sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Frederico Nietzsche

Escrito por Álvaro Ribeiro







«(...) eu condeno o cristianismo, lanço contra a Igreja cristã a mais terrível acusação que jamais acusador algum pronunciou: para mim ela é a maior corrupção imaginável. A Igreja cristã nada poupou à sua corrupção: de cada valor fez um não-valor, de cada verdade uma mentira, de cada integridade uma baixeza de alma. Que se atrevam a falar-me ainda dos seus "humanitários" benefícios! Suprimir qualquer angústia seria contrário ao seu mais profundo interesse: ela viveu de angústias, inventou angústias para se eternizar... O verme do pecado, por exemplo: foi graças à Igreja que a humanidade se viu enriquecida com essa angústia! A "igualdade das almas perante Deus", essa falsidade, esse pretexto para as mais baixas rancunes de todos os espíritos inferiores, ideia-explosivo que acabou por se transformar em Revolução, ideia moderna, princípio de degenerescência de toda a ordem social - é a dinamite cristã... "Humanitários" benefícios do cristianismo! Fazer da humanitas uma contradição, uma arte de poluir, uma vontade de mentira a todo o custo, uma repulsa, um desprezo por todos os bons e rectos instintos! Aí tendes os benefícios do cristianismo! - O parasitismo, única prática da Igreja, sugando com o seu ideal de anemia e de "santidade", o sangue, o amor, a esperança da vida; o além como vontade de negação da realidade; a cruz como emblema para a mais subterrânea conspiração que jamais se urdiu - conspiração contra a saúde, a beleza, a rectidão, o valor, o espírito, a beleza de alma, contra a própria vida...

Hei-de gravar em todas as paredes esta acusação eterna contra o cristianismo, em toda a parte onde houver paredes - tenho letras que até os próprios cegos podem ler... Chamo ao cristianismo a grande calamidade, a grande corrupção interior, o grande instinto de vingança, para o qual não há meios suficientemente venenosos, bastante subterrâneos, satisfatoriamente baixos
- chamo-lhe a imortal desonra da humanidade.

E conta-se o tempo a partir desse dies nefastus que foi o começo desse destino - a partir do primeiro dia do cristianismo! E porque não contá-lo a partir do último dia? - A partir de hoje?
- Transmutação de todos os valores!...».


Frederico Nietzsche («O Anticristo»).



«O Absoluto não é a ideia das ideias, o bem dos bens, a verdade das verdades; mas o Deus abscôndito em presença humana, salvando os homens e, por estes, a própria matéria.

(...) O homem católico é o homem integral, da natureza e da graça, do corpo e do espírito, do inteligível e do sensível - se os astros do espaço lhe enchem os olhos de assombro porque vê na ordem dos seus cursos a ideia que os dirige, não lhe é menos presente a ideia
na voz do homem, no murmúrio da água nas levadas, no bulício dos pinheiros, no canto da cotovia, no uivo solitário do lobo no espinhaço da montanha.


(...)
O cristianismo, por isso mesmo que é o supremo transcendentalismo, é também o supremo imanentismo: as relações são as mesmas que as da natureza e da graça, do natural e do sobrenatural.

(...) A matéria não é o mal; criada por Deus, ela será, como o resto das existências, ideia
, palavra do Verbo por quem todas as coisas foram feitas.


(...)
O Ser é indestrutível, não porque exista por si, mas precisamente porque dimana do valor íntimo do acto criador.


(...)
A Dor é a mensagem do amor. Sofremos porque amamos e não poderemos amar sem a capacidade e a experiência do sofrimento.

A melhor prenda do noivado duma alma com Cristo é a oferta dos estigmas do sofrimento redentor.




A Virgem da Anunciação, por Antonello da Messina (1430-1479).



(...) A primeira grande aceitação, a primeira grande liberdade colaborando no resgate, abrindo-lhe as portas do lado humano, como o mais completo acto da fé, foi a dádiva perfeita da Virgem, dizendo ao anjo da anunciação: eis a serva do Senhor, faça-se em mim, segundo a tua palavra.

Aceitação de toda a dor humana, concentrada num coração materno; mas aceitação que é também resgate, que é a dor e o remédio
, o alimento e o sangue, a carne mortal transfigurada em gloriosa carne da eternidade. (...) Se Deus é, se Deus superexiste, como Fonte e Origem absoluta do ser, porque há-de ser a natureza, seja a realidade universal, um todo dado e encerrado em si mesmo, finito e determinado em suas possibilidades?»


Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).



«A relação do espírito divino com a alma humana, atestado por muitos testemunhos fidedignos que constituem a Bíblia, desde o profetismo ao messianismo, nunca opusera dificuldade à minha razão, mas a inserção directa do logos na carne transiente, corruptível e sofredora aparecera-me como um mistério hostil à puridade religiosa. Na perfeita consciência de que publicava um apelo a quem por demais meditara no pecado original e alcançara a fé que há-de ser católica, escrevi esta dedicatória a quem considerava integrado na filosofia portuguesa:



A JOSÉ RÉGIO, POETA DO MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO


A significação subtil do epigrama crucial jamais foi entendida pelo comum dos leitores, mas a incompreensão do vulgo letrado ainda mais me fez meditar, obstinadamente, na razão universal que suporta o alcance transcendente de tão breves dizeres.

Mistério é a palavra que designa, ou significa, um rito secreto no qual só participam iniciados, e para explicação do rito é que surge depois o mito, conforme ensinou Salomão Reinach. Em toda a criação espiritual há algo de misterioso, de misterial, que todavia se revela aos entusiasmados. Mistério insondável é, porém, o da encarnação, mas sua epifania deslumbrante produz e conduz um alto culto religioso».


Álvaro Ribeiro («A Literatura de José Régio»).





Frederico Nietzsche






A tradução portuguesa do primeiro livro de Frederico Nietzsche [«A Origem da Tragédia»], anunciada e esperada há já muito tempo, vai enfim dar satisfação à curiosidade do grande público. Nota-se, efectivamente, que de ano para ano foi aumentando o número de leitores das obras de Nietzsche, mas permanece insoluto o problema que resulta dessa anotação: o de determinar as causas mais profundas de tão singular movimento cultural. Há várias hipóteses que, válidas para o estrangeiro e para a actualidade, não explicam a já antiga predilecção dos escritores e artistas nacionais. Em Portugal, de há muito que, por traduções francesas, espanholas e portuguesas, os intelectuais procuram conhecer o pensamento do solitário de Engadine e reflectir sobre as audaciosas teses que ele propôs e defendeu em livros admiráveis. Alusões à obra de Nietzsche e citações de muitas das suas frases, comentários aprovativos e reprovativos, exegeses tímidas e interpretações tendenciosas aparecem com frequência em livros de autores nossos que, aliás, não costumam citar Goethe, Schiller ou Novalis. Ao historiador da cultura portuguesa não competirá somente redigir verbetes bibliográficos, porque lhe cumpre explicar os motivos por que a tradução das obras de Nietzsche precedeu a de obras de Fichte, Schelling e Hegel.

Se entre nós estivesse difundido o ensino da língua alemã como seria desejável, e se à maioria dos nossos leitores fosse dado apreciar o encanto musical e a energia tonificante dos escritos de Nietzsche, encontraríamos na espontânea admiração pela obra do grande poeta o motivo literário das alusões e das citações frequentes. Infelizmente não se trata de um caso de influência literária: não é o poeta, mas tão somente o pensador, não o Dichter mas o Denker, quem interessa à maioria dos estudiosos de Nietzsche.

Apreciadores das afirmações agressivas e paradoxais que sopram de Oriente para Ocidente, de Além-Reno para Aquém-Reno, de Além-Pirenéus para Aquém-Pirenéus, os intelectuais portugueses deliciam-se com os discursos eloquentes de Zaratustra que contradizem as meias verdades dos lugares comuns. A crítica de Nietzsche mantém quase sempre o valor da primeira hora, ainda é eficiente e operante, pelo que não perde tempo quem se dedicar a aferir por ela o sistema cultural que dominou na Europa durante o século passado. Entende-se perfeitamente que as obras de Nietzsche tivessem sido para francês traduzidas pelos colaboradores do Mercure de France, como se compreende que esta revista fosse muito apreciada pelos colaboradores de A Águia e fundadores da Renascença Portuguesa. As novas gerações simbolistas da Latinidade aborreciam o racionalismo dos séculos modernos, com sua degradação iluminista, positivista e socialista, Certo é, porém, que a cultura alemã, idealista e pessimista nos seus geniais representantes, não favorece o desenvolvimento da filosofia portuguesa, realista e optimista, de mais nobre e valiosa tradição. Lido, estudado e admirado, Nietzsche foi repelido, criticado e refutado por pensadores como Sampaio Bruno, Raul Proença e Leonardo Coimbra.

Esta reacção da filosofia portuguesa perante a cultura alemã é tão explicável como a oposição conceitual entre natureza e violência, mas para a compreender é indispensável ter lido as obras de Aristóteles. A tradição portuguesa, desde a época do Infante D. Henrique até à época de Vasco da Gama, fala-nos do Oriente em palavras completamente diversas das que nos são dadas pela erudição alemã. Assim, o orientalismo alemão que começa na filologia pelos trabalhos de Augusto Schlegel e que atinge o cúmulo na filosofia de Artur Schopenhauer, havia de parecer-nos uma violenta inversão de sabedoria tradicional.




Já em Descartes a doutrina do primado da violência sobre a natureza levara à conclusão terrível de que mundus est fabula. O idealismo de Schopenhauer foi mais longe, porque negou a criação divina e, com ela, a autenticidade da vida humana. A interpretação dada por Schopenhauer ao véu de Maia é uma interpretação diabólica, no sentido rigoroso do termo, e, portanto, interpretação incompatível com as doutrinas orientais. Maia deixa de ser a Natureza para ser a Violência, e o homem volúvel é enganado por prestígios. Lembremo-nos de que a palavra prestígio pertence à nomenclatura da goécia e significa o artifício pelo qual o espírito de violência pretende imitar o milagre de Deus, num ilusionismo que apenas dura o tempo bastante para a tentação; lembrando-nos do significado dessa palavra, ficaremos habilitados a discernir a impiedade que se esconde no orientalismo de Artur Schopenhauer. Ao dizer-se que no século passado a filosofia de Schopenhauer teve muito prestígio, com razão se afirma o atributo diabólico de antiteísmo. Vítima dessa falsa orientação foi certamente a alma poética de Frederico Nietzsche.

Quem não aceitar o pensamento criacionista, a verdade de que existe um só Deus criador do mundo e também criador das nossas almas, quem não aceitar a verdade de que Deus nos cria para um destino sobrenatural que em parte depende de nós, em suma, quem não aceitar a verdade da vida eterna, jamais encontrará solução exacta dos problemas humanos. A dificuldade está em interpretar as verdades tradicionais, dificuldade inegável, porque nem sempre os intérpretes se têm mostrado humildes na acomodação das suas palavras ao pensamento de quem os escuta ou lê. É, efectivamente, difícil demonstrar a liberdade humana, a sobrevivência para além da morte, a existência de Deus; catequistas, apologetas e teólogos falham muitas vezes na sua missão sacerdotal. Traduzidas, porém, em linguagem do tempo, as verdades tradicionais são pelo pensador admitidas na gradação que vai da hipótese à crença e da crença à fé. Tais verdades, além de resolverem satisfatoriamente os problemas humanos, inspiram e garantem a alegria de viver.

O pessimismo alemão, especialmente nas expressões de Kant, Schopenhauer e Nietzsche, teve o mérito de enunciar com extraordinária lucidez a maior dificuldade que às verdadeiras tradições pode apresentar o homem moderno: a existência do corpo, o sofrimento da carne, o princípio de individuação. A antropologia do século XIX tentou, em vão, resolver o problema fazendo descer a genealogia do homem aos planos da zoologia e da geologia. A partir do darwinismo – outra doutrina prestigiosa e prestigiada -, foram inventadas várias soluções fictícias que logo pareceram destituídas de valor histórico ou profético. A filosofia alemã, agnóstica e ignorante da promessa de salvação humana, pretendeu opor ao pessimismo científico um optimismo artístico, como se o mundo não fosse mais do que fábula cartesiana, ilusão e representação.

A tese de Nietzsche sobre A Origem da Tragédia é muito mais um estudo sobre a decadência de um género teatral do que propriamente uma investigação histórica ou uma incursão mítica na esfera da vida sobrenatural. O interesse da tese está no desenvolvimento do paradoxo: pessimismo é a cultura socrática, optimismo era a tragédia grega. Afastado, como todos os cientistas do seu tempo, da filosofia de Aristóteles, pensa Nietzsche que quanto mais se afirma o princípio de individuação e, com ele, a liberdade, tanto mais o homem cultiva a sua angústia e o seu desespero. Coerentemente, Nietzsche, pensador mediterrâneo, se condena Sócrates também condena Cristo, mas parece desconhecer as verdades que pertenciam já ao ciclo da filosofia atlântica, da filosofia dos europeus que por via marítima chegaram ao Oriente.


A superioridade da filosofia portuguesa sobre a cultura da Europa Central mais uma vez se afirma ao interpretar o Cristianismo e ao situar o mistério da Encarnação no quadro mais adequado à especulação teológica, evitando assim dificuldades como as que necessariamente irritavam o pensamento crítico de Frederico Nietzsche. Teólogos e apologetas que se preocupam demais com os problemas da Reforma e da Contra-Reforma não prestam a devida atenção ao significado evangélico e universal dos Descobrimentos, porque do meridiano de Roma não é fácil ver a superioridade do simbolismo do barco sobre o simbolismo do túmulo. A tais defensores da ortodoxia parecerá talvez que o Anti-Cristo de Nietzsche seja um livro sacrílego, execrável e merecedor de fogueira, mas para os cristãos que actualizam a fé, a esperança e a caridade não há escritos profanos que perturbem ou alterem a verdade garantida pelo Espírito Santo. O cristão não estranha que até entre os cristãos haja quem ofenda a Cristo, e bem sabe que não há livro tão mau que contenha mais blasfémias do que as que foram ouvidas por Jesus. O desespero de Nietzsche tem outro significado que foi já surpreendido por alguns teólogos da Alemanha, entre os quais é lícito mencionar Carlos Barth e Alberto Schweitzer. Para os pensadores de tradição portuguesa, este aspecto da obra de Nietzsche representa um momento já ultrapassado pela consciência religiosa que ascendendo evolui para Deus. Não sem razão foi dito que no S. Paulo de Teixeira de Pascoaes se encontra a melhor refutação do anti-cristianismo de Nietzsche. Para bem compreender a profunda religiosidade portuguesa é indispensável a demorada leitura de todos os livros do Novo Testamento, e não só dos Evangelhos.

Meditando nas doutrinas dos apóstolos, e, consequentemente, nas dos missionários, não estranharemos que a filosofia portuguesa seja mais especulativa do que teorética, menos contemplativa do que actuante. Erros de disciplina no ensino dos seminários impediram que não chegasse ainda à fase de evidência a tese da superioridade da filosofia portuguesa como instrumento de interpretação da teologia católica; seria, aliás, estultícia desejar que tão nobre verdade estivesse ao alcance daqueles que só acreditam em cartilhas estrangeiras.

Se a filosofia portuguesa, mais por suas verdades cifradas do que pelos seus livros publicados, é superior à filosofia alemã, como explicaremos a inegável predilecção dos católicos portugueses pelas obras de Frederico Nietzsche? Cremos que tal interesse significa a natural reacção contra o racionalismo crítico e utópico que a cultura francesa propagou em certos meios eclesiásticos, e corresponde ao desejo de procurar, para além dos paradoxos germânicos, as verdades que não puderam ser bem formuladas nos sistemas clássicos da mentalidade moderna. Efectivamente, quem estudar a antropologia de Nietzsche ver-se-á liberto de todos os preconceitos daquela «psicologia» geral e experimental que infelizmente ainda é de ensino público, e poderá enunciar os problemas humanos nos termos tão sinceros como verdadeiros de mais alta escatologia. Não os resolverá, porém, no quadro da filosofia alemã nem do de qualquer outra filosofia da Europa Central. A leitura de Nietzsche é uma prova e uma provação. Reagindo, como representante de uma tradição superior, o pensador português vai a pouco e pouco desprendendo-se de preconceitos continentais, para ir reconhecendo que o seu horizonte cultural está no Ocidente, no Além-Mar. Que o simbolismo do barco, ou da arca, tem ainda de ser superado por outro mais apocalíptico, quer dizer, mais revelador, integrando toda a fenomenologia numa ontologia do inefável, eis o que, depois de haverem lido a obra de Nietzsche, sabem todos quantos levantam a âncora da filosofia portuguesa (in As Portas do Conhecimento, IAC, 1987, pp. 121-125).

Dia de S. João Evangelista,
Ano de 1953.








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