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| Leonardo Coimbra |
Há sempre, infelizmente, quem ignore o princípio das nacionalidades enquanto princípio mediador para o Uno. Ora, se «conhecer, compreender e não aniquilar» é o propósito leonardino na arte de filosofar, podemos então dizer que aquele princípio não é, decerto, um fim em si mesmo, mas tão-só um estádio no movimento ascendente de cada cultura, povo ou civilização a integrar no princípio universal de todas as coisas visíveis e invisíveis. Assim, não fora por acaso que Álvaro Ribeiro pudera igualmente dizer que a «análise histórica do que tem sido em Portugal a literatura, a política e a religião, manifestações directas da actividade do homem pensante, conclui pela falta de originalidade, isto é, pelo predomínio das escolas estrangeiras sobre as débeis tentativas do nacionalismo português» (cf. «Ausência e Presença da Filosofia», in Ensaio, Folha de Cultura e Opinião, n.º 2, Fev/Março, p. 4).
Entretanto, é também verdade que já José Marinho repudiara o nacionalismo a ponto mesmo de referir o «absurdo do nacionalismo-cristão». E mais dizia que, dada «a falta de sentimento religioso profundo e a ignorância filosófica e histórica», falar «da eternidade da pátria é um belo tropo, mas (…) não tem, segundo o espírito, nenhuma realidade» (cf. Ensaios de Aprofundamento e outros Textos, INCM, 1995, p. 47). Contudo, a Pátria é sempre mais do que um belo tropo, como o que desde logo transparece no nacionalismo cósmico e cristológico de António Correia de Oliveira:
O nascer é como a fonte;
Tanto que, na cristandade
Vem das águas do baptismo
O nascer à eternidade.
Tanto que, na cristandade
Vem das águas do baptismo
O nascer à eternidade.
Todas as pátrias são fontes
Na viva origem remota:
Umas abrindo em torrentes;
Outras, a andar gota a gota.
Na viva origem remota:
Umas abrindo em torrentes;
Outras, a andar gota a gota.
Às vezes basta uma fonte
No Deserto... Oh maravilha!
– Sem a Fonte Portuguesa
Quem ao Mar levara a bilha?!
No Deserto... Oh maravilha!
– Sem a Fonte Portuguesa
Quem ao Mar levara a bilha?!
Redondilhas
De pouco vale, no fundo, descartar o princípio das nacionalidades. Tudo depende, portanto, do modo como, à luz do espírito, concebemos, na sua autenticidade, o nacionalismo para além da história e da sociologia, evitando assim o desconhecimento, as mais das vezes académico, de que «todo o universalismo esconde nacionalismo e todo o nacionalismo tende a universalismo» (cf. Álvaro Ribeiro, «O Homem Português», in As Portas do Conhecimento, IAC, 1987, p. 299). Além disso, não é o nacionalismo redutível a um qualquer nativismo, nem muito menos um vago sentimento patrioteiro empiricamente organizado, sendo antes a expressão de uma cultura unificante, transcendente e universal à qual, com efeito, cabe assegurar jurídica e politicamente o seu direito de cidadania no tribunal das nações.
Daí, pois, segundo Álvaro Ribeiro o que mais importa saber quanto às raízes genuínas da fisionomia espiritual portuguesa:
«De encoberto a descoberto, o pensamento português, ou o modo português de filosofar, foi lido por alguns escritores da segunda metade do século XIX, cujos nomes figuram em qualquer história que não esteja maculada de feio sectarismo. Surgiu, porém, já no século XX um movimento doutrinal que se caracterizou pela notável superioridade sobre os nacionalismos estéticos, literários e políticos das gerações anteriores. Referimo-nos ao movimento cultural da "Renascença Portuguesa". Ele procedia da intuição segura de que ao homem é dado um segundo nascimento (ressurreição) e com um oportunismo tão justificável como explicável aplicava o símile à transição efectuada do Reino para a República. Este nacionalismo não postulava o regresso às leis, às instituições e aos costumes do passado, nem tomava por modelo qualquer reacionarismo que estivesse então a ser prorrogado no estrangeiro. Aconselhava, porém, os novos políticos a que respeitassem as tradições significativas da alma e do espírito nacionais no acto de reconstrução dos serviços públicos. Em vez da metodologia histórica, ou historicista, surgiu da Renascença Portuguesa uma metodologia filosófica que pouco a pouco ia dando expressão conceitual às intuições românticas de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Leonardo Coimbra. A Arte de Ser Português é ainda hoje um breviário de nacionalismo a propor ao estudo das novas gerações. Lendo esse livro, capítulo por capítulo, e expurgando-o de alguns erros motivados pelo respeito da circunstância social em que foi escrito, todo o português sentirá renascer na sua alma o alento indispensável para julgar da crise da Pátria no tribunal das nações» (in «O Homem Português», p. 302).
Continua


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