a triste visão calvinista e moderna, tão genialmente sumariada nos pecados contra o Espírito Santo. Esse calvinismo, de que o senso-comum está por demais infectado, leva a ver sempre no jogo, na arte e no divertimento apenas veículos do mal, que é preciso proibir, reprimir ou fiscalizar, a ver, enfim, em todas as formas de júbilo, de alegria e de prazer, incessante perigo para a moral. A insistência nas palavras penitência, expiação, sacrifício enegrece o entendimento do culto, pelo que tira à vida religiosa o aspecto superior de gratidão para com os benefícios presentes no reino da Natureza e de esperança na vinda do reino de Deus.

Explica-se, por isso, a preferência dos filósofos pela “visão franciscana da vida”. Explica-se, também, a presença da tradição franciscana na Terra de Santo António. Entre um povo para o qual a santidade não está necessariamente relacionada com a ascética e a mística, e muito menos com a austeridade voluntariosa e a seriedade sombria, não é de estranhar que seja grande a devoção por S. Francisco de Assis, o santo jogral ou trovador de Deus, para quem não foi escândalo transmutar a Folia em Sofia.

O pensamento indutivo, que pela transparência dos mitos sóficos se habitua a ver a luz da fé, rejubila ao reconhecer também a possibilidade sacramental de educação da humanidade. O que hoje se chama sacramento foi outrora chamado mistério. A mediação verbal, que é apreendida na linguística, na estilística e na lógica, têm o seu complemento religioso no estudo estético da Natureza.

Eliminando a queda ou o pecado original, a antropologia darwinista de certo modo renova ou restabelece a heresia pelagianista, contrária à educação e à evolução. Mas a verdade tradicional nunca desaparece da consciência humana, que sempre manifesta ou exprime repugnância pelas doutrinas que a prendem à escala zoológica e assim negam a possibilidade da vida religiosa e a esperança de libertação. A natural aversão do homem pelo trabalho, especialmente pelo trabalho sem arte e sem jogo, a sua difícil resignação perante a lei da morte, a sua perplexidade interrogativa pelo destino de além-túmulo, significam muito mais para a antropologia do que todas as impiedosas conjecturas sobre a origem da terra, da carne e da matéria.




Na firmeza com que o homem defende as opiniões, as crenças e as preferências que o singularizam e separam dos seus conterrâneos e contemporâneos, na identificação do seu pensamento com o seu próprio ser, reside o estímulo que o leva a filosofar. Há um obscuro heroísmo na luta pela expressão adequada ao íntimo pensamento que, por considerar valioso, o estudante quer comunicar, sem escândalo para os seus conviventes. Se ao artista inspirado, que em suas obras revele demasiada liberdade de concepção, o senso-comum não perdoa e logo apela pela interpretação do psiquiatra, do carcereiro ou do preceptor, para que não mais se repita o escândalo de a arte contradizer o que se observa no mundo sensível, – contra o escritor mais ousado podem surgir as acusações infamantes que outrora entravam em processo judiciário e levavam às consequentes sanções da lei.

Nem a todos os homens é dado atingir aquele grau de nobreza em que se respeita e protege a liberdade de pensamento conceitual e imaginal. Por isso vemos tantas obras de filosofia apresentadas, no tribunal da crítica, como livros de apologia. Muitos pensadores escrevem, não como pensam, mas como se tivessem chegado a formular os seus filosofemas pelos métodos usados nas ciências, ou, melhor, pelos processos de análise, observação, experimentação e cálculo.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 

«“No silêncio e na solidão é que preferimos servir por fidelidade a uma vocação espiritual”. Álvaro está maduríssimo, na plenitude da idade da razão. O estudo dos pensadores, principalmente de Bruno e de Leonardo convence-o de uma continuidade filosófica na vida portuguesa, através dos acidentes e, até, das omissões. Dedicado a Francisco da Cunha Leão (em evidente agradecimento por ter criado as condições para a “Colecção Filosofia e Ensaios”, uma vez que o autor de O Enigma Português era administrador, com sua mulher, D. Leonor, da Livraria Guimarães), o livro Apologia e Filosofia, escrito em 1952, e aparecido em 1953, parece um solilóquio, mas é um diálogo oculto. Nele, em dezoito capítulos, Álvaro aborda aqueles problemas que maior debate suscitavam no grupo, desde as questões mais simples da história da filosofia (aliás, o primeiro capítulo é uma admirável síntese dos tópicos e dos tropos da transição do mais antigo aristotelismo para o mais moderno positivismo) às mais complexas da Metafísica, da Psicologia Racional e, por concomitância, da Teodiceia. Na maior parte dos capítulos, o autor trata as questões aos pares, num itinerário em escadaria, subindo do facto para a ideia, da história para a filosofia e, enfim, do natural para o sobrenatural, ou da Palavra para o Verbo. Este livro, epístola, ou diálogo sob a forma de solilóquio, poderá descrever-se como uma introdução filosófica à compreensão da filosofia, com uma deriva para a compreensão filosófica dos característicos típicos do que ele entendia por Filosofia Portuguesa. Processa a dedução lógica aos seus livros anteriores, na ordem das teses, uma vez aduzidos alguns preliminares históricos. Aqui, e pela primeira vez com juízo afirmativo, Álvaro propõe a existência de uma filosofia portuguesa, que logo pôs em contraste com a filosofia alemã, nas admiráveis e pouco atendidas páginas do prefácio a A Origem da Tragédia de Nietzsche (1954), em que afirma que a filosofia portuguesa, por suas verdades cifradas, é superior à alemã. Afirmação gratuita? É melhor deixar o enigma parabolar permanecer.



Solicitava-se de Álvaro o compêndio iniciático. Veio ele na forma de um livro de ensaios. A Arte de Filosofar (1955) que abre com a famosa distinção entre os conceitos de filósofo e escritor, ou de filósofo e autor de livros e a valorização soberana do “secreto pensamento”. É o texto mais difícil de Álvaro, e, no entanto, poderá ser entendido como a segunda parte do chamado Apologia e Filosofia.



Aduzidos os princípios, propõe-se a razão universal e a sua incarnação na razão portuguesa. É por isso que Álvaro dedica o livro “A José Régio, Poeta do Mistério da Encarnação”, e esta dedicatória é uma epístola a Régio, para lhe dizer que, afinal, o secreto pensamento incarna, e que a razão universal não deixa de ser razão situada. Eis o método, contemplativo: “ascender da palavra escrita à palavra ouvida, como quem transita do sólido para o fluido, não se contentar com ouvir mas tentar imaginar, para que a razão mais subtil atinja o grau de inteligência”. Caminhar da cultura para o culto, do evidente para o oculto. Do natural para o sobrenatural. Da palavra para a ideia.»

Pinharanda Gomes («A “Escola Portuense”).

 

«Cabe também não esquecer, quanto ao problema da crise da metafísica, a obra de Álvaro Ribeiro, particularmente Apologia e Filosofia e Arte de Filosofar

José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).

 

«A ideia de Deus, - e dizer a ideia de Deus é afirmar a realidade de Deus – havia sido o princípio e a origem da filosofia portuguesa. Foi Sampaio Bruno quem a expôs e, por isso, Álvaro Ribeiro o reconhece, a ele e não a Leonardo, “o fundador da filosofia portuguesa”.

A ideia de Deus, em Bruno, não é, como na filosofia alemã, a de um Deus morto, mas a de um Deus diminuído e prisioneiro, o que explicará a existência do mal e do erro. Do mal, na natureza. Do erro, no homem.

Duas vias divergentes aí se abriram: a que, perante o Deus prisioneiro, orienta o espírito para a sua libertação, e foi essa a filosofia de José Marinho; e a que, desviando os olhos e a mente de qualquer diminuição de Deus, atribui a existência do mal aos erros dos homens que, a esses sim, se impõe redimir do mal libertando-os do erro, e foi essa a filosofia de Álvaro Ribeiro

Orlando Vitorino («As Teses da Filosofia de Álvaro Ribeiro»).






O ENSINO DA TEOLOGIA E A FILOSOFIA PORTUGUESA

A escola portuguesa de filosofia que Leonardo Coimbra fundou em reacção contra o positivismo no primeiro quartel deste século, tem de comum com a escola, também portuguesa, de Sampaio Bruno a reivindicação do primado da teologia sobre as ciências especulativas. Ninguém deverá estranhar, portanto, que entre os discípulos de Leonardo Coimbra haja quem defenda o restabelecimento da Faculdade de Teologia na Universidade Portuguesa e, mais ainda, o ensino da teologia católica em alguns dos nossos cursos superiores.

Uma sistematização tradicional do saber humano reduz a três as disciplinas filosóficas: teologia, antropologia e cosmologia. Quaisquer outras disciplinas, teóricas ou práticas, não podem estar senão subordinadas a esta tríade. A Teologia tem, evidentemente, o primado porque só dentro dela é lícito falar de verdades eternas. A antropologia, pelo contrário, tendo como objecto de estudo um ente sujeito ao tempo, é disciplina passiva de devir existente, quer se adopte o conceito naturalista de evolução, quer se aceite o conceito tradicionalista de redenção, no estudo das vicissitudes do homo viator. A cosmologia, como sabemos, é elaborada com certezas provisórias ou instantes, ou, quando muito, assentes em hipóteses e em teorias que os investigadores não receiam substituir na melhor oportunidade.

Esta sistematização do saber humano não condiz com a classificação das ciências que enciclopedistas e positivistas trouxeram no século passado para o nosso País, classificação que transparece na ordenação actual das faculdades universitárias. Há ainda quem fale nas «conquistas definitivas da ciência», referindo-se à matemática e à física, para classificar o saber humano segundo uma escala ascendente ou descendente de utilidade. São os pensadores que, abstendo-se de meditar sobre o tempo e sobre a história, fatalmente se equivocam quando falam de cosmologia, antropologia e teologia.

Pretendemos, assim, eliminar a objecção de que o ensino da teologia nos cursos superiores, longe de obedecer a fins de educação pública, corresponderia a intentos de propagação da fé ou da política retrógrada. Contra essa objecção intempestiva, julgamos ser para os estudos humanistas o conhecimento da teologia católica tão indispensável como o da história pátria. Ora ninguém dirá que a disciplina de História de Portugal foi instituída para justificar a acção dos nossos reis e governantes, ou para despertar nos estudiosos maior paixão nacionalista.




A teoria da verdade que fundamenta a teologia dogmática não está condicionada pelo tempo. Diríamos, porém, que ela atrai o nosso pensamento muito mais para o futuro do que para o passado, e que, esclarecendo-nos, não tanto nos necessita como nos liberta. Habilitado o estudante a separar os dogmas, e também os artigos de fé, de tudo quanto se lhe afigure mera doutrina susceptível de controvérsia, em breve compreenderá que no estudo da teologia está exercendo aquela liberdade de pensamento que a Igreja Católica nunca deixou de defender.

Liberta-se também o descrente de atribuir à teologia católica alguns pensamentos que abusivamente se encontram em livros inferiores, e habitua-se a um rigor de expressão que lhe dará vantagens na arte de discutir. Quem falar, como iluminista, em nome da razão, deixará de confundir, no mesmo campo de irracionalidade, os mais vulgares absurdos com os augustos mistérios da fé. Referimo-nos em especial ao Mistério da Santíssima Trindade, cuja meditação obriga a esclarecer superiormente os conceitos de pessoa e de liberdade, tão importantes para a ética implícita na filosofia portuguesa.

Várias sistematizações teológicas existem entre as quais poderá o estudante escolher a que convier à sua vocação espiritual. A possibilidade de escolha não é suficiente, porém, para definir a liberdade. Livre é o homem que pode com certeza julgar-se autor.

Nutrimos, de há muitos anos, a convicção de que aos teólogos portugueses não seria muito difícil constituir uma síntese dogmática que perfeitamente se harmonize com a religiosidade peculiar do nosso povo. Não nos cumpre dizer em que sentido e com que critério. Limitamo-nos, modestamente, a observar que sem a prévia referência a uma determinada sistematização teológica deixa de ter precisão suficiente o que se disser a respeito da filosofia escolástica.



Acontece, por isso, que entre as pessoas que estão a ver com simpatia o movimento de renovação dos estudos escolásticos no nosso País, algumas se perturbam com o receio, talvez não fundamentado, de que uma vez mais fiquemos em filosofia subordinados a uma escola francesa. A maioria de referências a autores franceses e belgas de certo modo justifica a prevenção dos observadores. Convém, por isso, ter sempre presente que nem tudo quanto se discutiu na Europa Central, desde a Reforma ao Romantismo, merece ser transplantado para os domínios da nossa cultura, mediante recensões, refutações ou adaptações que não condizem com a linha de evolução do pensamento português.

Constituída por professores de nacionalidade portuguesa a Faculdade de Teologia, logo o ensino da ciência divina adquiriria forma que servisse de modelo para outras escolas universitárias. Nas Faculdades de Letras o ensino da teologia deveria ser ministrado no primeiro ano de cada curso. Os estudantes de filologia românica e de filologia germânica ficariam assim habilitados a interpretar obras literárias que não podem ser perfeitamente compreendidas senão pelas directas ou indirectas, mas quase sempre subtis, relações com a teologia católica; os estudantes de filologia clássica ficariam habilitados a situar adequadamente os cultos pagãos na escala fenomenológica para a religião absoluta.

A universalidade da teologia tem sido compatível com as filosofias nacionais. Não o é porém, com a lei dos três estados, nem com a divisão da história da filosofia em antiga, medieval, moderna e contemporânea. A teologia é, pois, digna de ocupar no ensino superior o lugar que lhe é atribuído pelas escolas portuguesas de filosofia.

(In A Semana, ano 1.º, n.º 47, Lisboa, 2 de Fevereiro de 1952, supl. «Das Artes e Das Letras», n.º 2, pp. 1-2).




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