Escrito por José Freire Antunes
«Caetano
era um homem só. Contra si tinha quase toda a gente: o cartel à sua direita e
abrigado em Belém, uma parte da Igreja, poderosos industriais e financeiros
como Champalimaud, os liberais desiludidos como Sá Carneiro e, de forma
determinante, os generais que não tinham ganhado a guerra. Foi neste contexto
de medição de forças, e de contagem de armas e tanques, que JJ sentiu um frio
de gelo em seu redor. Caetano adiou sucessivamente a audiência: “Ele pensava
que Jardim queria tomar o poder em Moçambique.” [Entrevista: Pedro Feytor Pinto].
A entrega dos fundos que JJ tinha a receber do Ministério da Defesa, através de
Florêncio de Almeida, foi protelada. Alpoim Calvão, outro voluntarista das missões
especiais, sugeriu por essa altura a Costa Gomes a criação de um esquema
similar ao de JJ para a Guiné e países limítrofes. Costa Gomes recusou e disse-lhe
para se limitar a cumprir as obrigações correntes: “O único agente secreto é o
Jardim. E esse já nos chega.” [Entrevista: Guilherme de Alpoim Calvão]. Nas
memórias de JJ, escritas num período dramático da vida, Costa Gomes ocupa o
mesmo lugar que o Diabo tem na teologia; mas não foi ele sozinho o responsável
pela hostilidade que havia em Lisboa: “O Jardim não era uma pessoa em quem se
confiasse. Era admirado e temido, mas ninguém confiava nele.” [Entrevista:
António de Almeida Santos]. Sentindo o chão fugir-lhe debaixo dos pés, JJ
apelou à velha amizade e provocou uma conversa sincera com Rebelo de Sousa.
Ficou então a perceber tudo: já não tinha a confiança governamental.
Contribuíam para isso as suas deslocações a Lusaka, a relação com o
ex-frelimista Domingos Arouca e os rumores quanto “ao meu entendimento com o
Dr. Almeida Santos!” [JJ, Moçambique Terra Queimada, p. 191]. Rebelo de Sousa diz que JJ lhe mostrou os documentos
de Lusaka negociados com Kaunda e defendeu-os como a única via para se sair do
impasse: “Eu estava convencido de que não era solução e disse-lhe que isso
estava fora de causa.” [Entrevista: Baltasar Rebelo de Sousa]. Jardim abandonou
a casa de Rebelo de Sousa, na Rua de São Bernardo, com uma sensação mais nítida
do seu isolamento político. Pombeiro de Sousa veio ter com ele a Lisboa e foram
os dois a Londres, onde guardaram o “Programa de Lusaka” num cofre bancário.
Outro parceiro de muitas vivências que JJ tentou cativar foi Kaúlza, activo contra Caetano mas tolhido pelo escândalo que Carlos Fabião provocou, ao atribuir-lhe um plano de golpe de Estado, o que deu origem a um inquérito inconclusivo. O ex-comandante-chefe de Moçambique conspirava na orla de Tomás, mas falhou a sua tentativa de ser nomeado para o lugar de Caetano: “O almirante Tomás não foi capaz de o substituir.” [Entrevista: Kaúlza de Arriaga]. JJ procurou-o em casa, na Avenida João XXI, e revelou-lhe o “Programa de Lusaka”. Ficaram a falar até de madrugada, o cônsul do Malawi com um programa revolucionário nas mãos para o “seu” Moçambique, e o general desejoso de soluções enérgicas para as quais achava Caetano incapaz. Kaúlza concordou com JJ num ponto: Caetano não tinha condições para continuar a defender África. Mas discordou dos planos de Lusaka: “A solução do Jardim era tornar Moçambique independente, uma coisa parecida com a Rodésia. Eu disse-lhe, quando me mostrou o plano de Lusaka: ‘Jorge, não posso concordar com isso, é uma traição a Portugal [...] Você deve é ajudar-nos a mudar o governo em Lisboa.'” [Entrevista: idem]. No início de Março, também Adriano Moreira, crítico da governação de Caetano e por ele marginalizado, lhe disse que o projecto de Kusaka não era viável, durante uma viagem que ambos fizeram ao Liechtenstein, para uma reunião do Instituto de Estudos Políticos. JJ foi percebendo que ninguém comprava a sua ideia, mas não queria parar, dispondo-se a quebrar a “legalidade”. [JJ, MTQ, p. 205]. Só que, para além da literatura autojustificativa de JJ, Récio diz que a sua grande fraqueza era que se recusava interiormente a “romper com Portugal”. [Entrevista: Álvaro Récio]. Rebelo de Sousa considera que o "Programa de Lusaka" redundaria, pura e simplesmente, na entrega de Moçambique à Frelimo. [Entrevista: Balasar Rebelo de Sousa]. Foi o que acabou por acontecer sem a participação de JJ.»
José Freire Antunes («Jorge Jardim – Agente Secreto»).
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«Vale
a pena analisar aqui, tanto quanto é possível, a mais de vinte anos de
distância, se a ideia da inclusão do Dr. Álvaro Cunhal no I Governo Provisório
parte realmente do general [Spínola], como ele próprio admitiria em entrevista
de fim de carreira (e já admirador do Dr. Mário Soares), em 1984, ao
historiador José Freire Antunes, ou se ela parte do primeiro encontro com Mário Soares. Ora, dados os sentimentos anticomunistas do general Spínola, dada a sua
amplamente demonstrada ignorância política e o facto de se saber que Mário
Soares teria dito ao general que se Cunhal não entrasse ele também não entrava
para o Governo, parece evidente que a decisão foi influenciada decisivamente
pelos socialistas. Aliás, Soares diria a Dominique Pouchin de forma peremptória
que Spínola não era então favorável “à presença dos comunistas no governo”.
Também me parece duvidoso, e nenhum registo existe que o confirme, que tenha
sido o próprio secretário-geral do PCP a reivindicar tal lugar! O que implica
que estando à partida excluída a hipótese de terem sido os comunistas a
insistir na sua participação – e não devemos esquecer que o PCP em Abril de 1974 ficaria satisfeito com a sua mera legalização – estamos perante a
probabilidade de ter sido o próprio Mário Soares, na sua primeira entrevista
com Spínola, graças ao apoio de Raul Rego, quem lançou Cunhal para o I Governo,
a fim de ele próprio se tornar indispensável na pasta dos Negócios
Estrangeiros!
(...) Torna-se mais credível que ao
insistir junto de Spínola na inevitabilidade da presença do Dr. Cunhal no
Governo se estivesse ele próprio a tornar inevitável como sendo, na altura, o
socialista e, provavelmente, o português mais bem credenciado para ocupar a
pasta dos Negócios Estrangeiros, de que necessitava para se autopropulsionar
internacionalmente. Político comprovadamente astuto, sabia que em Portugal os
próximos anos passariam pela vertente internacional e que o seu futuro político
teria que passar pelas Necessidades. Também sabia que no Partido Socialista não
existia na altura “um centavo” e que o controlo dos financiamentos
representaria igualmente o controlo do partido.
(...) Embora surpreendidos com o golpe [do
25 de Abril], a satisfação com a queda do regime de Marcello Caetano foi
unânime em todo o mundo e nenhuma dificuldade existiria para o reconhecimento
do novo Governo. Aliás, antes mesmo de Mário Soares iniciar, a 2 de Maio de
1974, o seu périplo com a finalidade de alegadamente obter reconhecimento e
apoio para o novo regime, já se tornara mais que evidente que a nomeação de
Spínola para Presidente da República, a declaração do MFA e a composição da
Junta de Salvação Nacional eram mais do que indícios suficientes para
tranquilizar os aliados tradicionais de Portugal. O que já lhes era mais
difícil de aceitar – isso sim – era a inclusão de Álvaro Cunhal e de dirigentes
comunistas no governo.
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E não se pense que as objecções a tal precedente num país da NATO, eram só dos EUA. Os socialistas presentes em governos europeus de países da NATO, como os da Grã-Bretanha, Alemanha, Noruega e Dinamarca demonstraram igual perplexidade! É portanto neste contexto que se devem compreender as manobras e o círculo vicioso de contra-informação e decepção em redor da nomeação de Mário Soares para ministro dos Negócios Estrangeiros. A sua principal missão não era o reconhecimento internacional que estava “automaticamente” garantido, nem a abertura a Leste – que aliás não era um interesse vital, excepto para o Partido Comunista. Tão-pouco a de abertura de conversações com os Movimentos de Libertação, visivelmente desejada por todas as partes. Era sim, sua missão, convencer os parceiros ocidentais de que embora permanecendo fiel à NATO e a todos os compromissos internacionais de Portugal, o I Governo Provisório iria contar com a presença de comunistas fiéis à estratégia planetária de Moscovo! Afinal as reticências com que o PCP assinara o acordo com Mário Soares não se justificavam e os soviéticos tinham fortes razões para estar satisfeitos.
Apesar da fama e prestígio que adquirira, essencialmente derivados das suas qualidades militares e, posteriormente, pela coragem de enfrentar Marcello Caetano, Spínola não tinha condições políticas para ser chefe de Estado. E nenhum dos seus conselheiros foi capaz de o demover da ideia de incluir o PCP no governo. Que Mário Soares o tivesse feito compreende-se, dado o ainda fresco programa de acção comum e a subalternidade a que o PS parecia disposto a submeter-se. Agora que Freitas do Amaral também o tenha aconselhado nesse sentido é deveras surpreendente e mostra, de facto, as grandes responsabilidades que a direita teve no avanço comunista em Portugal.
Ora, uma vez mais ficou demonstrado que foram os erros da direita democrática e a surda colaboração dos socialistas que permitiram o avanço dos comunistas, bem inseridos na estratégia global da União Soviética. Os socialistas, embora opondo-se, e bem, ao plano de Spínola e Palma Carlos, demonstrariam grande passividade em todo o processo, aparecendo sempre como suporte das posições de Álvaro Cunhal. Teria sido mais sensato e, certamente, no interesse da democracia e de Portugal que, dadas as afinidades “republicanas” e “maçónicas” com Palma Carlos, fossem utilizados, através das tão invocadas relações internacionais, meios de persuasão para convencerem Spínola da loucura que estava a cometer! Foi também, talvez, o primeiro grande erro político de Sá Carneiro, que se deixara arrastar pelas pretensões de Spínola. O segundo, provavelmente ainda maior, foi a sua saída do Executivo em solidariedade com Palma Carlos. Foi, sem dúvida, um gesto de grande dignidade mas politicamente fútil, que abriu ainda mais o flanco à penetração comunista.
Os erros políticos de Spínola, já então internacionalmente reconhecido como politicamente incompetente, acumular-se-iam. Na tentativa de encontrar um novo primeiro-ministro de sua confiança tenta, sem primeiro preparar o caminho de aceitação junto dos homens do MFA, que por ele ainda nutriam sentimentos de amizade, lançar o tenente-coronel Firmino Miguel. Depois, perante a recusa do MFA, comete o erro fatal de preferir Vasco Gonçalves a Melo Antunes, por este “ser demasiado marxista”!».
Rui Mateus («Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido»).
«Confirmando as ameaças que "O
Diabo" já havia denunciado, Mário, o primeiro-ministro que hoje –
infelizmente – temos, resolveu ir à Assembleia pedir "autorização
legislativa", além de estruturas e "mecanismos", para, sob o
pretexto da "defesa do Estado democrático" e da sua autoridade,
conseguir todo um sofisticado aparelho de protecção à própria clique política
de que faz parte.
Foi um discurso que, pelo seu cinismo, me teria surpreendido há uns tempos atrás. Mas, agora, já nada me surpreende naquele que, esquecido do passado, mostra a sua verdadeira face: ambicioso, susceptível, ameaçador, ferozmente apegado ao mando. Difícil me é ver no actual primeiro-ministro, o Mário Soares que em tempos me dizia:
"Você tem que acabar Os Revolucionários que eu conheci, pois é um serviço que está a prestar ao País".
(Pois, Mário, acabei (ou talvez não...) os "Revolucionários";
mandei-te um exemplar e nem sequer acusaste a recepção...).
Um verdadeiro democrata, o nosso
primeiro-ministro... como se vê.
Discurso cínico, dizia eu, ou talvez
apenas um arrazoado farisaico, que não deixou também de ser um indisfarçável
grito de pânico face às gravíssimas responsabilidades que, mais tarde ou mais
cedo, terá que assumir. E não apenas ele, claro. De resto, na "peça
oratória" lida com o desplante que agora o caracteriza, está bem nítido o
dedo do seu adjunto, cujos óculos partidos continuam a ser, ridiculamente, o
grande cavalo de batalha das investidas deste poder sem pudor.
E porquê toda esta necessidade, toda esta "urgência" frenética de "protecção ao Estado" manifestada pelo chefe da dita clique socialista e governamental?
Já o disse mais do que uma vez. Apeados
dos lugares de privilégio, impossibilitados de manejar os maquinismos do poder
a seu favor, como iriam eles, por exemplo, enfrentar impunemente o tremendo
libelo que representam os crimes da chamada "descolonização
exemplar"? E, já que Mário Soares tanto fala de terrorismo, alguém poderá
imaginar terrorismo maior e mais desumano que o que se seguiu a essa amputação
de Portugal? Quantas dezenas ou centenas de vidas inocentes foram ceifadas?
Quantos danos materiais e morais? Quantas torturas? Quem terá que responder por
tudo isso?
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Como iriam justificar, também, este
arrastar, aparentemente incompreensível, do julgamento do "caso
Delgado"? Mais de quatro anos não foram ainda suficientes? Ainda não estão
reunidas todas as condições para que surja a "verdade" que o
"gang" de Argel quer impor? Ainda há mais livros a editar para que o
"puzzle" se complete? O anunciado programa televisivo sobre o
"caso Delgado"
(Programa para o qual fui convidada a depor, não o tendo feito por
exigir que não houvesse cortes)
já
tem agora os cortes e os "condimentos" necessários à "preparação
psicológica" do público? A tese oficial ainda tem brechas a colmatar?
Ainda há gente disposta a ir contra ela?
Compreendo as atribulações do
primeiro-ministro Mário, ex-democrata. Compreendo na perfeição este
"rapidamente e em força" em defesa da "autoridade do
Estado". Do Estado? Oh eufemismo! Que descaramento! Oh "totalitarismo
renascente" e engravatado!
Compreendo também como seria ingrato e
perigoso para os elementos desse grupo terem de assumir tais responsabilidades
como qualquer cidadão comum, sem prerrogativas excepcionais, sem acesso aos
manípulos do poder.
Daí a necessidade de "aconselhar" e o atrevimento de ofender e até intimidar (mais uma vez...) a Magistratura.
Daí a vertigem de acabar com a imprensa independente, transformando esses jornais, como desesperadamente se pretende, em "organizações fascistas",
(O meu jornal poderá alguma vez ser
fascista, Mário Soares?)
para depois os abater ao abrigo de leis que já estão na forja com esse declarado objectivo!».
Vera Lagoa («A Cambada»).
«Para Pacheco de Amorim, a tentativa de Spínola de controlar pessoalmente a transição em Angola, marginalizando o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, para evitar a reprodução do modelo de descolonização moçambicano e guineense, decretou o fim do Presidente da República. Esta estratégia permitiu, pois, a convergência de interesses entre o Clube de Bilderberg – patrocinador inicial de Spínola – e o PCP, todos interessados nas independências africanas contra qualquer outra hipótese, inclusive a federalista.»
Riccardo
Marchi («À Direita da Revolução: Resistência e Contra-Revolução no PREC
[1974-1975]»).
«Contudo, se é evidente para muitos, mesmo muitos socialistas, que foi o discurso de Zenha que desencadeou a ruptura com o PC, não é ainda claro para a grande maioria que a mudança de Mário Soares só teria lugar após os incidentes do 1.º de Maio, no estádio com o mesmo nome. Foi a sua “vaidade” ferida, ao não o deixarem entrar na tribuna daquele estádio, impedindo-o de estar ao lado de Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, para onde este se dirigira, que precipitou a sua ruptura com o PC. Até então, como comprova o seu comportamento até àquela data, Henry Kissinger tinha razão em o considerar o “Kerensky” português. Durante os últimos doze meses alimentara esperanças em relação ao Programa Comum com o PC, que só não se concretizara porque os comunistas o não quiseram a seu lado. “A falta deve-se unicamente aos comunistas” [Mário Soares, Portugal: Que Revolução?, ed. cit., p. 93]. Se não tivesse então ocorrido tal incidente e Soares, despeitado, não passasse também ao ataque, que viria a ter como pano de fundo o conhecido slogan – “Soares e Zenha não há quem os detenha” – é provável que ainda em 1975 tivesse ocorrido uma cisão no seio do próprio Partido Socialista, com o afastamento do secretário-geral. A tal não acontecer, dada a lealdade demonstrada por Salgado Zenha, o resultado teria sido, pelo menos, a transferência do apoio americano para Sá Carneiro, que atrairia a si grande parte do movimento socialista. E, por essa via, o posterior reconhecimento do seu partido pela Internacional Socialista».
Rui Mateus («Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido»).
«As direitas, inclusive a militar spinolista, encaram mal a demissão de Spínola. Segundo Jaime Zúquete da Fonseca, Spínola já tinha demonstrado fraqueza política perante Marcello Caetano aquando das conversações com Sengor. O oficial recorda ter alertado Spínola, já Presidente da República e por indicação de Dias de Lima, acerca da filiação no PCP do tenente-coronel Robin de Andrade, membro do gabinete militar de Belém. Spínola ter-lhe-á respondido que estava ao corrente da situação mas que tinha pleno controlo sobre os oficiais comunistas, o que demonstra a ingenuidade política do general. Na mesma linha, o major Sanches Osório, de visita a Spínola no dia 10 de Maio de 1974, recorda o desabafo de Firmino Miguel sobre a tragédia iminente, estando o general convencido de controlar militares e civis quando, na verdade, estava por completo ultrapassado por estes. A ingenuidade confirma-se a 28 de Setembro, com a debandada do general perante os seus oficiais, prontos para o defender fisicamente. O próprio Zúquete da Fonseca – que atribui a maior responsabilidade do descalabro ao coronel Galvão Melo – tinha mandado preparar dois helicópteros com canhão e uma companhia de pára-quedistas para defender o Palácio de Belém, mas o medo de Spínola da guerra civil falou mais alto.»
Riccardo
Marchi («À Direita da Revolução: Resistência e Contra-Revolução no PREC
[1974-1975]»).
«Sabíamos
que o general tinha consultado Villemarest, bastante antes da revolução, daí a
curiosidade natural de procurar saber o que entre ambos se tinha passado.
Villemarest
não ficou surpreendido, sabia da nossa curiosidade e não se fez rogado:
Avisei-o do fracasso a que estava
destinada a revolução em perspectiva. Eram muitos e vários os quadrantes
políticos interessados no desmembramento da última potência colonial. Portugal
era o alvo a atingir, morto que estava o dr. Salazar, escolho intransponível,
dado o seu inquebrantável nacionalismo.
Por um lado a “maçonaria africana”,
por outro lado a “Trilateral” e ainda os comunistas estacionados em Praga.
Um golpe de estado em Portugal
condenava a independência da nação. Bastante antes da data prevista para o “golpe”
acedi a um encontro com o general Spínola, a pedido deste, e aí lhe transmiti
todos os meus receios. Ele ficou consciente de que condenava o Ultramar
português ao ferrete comunista, mas confiava no seu arrogante e impertinente “ego”,
convencido que não seria ultrapassado pelos seus inferiores.
Hoje, necessariamente que a classificação a dar-lhe, poderá ser de traidor ou idiota. Prefiro a última, por mais verdadeira.»
Entrevista a Pierre de Villemarest («Autópsia do “25 de Abril”»).
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| Paradela de Abreu |
«Jorge
Jardim foi, indiscutivelmente, o impulsionador dos movimentos de contestação ao
poder instituído em Portugal com o 11 de Março, mas acabou por apostar,
sobretudo, naquilo que inorganicamente se afirmava como movimento "Maria
da Fonte" e que foi, nos seus traços essenciais, a capacidade de pôr o
povo na linha da frente do combate anticomunista. Esteve em tudo: desde os
financiamentos ao desenho concreto dos passos a dar no terreno.
"A própria designação "Maria da Fonte" nasceu quase telepaticamente. Após um longo diálogo, eu e Jorge Jardim exclamámos ao mesmo tempo um para o outro: "Mas isto pode chamar-se 'Maria da Fonte!'", explica-nos Paradela de Abreu, com as mesmas palavras que mais tarde escreveria no livro Do 25 de Abril ao 25 de Novembro...».
Eduardo Dâmaso («A Invasão Spinolista»).
Por alguma ironia do destino, cheguei a travar conhecimento com
o filho de Paradela de Abreu, com quem doravante convivi na mais pura amizade.
Advogado de profissão, o Pedro Paradela de Abreu teve, inclusivamente, um convergente papel, embora não intencional, na minha aproximação ao movimento da
filosofia portuguesa, ao sugerir-me a leitura do Ensaio sobre a Liberdade de Stuart Mill, em tradução revista e
prefaciada por Orlando Vitorino. Ora, neste prefácio podemos ler o seguinte: "Insistindo
sobre o carácter triádico do pensamento, Álvaro Ribeiro mostra como ele não
promana apenas do trinitarismo religioso cristão nem da dialéctica triádica
hegeliana, mas constitui uma constante até nos pensadores que são culturalmente
situados num dualismo como o de Aristóteles, num monismo como o de Platão, ou
num pluralismo como o de Demócrito. Mostra, por exemplo, que, no mesmo aristotelismo,
a dualidade de potência e acto se completa com o terceiro termo da perfeição. E
para efeitos de maior comunicabilidade, não hesita em aceitar a tríade cultural
da verdade, da beleza e do bem, tríade claramente superior à que ainda hoje domina
a retórica política: liberdade, igualdade e fraternidade. Seguida destas
noções, a liberdade necessariamente perde o seu carácter próprio de
singularidade universal, contrário à identificação dos iguais e dos irmãos.
Além disso, no domínio do pensamento, nem a índole quantitativa da igualdade, nem
a mistura sentimental e intelectual da fraternidade, possuem o poder e a excelsitude
da liberdade, e isso muito embora a igualdade se possa sublimar, como no
aristotelismo, em justiça, e a fraternidade, como na Igreja, em bem.
Seria, todavia, conveniente que se apresentasse à reflexão dos homens a tríade daqueles princípios que, sendo os de maior compromisso filosófico, são também os de maiores e mais extensas consequências: a verdade, a liberdade e a justiça."
Miguel Bruno Duarte
«JJ teve uma vida extraordinária repleta de zonas de
obscuridade e de fantásticos enigmas. Para não fugir à lei dos mistérios que
sempre o arrastou pelos ventos da sorte também a sua morte, aos 63 anos, em
Libreville, se presta ainda a dúvidas. Fazem uns pairar a suspeita do seu
assassinato, outros não excluem a hipótese de “suicídio”. [Entrevista: Carlos
Graça]. A aventura do Interbanque, de que JJ era director-geral e onde tinha
como sócios, entre outros, o presidente Bongo e Carlos Garcia, um empresário da
Costa do Estoril, não primou pela rentabilidade. Joaquim Queirós de Andrade,
fundador do Banco Comercial de Angola, era dono de uma casa de câmbios no
Brasil quando em 1980 se tornou, a pedido de JJ, accionista e membro da
administração do Interbanque. JJ disse-lhe logo na primeira conversa que
costumava ser muito prudente nas suas iniciativas e que, se por acaso morresse,
gostaria que fosse ele a tomar conta do banco: “Era homem apaixonante e com uma
capacidade de trabalho como nunca vi a ninguém.” [Entrevista: Joaquim Queirós de
Andrade]. Queirós de Andrade chegou a ser apresentado por JJ ao Ministro das
Finanças do Gabão, mas a certa altura discordou da estratégia de fundo: o
Interbanque tinha despesas gerais elevadas, antes de fazer lucros ou receitas,
e JJ orientava-o rudimentarmente como “um banco de negócios”. [Entrevista: idem]. O cambista afastou-se por isso da
administração, mantece boas relações com JJ, mas afirma que quis sobretudo
preservar a sua reputação profissional ao largar o Interbanque. A experiência
do Malawi subordinava claramente a tentativa empresarial de JJ.
O Gabão produzia muito pouco e JJ tentava virar-se
para onde podia. Tentou montar, em parceria com Costa Pinto, uma exploração de
Gado, mandando ir a Libreville o veterinário e amigo dedicado Silva Costa;
fundou uma empresa de prestação de serviços, a Progabon, e a certa altura ficou
fascinado pelo negócio de madeiras. O Gabão, com florestas ainda virgens, tinha
um grande potencial nesse domínio. JJ passou seis meses na Europa, em 1981, e
andava entusiasmado com a ideia de associar-se a uma empresa italiana detentora
de maquinaria sofisticada para o corte de madeira. [Entrevista: Francisco da
Costa Pinto]. Mas também Costa Pinto saiu do Interbanque, no fim de 1981, por
razões disfuncionais da natureza do banco e da mentalidade local: “Assediavam-me,
inclusive ministros, e às tantas fiquei apavorado. O volume de créditos era
excessivo, para uns indivíduos tesos. Fiquei cheio e disse ao Jorge que me ia
embora.” JJ despediu-se dele com louvores: “Creia que sinto com muita mágoa o
seu afastamento.” Doze meses antes de morrer, por cautela ou por intuição, JJ
redigiu um documento com instruções para os amigos e a família, caso algo lhe
acontecesse. Fez questão de guardar o original no cofre do Interbanque, a que
deveriam ter acesso Carlos Frederico ou os amigos Carlos Graça e Max Senyi, se
o filho não estivesse no Gabão. Actualizou o texto sucessivamente com
acrescentos. Queria ser trasladado para Moçambique, de preferência para o
cemitério do Dondo, “onde tantas horas felizes vivemos e onde tantos sonhos
acalentámos”. [Os restos mortais de JJ encontram-se hoje num cemitério em
Queluz.] Alguns anos antes, nas sequelas do 7 de Setembro e do 28 de Setembro,
JJ tinha confessado a Tudela: “Talvez que um dia volte a Moçambique mas só o
farei quando aquela terra for inteiramente moçambicana e nela não existam
ingerências coloniais.” No rol das suas indicações práticas sobressai a garantia
de que nunca se suicidaria, desde logo por causa das suas convicções
religiosas. Assim sendo, por concludentes que fossem as aparências da morte, JJ
pedia que investigassem “quem me possa ter suicidado”. Esta parte do texto indiciava
um problema grave e Costa Pinto estranha gravemente, em retrospectiva: “Não
percebo porque é que não lhe fizeram autópsia.” O núcleo das amigáveis
referências póstumas de JJ incluía Raul Ventura, Fabien Ombouma, no palácio do
Bongo, e Philippe Lettéron, residente em Versailles.
Carlos Graça lembra que JJ tinha muitas dificuldades no Interbanque e confidenciou-lhe que a parte gabonesa não correspondia às promessas. Parecia às vezes intranquilo, aconselhava o exilado são-tomense a ser também cauteloso, pois os inimigos de cada um eram muitos e havia que estar prevenido: “Dizia-me: ‘Temos de ter muito cuidado. Eu não quero é cair nas mãos deles. Por isso tenho sempre comigo este comprimido de cianeto.’ Dizia isto.” Três dias antes da sua morte, em Lisboa, JJ falou com Raul Ventura no Hotel Sheraton. Estava muito preocupado com o Interbanque e apostava tudo no negócio de madeiras com os italianos para poder salvar o seu projecto. A mulher, Palmira Barral, ficou em Lisboa quando JJ partiu para Libreville, onde ia decorrer a assembleia geral do Interbanque. Em 1 de Dezembro de 1982, segundo a versão dada por Carlos Frederico (já falecido) a um velho amigo do pai, Francisco Fino, JJ estava sentado a uma mesa, com a mão na cabeça, a ler um contrato: “Alguém perguntou: ‘Qual é a sua opinião, Eng.º Jardim?’ Já não respondeu. O Carlos Frederico constatou que ele estava morto.” Foi levado para a clínica mais próxima: o coração tinha parado e as tentativas de reanimação não resultaram. Carlos Graça, que dias antes receitara uns anti-espasmódicos a JJ, quando ele se queixara de dores abdominais, chegou à clínica e aceitou a opinião dos colegas: paragem cardíaca. Mas uns dias depois, pensando melhor, Carlos Graça disse ao filho mais velho de JJ: “Devíamos ter feito autópsia.”».
José Freire Antunes («Jorge Jardim – Agente Secreto»).
JORGE JARDIM: AGENTE SECRETO
Moçambique
tornou-se independente em 2 de Junho de 1975. Apenas Cunhal e Vasco Gonçalves
estiveram na cerimónia oficial que em Maputo consagrou 13 anos de luta da
Frelimo. Os dois homens eram expoentes da mesma realidade: o poder comunista
num Portugal em fim de império. Das terras do Índico partiram cerca de 200 mil
portugueses, muitos deles profundamente arreigados, com vidas inteiras de
investimento e de trabalho, sem haveres na Europa. Técnicos, empresários,
professores, médicos, advogados ou simples pés-descalços saíram como puderam,
rumo à África do Sul e à Rodésia, de barco, de avião ou de carro, num êxodo
trágico da história portuguesa. JJ, o «rei de Moçambique», o milionário sem
fortuna, o agente de Salazar que Kaunda também usou, ficou na periferia
política até morrer. Mas no exorcismo ideológico da Frelimo não deixou de
ocupar um demoníaco relevo: «Eles tinham um ódio profundo ao Jardim.» [1]
Machel instalou um regime radical, uma democracia popular, uma mescla das
experiências de Leste e de circunstancial liturgia: «Jardim vai-te embora,
Samora vem com a paz.» [2] O
programa de nacionalizações da Frelimo abarcou quase tudo o que podia chamar-se
iniciativa privada, a começar pelas profissões liberais, e uma burocracia
partidária omnipotente emergiu no lugar da burocracia colonial. O tempo em
Moçambique era de voragem política, de supressão violenta das minorias
sociológicas e religiosas e de corte traumático com a lusofonia.
Sobre
o vácuo deixado pelos portugueses verificou-se na África Austral uma
imensurável projecção do poder soviético. O MPLA dependeu das legiões de Fidel
Castro para dominar Angola e as tropas da Frelimo recebiam treino russo. Em
1978, a União Soviética, os países satélites da Europa Oriental e Cuba
mantinham 21 625 militares em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Durante o
período 1973-1977, segundo estimativas americanas, Moscovo forneceu 340 milhões
de dólares em armamento ao MPLA e 40 milhões à Frelimo. [3] Até
mesmo o permeável Kaunda acusou os efeitos vorazes da estratégia de Moscovo: «O
KK está cada vez mais preocupado com a situação naquela parte de África, pois
sente-se cercado por países comunistas (russos): Angola, Moçambique e, agora
até a Tanzânia, onde o Nyerere expulsou os chineses e está a dar uma grande
abertura aos russos». [4] A
sovietização de Moçambique pareceu irreversível. Contingentes de quadros da
Frelimo receberam anualmente formação no Instituto Andropov, em Moscovo,
dependente do KGB; o Serviço Nacional de Segurança Popular (SNASP), organizado
pelo SSD (ou «Stasi») da Alemanha de Leste, implantou centros de reeducação por
onde passaram milhares de dissidentes; e a embaixada russa em Maputo adquiriu a
dupla dimensão de um centro de controlo endógeno e de irradiação subversiva
para a Ródésia. [5]
Cahora Bassa, finalizada em 1977 com empréstimos pelos quais Portugal era
responsável, como detentor de 80 por cento da Hidroeléctrica de Cahora Bassa,
suscitava o principal contencioso bilateral na área financeira. Machel
nacionalizou bancos e outras instituições; havia, em contrapartida, ouro
moçambicano em Lisboa. Em 1977 a África do Sul substituíra já Portugal como a
maior fonte das importações da pátria de Mondlane. Durante cinco anos a cisão
entre Moçambique e Portugal foi incontornável e ditada por traumas.
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| Barragem de Cahora Bassa |
Boa parte daquilo que Machel logrou em Moçambique tinha já sido materializada em Portugal após o 11 de Março. As nacionalizações inspiradas pelo PCP destruíram literalmente uma economia aberta, que em 1974 tinha a mais elevada taxa de crescimento da Europa. Esta realidade não camuflava as graves injustiças sociais: mas o modelo de mercado foi substituído pela estatização forçada. Muitos empresários, listados no índex da «sabotagem económica», deixaram voluntária ou coercivamente o território nacional. Champalimaud emergiu da luta com Caetano sendo por este acusado de contribuir para a queda do regime, fez do Brasil a base dos seus investimentos e garantiu emprego a muitos quadros das empresas em Moçambique. [6] Boullosa escapou em 21 de Maio, porque o avisaram de que no dia seguinte ia ser preso. [7] Tudela relatava o que ouvia e o impressionava: «O senhor MB nunca mais veio a Portugal e consta que não pode aqui entrar enquanto não repuser os 2 milhões de contos que tirou de Portugal depois do 25 de Abril. Isto são apenas boatos, mas penso, pelo que sei, que a verdade não deve andar muito longe desta notícia.» [8] As task forces soviéticas operavam eficazmente no Estado e na sociedade, ante o alheamento de uma América envergonhada pelo escândalo e manietada pela crise interna, o KGB servia-se de novos recrutamentos e de fulminantes rotações ideológicas de uma legião de oportunistas, e o PCP subordinava o MFA. Foi assim vitoriosa a ofensiva de Cunhal contra os seus alvos predilectos: «Os verdadeiros senhores de Portugal eram os Melo, os Espírito Santo, os Champalimaud, formando uma autêntica quadrilha de grandes capitalistas e proprietários.» [9] Portugal viveu sob uma ditadura militar. A legitimidade democrática foi esmagada pelo poder revolucionário e as eleições de 1975, ganhas pelo PS, secundados pelo PPD, de nada valeram ante a máquina trepidante de Cunhal, então o verdadeiro senhor de Portugal. Soares demorou um ano – até o comício do 1.º de Maio, onde foi fisicamente impedido de falar por elementos da Intersindical – a perceber o sentido profundo da sua aliança com o comunismo. JJ rejubilava com um mundo repentinamente às avessas: «O que mais me diverte é ver que os socialistas já são alcunhados de “fascistas”, “reaccionários” e sei lá o quê. Nunca esperei ter tantos correligionários dessa banda.» [10] Mobilizou-se entretanto o país conservador e as forças da resistência e da luta anticomunista organizaram-se em torno dos moderados das Forças Armadas e de algumas estruturas da Igreja Católica.
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| Assalto e incêndio da sede do PCP em Ponte de Lima no Verão Quente |
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| Localização de Ponte de Lima |
Verão nortenho: «Maria da Fonte»
João
Braga, um fadista afamado, conhecia JJ desde 1971, quando ambos frequentavam o
restaurante Comodor, na Baixa de Lisboa. No Verão de 1974, como muitos civis de
direita, Braga envolveu-se activamente na política em resposta ao apelo feito
em nome de Spínola por oficiais como José Sanches Osório, Alpoim Calvão,
Fernando Cavaleiro e Correia de Campos. Os planos falharam e o 28 de Setembro
passou à história escrita pelos comunistas como o dia em que Spínola quis fazer
um golpe de Estado. Seguiram-se retaliações e prisões, mas Braga fugiu para
Madrid, onde deparou com uma autêntica Arca de Noé de proscritos: gente do
Partido do Progresso, do Partido Liberal e de outros grupos direitistas. Em
Janeiro de 1975, foi contactado por um tal comandante «Jorge Pereira»,
supostamente espanhol, que queria conversar sobre a situação em Portugal. A
troca de impressões arrastou-se entre as seis da tarde e cinco da manhã e Braga
não suspeitou: «Achei que era sul-americano: cabelo puxado para trás, cheio de
brilhantina, bigodinho à Clark Gable, sempre a falar espanhol... Só quando
entrei em casa dele, e vi uma fotografia, é que percebi que aquele tipo era o
Jardim.» [11]
A partir daí, num convívio regular, Braga detectou em JJ a obsessão de voltar a
Moçambique e um fervor pelas questões de África. Em Portugal, na comunicação
social controlada pelo PCP e por grupos à sua esquerda, o antigo enviado de
Salazar era uma figura a abater: «Para todos eles, que têm sido os principais
fomentadores da campanha contra o Senhor Engenheiro Jardim, nada há a fazer
para os encaminhar na informação correcta e verdadeira.» [12] Em
Moçambique, na novel propaganda marxista-leninista, era uma referência cimeira de tudo aquilo que a Frelimo queria expurgar: «De momento, e enjoado de tanta
calúnia amargurante, cuido de organizar a minha vida na Europa onde,
felizmente, não me falta em que trabalhar.» [13] Na
Rodésia e na África do Sul, para Flower e van den Bergh, a sua validade tinha
expirado. O cerco era total e parecia demolidor.
JJ
passou ao longo de 1975, como muitos outros, por um processo de desestruturação
interior. Era um trunfo fora do baralho africano, a sua terra adoptiva de
fartas emoções, penava sem horizontes por lugares de exílio, sentiu a friagem
dos marginais: «Ainda continuo, assim como a família, a ter imensas saudades de
África.» [14]
Andava ainda às voltas com os dinheiros do futebolista Alfredo, Boullosa ficara
de lhe resolver o caso, foi ajudado por um ou outro amigo, e fazia como era
típico dele um bluff optimista para
animar devotos: «Penso ter razões [...] para admitir que o próximo Natal será
por nós passado em Moçambique.» [15] A
ideia de combater e afrontar pela escrita surgiu-lhe no final de 1974. Estava a
preparar «cadernos» incómodos sobre Moçambique, com base em documentação
arquivada, e planeava editá-los em França: «Tenho o primeiro alguma coisa
adiantado e penso intitulá-lo: Moçambique
– Quem Traiu?» [16] A
partir de Lisboa, a sua mulher, âncora silenciosa, a braços com uma dúzia de
filhos e muitas dificuldades, ia-lhe relatando com pesar o desconforto
inesperado de gente conhecida: «Referia-se concretamente à mulher do Kaúlza
(amigos nossos de sempre) com quem apenas conseguiu uma vez entrar em contacto
telefónico.» [17]
Só a consciência de que tinha lançado a confusão nos espíritos de velhos conhecidos
minorava a mágoa de JJ pela situação de Teresa Jardim e dos filhos: «Com esta
mania dos “frios” ainda acabam por constipar-se, embora eu tenha de entender
que os meus amigos de tendência “ultra” me olhem com desconfiança por não
entenderem as minhas atitudes”. [18] Nele
não confiava Kaúlza de Arriaga, que foi preso pelas novas autoridades em
Caxias, nem muitos outros, para quem JJ tinha sido fonte de inspiração, ou
aliado circunstancial, e se revelara afinal um gerador de equívocos. JJ ficava,
em contrapartida, muito grato a Otelo por se ter prontificado a proteger a sua
família: «Estou, efectivamente, muito agradecido ao brigadeiro Saraiva de
Carvalho pela correcção, pouco em moda, que sempre tem evidenciado no que
respeita a mim e aos meus.» [19] O
isolamento e a nostalgia de África debilitavam JJ. Mas logo passou ao
movimento, e aos sítios arriscados, quando a temperatura subiu a norte do Tejo.
Ajudado
por João Braga e António Estarreja, outros exilados, JJ traçou um plano para
lançar perturbações em Portugal e em Moçambique. O seu activismo passou por um
opúsculo policopiado, «Viriato», e pela constituição, em Maio de 1975, de uma
estrutura artesanal, a «Maria da Fonte». O «Viriato» recorria à linguagem
radical da esquerda e era distribuído através de um mailing inspirado em
programas de rádio, entre os quais um de Artur Albarran. Tudo era rudimentar, e
feito no apartamento de JJ, em Madrid. Mas o opúsculo chegou a ser tomado em
alguns jornais espanhóis por uma poderosa organização de extrema-direita, com
tentáculos por toda a Europa. [20] JJ reactivou antigos conhecimentos e chegou ao arcebispo de Braga, D. Francisco
Maria da Silva. João Braga, Paradela de Abreu e António Estarreja, ajudados a
passar a fronteira por Miguel Sousa Machado, foram falar com ele e levaram uma
carta de JJ. [21]
O arcebispo de Braga, inicialmente céptico quanto ao envolvimento da Igreja,
acabou por encaminhá-los para o cónego Eduardo Melo, um polarizador da luta
anticomunista, que tinha gente organizada. Nasceu assim a «Maria da Fonte», inspirada
na revolta popular novecentista contra os Cabrais: «Mais dia, menos dia, a
“Maria da Fonte” acontecerá e nisso não quero perder a oportunidade de
intervir “discretamente”, mas com alguma incidência directa.» [22] JJ
assegurou também ligações com o Movimento Democrático de Libertação de Portugal
(MDLP), grupo liderado por Spínola e que tinha base operacional em Madrid. Aí
se juntaram, em alvoroço, vários dissidentes do MFA, como o major Sanches
Osório, ex-Ministro da Comunicação Social e um dos primeiros a rebelar-se
contra a comunização em marcha.
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| Alpoim Calvão |
O
irrequieto Alpoim Calvão foi para Espanha, a seguir ao 11 de Março, e tornou-se
um dos dirigentes do MDLP. Retomou o contacto com JJ, intermediário entre os
spinolistas e a «Maria da Fonte», e embrenhou-se com ele em «operações
especiais» de fronteira. Os dois entraram em Portugal para fazer uma
coordenação de forças: «A primeira vez que o Jardim me levou ao Norte, tivemos
um encontro com uma série de homens da Igreja ligados à «Maria da Fonte». Mas,
mal fez a ligação, ele voltou para as coisas de África, que eram a sua ideia
fixa.» [23]
Francisco van Uden ajudou a família Jardim, na Beira, a seguir ao 25 de Abril.
Foi expulso dos GEP em Julho de 1974, depois de um conflito com o seu
comandante, coronel José Pinto Ferreira, subitamente decidido a limpar a tropa
especial de antifrelimistas. Pinto Ferreira mandou-o chamar ao seu gabinete,
onde estava também o comandante dos GE, Jorge Serras Pires, e acusou-o de
colaborar com JJ: «Dizia que eu era um homem do Jardim dentro dos GEP. Eu disse
que não, que era um oficial do Exército português. Exigi depois, num plenário,
na base aérea da Beira, que os meus homens não fossem desarmados e entregues à
Frelimo.» [24]
Afastaram-no e deram-lhe guia de marcha para Lisboa. Juntou-se em Agosto aos
promotores da manifestação da «maioria silenciosa» e em 26 de Setembro foi
emitido contra ele um mandado de captura; ainda chegou a falar com Spínola em
Belém, mas fugiu para Espanha. O comando van Uden integrou-se depois no
Exército de Libertação de Portugal (ELP), um grupo de acção directa, cuja
criação é atribuída a Barbieri Cardoso, e que lançou uma série de perturbações
anticomunistas: «Os do MDLP, de certa maneira, fingiam que eram eles que faziam
as acções, para conseguirem financiamentos. Mas no fundo era o ELP que a fazia.» [25]
Também van Uden se encontrou com JJ, em Madrid, juntando-se às tertúlias
clandestinas de foragidos e de organizadores da reacção violenta à hegemonia
marxista. Alpoim Calvão, o invasor de Conacry, JJ, o «general» de Mecanhelas,
van Uden, o capitão dos GEP: uma roda combustível de guerreiros fora do mato.
João Braga diz que JJ e ele reuniram grupos para efectuar sabotagens nas linhas
telefónicas entre Portugal e Espanha. O fadista congregou, por outro lado, uma
série de indivíduos no Porto e reclama ter passado então à prática: «Havia
comunistas que na altura andavam a incendiar as florestas do Norte. Apanhámos
essa ideia e desatámos a incendiar as sedes do PCP». [26] No
final de Agosto, perante a multiplicidade de sinais críticos, a clivagem entre
radicais e moderados nas Forças Armadas, os constantes rumores de golpe de
Estado, JJ intuía: «começo a crer que isso está a cair de podre. Nem vale a
pena empurrar. E é pena porque o 25 de Abril (que começou tão bem) podia acabar
numa coisa bonita!». [27]
Viviam círculos de exilados na esperança de que Spínola, o africanista vencido
pelo MFA em África, o perdedor de Setembro, recuperasse sebastianicamente um
ano depois. JJ subestimava já o facto de o general lhe ter atado as mãos na
questão de Moçambique e não escondia a sua ansiedade: «A rádio (portuguesa e
estrangeira) anuncia a vinda de Spínola para a Europa e o intento de realizar,
em breve, levantamento nacional contra os comunistas ou para-comunistas.» [28] Melo
Egídio, comandante de um novo organismo militar, o AMI, foi acusado pelos
jornais de esquerda de colaboração com JJ. Costa Gomes esclareceu, em nota a
Belém, que ele agira em funções oficiais. Faltou acrescentar, ironizou JJ, que
Melo Egídio queria operar no Malawi com as milícias de Daniel Roxo, e ele
opôs-se, preferindo as operações de Mecanhelas, cujos régulos foram graduados
em oficiais do Exército. O segundo motivo de discordância foi de ordem
política: «Também nos pegámos, já na recente fase final, porque o Melo Egídio era
francamente “patriota” e opositor da política de autonomia-independência que
nós advogávamos. E assim se faz a história. E assim se fabricam democratas!» [29] Mas
as actividades rebeldes de JJ em Madrid, meses depois da morte de Franco,
começaram a trazer-lhe problemas de segurança. O seu amigo Sanchez Bella
sugeriu-lhe então: «Porque não vais para uma ilhazinha?» [30] JJ
aproveitou a deixa e mudou-se para Las Palmas, nas Canárias. Arranjou uma
moradia, na encosta da montanha, e aí viveu cinco anos.
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| Aglomeração militar no Rossio (25 de Novembro de 1975). |
A
confrontação arrastou Portugal para muito perto da guerra civil. O desenlace
ocorreu em 25 de Novembro, quando o grupo militar chefiado por Ramalho Eanes,
que incluía José Alberto Loureiro Santos, Alípio Tomé Pinto e Vasco Rocha
Vieira, tendo por braço armado os comandos de Jaime Neves, consumou o
contra-golpe. Era uma exaltante lição de voluntarismo para um JJ à deriva e
ávido de batalhas: «Efectivamente foi bastante que o coronel Neves (e honra lhe
seja) se tenha resolvido a dar umas rajadas, de cima de umas viaturas
pré-diluvianas e com 400 homens atrás para logo tudo se sumir. A Polícia
Militar rendeu-se heroicamente e as maiorias entregaram-se à prisão; o glorioso
e impante RALIS seguiu o mesmo caminho ordeiro quando soube que os tanques de
Santarém se avizinhavam, com o rufia-duelista do Diniz de Almeida a entregar-se
sem resistências.» [31]
Otelo, inspirador carismático e bandeira a meia haste dos militares radicais,
perdeu a sua cartada por hesitar na hora decisiva. Talvez também por isso JJ
simpatizasse com ele, além de lhe dever atenções que não esqueceria. Pedia a
Tudela que lhe desse um abraço e somou ao afecto uma «análise» de amigo: «Em
determinada fase o Otelo reuniu todas as condições para poder salvar Portugal
do caos e da anarquia, num ambiente de justiça e reconciliação nacional.
Poderia, mesmo, ter evitado o terrível drama da descolonização.» [32] Mas
para JJ era óbvio que o destino de Otelo, junto de Costa Gomes, o seu ódio de
estimação, só poderia ter sido aquele: «A ligação que o Otelo teve ao Costa
Gomes e a confiança que nele depositou estão na base de tudo quanto veio a
acontecer-lhe. Não o avisei tantas vezes que assim seria?» [33] O
Portugal não comunista respirou com o 25 de Novembro de 1975, data de partida
para a legitimidade popular e a institucionalização da democracia de tipo
europeu. Era certo que a Constituição consagrava a via do socialismo e Portugal
demoraria ainda 11 anos para abrir a banca à iniciativa privada e rejeitar as
febres terceiro-mundistas que bloqueavam o desenvolvimento de Portugal e
aumentavam a pobreza em nome do marxismo. Mas o sonho de Cunhal tinha sido
desfeito pelo grupo de Eanes e pelos comandos de Jaime Neves.
A África Austral passara entretanto por uma convulsão irremediável. Duas semanas antes do 25 de Novembro, apoiado nas tropas de Fidel Castro, o MPLA proclamou a independência de Angola. O VI Governo Provisório não reconheceu a iniciativa e apenas delegações do PCP e da extrema-esquerda foram à cerimónia em Luanda. Desde a Primavera que Brezhnev e Fidel Castro vinham ampliando o seu apoio ao MPLA e foi sob o comando de cubanos e soviéticos que o grupo de Neto reforçou posições em Luanda, em Julho de 1975, levando a UNITA e a FNLA a recuarem para Sul. A task force da CIA para Angola tinha a noção correcta de que Rosa Coutinho favorecia o MPLA e tudo faria para entregar o poder ao movimento pró-soviético. Gerald Ford e Henry Kissinger pediram à África do Sul e ao Zaire que socorressem a UNITA e a FNLA: «Os americanos prometeram-nos que minariam o mar em volta de Luanda, para nós tomarmos a cidade e pormos Savimbi no poder.» [34] Mas a intervenção dos Estados Unidos em Angola foi globalmente desastrosa. Ford e Kissinger davam prioridade aos acordos SALT com a União Soviética e estavam bloqueados pelo Congresso. As tropas sul-africanas, enfrentando cerca de 15 mil empolgados cubanos, progrediram no terreno e isolaram o MPLA: «Estivemos tão perto que as nossas tropas podiam ver as luzes de Luanda [...] Mas os americanos, à última hora, apunhalaram-nos pelas costas. Então decidi que não ia continuar a travar as guerras do Ocidente por eles em África: e mandei retirar as nossas tropas.» [35] As “tordesilhas” firmadas entre Ford e Brezhnev, na cimeira de Vladivostok, tinham-se saldado a contento de ambos nos ardores da Guerra Fria: Angola ficava na esfera soviética, Portugal não saía do âmbito da NATO. Era evidente, como notou JJ, que as «hesitações ocidentais» deparavam com a «firmeza soviética». [36] Entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, em 18 meses vertiginosos, os portugueses saíram de África. Cerca de 500 mil fizeram a saga dos Descobrimentos ao contrário.
(In Jorge Jardim – Agente Secreto, D. Quixote, 2.ª edição, 2023, pp. 557-567).
[1] Entrevista: Domingos Arouca.
[2] Frente de Libertação de
Moçambique, Hinos da Revolução, 1975,
p. 60.
[3]
United States House of Representatives, Hearings Before the Subcommittee in
Africa of the Committee on Foreign Affairs, U.S. Interests in Africa, Ninety-Sixth Congress, First Session, pp.
48-61.
[4] JJ a Pombeiro de Sousa, 23 de
Outubro de 1976.
[5]
Christopher Andrew-Oleg Gordievsky, KGB.
The Inside Story (Harper Perennial, 1991), pp. 555-556.
[6] Entrevista: António Vaz.
[7] Entrevista: Manuel Boullosa.
[8] Tudela a JJ, 28 de Setembro de
1974.
[9] Álvaro Cunhal, A Revolução Portuguesa (Lisboa: Dom
Quixote, 1975), p. 31.
[10] JJ a Pombeiro de Sousa, 28 de
Agosto de 1975.
[11] Entrevista: João Braga.
[12] Tudela a JJ, 4 de Setembro de
1974.
[13] JJ a Tudela, 10 de Outubro de
1974.
[14] JJ a Pombeiro de Sousa, 6 de
Janeiro de 1975
[15] JJ a Tudela, 11 de Janeiro de
1975.
[16] JJ a Pombeiro de Sousa, 13 de
Janeiro de 1975.
[17] JJ a Pombeiro de Sousa, 24 de
Fevereiro de 1975.
[18] JJ a Tudela, 11 de Janeiro de
1975.
[19] JJ a Tudela, idem.
[20] Entrevista: João Braga.
[21] Entrevista: Waldemar Paradela de
Abreu.
[22] JJ a João Braga, 4 de Setembro
de 1975.
[23] Entrevista: Guilherme de Alpoim
Calvão.
[24] Entrevista: Francisco van Uden.
[25] Entrevista: idem.
[26] Entrevista: João Braga.
[27] JJ a Pombeiro de Sousa, 28 de
Agosto de 1975.
[28] JJ a João Braga, 4 de Setembro
de 1974.
[29] JJ a Pombeiro de Sousa, 30 de
Outubro de 1975.
[30] Entrevista: Palmira Barral.
[31] JJ a João Braga, 29 de Novembro
de 1975.
[32] JJ a Tudela, 15 de Janeiro de
1976.
[33] JJ a Tudela, idem.
[34] Entrevista: P. W. Botha.
[35] Entrevista: idem.
[36] JJ a João Braga, 10 de Dezembro de 1975.
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