terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

As Teses da Filosofia de Álvaro Ribeiro

Escrito por Orlando Vitorino








«No princípio era a Perfeição, o espírito homogéneo e puro. No segundo momento, mercê do efeito dum mistério, temos o espírito diminuído e a seu par a diferença que se tornou heterogénea, isto é, o mundo. No terceiro momento, reintegrar-se-á o espírito puro, pela absorção final de todo o heterogéneo. Assim, três são os instantes supremos do crescimento. Um: é o espírito homogéneo e puro, que foi e há-de voltar a ser. Eis o ponto de partida e eis o ponto de chegada. Outro: é o espírito puro mas diminuído actualmente, pelo destaque separativo do universo. Enfim, o outro ainda: é esse universo, que aspira a regressar ao homogéneo inicial. Nós não podemos compreender como foi esse mistério da diferenciação de parte do espirito puro. Porém, que ele dado se houvesse é necessário: para que, um tanto inteligentemente, o enigma universal nos seja, ainda que em seu limiar, acessível».

Sampaio Bruno («A Ideia de Deus»).



«... [a] persistência da Escolástica, e dentro da Escolástica o aristotelismo, combatido por uma linha de pensadores que vai de Francisco Sanches a Luís António Verney, e também de Amorim Viana a Sampaio Bruno, pareceu sempre como um enigma irritante a todos quantos não compreenderam a peculiaridade mental dos povos ibéricos. A Escolástica existe pela conciliação escolar do texto morto, mas sagrado, com a tradição viva e livre. É também a conciliação da ordem religiosa com a ordem filosófica no problema de Deus, modo monárquico ou mono-árquico, de assegurar a liberdade de pensamento e, consequentemente, as liberdades adjectivadas.

Desviados da linha medieval, erraram os escolásticos modernos quando aplicaram à Física de Aristóteles o canon de escrituras sagradas, lendo como texto perene os livros que haviam resultado de sérios processos de observação e experimentação naturais. A obra lógica, ética e metafísica de Aristóteles permaneceu válida nas suas linhas essenciais e resistiu a todas as críticas impertinentes; assim o entenderam os componentes do escol nos povos peninsulares; mas seja-nos permitido afirmar que a interpretação portuguesa da filosofia de Aristóteles é superior à interpretação alemã
. Lida directamente, e não através de comentadores que adaptaram às circunstâncias contingentes e às oportunidades pretéritas, a obra de Aristóteles refulge no brilho do seu pensamento essencial, e continua a ser saudada por quantos actualizam a sua cultura». 


Álvaro Ribeiro («A Literatura de José Régio»).


«No domínio mais rigorosamente filosófico, o hegelianismo é pela primeira vez afirmado entre nós como o sistema essencial de toda a formação filosófica por um livro que abre, em 1944, a fecunda polémica, já hoje anacrónica, sobre a afirmação da existência das filosofias nacionais. Não terá Álvaro Ribeiro abandonado esta espécie de fidelidade a Hegel, mas tem dedicado os seus posteriores livros a uma revalorização do pensamento de Aristóteles, o que não só pode ver-se concordante com o hegelianismo, como se conforma melhor com a nossa tradição filosófica. Tal hegelianismo promoveu, entretanto, as primeiras traduções portuguesas de obras de Hegel.

Revertendo de Hegel para Aristóteles, aquele pensador cedeu às tendências da cultura portuguesa que, sempre que procura os seus fundamentos e caminhos filosóficos, é no aristotelismo da escolástica medieval, ou no aristotelismo dos conimbricenses da Renascença, ou no aristotelismo reconstituído do século XVIII pelo Padre João Baptista, ou na última tentativa aristotélica de Silvestre Pinheiro Ferreira, que encontra aquilo que, ao concluir uma revisão da história da nossa filosofia, o Prof. Delfim Santos pôde assim definir: "Aristóteles é o pensador sempre presente em todos os momentos do pensamento nacional"».


Orlando Vitorino (pref. à 1.ª Edição dos «Princípios da Filosofia do Direito» de Hegel).


«(...) a ideia de Bruno (...) segundo a qual não se compreende a filosofia senão quando se cria, começa a correr subterraneamente. Volverão longos anos antes que ela possa ser vista a toda a luz, volverão longos anos até se tornar possível mostrar quanto pelo progresso do conhecimento em Portugal realizou Leonardo Coimbra. Será necessário mesmo, para tal, que ele tenha partido de sobre a face do mundo e de ante os olhos dos homens. É quase regra sem excepção que os grandes pensadores são apenas pressentidos enquanto existem: quando admirados ou repudiados, são-no pelo mais exterior e acidental de suas personalidades ou suas obras. Só a maturidade intelectual permite superar a cultura de necrópole».

José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).








«E o facto de Cristo é o facto dum ser humano que pensou como ninguém, como ninguém amou, como ninguém viveu e como ninguém soube morrer.

Mais: este ser humano era senhor da vida e da morte, dava saúde aos doentes, limpava os leprosos, era a luz dos cegos, ressuscitava os mortos e dava ordens aos elementos, aplacando as tempestades e fazendo, mais depressa que o Sol do firmamento e o húmus da terra, crescer e multiplicar-se o pão.

Este homem foi morto profetizando a própria morte e a ressurreição, aparecendo aos discípulos para além da morte e mandando-os à conquista do mundo, levando sempre como companheira a dor inseparável mas também a invisível presença do seu Espírito consolador».


Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).






As Teses da Filosofia de Álvaro Ribeiro


Coube-me a mim escolher e apresentar algumas teses da filosofia de Álvaro Ribeiro.

Uma tese é uma posição. O pensador anuncia uma tese como o jogador põe na mesa uma carta, ou o estratega ocupa um lugar, uma posição no campo de batalha. O pensamento é uma sucessão de teses como o movimento é uma sucessão de posições.

Concedendo à linguagem corrente, como cumpre à filosofia, mas não perdendo de vista o sentido mais próprio das palavras, como também cumpre, reservaremos a palavra tese para as posições do pensamento, a palavra posição para as teses do movimento. E porque não podemos esquecer que o pensamento é ininterrupto e interminável movimento, há sempre uma ligação entre as sucessivas posições, como há uma articulação entre as sucessivas teses. As sucessivas posições demarcam um caminho, as sucessivas teses articulam-se em sistema. Nada é, pois, imóvel e fixo: o caminho é o que o movimento percorre, o sistema é onde o pensamento decorre.

Um dia, em conversa peripatética entre as sombras frescas de um jardim lisboeta, José Marinho prendeu-me o braço, deixou Álvaro Ribeiro adiantar-se um pouco e, olhando-o com admiração e enlevo amigo, murmurou-me: “O Álvaro pensa como um coração pulsa: sem cessar”.

O pensamento e o coração. O pensamento e a vida. As posições de que a vida é feita e as teses que compõem o pensamento. Uma biografia de sucessivas posições e uma biografia de sucessivas teses. Ninguém, melhor do que Álvaro Ribeiro, ilustraria um exemplo real, a conotação entre uma e outra.

Toda a gente tem uma biografia interior ou íntima e uma biografia exterior ou social. Entre ambas, que decorrem paralelas, há momentos de conflito, que podem ir até à tragédia ou se ficam na resignação melancólica e triste, e há momentos de concordância e harmonia.

Na generalidade dos homens, a biografia íntima é composta de sentimentos. No pensador, ave rara, ave metafísica, como disse Sant’Anna Dionísio de Pascoaes, a biografia íntima é composta de pensamentos. Pensamentos, assim no plural, é palavra imprecisa, apesar de Pascal a ter consagrado, é uma construção gramatical. Em rigor filosófico, em boa verdade filológica, a palavra pensamento não tem plural. Um mesmo pensamento habita cada um de nós e decorre, sem alteração substancial, em sucessivas teses. Tal como cada um de nós é o mesmo em todo o percurso das posições por que vamos passando desde o nascer ao morrer.





As teses da biografia íntima do pensador sublinham as posições da sua biografia exterior. Se conseguirmos estabelecer esta relação sublimante, conseguiremos apreciar a verdade concreta, a firmeza real das teses e do pensamento. Um exemplo: Álvaro Ribeiro teve uma infância difícil que lhe tornou tormentosa a transição à fala e para sempre lhe perturbou as capacidades de expressão oral. Todavia, enunciou a tese oposta a esta posição e empenhou-se permanentemente em afirmar e demonstrar que a fala é o mais elevado valor da natureza humana e a expressão a garantia da realidade, ou da verdade, do pensamento. Escreve, sobre esta tese, as melhores páginas que jamais se escreveram sobre a caracterização da língua portuguesa, da língua francesa e da língua alemã, como línguas da filosofia e, identificando a tradição com a pátria, enunciou a tese de que “a tradição é a língua”, isto é, de que na língua se guardam os significados, os conceitos e as ideias que, em suas sucessivas e múltiplas variantes, constituem a riqueza de pensamento de um povo, constituem a própria pátria, porque a pátria é uma entidade espiritual.

Outra posição de Álvaro Ribeiro foi a ausência de família, posição infeliz ou negativa em que o pensador firmou a tese contrária: a de que na família reside o elemento mais firme e fecundo da educação, não podendo nós esquecer que esta tese, de âmbito à primeira vista limitado, se amplia na tese inspirada na ética aristotélica, de que toda a filosofia é uma doutrina da educação ou uma teoria do ensino.

Ainda outra posição na biografia exterior de Álvaro Ribeiro, foi a da constante pobreza em que toda a vida viveu e, por vezes, muito sofreu. Todavia, o pensador, em vez de cair em qualquer vulgar preconização socialista da igual distribuição da riqueza, antes afirmou a sua concordância com as teses do liberalismo chegando até a enaltecer o positivismo – que doutrinariamente refutou – de Teófilo Braga por haver contrariado, com êxito, o republicanismo sindicalista de figuras da 1.ª República que lhe estariam mais próximas – dele, Álvaro Ribeiro – como o portuense Basílio Teles.

Álvaro Ribeiro tinha deste modo autorizadas razões, por ele postas à prova na carne e no sangue, para incitar os seus discípulos – e discípulos seus podem ser todos os leitores dos livros que deixou – a que aprendessem a reconhecer, como recomendou Aristóteles, a verdade guardada nos provérbios da sabedoria popular para conseguirem, sobretudo os menos dotados, “fazer das fraquezas forças”.

No limiar da maturidade, Álvaro Ribeiro viu-se numa posição que decidiu toda a sua posterior biografia íntima e biografia exterior. Foi nessa posição que descobriu a filosofia. Não se tratou, propriamente, de uma descoberta mas, como ele próprio escreve em A Arte de Filosofar, de um encantamento de que toda a vida ficou suspenso. Diz ele que, havendo-se orientado durante a adolescência liceal para o conhecimento matemático, criado a mais firme convicção de que aí residia o conhecimento com maior segurança no real, foi sujeito, ao entrar na Faculdade de Filosofia do Porto, a um repentino e deslumbrante encantamento – no sentido que a palavra tem quando referida à ave encantada pela serpente. O encantamento veio-lhe das lições de Aarão de Lacerda, de Teixeira Rego e de Leonardo Coimbra, e nunca mais o deixou, de tal modo que desta posição conservou a tese de que a filosofia não é pensamento ou ciência que o pensador adquire, mas sim um sopro ou murmúrio do espírito universal, que assim se realiza no espírito humano individual. No entanto, Álvaro Ribeiro, que toda a vida foi um pesquisador infatigável, não se poupando a trabalho algum de conhecimento, a esse trabalho reduziu seus méritos, que via mais como deveres do que como merecimentos, e o considerava, na tese pela qual hierarquizou o pensamento filosófico em trabalho, jogo e arte, o menos valioso, o mais acessível aos pensadores menos dotados. Superior lhe seria o pensamento lúdico, cujo génio atribuía a José Marinho. E superior a esse, o pensamento artístico, isto é, o pensamento filosófico exercido como uma arte, que atribuía a Leonardo Coimbra.



Leonardo Coimbra



Em nova posição o situa Leonardo Coimbra para quem “toda a filosofia é uma reactualização do platonismo”. Álvaro Ribeiro entrega-se com a persistência e a teimosia que lhe eram congénitas, ao estudo de Platão para dele fazer a sua dissertação de doutoramento. Esta posição resultou, porém, decepcionante: desvalorizou o platonismo, subestimou a expressão dialogante, minorou, por extensão, a arte dramática. E a decepção abriu caminho à tese contrária que viria a enunciar: o pensamento filosófico, necessariamente seguro de si, ou verdadeiro, não se exprime pelo diálogo, nem é, como em Kant, uma crítica; é, no conceito e na expressão, dogmático.

Conhecem-se as vicissitudes políticas e institucionais que levaram os discípulos de Leonardo Coimbra a abandonarem o Porto e a acolherem-se em Lisboa. Aí atravessou a biografia exterior de Álvaro Ribeiro uma época de perdição. Perdeu-se em veleidades de acção política, em tentativas de encontrar uma profissão tranquila e burguesa, em ressonâncias dos ódios da guerra de Espanha e primórdios da guerra mundial. Vê-se repelido pelas instituições, sofre dias de miséria, chega a lembrar essa época como a de uma condenação à “morte civil”. Longas horas, manhãs, tardes inteiras, em cafés de mulheres perdidas, em casas de fado, onde um amigo de ocasião o encontra alheado, distante e indiferente no dia em que a notícia da morte de Leonardo faz estremecer os portugueses, que nessa morte adivinharam próximo o fim da pátria. Mas a perdição, o abandono, a “morte civil” é também a posição de uma ociosidade em que se instala. Aprende um alemão elementar que, no entanto, lhe serve para corrigir as traduções francesas e italianas de Hegel a cuja leitura se entrega. E um novo mundo se abre.

Primeiro à biografia exterior. A um alto funcionário – a quem dedicaria um livro – preocupa-o ignorar o hegelianismo que anda nas vagas do mar político. A docência universitária que lhe é submissa, em nada lhe pode valer com o seu positivismo limitado e retrógrado. Alguém lhe fala de um pobre diabo que, talvez esse… O alto funcionário acolhe-o, humilde, no seu gabinete e, durante toda uma tarde, ouve-o, com surpresa e espanto, expor-lhe o hegelianismo. Virá a confidenciar que nunca presenciara tão profundo e humilde talento. Grato, designa-o para um emprego modesto mas tranquilizante.

Depois, a biografia íntima. Vencida a época de perdição, o regresso ao encantamento e à filosofia. O culto de Leonardo, agora mais vivo porque mais distante ou, como diria José Marinho, “tão próximo como se Leonardo tivesse vivido há mil anos”. E, com Hegel a que Leonardo não atendeu, um novo caminho a abrir-se, um caminho que levará Álvaro Ribeiro à teologia e a Aristóteles, a que Leonardo também não atendera. José Marinho acolhe-se a Lisboa, e Delfim Santos, Sant’Anna Dionísio, António Alvim já cá andavam, o primeiro vindo de Heidelberg muito germanizado, com Eudoro de Sousa. O convívio de adolescentes fortifica-se na maturidade, não saudoso de bons tempos jovens, mas bem integrado no presente e voltado ao futuro. E bem vivo, de uma vivacidade mantida pelo conflito representado, num extremo, pela fidelidade de José Marinho ao platonismo, ao leonardismo ortodoxo, até a um certo cristianismo filosófico e, no outro extremo, pelo hegelianismo de Álvaro a caminho do aristotelismo.

E outras teses, já de maior amplitude, mais inseridas na actualidade, se vão anunciar. A razão, o que se entende por ela, é insistentemente discutida e disso há repercussão no livro póstumo de Marinho, Verdade, Condição e Destino, uma obra-prima do pensamento e expressão literária da filosofia. A razão, com sua tendência para a razão extreme e judicativa, sempre foi suspeita a Marinho. Álvaro Ribeiro pesa-a e pensa-a com vagar, como é seu preceito que atribui, sem sensível ironia, a limitações pessoais. Ao que o leva é a comparar especulativamente a razão kantiana e a inteligência hegeliana. A superioridade de Hegel é-lhe patente. A razão judicativa de Kant, conduzindo ao primeiro apotegma pensar é julgar, repudia-a: o pensamento é muito mais do que o juízo, se acaso o juízo é já pensamento. Marinho, por sua vez, enunciará e fará seu preceito: não julgarás e acompanhará Álvaro Ribeiro no caminho que ele vai seguir. O caminho, inspirado pela afirmação de B. Croce de que a leitura de Hegel faz inteligentes os leitores, condu-lo à observação de que a razão é humana, o nome do espírito humano, e a inteligência é angélica. Introduz assim a angeologia, primeira fase da teologia, na filosofia da qual enuncia a tese de que consiste ela em transportar a razão humana à inteligência angélica. A teologia virá a seguir com a tese de que não há filosofia sem teologia, tese que começa por enunciar dizendo: filosofia sem teologia, não é filosofia portuguesa. Ao longe, repercutem vozes antigas, ainda enigmáticas mas inspiradoras, de Leonardo: toda a filosofia acaba em religião e a filosofia é a única oração eficaz.






Também a leitura, ou melhor, a meditação do hegelianismo pode estar na origem da afirmação – durante muito tempo escandalosa – da existência de uma filosofia portuguesa. Começa por aparecer tal afirmação numa carta enviada a José Marinho, ainda não recolhido a Lisboa: “… vamos fazer uma filosofia inculta, uma filosofia bárbara, enfim, uma filosofia portuguesa”. Depois, é o tema do seu primeiro livro O Problema da Filosofia Portuguesa. É que, sem filosofia, não há povo com autonomia e a possível inspiração hegeliana provirá da crítica de Hegel, na Ciência da Lógica, a Kant por “ter tornado inviável a metafísica”, como se um povo pudesse sem ela existir.

Álvaro Ribeiro estudou demoradamente a Ciência da Lógica mas era a Filosofia do Direito que mais o impressionava. Aí firmava, e mais directamente, a anterior tese. O ponto de partida será a cultura ou, como diz o idealismo alemão, a Bildung, o modelo formado pela metafísica, inserido pela cultura nas consciências pessoais e pelo direito na existência do povo.

Mas a tese da filosofia portuguesa é apenas a primeira tese publicada. O pensamento de Álvaro Ribeiro não cessava de prosseguir. De fiel constância às suas origens, sempre preso ao encantamento originário, o hegelianismo e a filosofia alemã, predominando sem reacção nem crítica nos países europeus, foi apenas um lugar de passagem de que se distanciou criticamente. Começou por recusar que a metafísica estivesse no cerne da filosofia e acabou até por considerá-la apenas o domínio em que a ciência moderna, reduzida ao tecnicismo, procurava encontrar fundamentos. Recusou, depois, que a filosofia pudesse dispensar a teologia ou, como Hegel preconizou num dos seus primeiros livros, que a morte de Deus, fazendo da filosofia a sexta-feira santa especulativa, fosse condição do pensamento filosófico, concepção ao lado da qual a tão gritada morte de Deus de Nietzsche, “esse pensador que só me causa repulsa” (escrevia Álvaro Ribeiro), não passa de um atrevimento de criança. Recusou, enfim, a noção de cultura dependente da metafísica e antes a referiu ao culto.

Porque não há culto sem teofania, ou religião sem origem revelada, também sem teofania não haverá teologia com garantia de verdade (e, anote-se, Álvaro Ribeiro entende por verdadeiro o real). O antiteísmo – como o de Nietzsche – será então uma impiedade que conduz à demência e o ateísmo uma consequência do analfabetismo, do não saber ler os sinais da natureza cristianizada pela encarnação, ou as letras das tábuas da lei dadas a Moisés. Se a poesia é feita de sinais e de letras, o grande poeta não é Pascoes nem Pessoa, mas Régio, a que chama “poeta da encarnação”, e a grande religião revelada é mais a hebraica do que a cristã porque a letra da lei, ou a palavra dos profetas, diz mais do que a natureza.

O afastamento de Hegel desenvolve-se na refutação da filosofia alemã, do predomínio que ela exerce sobre as filosofias nacionais europeias. Essa refutação incide especialmente contra o pessimismo e o desespero (que em Heidegger, seu último representante, se aliam ao ateísmo); contra a constância do primado do ser, noção abstracta e artificial, ilegítima substantivação de um verbo, que impede o primado do dever-ser; contra a linguagem idealista que altera os termos e noções da lógica, preparando-lhe a submissão às abstracções matemáticas, adulterando e subvertendo os modos do conhecimento, substituindo o silogismo pelo juízo; contra a prioridade absoluta da vontade, contra a fundamentação na vontade, bem como no poder e na força pelos quais ela se exerce, do direito que, na verdade, se firma na justiça, o reino de Deus.

Toda esta refutação se deduz da filosofia portuguesa e por isso Álvaro Ribeiro tem de afirmar, entre o escândalo dos seus compatriotas, que “a filosofia portuguesa é superior à filosofia alemã” enquanto, transitando do hegelianismo ao aristotelismo, neste reconhece, segundo antiga e esquecida expressão, a filosofia natural do espírito humano.




Na transição está o mesmo hegelianismo que Álvaro Ribeiro acaba por interpretar, em especial a sua Ciência da Lógica, como “uma confirmação do aristotelismo”. Então, depois, a escolástica anselmiana e a Kabbalah hebraica, com a prioridade que ambas dão à crença, isto é, à realidade ou ideia de Deus como condição absoluta da possibilidade de pensar para inteligir e para saber.

A ideia de Deus, - e dizer a ideia de Deus é afirmar a realidade de Deus – havia sido o princípio e a origem da filosofia portuguesa. Foi Sampaio Bruno quem a expôs e, por isso, Álvaro Ribeiro o reconhece, a ele e não a Leonardo, “o fundador da filosofia portuguesa”.

A ideia de Deus, em Bruno, não é, como na filosofia alemã, a de um Deus morto, mas a de um Deus diminuído e prisioneiro, o que explicará a existência do mal e do erro. Do mal, na natureza. Do erro, no homem.

Duas vias divergentes aí se abriram: a que, perante o Deus prisioneiro, orienta o espírito para a sua libertação, e foi essa a filosofia de José Marinho; e a que, desviando os olhos e a mente de qualquer diminuição de Deus, atribui a existência do mal aos erros dos homens que, a esses sim, se impõe redimir do mal libertando-os do erro, e foi essa a filosofia de Álvaro Ribeiro.

A filosofia do primeiro é uma ontologia do espírito com seu fim na liberdade divina. A filosofia do segundo é uma antropologia que, situada ou sitiada na misantropia que a existência do mal e do erro tornam inevitável, é, no entanto, consciente das infinitas potencialidades da natureza humana que a si mesma se ignora, e apresenta-se como uma doutrina da educação destinada a fazer do homem, libertando-o do erro, o privilegiado agente do espírito.

Em filosofia não há discípulos. Há mestres e epígonos. Os epígonos são ou não identificáveis pelos outros e por si próprios.

Álvaro Ribeiro, juntamente com José Marinho, foi o epígono de Leonardo e, com ele ao ascender a mestre, criou uma escola destinada a formar, não discípulos dóceis, fiéis e passivos, mas epígonos a quem cumpre adiantarem-se no caminho aberto, na heroicidade do espírito. Poderá hoje o povo a que pertencem, identificá-los ou não, reconhecê-los ou não. Mas deles depende o destino da pátria (in Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa, Fundação Lusíada, 1995, pp. 185-191).


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