quinta-feira, 4 de março de 2010

O Plutocrata (iv)

Escrito por Ernesto Palma



Leonardo Coimbra


Descritos os meios de que a planificação da cultura dispõe, Ernesto Palma passa a descrever os seus fins, que são a eliminação do pensamento. Mas lembra previamente, que, ao realizar a planificação, o socialismo é um instrumento do igualitarismo. Abona-se na demonstração que um dos epígonos de Leonardo Coimbra faz de como o igualitarismo é o grande obstáculo à actividade do espírito ou, o que é o mesmo, tem no pensamento o obstáculo que lhe é necessário vencer. Enquanto o pensamento distingue, e separa para unir, as singularidades de que é feito o real, se move do conhecido para o desconhecido e a todo o momento transcende a realidade de que formou o conceito para a superior realidade a conceptualizar, o igualitarismo equaciona todos os singulares e diferentes, reduz o superior ao inferior negando o que não é redutível, até arrasar todo o real num único plano, necessariamente o mais inferior, do qual já formou o conceito, e aí se imobiliza.

Integrando-a no igualitarismo, Ernesto Palma faz-nos compreender que a planificação da cultura vai mais fundo do que a massificação das populações, do que a uniformização política, institucional, exterior, a que o socialismo procede, o que explica a surpresa dos socialistas ao verem-se ultrapassados pela cultura unificada. Faz-nos compreender que a eliminação do pensamento filosófico, artístico e científico obedece a um processo interior, talvez irreversível, movido pelo igualitarismo. Faz-nos compreender, enfim, como a cultura planificada realiza essa eliminação.

Para eliminar o pensamento filosófico, a planificação dá, por ele, o cientismo, isto é, a convicção de que a tecnologia trará remédio a todas as carências da existência social, e o pragmatismo, isto é, a concentração de todos os meios e esforços, não no alcance de uma finalidade, mas na resolução dos problemas de cada momento. Com isso, a planificação abafa e apaga a substância da mesma cultura, aquela imagem ou concepção metafísica, que o idealismo alemão designou por Bildung, que a cultura se destina a transmitir para consciencializar o povo, cada povo, da sua singularidade, sua identidade e seu destino. Sem esta imagem metafísica, sem a filosofia que eliminou, a cultura planificada é uma formação artificial, arbitrária e vazia.

Para eliminar o pensamento artístico, a planificação encerra a arte na estética, isto é, na receptividade que a estesia, ou sensibilidade do espectador, do leitor, do ouvinte oferece às obras artísticas cujo valor e sentido assim retira do génio singular do artista que as produziu e transfere para a estesia que as recebe. Avalia, depois, tal receptividade pela medida, a do gosto, que é comum ao maior número de pessoas, que é portanto a mais baixa possível. Deste modo, entende satisfazer as exigências da democracia ao mesmo tempo que estabelece padrões estéticos, os mais vulgares, que dá como padrões universais por serem os de toda a gente. A esses padrões terão de se sujeitar os artistas que queiram obter do Estado os meios imprescindíveis à manifestação do seu talento e à produção das respectivas obras. Deverão eles reproduzir, repetir, imitar como modelos as obras que provaram corresponder aos padrões de gosto das massas.

Quanto ao pensamento científico, a planificação cultural elimina-o começando por ignorá-lo, afirmando que os conhecimentos científicos, ao contrário do que efectivamente aconteceu, comprovadamente com os mais importantes para a formação e desenvolvimento da ciência (os de Platão, Aristóteles, Euclides, na antiguidade, os de Descartes, Galileu, Newton, na modernidade), não resultam do pensamento individual mas são produto de experimentações interminavelmente repetidas, como se está procedendo agora na tecnologia, até que uma ou outra prove ter alguma utilidade prática. Contradiz-se assim o sábio preceito que, na origem da ciência, estabeleceu que "só é científico o que é inútil" e, para fazer valer o erro crasso que é esta contradição, vai-se buscar autoridade e autorização às oficinas, laboratórios e equipas a trabalhar para o império tecnológico americano com um êxito de que são provas o lançamento das bombas nucleares e o domínio militar do planeta.


Descreve-se, então, como obsoleta e ridícula a figura do sábio isolado, condena-se à morte civil o investigador independente, e já dos centros de planificação saem soberbas e arrogantes declarações, como as assinadas pelo actual Ministro da Cultura [ao tempo Manuel Maria Carrilho], a avisar de que não obterá qualquer reconhecimento de verdadeira alguma verdade científica adquirida por indagação do pensamento individual, pois tal reconhecimento está reservado às experimentações da "comunidade científica" que, à falta de existir, é suposto ser a instituição universitária. O que vale, no cumprimento deste aviso sinistro, tal "comunidade científica", quem queira o pode rapidamente saber lendo os dois livros de insultos que dois dos seus membros, Luiz Albuquerque e Vasco Graça Moura, dirigiram a Mascarenhas Barreto por ele ter reunido "provas demais", como diz Barrilaro Ruas, sobre a naturalidade portuguesa de Cristovão Colombo.

Por tantos modos se retomam, mas com muito maior largueza e eficácia, os poderes do Santo Ofício, que quis calar Galileu, os da Universidade de Londres, que quis "proibir um tal W. Shakespeare de escrever comédias", os do europeísmo nazi que distinguia entre filosofia ariana e filosofia judaica para efeitos que ainda tiveram raras excepções, como a de Husserl, ou os do estalinismo que, para efeitos já sem excepções, distinguia entre comunismo e o resto. E não é difícil prever que em breve se recupere, se não foi já recuperada em avisos como os do actual Ministro da Cultura [ao tempo M. M. Carrilho] e em condenações como as de Luiz Albuquerque e V. Graça Moura há pouco referidas, a proposta daquele parlamentar da nossa anterior ditadura, também ele membro da "comunidade científica", que, a pretexto de calar Aquilino Ribeiro, pretendia proibir de publicar algum livro quem não obtivesse previamente licença, ou licenciatura, da universidade.

Neste momento da sua exposição, Ernesto Palma pergunta-se se não terá ela desembocado num absurdo. Pois não é absurdo, pergunta, admitir a possibilidade de eliminar o pensamento? Uma vez eliminado o pensamento, que realidade poderá perdurar?

É certo que o pensamento que a planificação da cultura elimina é o filosófico, o artístico e o científico deixando permanecer, e até cultivando, as formas vulgares de pensar. Mas sem as formas superiores, que são as eliminadas, a realidade poderá ser a de uma existência civilizada?

A questão é agora a das relações entre pensamento e civilização. Entende Ernesto Palma que se é o pensamento que dá origem à civilização, também é ele que a suporta, e deduz que, se for eliminado, a civilização se extingue.

A questão exige uma reflexão prioritária. Não se situa ela, porém, nas baixas regiões onde decorre a existência comum, mas ascende às altas regiões das causas que tudo decidem.

A Criação de Adão (Michelangelo Buonarrotti).

Não sabemos se com ironia, Ernesto Palma reconhece-se incapaz de ascender tão alto e segreda-nos que se socorreu de quem lhe falou de como o platonismo - ainda indistinto o pensamento filosófico do artístico e do científico - concebeu as ideias como reais e, com isso, deu realidade à existência do homem que, pelo pensamento, acede ao conhecimento das ideias; de como o cristianismo confirma e consagra o platonismo e acrescenta, à realidade da existência do homem, a realidade da existência do mundo pois a encarnação da divindade religa o sensível e o inteligível ainda separados no platonismo; de como o cristianismo é a única religião verdadeira porque, sendo a verdade a adequação ao real, é ele a única religião em que, com a encarnação, a divindade é plenamente real. Falou-lhe de como o que ele dizia por realidade e pensamento se deve entender ou por única realidade e pleno pensamento (posição do platonismo: só a ideia é real, só o pensamento a concebe) ou por plena realidade e pleno pensamento (posição do cristianismo); de como a civilização só é possível quando as formas da existência se desprendem do carácter arbitrário e efémero que lhes é ditado pelas contingências da incerteza natureza e pelas ocasionalidades do mutável tempo, quando se tornam necessárias, isto é, fundadas no nexo com a realidade das ideias e na necessidade própria do pensamento que acede às ideias (por exemplo: a lei fundada na ideia de justiça e dela derivando); de como, portanto, a civilização tem seu princípio no pensamento e, sem o platonismo e o cristianismo, não há civilização mas apenas culturas, isto é, formas de existência ocasionais e fortuitas, instáveis e arbitrárias, só perdurando pela inércia do hábito, dos costumes, das tradições. Disse-lhe, por fim, que só nos povos europeus há platonismo e cristianismo, que só neles, portanto, há civilização, apenas havendo, nos outros povos, culturas; que o platonismo e o cristianismo são universais e por isso a civilização é irradiante: irradia dos povos europeus para as populações dos outros continentes, já hoje unânimes em a terem por modelo... (ob. cit., pp. 24-30).


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