terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Língua de tradição e língua técnica

Escrito por Martinho Heidegger





Martinho Heidegger



A Escola» - isto significa o conjunto das instituições escolares desde a escola primária até à universidade. É esta última que é hoje provavelmente a forma de escola mais esclerosada, a mais atrasada na sua estrutura. O nome «universidade» perpetua-se pesadamente e apenas como um título fictício. Na mesma medida o nome «escola profissional» atrasa-se sobre aquilo a que se refere o seu trabalho na era industrial. É igualmente duvidoso que os propósitos relativos à escola que forma para uma profissão, a formação geral e a formação (Bildung) como tal, se apliquem ainda à conjuntura que a era técnica marca com o seu cunho. Poder-se-ia certamente objectar: que importam as palavras se é das coisas que se trata. Seguramente. Mas se acontecesse não existir para nós coisa alguma e nenhuma relação suficiente com uma coisa, sem a língua que lhe correspondesse e inversamente, não haveria uma verdadeira língua sem a justa relação à coisa? Mesmo quando atingimos o inexprimível, este não existe senão na medida em que a significação (Bedeutsamkeit) da palavra nos conduz ao limite da língua. Este limite é ainda, por si só, qualquer coisa que pertence à língua e que abriga em si a relação do termo e da coisa.

Assim, os termos «técnica», «língua», «tradição», tal como os escutamos, falam-nos, não nos deixam indiferentes. Tanto como saber se neles nos fala aquilo que hoje é, aquilo que nos tocará amanhã e que já ontem nos atingia. Também tentaremos no presente por nossa conta e risco indicar a direcção de uma meditação. Em que é que existe aqui um risco? Na medida em que meditar significa despertar o sentido para o inútil. Num mundo para o qual não vale senão o imediatamente útil e que não procura mais que o crescimento das necessidades e do consumo, uma referência ao inútil fala sem dúvida, num primeiro momento, no vazio. Um sociólogo americano reconhecido, David Riesman, em A Multidão Solitária, verifica que na sociedade industrial moderna o potencial de consumo deve, para assegurar o seu fundo (Bestand), tomar a dianteira sobre o potencial de tratamento das matérias-primas e sobre o potencial de trabalho. Contudo, as necessidades definem-se a partir daquilo que é tido por imediatamente útil. Que deve e que pode ainda o inútil face à preponderância do utilizável? Inútil, de maneira que nada de imediatamente prático pode ser feito, tal é o sentido das coisas. É por isso que a meditação que se aproxima do inútil não projecta qualquer utilização prática, e portanto o sentido das coisas é que se afigura como mais necessário. Porque se o sentido faltasse, o próprio útil ficaria desprovido de significação e por conseguinte não seria útil. Em lugar de discutir esta questão em si própria e de lhe responder, escutemos um texto retirado dos escritos do velho pensador chinês Tchouang- Tseu, um discípulo de Lao-Tseu:




A Árvore Inútil

«Houi-Tseu dirigiu-se a Tchouang-Tseu e disse: "Eu tenho uma grande árvore. As pessoas chamam-lhe a àrvore dos deuses. O seu tronco é tão nodoso e disforme que não se pode cortar a direito. Os seus ramos são tão torcidos e tortos que se não podem trabalhar com peso e medida. Está à beira do caminho, mas nenhum marceneiro a olha. Assim são as vossas palavras, senhor, e todos se afastam de vós ao mesmo tempo."

Tchouang-Tseu respondeu: "Nunca haveis visto uma marta que se põe à espreita com o corpo encolhido e que espera que qualquer coisa aconteça? Ela vai e vem correndo sobre as traves e não se impede de dar saltos elevados até que um belo dia cai numa armadilha onde perece por um laço. E depois há também o yak. É grande como uma nuvem de tempestade, eleva-se no seu poder. Mas não pode apanhar os ratos. Da mesma maneira vós tendes uma grande árvore e lamentais que não sirva para nada. Porque não a plantais numa terra deserta ou num campo vazio? Aí poderíeis passear na sua proximidade ou dormir à vontade sob os seus ramos sem nada fazer. O machado e a machadinha não lhe reservam um fim prematuro e ninguém lhe pode fazer mal.

Como é bom que nos preocupemos com uma coisa que não tem utilidade!"»
(in Martin Heidegger, Língua de tradição e língua técnica, Vega, 1999, pp. 7-11).


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