sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Uma teoria nova de se nascer

Escrito por Agostinho da Silva




Agostinho da Silva (Tokyo, 1963).


As coisas aparecem, sucedem e a gente aproveita ou não. Há um jogo de meninos que, em Portugal, se chama cama de gato: os meninos atam um cordel em círculo, depois fazem assim com a mão, vem outro e faz uma complicação qualquer, mete o dedo e faz outra complicação, vem outro ainda e quanto aos dedos faz assim e tira, e forma outra figura. Este jogo chama-se cama de gato. Então, eu acho que na vida o que há, é um jogo perpétuo de crianças com a cama de gato, que a vida vem de vez em quando e apresenta-nos o problema, olhamos e vemos como é que havemos de tirar, depois metemos os dedos, fazemos assim e sai outra coisa. É que toda a nossa habilidade é tornar a ser crianças para ver como é que sai a cama de gato.

Bem, segundo ponto. O segundo ponto é que eu tenho a ideia, por exemplo, quando se discute o problema dos gregos, saber como é que está relacionada a inteligência deles com a geografia particular daquela terra, em que uma coisa que se põe muito em relevo é o recorte contínuo da mar e da terra. Não é um bloco de terra posto sobre o mar, não é um ilha minúscula rodeada monotonamente por mar, mas sim uma região onde mar e terra se interpenetram. E muita gente acha que os gregos apresentam aquela mentalidade de análise do universo, de capacidade de recorte do mundo, de gosto de variedade e de finura, exactamente pela influência da terra. Eu gosto de defender a ideia contrária, ou pelo menos de a contradizer: os gregos passaram por ali, vindos de outra região, e quando viram aquela terra acharam que era a terra exacta para viverem, o meio ideal para se fixarem.

E mesmo quanto às pessoas, não só para os gregos, mas para toda a gente do mundo, suponho como possível uma teoria nova de se nascer. Naquela biografiazinha que estive escrevendo um pouco a pedido do amigo, ponho a ideia de que eu, quando chegou a minha hora de nascer no céu das ideias, estava atento ao globo terrestre que ia passando pela frente à espera de encontrar uma terra que me agradasse. e, como eu, estavam outros: quer dizer, toda a gente escolhe o lugar onde nasce. Que nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa do Céu para a Terra, como dizia Platão...



Não, senhor, eu o que escolhi foi Barca de Alva, que é a última terra portuguesa antes da fronteira com Espanha, isto é, logo a seguir à Espanha. Mas é muito difícil fazer o cálculo matemático necessário para de um corpo em movimento, como é o Céu, ir acertar noutro corpo também em movimento que é a Terra. Então os calculistas lá se enganaram e eu fui parar ao Porto. Mas, logo que foi possível, repararam o erro e apenas com alguns meses de idade fui realmente crescer para Barca de Alva. Fiz o curso no Porto, andei por toda a parte quanto é mundo, mas a minha terra continua a ser Barca de Alva.

E uma coisa muito importante foi que, em Barca de Alva, com os meus amigos, grandes e pequenos, aprendi ao mesmo tempo português e espanhol. De maneira que, de facto, se o Fernando Pessoa diz que a pátria dele era a língua portuguesa, eu tenho ao mesmo tempo uma espécie de duas pátrias. Sou na realidade ibérico, embora entenda perfeitamente as diferenças que há de um lado e de outro, e se tiver de preferir talvez prefira a parte portuguesa por várias das suas qualidades e além de tudo porque sabendo, como sei, que o Brasil era espanhol e passou para Portugal, acho que foi um habilidade tão grande da parte dos portugueses, que não tenho jeito senão de ser mais solidário com eles do que sou com os espanhóis, apenas desejando que, agora que se abre uma nova fase nesse problema - porque já não há Tratado de Tordesilhas - os portugueses também dêem licença aos espanhóis para brilhar um pouco e para fazer as coisas certas (in Vida Conversável, Assírio & Alvim, 1998, pp. 15-16).


Nenhum comentário:

Postar um comentário