sábado, 2 de janeiro de 2010

Agostinho da Silva: doutorado em raiva e licenciado em liberdade

Escrito por Miguel Bruno Duarte







«(...) eu creio mesmo que o homem possui as qualidades dos seus defeitos... É possível que destes resultem aquelas, por contraste ou evolução criadora. Pode ser que o Bem não seja mais do que o Mal superiormente degenerado. Não foi assim, por degenerescência electiva, que o homem se destacou do orango?

Se admitirmos tal teoria, o que não nos repugna, temos de olhar os nossos defeitos com esta vaga e lusitana consideração devida às coisas ruins:


Contigo, Senhor Diabo,
Antes de bem que de mal 

(DITADO POPULAR).


O bom senso nacional conciliou o culto divino e o maléfico.

Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal.


Um chabo
Ao diabo
Sempre se deu... 

(DITADO POPULAR)».

Teixeira de Pascoaes («Arte de Ser Português»).



Em "Conversas Vadias", Cáceres Monteiro, lendo perante Agostinho da Silva uma passagem do Best-Seller A Casa da Rússia, de John le Carré, diz que o autor, «por vezes, durante o dia, [chegara a] ouvir os discursos de um velho místico, com rosto de santo, que gosta de receber os seus discípulos, discípulos de todas as idades...». Referia-se, obviamente, ao Professor Agostinho da Silva, personalidade ímpar que logo corrigira essa coisa da dependência mental entre espíritos e pessoas, simplesmente dizendo: «Se fosse navio, não tinha jeito para ser rebocador, e em terra continua da mesma maneira». E assim, alheio a toda e qualquer ficção novelesca, acrescentava ainda: «Depois, ele [John le Carré] fala no tal místico com cara de santo. Eu suponho que ele estava de lado, só viu metade da cara. Se tivesse visto a outra metade, talvez mudasse de opinião...».

Daí também não ser surpreendente que Agostinho da Silva, naquele seu jeito frontal e sem papas na língua, tivesse confessado terem sido as suas relações com Leonardo Coimbra «as mais desastrosas que se podem imaginar». Aliás, convém relembrar o Ensaio de Psicologia Portuguesa, de Francisco da Cunha Leão, a propósito do perfil caracterológico do filósofo criacionista: «Também o filósofo Leonardo Coimbra nos parece de enquadrar nos coléricos. Sempre empenhado, aproveitando todas as oportunidades para agir, talento demonstrativo e oratório manifesto. Espírito largo convivente, de feição optimista e luminosidade solar. Dado à acção pessoal directa, mas assistemático, ressumam da sua vida e obra emotividade primária e a febre de acção. Pedagogo apóstolo por excelência, vivia o imediatismo e a dialéctica das relações humanas; deixou por isso discípulos» (ob. cit., Guimarães Editores, 1971, p. 203).

De resto, sempre há e haverá, como reconhecia Agostinho, duas metades do mesmo rosto, tal como, no dizer de Pascoaes, «o dia e a noite crescem sobre a terra». E não há, porventura, nada mais interessante acerca desta dualidade em Agostinho, quando, em certa ocasião, lhe perguntaram se estaria interessado em tirar o doutoramento para seguir a carreira universitária:

«- A mim não me interessa muito, porque quem deu cabo da Faculdade do Porto foi a Universidade de Coimbra e a Universidade de Lisboa, de maneira que quando eu puder rebentar com elas, rebento. Carreira também não tenciono seguir, mas sou contra injustiças...» (in A Última Conversa, Editorial Notícias, 1998, p. 59).




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