Tema conferenciado por Martinho Heidegger
«A lógica do conceito é uma lógica realista. Os nominalistas e os terministas, imitando a abstracção matemática, deram ao problema dos universais uma solução que prepara a falácia do idealismo, e serviram assim o engenho da análise mortífera e de uniformidade industrial que lacera, em vez de redimir, a Natureza.»
Álvaro Ribeiro («Aristóteles e a Tradição Portuguesa»).
«A
fenomenologia para Heidegger
revelar-se-ia como essencialmente distinta da de seu professor Edmundo Husserl,
para quem a mesma desembocaria, em última análise, num eu puro transcendental separado do mundo, como princípio último e
originário. Ora, em Heidegger já a fenomenologia consiste em fazer ver o que em
si mesmo se mostra como o patente ou
o manifesto, e tal como se mostra num
sentido que, embora não facticamente dado ou simplesmente presente, constitui,
no entanto, o fundamento ontológico do presente. Nesta acepção, a fenomenologia
é, a seu ver, uma ontologia procurando o “sentido do ser” enquanto fundamento
último do real dito e pensado na tradição filosófica ocidental.
Reunindo e aproximando expressões de erudição universitária, a fenomenologia enquanto ontologia encontra-se, no pensamento de Heidegger, em total contraposição à ontologia tradicional. É, aliás, nesta ordem de ideias que Heidegger assume claramente a influência decisiva do pensamento vitalista de Frederico Nietzsche, para quem o erro fundamental da metafísica tradicional foi o ter valorado dogmaticamente, por via da tradição platónico-cristã e científica, a pressuposta perenidade de um mundo visto como superior àquele em que tudo é, por definição, aparência e falsidade dos sentidos, mundo esse, ademais, tido por verdadeiro devido a valorações e categorias que pré-estabelecem, por contrapartida à inocência grega do devir, uma ordem moral do mundo estranha ao próprio homem, posto que pairando em sua perfeição e absoluteidade acima deste nosso mundo mutável e alegadamente irreal. De resto, não é por acaso que podemos discernir três directrizes fundamentais na dura crítica de Nietzsche à tradição platónico-cristã e científica, nomeadamente as que se seguem: a) crítica da moral platónico-cristã; b) crítica da metafísica tradicional, no seu duplo aspecto onto-gnosiológico; c) crítica às ciências positivas.»
Miguel
Bruno Duarte
«As três tradições portuguesas decorrem à margem da disciplina clássica e impregnam muito mais a alma popular (como se verifica pela análise linguística, estilística e literária) do que o humanismo espanhol, francês ou italiano, de falsa imitação dos autores gregos e latinos. A distinção entre a filosofia mediterrânea e a filosofia atlântica ainda caracteriza o reinado de D. Manuel I. Depois a mitologia humanista vai a pouco e pouco tomando nas artes a preponderância que antes pertencera às três tradições portuguesas.»
Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).
«Congratula-se
o autor por o destino o haver dado a esta tão deslumbrante língua portuguesa.
Foi ela uma língua singular na história da civilização que ainda predomina no
mundo. Porque só aprendem a significação de seus termos e combinações os que
têm o saber imediato de os referir aos étimos e paradigmas latinos, o português
é, mais do que uma língua românica ou derivada, um dialecto do latim, como o
castelhano, o italiano e o francês. Contém, todavia, expressões sintácticas,
morfológicas e fonéticas que permitem ligá-lo directamente ao grego, ao hebreu
e ao árabe, e até, numa concepção que faça derivar as línguas umas das outras,
defender a tese de que sua origem não está no latim. Foi, entre todas as
línguas europeias modernas, a que primeiro alcançou uma perfeita capacidade
descritiva (Fernão Lopes é anterior a Froissart) e a mais difícil capacidade
conceptiva (D. Duarte é o primeiro filósofo que escreve em vernáculo); só na
expressão poética foi precedida pelo italiano, com Dante e Petrarca antes de
Camões. Contém, ao mesmo tempo, a maior riqueza de vocábulos entre todas as
línguas, e os fonologistas observam que só o inglês se lhe pode comparar na
variedade de sons e articulações. Primeira língua, portanto, a atingir na
Europa moderna a plenitude da expressão, vai também ser a primeira a
extinguir-se. Ao aproximar-se agora o seu fim, reúne nestes últimos breves
decénios – como aconteceu na Grécia e porque "a ave de Minerva levanta voo ao
anoitecer" - os seus mais poderosos filósofos e poetas: Bruno, Leonardo e José Marinho, Pascoaes, Pessoa e Régio. Com a recente morte do último filósofo e do
último poeta, os portugueses perdem também a última guerra que travaram, vêem
as suas possibilidades de sobrevivência desfeitas às mãos dos movimentos colectivistas internos e internacionais, e a demência social e política é a
consequência imediata da perversão da linguagem. As palavras, adulterado o
sentido que tinham, já apenas servem para designar objectos materiais, coisas,
sentimentos negativos e apelos ao ódio. Deixam, dia após dia, de ser palavras,
para serem apenas sinais e estandartes. E acabando por ficar impotente para
exprimir estados de espírito e estados de alma, pensamentos e sentimentos, o
português já é, de facto, uma língua morta. Como o latim e como o grego. O que
dela ainda irá perdurando durante algum tempo será apenas o vozear babélico de
uma multidão que, tendo perdido a variedade que mantém vivos os povos, ainda
vai precisando de recorrer aos vocábulos utilitários e comunicativos enquanto
se não dissolve de todo na uniformidade e na informidade a que
irreversivelmente se dirige.
Escrever e falar uma língua que, ainda usada como viva já é de facto uma língua morta, constitui, para o dramaturgo e para o actor, a oportunidade, jamais tida por outros homens com a consciência de a terem, de escreverem e falarem como clássicos. O que significa e vale isso de falar a língua morta dos clássicos, souberam-no durante mais de mil anos os sacerdotes que acreditaram na revelação de Deus em palavras sagradas que todos os dias repetiam celebrando o culto em latim; e sabia-o também o autor do “Leviathan” que abolia das escolas o ensino dos clássicos por instilarem eles nos homens o espírito de liberdade.»
Orlando Vitorino («Tongatabu e Nem Amantes Nem Amigos»).
«Não
nos parece lícito dizer-se que a língua portuguesa seja menos apta, que as
outras línguas românicas, para traduzir obras de teologia, antropologia e
cosmologia que foram escritas em povos de várias famílias linguísticas. A
dificuldade apresentada para exemplo costuma ser a dos livros de filosofia
alemã depois de Kant, pois que na Alemanha se costuma traçar a linha que
espiritualmente divide a Europa em oriental e ocidental. Se os tradutores
italianos, franceses e espanhóis, que residem em países de mais intensa cultura
filosófica, nem sempre conseguem obter límpidos equivalentes idiomáticos dos
termos germânicos, aos tradutores portugueses, tidos por menos hábeis, haveria
que desculpar ainda maior perplexidade.
Devemos,
porém, lembrar-nos de que até ao fim do século XVIII a filosofia alemã seguiu
de perto a terminologia escolástica, construindo as suas expressões sobre o
latim de Pedro Hispano, Pedro da Fonseca e Francisco Suárez, embora muito
custasse a um povo demasiado terrestre pensar o angelismo de filósofos
inspirados por Dante. Depois do Humanismo, recorreram os escritores germânicos
às suas próprias fontes idiomáticas, e com inúmeros neologismos que formaram
por decalque sobre os termos latinos, ou graças à possibilidade indefinida de
composição verbal, de que goza a língua alemã, enriqueceram um vocabulário que
se presta a exprimir muito subtis distinções lógicas e ideológicas,
indispensáveis às lutas representativas das escolas concorrentes. Comparando o
léxico alemão com o léxico português reconheceremos sem dúvida a superioridade
da língua de Heidegger, mas nada nos impõe a fidelidade literal, vocabular ou
sintáctica por condição indispensável na boa tradução de textos filosóficos.
Eis
o que nos permite e aconselha que na tradução de obras alemãs, em vez de
respeitar a integridade dos períodos, de seguir a ordem das orações, de imitar
os termos compostos, enfim, de traduzir letra por letra, sílaba por sílaba,
palavra por palavra, tomemos a liberdade de alterar a pontuação, modificar a
sintaxe, usar de perífrases, limpando de acidentes a substância que dará ao
leitor o essencial do pensamento. Não basta que o tradutor nos evite a fadiga
de ler em alemão, importa também que não nos obrigue a pensar em alemão; quer
dizer: a tradução deve ser tanto de categorias verbais como de categorias
mentais. Escritos por pessoas de muita cultura germânica, por pessoas que
perderam o gosto da língua portuguesa, alguns livros nossos de filosofia caíram
no esquecimento porque não conseguiram influir na mentalidade nacional.
Vem
a propósito lembrar que se deve ao próprio Kant, aos seus discípulos e até aos
seus adversários, uma alteração do significado atribuído a algumas expressões
latinas das filosofias medievais. Dizia-se a
priori da demonstração que desce da causa ao efeito, e a posteriori da demonstração que ascende do efeito à causa, mas,
depois de publicada em 1781 a Crítica da
Razão Pura, esses termos sofreram uma deturpação. Assim é que, para as
pessoas pouco lidas em filosofia mas contentes com a cultura geral, a priori significa antes da prova ou
antes da experiência, ao passo que a
posteriori significa depois da prova ou da experiência, e nada há já hoje
que obste à temporalização da prioridade e da posteridade.
Infelizmente,
a má interpretação de tais expressões latinas consolida-se nos termos apriorismo e aposteriorismo com que muitos indoutos se referem à obra de Kant
para, de subtil modo, renovarem ou defenderem as faculdades congénitas, as
ideias inatas, enfim, o cartesianismo, o platonismo e o pitagorismo. A verdade,
em vez de ser um movimento, ou uma via, ou uma directriz, é pelos defensores
destes sistemas fixada num ponto, consolidada numa forma, expressa numa tese,
para servir de termo ou de obstáculo à evolução espiritual da humanidade. Todo o acréscimo de saber, que se verifique de século para século, será nesta
doutrina atribuído a factores empíricos, já que não é lícito admitir qualquer
progresso da razão.
Razão
é o nome do espírito humano, como inteligência é o nome do espírito angélico.
Falar de intelecto, ou de inteligência, a respeito do homem é já usar de uma
linguagem demasiado alta para as convicções dominantes no nosso ambiente
cultural. O pensamento humano tem de ser estudado, tal como a lógica ensina,
através da expressão discursiva, através dos actos da razão.
Convém,
aliás, saber que não há razão pura. A
razão humana está sempre implícita num elemento que lhe garante realidade.
Kant, afirmando o que se costuma traduzir por “pensamentos sem conteúdo são
vazios e intuições sem conceito são cegas”, (tradução errada, porque nem Anschauung corresponde ao que entendemos
por intuição, nem Begriff corresponde
ao que entendemos por conceito), permanecia ainda assim fiel à doutrina aristotélica de que a inteligência não vive sem fantasia.
Na
sua Crítica da Razão Pura pretendeu Kant estabelecer a distinção entre transcendente e transcendental para refutar a Escolástica, e, circunscrevendo a
inteligência dentro de limites que não lhe permitiam ultrapassar as categorias
humanas, conseguiu eliminar o pensamento angélico até na discussão das provas
da existência de Deus. Assim, se é lícito traduzir a palavra alemã Verstand, como a palavra inglesa understand, por entendimento ou por intelecto,
já não nos parece lícito traduzir a palavra Vernunft
pela palavra razão, porque o rigor
exigiria a palavra inteligência. Só
um estudo da valiosa doutrina escolástica dos transcendentais, sempre combatida
pelos princípios de continuidade e de imanência durante três séculos de
filosofia moderna, nos permitirá ver como na luta do positivismo contra o
dogmatismo se desfigurou a lógica tradicional.
Kant,
estabelecendo o primado da razão prática sobre a razão estética, e da razão
estética sobre a razão teórica, ao longo das suas três críticas, ensinou os
Alemães a fundamentarem o Direito, não na razão universal que exige o
assentimento dos melhores espíritos e que lentamente se propaga aos espíritos
inferiores, mas na força ou, se quisermos, na energia. O princípio mágico,
enérgico, dinâmico, que faz desvanecer a matéria, matriz figurativa e numérica
do mundo sensível, exprimir-se-á livremente em doutrinas de vontade, indústria
e violência. Nestas doutrinas a acção humana é desesperada, não alcança
penetração eficiente no âmago da realidade, obtém apenas resultados efémeros
que não estancam a ondulação indefinida do pessimismo.
Contemporâneos
dos Alemães na decisão de abandonar o aristotelismo, no fim do século XVIII
deveríamos estudar com eles a crítica do idealismo transcendental, mas certo é
que entre nós os esforços dos germanistas e dos germanizados, apesar das suas
boas intenções e até das suas boas vontades, foram sempre tão mal conduzidos
que não lograram resultados duradouros e convincentes. Faltam-nos estudos
bastantes sobre a composição étnica do povo português para que possamos
interpretar este exemplo e outros de verificadas resistências – resistências
activas e passivas – às formas estrangeiras de cultura. Cremos, porém, que os
segredos nunca revelados pela etnografia, isto é, por um folclore e um
artesanato que, moribundos, tendem a desaparecer, podem ser descobertos pelos
estudos das camadas constitutivas do idioma vivente e explicados pela
filologia.
Ao
contrário do povo alemão, que facilmente constrói os termos indispensáveis ao
seu pensamento de artífices, os povos latinos acusam dificuldade, se não
repugnância, em formar violentamente palavras novas, que consideram ridículas.
Esta repugnância, cultivada pelos Portugueses até ao exagero da inibição, tem
sido motivo de dano para a nossa língua e até para o nosso pensamento, embora a
expliquemos por aversão atávica ao nominalismo escolástico e ao despotismo dos
entes de razão. Preferimos conferir significações novas às palavras correntes,
por deslocação semântica, e assim atribuímos a palavras tais como idealismo e realismo tantos significados quantos os convenientes para designar
a heterogénea sucessão de doutrinas.
Não enriquecemos o nosso vocabulário com neologismos, e muito menos com a revaloração de paleologismos. Chegamos até a desprezar distinções qualitativas, que exigem subtileza de denominação, porque preferimos determinações quantitativas, e abusamos do recurso aos numerais ordinais para classificações de tipo sociológico. As categorias, as ordens e as classes perdem denominações tradicionalistas, representativas da nossa imaginação, concepção e ideação, por vontade de reformadores estrangeirados que julgam ser mais cómodo numerar tudo quanto se refira a agrupamentos humanos. Este processo de estancar as fontes idiomáticas é habitual entre os professores de cultura estrangeira, os quais só aclimam os neologismos já formados pelos escritores franceses, ingleses e alemães. Historiadores da nossa língua há que, mostrando a proveniência latina, árabe e francesa da nossa melhor riqueza lexical, parecem querer negar a possibilidade de crescimento e de reprodução na vida do idioma português. Este processo artificial dos analistas, e comparativistas, agora muito usado no estudo da língua como no da literatura, tende necessariamente para diminuir, mediante fácil paralogismo, qualquer afirmação de originalidade, tanto no pensamento como na expressão.»
Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).
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«No filme de Stanley Kubrick, 2001, Odisseia
no espaço, um robot que não
suporta a ideia de ser “desconectado”, torna-se assassino, violando assim a
primeira das “leis da robótica” enunciadas em 1941 pelo romancista Asimov. No
filme de Joseph Sargent, O cérebro de aço,
um superordenador resolve conquistar o mundo metodicamente.
Do ponto de vista da cibernética, este género
de situação é o protótipo do falso problema.
Norbert
Wiener define a cibernética como a “ciência da informação”; Ashby, como a
“ciência racional das máquinas”; Coffignal, como a “arte da eficácia da acção”.
Disciplina
relativamente recente, a cibernética é portanto uma ciência-cruzamento.
Reportando-se ao mesmo tempo às máquinas e aos seres vivos, visa realizar não a
síntese mas o seu estudo comparado: pesquisar até que ponto se poderá fazer
coincidir as máquinas e a vida. Na prática, trata sobretudo dos mecanismos automáticos e da neuro-fisiologia.
O
seu “inventor”, Norbert Wiener (1894-1963), foi uma espécie de Mozart da
ciência. Aprende a ler com dezoito meses, conclui a licenciatura aos 14 anos,
defende a tese de doutoramento aos 18. Antigo aluno de Bertrand Russell e de
David Hilbert, foi professor de Matemática no Massachusetts Institute of
Technology (MIT). Em 1948, publicava em inglês uma obra intitulada Cybernétique, ou Contrôle et Communication
Chez l’animal et dans la Machine. Quatro anos mais tarde aparecia um novo
ensaio, desta vez destinado ao grande público: Cybernétique et Societé. (haveria uma segunda edição, actualizada,
em 1962 e uma terceira, compreendendo diversas variantes, em 1971, na colecção
10/18).
Nestes
dois livros, Wiener propõe uma introdução à “utilização humana de seres vivos”.
Mais exactamente, tenta determinar o que os organismos vivos nos podem ensinar sobre a natureza e as
possibilidades das máquinas do futuro.
“A
minha tese”, escreve ele, “é que o funcionamento físico do indivíduo vivo, e as
operações das centenas de máquinas de comunicações mais recentes, são
exactamente paralelas nos seus esforços idênticos para controlar a entropia por
intermédio da retroacção”.
A
palavra “cibernética” (que encontramos em Ampère desde 1834) designa em grego a
arte de conduzir os homens em sociedade, de os “pilotar”. Foi intencionalmente
escolhida. Para Wiener, com efeito, a acção do piloto de um navio é perfeitamente semelhante à acção dos orgãos de
regulação de uma mecânica.
Entre
o capitão, que diz para onde o navio deve ir, explica ele, e o timoneiro que
manobra o leme, há sempre um intermediário: o piloto, que escolhe a rota em
função das ordens recebidas, e determina qual o melhor rumo a seguir.
Do
mesmo modo, numa máquina a vapor, o regulador de Watt comanda o caudal de vapor
a fim de que a velocidade permaneça constante.
No
corpo humano, é o cerebelo que recebe a informação
do cérebro e dos nervos. Determina em seguida as ordens a enviar aos
músculos, para que os movimentos que executam se produzam sem afectar o
equilíbrio do corpo. Graças ao cerebelo, verdadeiro “piloto automático”
incorporado, podemos pegar num ovo sem o partir, apanhar qualquer coisa do chão
sem cairmos, etc.
O piloto do navio, o regulador de Watt, o cerebelo, etc., são orgãos cibernéticos, que agem por retroacção. Não se lhes diz o que devem fazer, mas o que queremos que se passa. Em seguida “jogar” é com eles.»
Alain
de Benoist («Nova Direita, Nova Cultura», Edições Afrodite, 1981, pp. 109-110).
«O Universo é um cérebro infinito povoado de inúmeras imagens.»
«Arqueologia,
e não metafísica, deveria intitular-se a doutrina aristotélica dos princípios
que Kant pretendeu refutar na Dialéctica
Transcendental. Foi efectivamente da
palavra arche, parente de arcano,
arco e arca, que se formou o termo arqueólogo.
Os arqueólogos da Antiguidade olhavam para o Céu, os arqueólogos da Modernidade
escavam a Terra.
A
ontologia, doutrina do ente, que por singular está sujeito ao tempo, é menos do
que arqueologia. Ela assume, porém, na obra de Santo Anselmo o significado
excelente de transição do tempo para a eternidade. A Hegel devemos a doutrina
religiosa de subordinação da ontologia à arqueologia.
Esta disciplina dos três graus da razão, deferindo um pouco da nomenclatura escolástica, com ela se compatibiliza na oposição de Aristóteles a Kant. Ela pressupõe a tese de que o homem é um espírito, uma razão animada, mas uma razão impura, que tende a unir-se com a razão pura. A purificação da razão humana, pelo Espírito Santo, fica assim teologicamente referida ao mistério da Santíssima Trindade.»
Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).
«A economia terrestre, como a mecânica, depende da celeste.»
Teixeira
de Pascoaes
O perigo que ameaça a relação do homem com a língua
Desde
tempos antigos prevaleceu a doutrina segundo a qual o homem, diferentemente da
planta e do animal, é o ser capaz de palavra. Esta fórmula não significa
somente que ao lado das outras capacidades o homem possui também a de falar. A
fórmula quer dizer: só a língua permite ao homem ser este ser vivente que ele é
enquanto homem. Mas o que é isto de homem, ou o que é que ele é? E que
significa falar? É suficiente a enunciação destas duas questões para dar a
entender que se revelam aqui numa incomensurável profusão de coisas que podem
ser questionadas. Mas mais inquietante que esta profusão é a falta, nesta
problemática, de um fio condutor seguro a partir do qual estas questões
poderiam ser desenvolvidas de maneira apropriada. Também ater-nos-emos, em
princípio, a propósito da língua, como a propósito da técnica, às concepções
correntes.
Falar
é:
1) uma
capacidade, uma actividade e uma consumação do homem;
2) o
funcionamento dos orgãos de elocução e do ouvido;
3) a expressão
e a comunicação dos movimentos da alma guiados pelos pensamentos com vista à
harmonia recíproca;
4) uma
representação e uma apresentação do real e do irreal.
Estas
quatro definições da língua, ainda equívocas em si mesmas, foram mais tarde
estabelecidas sobre uma base mais profunda por Wilhelm von Humboldt, que assim
determinou de maneira mais completa o conjunto do domínio da língua.
Contentar-nos-emos em citar uma única frase retirada das suas considerações
sobre a língua.
«Quando
na alma desperta verdadeiramente o sentimento de que a língua não é
simplesmente um meio de troca com vista ao acordo recíproco, mas que ela é um
verdadeiro mundo que o espírito é obrigado a pôr entre si e os
objectos pelo trabalho interno da sua força, então ela (a alma) está no bom
caminho para se encontrar sempre mais nela (a saber, na língua como mundo) e a
investir-se nela.» [1]
A
frase de Humboldt contém um enunciado negativo e um enunciado positivo. O
positivo diz: cada língua é uma visão do mundo, a saber, a do povo que a fala.
A língua é o mundo intermediário entre o espírito humano e os objectos. A
língua é expressão deste entremeio do sujeito e do objecto. Só numa época
recente é que a intuição decisiva de Humboldt sobre a essência da linguagem
teve influência sobre a linguística e a crítica literária. Podemos referir-nos
às investigações de Leo Weiberger e da sua escola, assim como ao notável livro
de Gerhard Storz, que foi ministro da Cultura, Língua e Poesia (1957) [2].
O
enunciado negativo da frase de Wilhelm von Humboldt sublinha que a língua não é
um simples instrumento de troca e de comunicação. Ora é precisamente esta
concepção corrente da língua que se vê não somente avivada pelo facto da
dominação da técnica moderna, mas reforçada e levada exclusivamente ao extremo.
Ela reduz-se à proposição: a língua é informação.
Poderíamos
acreditar que a interpretação técnica da língua como instrumento de comunicação
é evidente por si própria, isto é, que a técnica se compreende a si mesma como
um instrumento e apresenta toda e qualquer coisa sob esse aspecto. Mas à luz do
que acaba de ser discutido sobre o que é próprio da técnica e da língua, esta
apresentação é superficial. Pelo contrário, é preciso perguntarmo-nos: em que medida o que é próprio da técnica acaba por se impor à língua levando à sua
transformação em pura informação, de tal maneira que provoca o homem, quer
dizer, obriga-o a assegurar a energia natural e a colocá-la à disposição? Em
que medida há, além disso, na própria língua, a exterioridade que oferece o
meio e a possibilidade de uma transformação em língua técnica, isto é, em
informação?
Para
responder, ainda que sumariamente, a estas questões são necessárias duas
coisas: antes de mais, uma definição do que é próprio da língua, quer dizer, do
que é definitivamente o falar do homem. A seguir é preciso que seja
suficientemente delimitado o que significa informação no sentido rigorosamente
técnico.
Ainda
que a interpretação de Wilhelm von Humboldt acerca da língua como visão do
mundo constitua uma contribuição frutuosa, deixa no entanto indeterminado o que
é próprio da língua, o próprio falar. Por razões que renunciamos expor aqui,
Wilhelm von Humboldt fica-se pela definição da língua como expressão, a saber,
de um interior – a alma – por um exterior – a voz e a escrita.
Mas
falar é essencialmente dizer. Quem quer que seja pode falar sem cessar e a sua
palavra não dizer nada. Um silêncio, pelo contrário, pode dizer muita coisa.
Mas o que significa «dizer»? Sabê-lo-emos se prestarmos atenção ao termo. Sagan[3]
significa mostrar. E que significa mostrar? Significa fazer ver e entender
qualquer coisa, levar uma coisa a aparecer.
O
não dito é o ainda não mostrado, o ainda não chegado ao aparecer. Mas graças ao
dizer, o ente-presente ascende à aparência (i.e., ao aparecer): está presente e
como; e no dizer vem também à aparência o ausente como tal. Todavia, o homem
não pode verdadeiramente dizer, isto é, mostrar e fazer aparecer senão aquilo
que se mostra a ele de si próprio, que aquilo que de si próprio aparece se
manifesta e se dirige a ele.
Mas
o dizer como mostrar pode igualmente ser concebido e efectuado de tal maneira
que mostrar significa somente: dar sinais. O sinal torna-se então uma mensagem
e uma instrução acerca de uma coisa que, em si mesma, não se mostra. Um som que
retine, uma luz que brilha, não são, tomados em si próprios, sinais. Não são
produzidos e impostos como sinais senão para que aquilo que devem significar à
vez seja antecipadamente admitido, seja dito. Pensemos nos sinais em morse, que
são limitados ao ponto e ao traço e nos quais o número e a ordem são associados
às sonoridades da língua falada. O sinal particular, de cada vez, não pode ter
senão uma de duas formas, ponto ou traço. A série dos sinais é neste caso
reconduzida a uma série de decisões sim-não. As máquinas são coagidas à
produção de tais séries: estas graças aos fluxos de corrente e aos impulsos
eléctricos, seguem este modelo abstracto de produção de sinais e fornecem as
mensagens correspondentes. Para que uma tal espécie de informação se torne
possível cada sinal deve ser definido de maneira unívoca; da mesma maneira cada conjunto de sinais deve significar de maneira unívoca um enunciado
determinado. O único carácter da língua que permanece na informação é a forma
abstracta da escrita, que é transcrita nas fórmulas de uma álgebra lógica. A
univocidade dos sinais e das fórmulas, que é necessariamente exigida por isto,
assegura a possibilidade de uma comunicação certa e rápida.
É
sobre os princípios tecno-calculadores desta transformação da língua – como
dizer em língua como mensagem e como simples produção de sinais – que repousam
a construção e a eficácia dos
computadores gigantes. O ponto decisivo para a nossa reflexão atém-se a isto:
são possibilidades técnicas da máquina que prescrevem como é que a língua pode
e deve ainda ser língua. O género (Art)
e o estilo da língua determinam-se a partir das possibilidades técnicas de
produção formal de sinais, produção que consiste em executar uma série contínua
de decisões sim-não com a maior rapidez possível. A natureza dos programas que
podem servir de entradas para o computador, entradas com as quais podemos, como
se diz, alimentá-lo, regula-se sobre o tipo de funcionamento da máquina. O modo
da língua é determinado pela técnica. Mas o contrário não é verdadeiro? O
modelo da máquina não se regula sobre os objectivos linguageiros, como, por exemplo,
os da tradução? Mas mesmo neste caso os objectivos da linguagem são,
antecipadamente e por princípio, ligados à máquina, que exige sempre a
univocidade dos sinais e da sua sucessão. É por isso que um poema, por
princípio, não pode ser programado.
Com
a dominação absoluta da técnica moderna cresce o poder – tanto a exigência como
a eficácia – da língua técnica adaptada para cobrir a latitude de informações
mais vasta possível. É porque se desenvolve em sistemas de mensagens e de
sinalizações formais que a língua técnica é a agressão mais violenta e mais
perigosa contra o carácter próprio da língua, o dizer como mostrar e fazer aparecer o presente e o ausente, a
realidade no sentido mais lato.
Mas
porquanto a relação do homem, tanto quanto ao ente que o rodeia e o sustenta
como ao ente que é ele próprio, repousa sobre o fazer aparecer, sobre o dizer
falado e não falado, a agressão da língua técnica sobre o carácter próprio da
língua é ao mesmo tempo uma ameaça contra a essência mais própria do homem.
Se,
avançando no sentido da dominação da técnica que determina tudo, temos a
informação pela forma mais alta da língua por causa da sua univocidade, da sua
segurança e da sua rapidez na comunicação de informação e de directivas, então
o resultado é a concepção correspondente do ser-homem e de vida humana. Assim
lemos em Norbert Wiener, um dos fundadores da cibernética, disciplina avançada
da técnica moderna: «Ver o mundo inteiro e dar ordens ao mundo inteiro é quase
a mesma coisa que estar em todo o lado» (Homem
e máquina humana [4], 95). E noutro lugar: «Viver activamente significa viver com a informação apropriada»
(op. cit., p. 114).
No horizonte de representação da língua, seguindo a teoria da informação, interpreta-se igualmente de maneira técnica uma actividade como a de aprender. Assim escreve Norbert Wiener: «Aprender é fundamentalmente uma forma de retroacção pela qual o modelo de comportamento é modificado pela experiência que precede» (op. cit., p. 63). «A retroacção... é um carácter absolutamente universal das formas de comportamento» (ibid.). «A retroacção é a condução de um sistema pela reintrodução no próprio sistema dos resultados do trabalho comprido» (op. cit., p. 65).
Uma
máquina executa o processo técnico de retroacção, definido como circuito de
regulação, assim como – senão de maneira tecnicamente mais reflectida – o
sistema de mensagens da língua humana. É por isso que a última etapa, se não
for a primeira, de todas as teorias técnicas, é explicar «que a língua não é
uma capacidade reservada ao homem, mas uma capacidade que partilha até um certo
grau com as máquinas que desenvolveu» (Wiener, op. cit., p. 78). Uma tal proposição é possível se se admite que o
próprio da língua está reduzido, isto é, limitado à produção de sinais, ao
envio de mensagens.
No
entanto, também a teoria da informação vai, necessariamente, de encontro a um
limite. Porque «cada tentativa de tornar unívoca uma parte da língua (pela sua
formalização num sistema de sinais) pressupõe o uso da língua natural, mesmo
não sendo ela unívoca» (C. Fr. Von Weizsäcker, A língua como informação [5]). A
língua «natural», quer dizer, a língua que não foi por princípio inventada e
imposta pela técnica, é sempre conservada e permanece, por assim dizer, como
pano-de-fundo de toda a transformação técnica.
Aquilo
que é aqui nomeado por língua «natural» – a língua corrente não tecnicizada –
nós denominámo-la no titulo da conferência por língua da tradição (überlieferte Sprache). Tradição não é
uma pura e simples outorga, mas a preservação do inicial, a salvaguarda de
novas possibilidades da língua já falada. É esta que encerra o informulado e o
transforma em dádiva. A tradição da língua é transmitida pela própria língua, e
de tal maneira que exige do homem que, a partir da língua conservada, diga de novo
o mundo e por aí chegue ao aparecer do ainda-não-apercebido. Ora eis aqui a
missão dos poetas.
O
título desta conferência, «Língua da tradição e língua técnica», não designa,
pois, apenas oposição. Atrás do título da conferência esconde-se a alusão a um
perigo a crescer constantemente e que ameaça o homem no mais íntimo da sua
essência – a saber, na sua relação com a totalidade daquilo que foi, do que vai
vir e que presentemente é. O que num
primeiro momento se apresenta somente como uma diferença de dois géneros de
língua, afirma-se como um acontecimento que domina o homem e que não toca e não
abala mais nada do que a relação do homem com o mundo. É um desmoronamento do mundo do qual o homem nota, contristado, os
sobressaltos, porque é continuamente coberto pelas últimas informações.
Também imporia examinar se face às forças da época industrial o ensinamento da língua materna não se torna outra coisa senão a simples transmissão de uma cultura geral por oposição à formação profissional. Era preciso considerar se este ensinamento da língua não mereceria ser, mais do que uma formação, uma meditação sobre o perigo que ameaça a língua, quer dizer, a relação do homem com a língua. Ora uma tal meditação revelaria ao mesmo tempo a dimensão salvadora que se abriga no segredo da língua, na medida em que é ela que sempre nos conduz de um só golpe à proximidade do inefável e do inexprimível.
(In Martin Heidegger, Língua de Tradição e Língua Técnica,
Vega, 2.ª edição, 1999, pp. 30-42).
[1] Wilhelm von Humboldt, Über
die Verschiedenheit des menschlichen Sprachbaues und ihren Einfluss auf die geistige
Entwicklung des Menschengechlechtes (Berlin 1836). Facsimilada da edição original de
1836, Bonn: Dümmlers Verlag 1960, t. 20, p. 221.
[2]
Gerhard Storz, Sprache und Dichtung,
Munich: Kösel-Verlag 1957.
[3] Sagan: como em Unterwegs zur Sprach, 252, Heidegger recorreu à
ortografia arcaica para sublinhar aquilo que, segundo ele, é o sentido primeiro
de Sagen, dizer como mostrar.
[4]
Norbert Wiener, Sprache und Dichtung,
Francfort: Kösel-Verlag, 1952.
[5] Carl Friedrich von Weizsäcker, Sprach als Information, in: Die Sprache, Quinto lançamento da publicação anual Gestalt und Gedanke, Munich: Verlag R. Oldenburg 1959, p. 70.

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