quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sejamos contemporâneos de Aristóteles (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte







Em Eudoro de Sousa prepondera a intuição de que o cultivo dos estudos superiores depende de uma unidade cultural cujo princípio assenta no amor do logos. E daí a relação imprescindível entre filologia e filosofia perante a qual se dá o encontro de um povo com a verdade universal. Logo, para Eudoro de Sousa, que também recebera o influxo da cultura alemã, é no idioma ou na linguagem, entendida como cultura in nuce, que mais verdadeiramente se projecta «a contemporaneidade no mundo das representações e dos sentimentos».

Contudo, Eudoro de Sousa, além de pensador e filólogo, era também um mitólogo apostado na indagação originária do mito pré-helénico, e, como tal, especialmente atento aos aspectos primordiais e genesíacos da religião grega. Não há, pois, a seu ver, o que vulgarmente se denomina de cultura geral, já que a  divulgação de doutrinas estrangeiras, cristalizadas no plano da tradução e da «opinião dos compendiadores», obstam à mais perfeita compreensão da tradição especulativa das origens.

Ora bem: sermos contemporâneos de Aristóteles, como preconizara Eudoro de Sousa, pressupõe evitar os prejuízos e os preconceitos do nosso tempo, posto que «nem a Filosofia é a advocacia do presente, nem a História o tribunal do passado». Eis, portanto, um reverter às origens, muito embora num registo mais erudito do que seria supostamente desejável:

«No ensino universitário, o recurso às "fontes", é, pois, mister urgente, e os textos originais são insubstituíveis».

De resto, convém lembrar o que já Álvaro Ribeiro, invocando o mestrado de Aristóteles, propunha ao comparar a cultura do presente com os princípios que a transcendem:

«A actualidade de Aristóteles, como pensador e como filósofo, não pode deixar de ser reconhecida por quem ler, por exemplo, o Organon. Entendemos, porém, que não devem ser lidos no texto grego, mas em tradução portuguesa e contemporânea os escritos aristotélicos. Se a obra de Aristóteles não fosse susceptível de se adaptar à nomenclatura técnica, científica e metafísica do nosso tempo, se o pensamento de Aristóteles fosse incompatível com as expressões do nosso idioma, quer com as expressões populares quer com as expressões literárias, teríamos a prova decisiva de nos ser já inútil a cultura helénica. Leríamos Aristóteles por curiosidade histórica, e nesse caso seria preferível lê-lo em grego, respeitando os preceitos da paleolexia e da paleografia. Confundiríamos o passado com o perfeito. Aristóteles perderia, para nós, a actualidade.






Temos, porém, a convicção de que ao traduzir os escritos aristotélicos em português do nosso tempo, e ao vencer as dificuldades de arte e de artifício que tal empreendimento requer, aperfeiçoaríamos a consciência da nossa idiossincrasia espiritual. Nas anotações aos escritos aristotélicos, e não só à obras atribuídas a Aristóteles, resolveríamos os problemas indispensáveis à formação enciclopédica da cultura portuguesa. Enquanto não obtivermos tão valioso elemento de trabalho, que nos liberte de traduções intermediárias e obscurantistas, assim como dos respectivos prefácios tendenciosos, permaneceremos em condições de julgar anacrónica e perniciosa a nossa fidelidade a Aristóteles; não saberemos escrever, não poderemos ensinar, do ponto de vista português, a História da Filosofia Universal!...».

Quer dizer: Álvaro Ribeiro tinha não só perfeita consciência da inépcia das instituições universitárias na tradução para a língua pátria das obras completas de Aristóteles, como também propugnara pela actualização do aristotelismo enquanto sistema de filosofia capaz de promover «uma lógica integrativa de todos os esquemas mentais que caracterizam a metodologia das ciências modernas». Deste modo, funesto permanece o preceito artificioso que, no âmbito do ensino público e particular, ordena recorrer a traduções francesas, inglesas e alemãs que inibem o aparecimento de genuínas e vernáculas traduções de alta cultura. E, nisso, o caso da tradução de Aristóteles segundo a versão francesa de Tricot, constitui o que de pior pode haver contra a obra magistral do Filósofo.

Não obstante, há na Faculdade de Letras de Lisboa um projecto de tradução das obras completas de Aristóteles concitado por investigadores de alegado gabarito «científico». Ora, um tal projecto visa apenas proporcionar «o acesso do leitor português» às obras do maior filósofo da Antiguidade, sem, no entanto, adiantar uma só palavra sobre a respectiva actualidade no panorama enciclopédico da cultura portuguesa. Mas, fora desse contexto, Pinharanda Gomes tem, felizmente, mostrado um labor incansável na rememoração activa e actualizada do que, espiritualmente relevante, tem persistido na sequência da destituição pombalina de Aristóteles, a começar pelas tentativas bem sucedidas de verter, no idioma pátrio, certos e determinados escritos aristotélicos de valor sófico indubitável:

«Foi em 1779, seis anos depois da entrada em vigor da reforma, que a "Arte Poética" se traduziu, graças à atenção e apreço que Ricardo Raimundo Nogueira dedicou à teoria poética do Estagirita. Mais tarde, havendo necessidade desta obra, foi de novo traduzida, em 1951 ainda que só editada em 1964, por Eudoro de Sousa. No ínterim, apenas Silvestre Ferreira vertera as "Categorias" em 1813 e, V. Cocco, os livros I e II da "Metafísica", em 1951. Tanto quanto até aquela data nos foi possível saber, não houve outras traduções em língua portuguesa, em Portugal. Em anos mais recentes, 1965, foi publicada uma tradução da "Política" por Manuel Frazão, embora não estejamos em posição de indicar a língua de onde esta obra foi vertida pelo tradutor português» (in pref. às Categorias de Aristóteles, segundo tradução de Silvestre Pinheiro Ferreira).



No lance, convém não esquecer que Pinharanda Gomes chegou, de facto, a traduzir o Organon de Aristóteles. A tradução, porém, é algo que permanece sempre um «ideal» a atingir, como, decerto, também se reconhece no âmbito do já referido projecto universitário de Lisboa. Até porque, no que respeita ao Corpus aristotelicum, André Greson remata peremptoriamente o que mais importa saber:

«O que nos resta é um fundo composto de notas que Aristóteles tomava para si mesmo, de lições que preparara, de cursos que estabelecera, talvez mesmo de redacções mais ou menos informes devidas aos seus discípulos. Resultado: não há um só tratado que esteja completo; depara-se-nos antes uma multitude de fragmentos desordenadamente amontoados a respeito dos mais diversos temas; desenvolvimentos bruscamente interrompidos, enumerações de questões a estudar que não chegam a ser estudadas, etc. Numa palavra, ou temos à nossa frente as ruínas de um vasto edifício que se desmoronou, ou, ao contrário, o conjunto dos materiais com a ajuda dos quais o edifício deveria vir a ser construído. Acrescente-se ainda que somos constantemente obrigados a interrogar-nos: será que a obra que estou a ler é autêntica? Sê-lo-á no seu conjunto? Sê-lo-á em algumas das suas partes? Sê-lo-á inclusive em cada um um dos seus termos? E isto sem que nunca possamos estar inteiramente certos do juízo que venhamos a formular a este respeito» (André Cresson, Aristóteles, Edições 70, 1981, pp. 15-16).

Na verdade, a questão aristotélica não é uma questão de ordem paleográfica, mas uma questão que nos concita a intuir e a realizar o movimento modal em que o pensamento se torna verdadeiramente operante. Ora, essa questão não verá a luz do dia se nos fixarmos tão-só no «anti-aristotelismo explícito de Leonardo Coimbra». E assim é porque toda a «fonte» nacional ou estrangeira do «anti-aristotelismo» de Leonardo permanece muito aquém do que já Álvaro Ribeiro visionara nos termos da «harmoniosa conciliação do realismo com o criacionismo».




Henrique Bergson




De resto, uma vez superado o «anti-aristotelismo» de Leonardo sob o ponto de vista estritamente académico, pode aí, sim, transparecer o que, na sequência de Ravaisson, Boutroux, Duhem e Bergson, implica o aristotelismo intranho do filósofo criacionista. E, nessa medida, importam sobremodo Álvaro Ribeiro e José Marinho com quem se jogam a valer as categorias filosóficas do pensamento atlântico português.


Continua


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