domingo, 24 de janeiro de 2010

Filosofia Portuguesa e Universalidade da Filosofia (i)

Escrito por José Marinho






Como é possível conciliar o sentido universal da filosofia com o conceito de uma filosofia radicada? O problema equivale a este: se a ave tem asas, como se compreende que tenha pernas? Alguns dos homens mais inteligentes do País colocam-nos na urgência de examinar a questão. Não empreendo, aliás, a alheia apologia mas a própria: pois me vejo sentado no banco dos réus, prestes a ser condenado.

Várias vezes, com efeito, empreguei a expressão «filosofia portuguesa», quer em escritos de obscura sorte, quer em perdida palavra para ouvidos atentos e desatentos.

As condições melhoraram. É já possível falar-se de «filosofia portuguesa»: tal expressão começa a ter sentido ou aparece susceptível de alcançar algum sentido. Não certamente porque as pessoas interessadas reconheçam a legitimidade do conceito que pela expressão se traduz, mas porque não inferem já de lê-la ou ouvi-la claro sinal de que, quem a escreve ou profere, é um fantasista ou pessoa animada de inconfessáveis desígnios.

Sem dúvida, di-lo-ei desde agora, a defesa ou propugnação de uma filosofia portuguesa pode suscitar equívocos compromissos com o nacionalismo político, sem dúvida pode ela na aparência ou na bem real realidade favorecer a causa mesquinha do nacionalismo estreito. O «57», para que escrevo, já neste ponto procurou definir doutrina no seu número anterior. Contra o que temos visto em Portugal nos últimos anos, a tónica foi posta sobre pátria e patriotismo, não sobre nação e nacionalismo. Posso, pois, nos meus próprios termos exprimir aqui mesmo a minha tese valorativa da filosofia nacional, no sentido adiante explicado, tese por igual adversa a toda a espécie de nacionalismo biológico, tradicionalista ou pequenamente jurídico.

(...) Sempre me pareceu, ao considerar este debate tantas vezes surdo, mas como todos, sequioso de ar livre, contrastaria e ventilação, e honras sejam a Eduardo Lourenço e Joel Serrão por o terem aberto e francamente proposto*, debate travado principalmente em torno da notável obra de propedêutica filosófica de Álvaro Ribeiro, pois foi este subtil e bem informado pensador quem pôs o problema entre nós com toda a acuidade - que os adversários da filosofia portuguesa, diversamente atentos, três tópicos essenciais desatendem, a saber:

1.º Que o problema da filosofia portuguesa não é, em todo o sentido, problema estrita e restritamente português, mas um problema de âmbito mais geral e bem mais geral sentido;

2.º Que o haver laranjas de Setúbal, assim como nos permite e nos autoriza chamar-lhe laranjas portuguesas do mesmo passo aos deliciosos frutos e seu conceito não retira à forma única e universal sabor e sentido;

3.º Que afirmar a existência de uma filosofia portuguesa supõe estas duas coisas: uma capacidade própria de filosofar e seu exercício, o encontro de várias formas de análoga propensão em homens e obras diversamente significativas de uma tradição multissecular, tradição inegável ainda mesmo quando, haja de reconhecer-se descontínua, como eu escrevi já, ou difusa e dispersiva, como outros têm escrito (in Estudos sobre o pensamento português contemporâneo, Biblioteca Nacional, 1981, pp. 9-10).


E agora à margem do texto de José Marinho:

Ora, convém ter bem presente que Eduardo Lourenço jamais chegou a debater, aberta e francamente, a obra de Álvaro Ribeiro, tentando, ao invés, minorá-la, desqualificando-a pura e simplesmente. Assim, basta ver como, já em 1946, repudiara burlescamente o Problema da Filosofia Portuguesa como sendo algo eventualmente comparável à «técnica de fazer o melhor parafuso», quando não mesmo às «camisas ou água de colónia», ou ainda às «batatas da Dinamarca e [aos] automóveis de Detroit» (cf. Vêrtice, Vol. II, f. 7, Coimbra, Maio 1946).




De resto, é também sabido como E. Lourenço, após o 25 de Abril de 1974, tentou uma vez mais denegrir a filosofia portuguesa associando-a solidariamente ao "fascismo" (cf. O Labirinto da Saudade, Círculo de Leitores, 1988, p. 35). E, nisto, não deixa de ser igualmente espantoso como um abalizado escritor de informação meticulosa, como é Pinharanda Gomes, tenha dito que «Eduardo Lourenço admite que o movimento [da filosofia portuguesa] possa ter sido, por equívoco, suspeito de ligação à cultura do regime» (in A “Escola Portuense", Caixotim Edições, 2005, p. 12).

Além disso, António Quadros seria também aleivosamente acusado de haver radicalizado uma política imperial, mau grado ter manifestado, sob vários aspectos, uma reserva suficientemente crítica face a Salazar e ao regime do Estado Novo. A comprová-lo, aliás, está uma carta de António Quadros, datada de 24 de Setembro de 1969, para E. Lourenço, na qual avulta o seguinte:

«É possível que as notícias cheguem aí primeiro do que esta carta. Por enquanto (dia 26), a situação é esta: Salazar em coma; Presidente da República multiplicando políticas e démarches; boatos vários a este respeito, o mais insistente dos quais é o de que o candidato nº 1 é o Marcello Caetano, que se propõe uma certa liberalização (…) E, curiosamente, ambiente de calma. Mau grado o fogo de vista da imprensa e da rádio, a verdade é que o povo parece anestesiado. (…) Da Oposição, nada: nem um manifesto, nem um cartaz, nem uma folha clandestina. (…) Perdemos o sentido da Política e da História. Durante 40 anos fomos conduzidos pela mão por um Pai que sempre nos dominou com facilidade. Tudo o que sabemos fazer é interrogar os cinco minutos seguintes: morrerá, não morrerá? Quem será o Delfim? E é tudo. Os próprios críticos perderam a experiência da crítica. Os democratas não sabem que é e como se vive em democracia. Tenho a impressão de que todos os protestos eram atitudes, não actos e de que agora, os inimigos do velho Rei não sabem o que fazer...».

Entretanto, convém ainda relembrar o alegado «pecado de anti-comunismo» atribuído por Eduardo Prado Coelho a António Quadros, a um mês antes da ditadura gonçalvista. E, por fim, o que um tal de João Medina exarou em «Portugalinho ou Portugal?», a saber:

«… Fico na dúvida se o fito essencial do maior filósofo de Paio Pires seria, afinal, o de visar um director-geral em funções no Palácio Foz, onde outrora pontificavam os Ferros...» (in Diário Popular, 9-12-1976).



António Quadros

Continua

Nenhum comentário:

Postar um comentário