terça-feira, 29 de junho de 2010

Operação Saramago (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte


Entretanto, fiquemos novamente com o testemunho de Leonardo Coimbra:

«O esforço para a implantação [do comunismo] pode deixar em seu caminho doze milhões de mortos de fome, inegáveis casos de canibalismo, oito milhões de crianças vagabundas, raparigas de treze a catorze anos grávidas e sifilizadas, altares profanados – simbolicamente oferecidos ao Excremento -, milhões de camponeses fuzilados, médicos, padres, intelectuais, assassinados aos milhares: tudo isso nada prova aos olhos dum comunista. O Absoluto do Fim justifica e consagra todos os meios.

Para além do sofrimento, das crueldades e do horror, está a certeza da Terra Prometida.

Não foi Deus, que a prometeu; mas foi a Ciência pela voz infalível de Karl Marx, e seu altifalante Vladimiro Ulionov.

Com os comunistas, repetem esta atitude muitos homens incapazes de imaginação, que não realizam (no sentido forte do verbo inglês to realize) os horrores do caminho – como o burguês obtuso lê, com indiferença e porventura com a gulosa curiosidade do seu conforto em alto-relevo, as notícias dum ciclone, que varreu da Terra uma aldeia da Austrália.

E esses falhos de imaginação sensível, de coração, e esses surdos do amor-caridade, perdoam todos os horrores, porque agora lhes mostram uns hospitais modelos, ou sanatórios para repouso dos intelectuais ao serviço comunista.

Bem. Não falemos disso. O horror da Rússia é isso, e, mais e pior do que isso, é o que seria na benévola hipótese dos seus apologetas de fora e dos seus crentes do interior.

Suponhamos, pois, que se chega ao Fim. Não mais Deus, não mais Família, não mais arte repassada de metafísica, enevoada de mistério e transcendência» (in A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre).

Mas dir-se-á: os comunistas estão hoje perfeitamente integrados no sistema democrático, o que os impede de praticaram a violência, a crueldade e o morticínio perpetrados no passado. Ilusão. Eles apenas se adaptaram a uma nova fase da acção revolucionária, esperando o momento para transformarem violentamente o mundo. Aliás, todo este processo já vem na sequência de toda uma estratégia global que, tendo já sido aplicada na Rússia soviética para a destruição do Ocidente, virou agora num movimento subterrâneo que joga em várias frentes políticas nacionais e internacionais.

Kremlin (Moscovo).

Em Portugal, a organização política começa por incluir "partidos políticos" extremistas, como o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda. Vêm depois os restantes partidos dominados pelo socialismo plutocrático, entre os quais sobressaem o Partido Social-Democrata e o Partido Popular. Logo, não há direita em Portugal. Nomeá-la é tão-só um artifício retórico para arrebanhar a maioria dos eleitores, assim como permitir que a esquerda proclame a existência de um inimigo neoliberal que ela própria forjou e imaginou, para então empreender a violência sobre os Portugueses por via da planificação económica e da destruição da cultura nacional.

Ora, o autor do Evangelho segundo Jesus Cristo é, no plano da cultura portuguesa, um caso claramente paradigmático. Basta ter ouvido o universitário Marcelo Rebelo de Sousa para se compreender como a suposta direita em Portugal colabora e alinha numa infraliteratura comunista capaz de fazer as delícias da lusofonia. Mas, afinal, o que disse tão arguto professor perante uma audiência televisiva que já só lê jornais e revistas do show business? Disse, para regozijo da esquerda triunfante, que na obra de Saramago perpassa como que uma espécie de «tensão espiritual» em que o autor, não obstante um declarado ateu com atitudes manifestamente polémicas, se debate com a procura de Deus.

Ateu é um eufemismo, para quem, na realidade, sempre se comportou como um cruel e ferrenho antiteísta, como, entre inúmeras passagens da sua obra, se mostra na seguinte:

Adão e Eva

«Este episódio [comer do fruto da Árvore do Bem e do Mal], que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, aí rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota extreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos filhos, são tão bons ou tão maus como os demais» (Caim, Caminho, 2009, pp. 14-15).

Temos assim, em Saramago, um antiteísmo explícito, até na forma como permutava, intencionalmente, a maiúscula pela minúscula, em palavras de horizonte infinito, como Deus, Adão e Eva. Todavia, na televisão e nos jornais parecia que tinha desaparecido um deus na forma de um homem bom e honesto, um bom escritor, um ser humano excepcional, um lutador… Mais: chegou mesmo a ser comparado, por via da propaganda marxista que intranha a comunicação social, a Camões e a Fernando Pessoa.

No plano da cultura, estamos perante a maior operação vermelhusca do princípio deste século. Até uma parte da Igreja portuguesa,  personificada pelo padre Carreira das Neves, caiu em tentação ao considerar Saramago como um crítico com quem até se podia dialogar. E o "mobil", mais uma vez, parece estar na «tensão espiritual» que, nas palavras evangélicas de Carreira das Neves, mostrava um Saramago entre Deus e o Diabo.
Saragago

Ora,quem não se deixou cair em tentação foi a Igreja de Roma, que disse o mínimo que se podia dizer por respeito à verdade: que Saramago era um «populista extremista» e um «ideólogo antirreligioso», assim como um «homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma, aprisionado até o fim em sua confiança profunda no materialismo histórico, o marxismo» (L'Osservatore Romano) (1). Contudo, em Portugal,veio logo a imprensa dizer tratar-se de um ataque, quando na realidade, a verdadeira vítima sempre fora, neste caso, a Igreja Católica. É, sem dúvida, uma inversão espantosa contra todo o senso das proporções, visto que já nem a Igreja parece ter a legitimidade de se poder pronunciar e defender dos seus maiores inimigos.

No Salão Nobre dos Paços do Concelho, disse, por sua vez, a ministra da Cultura que Saramago enfrentou dogmas, coisa, aliás, tão patética e desonesta se nos lembrarmos que ele foi, durante toda a vida, um dos mais fanáticos defensores do dogmatismo comunista, saneando, inclusivamente, jornalistas do Diário de Notícias na sequência da revolução comunista de 1974. Aliás, até o próprio Olavo de Carvalho também deixou patente o que significa esse dogmatismo em Discípulos de Saramago:

«Nunca se pode esquecer que, para a mentalidade socialista, os donos de uma empresa jornalística não são verdadeiros donos: são usurpadores temporários. Possuir uma editora de jornais por havê-la comprado ou herdado é imoral e ilegítimo: limpa, correcta, honesta, somente a posse obtida pela ocupação das redacções à força, como se deu em Portugal durante o reinado de terror midiático encabeçado pelo comissário-do-povo José Saramago.

Para os jornalistas criados nessa mentalidade, o reino da justiça só virá no dia em que cada um deles for um novo Saramago não nas listas de best-sellers, mas na cadeira da presidência da empresa, tomada a tapa em nome do processo histórico…»

Mas o melhor viria ainda pela boca da ministra da Cultura a propósito do autor do Evangelho segundo Jesus Cristo: «Não tinha fé em Deus, mas certamente Deus teve fé nele». E a ministra da Educação, quando interpelada em contexto de ritual satânico e idolátrico, foi ao ponto de dizer que a obra de Saramago constitui uma «referência literária e filosófica». Esquecera-se da teológica?




Em suma: quando Portugal, à beira do abismo, corre cada vez mais na direcção de uma sociedade totalitária ao ponto de, na actualidade, deparar com a imposição da maior operação revolucionária capaz de ensombrar de vez a cultura portuguesa, tal significa que continuamos a estar sob o jugo de um movimento altamente organizado no âmbito internacional. Aliás, caso fôssemos uma verdadeira democracia, jamais teríamos a legalização de partidos políticos extremistas que dizem personificar a justiça dos pobres em sofrimento, bem como lutar em nome de uma solidariedade que explora todos os complexos atávicos de ressentimento colectivo. De resto, perante a retórica comunista em prol da paz mundial, isso merece tanta credibilidade quanto a afirmação de Nikita Kruschev numa época em que o comunismo dava de si uma imagem pacífica só desmentida pelas palavras do líder soviético: «Todo aquele que pensa que abandonámos o marxismo-leninismo engana-se grosseiramente. Tal só sucederá quando os camarões assobiarem».


Notas: 

(1) Convém não esquecer de que também a Igreja Católica, aquando do Pontificado de Paulo VI na sequência do Vaticano II (1962-1965) -, encetou contactos e negociações com os governos comunistas a ponto de os reforçar ainda mais. Por outro lado, é um facto de que, já no passado, Paulo VI mantivera «contactos com os católicos comunistas e com alguns sectores do Partido Comunista italiano», além de manifestar simpatia pelas correntes progressistas e ficar, no ínterim, conhecido como o «Arcebispo dos Operários» (cf. José Carvalho, Salazar e Paulo VI, Zebra Publicações, 2013, p. 17).

Em 1970, Paulo VI receberia ainda os três chefes da guerrilha comunista de Angola, Moçambique e Guiné, traindo assim a confiança de Portugal que travava uma guerra nas três frentes do Ultramar instigada por forças e potências de grande influência no palco internacional. Não admira, pois, que o “Papa comunista” tenha descrito a ONU como o «ideal com que a humanidade sonha através da sua peregrinação no tempo» ou de que a ONU era parte do «desígnio de Deus». Aliás, «chegou a ouvir-se, inclusivamente, que o Papa queria entregar uma parte do Vaticano nas mãos da Unesco» (cf. ob. cit., pp. 25-26). Mais: Paulo VI, «aquando da sua viagem no Extremo Oriente, em Hong Kong, dirigiu uma saudação tão afectuosa e comprometedora [à “revolução cultural” chinesa] que o governador da cidade se viu obrigado a impedir a sua difusão» (cf. ob. cit., p. 35). Em suma: Paulo VI, que dizia ter «a sensação de que o fumo entrou dentro do templo de Deus por alguma fissura», era o mesmo Papa que não só dera apoio moral aos terroristas em África e aos partidos de esquerda na América Latina, como também considerara «benevolente a Cuba de Castro e permitiu Bispos e padres marxistas» (cf. ob. cit., p. 42).





segunda-feira, 28 de junho de 2010

Operação Saramago (i)

Escrito por Miguel Bruno Duarte



Caim mata Abel

«Um professor pergunta a um aluno se ele reza. Este diz que sim; então o primário manda-o ajoelhar e pedir-lhe pão. Depois da pobre criança pedir pão a Deus, o primário pergunta – Deus deu-te o pão?


Não, responde a criança. Então pede-o ao camarada comunista. O pequeno obedece… E este louco, este deus primário entrega-lhe um pouco de pão… demonstrando assim a não existência de Deus (!!)».

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).


Em Portugal, realizou-se um culto fúnebre dirigido a um fortíssimo candidato à corte luciferina dos fiéis servidores do Príncipe das Trevas. Falamos, obviamente, de José Saramago. Para o efeito, foi mobilizada toda uma operação de propaganda ideológica que a esquerda vem reforçando nos últimos 30 anos, excluindo da ribalta toda a opinião, contestação ou repulsa sobre a maior fraude literária imposta ao povo português. A par disso, foi igualmente possível ver um partido extremista exigindo ao Presidente da República que prestasse, de pronto e reconhecidamente, culto fúnebre ao literato comunista.

Não faltaram outros exemplos, como o da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, que além de estar preparando a língua portuguesa como instrumento de comunicação técnica ao serviço de organizações internacionais, pôs imediatamente em prática toda uma farsa inerente ao cargo político que ocupa mediante o discurso venal, cúmplice e cabalmente vazio que proferiu nos Paços do Concelho. Isto sem esquecer uma tal de Lídia Jorge, que tentou logo justificar, numa daquelas pomposas e pedagógicas declarações televisivas com que o jornalismo socialista tão habitualmente nos brinda, a iliteracia de Saramago como uma espécie de «revolução cultural». E não faltaram também, da parte do universitário Eduardo Lourenço, as patacoadas labirínticas do costume, como a de que Saramago fora um poeta, coisa só comparável aos dislates da ministra da Educação que, naquele ar de boa mocinha, afirmou ter sido o literato comunista uma verdadeira inspiração na época em que o ensinava aos seus alunos.

Nisto, há, sem dúvida, dois aspectos que ressaltam imediatamente aos olhos dos mais atentos e prevenidos, a saber: 1. o atroz e tacanho provincianismo das classes letradas bem-falantes; 2. A estupidez inacreditável que faz delas agentes de deturpação da cultura genuinamente nacional, europeia e universal.

Não se pense, pois, que toda esta operação nasceu da noite para o dia. Exemplo disso é o que Ernesto Palma, em O Plutocrata, confirma sobremaneira quando diz ter ido Mário Soares à Suécia para obter o Nobel, bem como ter o Instituto Camões, que tão bem opera em rede universitária, financiado a edição sueca dos livros de Saramago.


De resto, já Leonardo Coimbra também procurara compreender, em A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, como toda a organização comunista faz de todo o ensino um instrumento ao serviço do imperialismo afectivo e voluntarista do homem revolucionário:

«… a mais alta educação – o fim último da educação – é a moldagem da consciência comunista.

A cultura política orienta, determina e condiciona em absoluto todas as outras formas culturais – ciências, artes, filosofia, etc.».

E mais adiante, diz:

«… do Comunismo é curioso observar-se que está dum lado a vida e do outro o cimento. Tudo o que é vida, vive nos obstáculos ao cimento; tudo o que é comunismo e cimento é destruição daquela vida, estupro, orgia sexual, morte, absorção das vidas, de cada vida, honra, amor e sentimento pessoal na Fatalidade dum Todo em que se dissolve e perde, como gota de água no Oceano, como poeira na violência do Tufão».

Mesmo assim, havendo hoje a possibilidade de se conhecer factos históricos a propósito da “cultura de genocídio” praticada por comunistas, há ainda quem, com ironia macabra com vista a desdramatizar o óbvio, diga ou escreva que os comunistas são tão maus que até comem criancinhas ao pequeno-almoço. Mas ponhamos essa ironia de parte e vejamos o testemunho do pastor baptista romeno Richard Wurmbrand para então termos uma imagem aproximada do que é passar catorze anos nas prisões comunistas:

«A 23 de Agosto de 1944 um milhão de russos invadiu a Roménia e pouco depois os comunistas apoderaram-se do poder. E isto não se realizou sem a cooperação dos dirigentes ingleses e americanos da época. Pelo trágico cativeiro de tantos povos a responsabilidade pesa sobre o coração dos cristãos da América e da Inglaterra… e devem saber que ajudaram os soviéticos a imporem-nos um regimen de assassínio e terror. Os comunistas convocaram um congresso de todos os dirigentes eclesiásticos no palácio do Parlamento. Estiveram presentes quatro mil padres, pastores e ministros de todos os credos, que não só escolheram Estaline para presidente honorário como chegaram mesmo ao ponto de declarar que o comunismo e o cristianismo eram profundamente semelhantes e podiam coexistir sem dificuldade. Um, após outro, elogiaram o marxismo e asseguraram ao novo regime a lealdade da Igreja… Minha mulher que estava sentada a meu lado disse-me "levante-se Ricardo e lave a afronta feita à Santa Face de Cristo". Levantei-me e falei, louvando não os assassinos dos cristãos mas Deus e Jesus Cristo a quem é devido, em primeiro lugar, a nossa fidelidade. Depois tive de pagar bem caro o crime de ter dissertado com tanta franqueza.

… Jamais esquecerei o meu primeiro encontro com um prisioneiro russo. Disse-me que era engenheiro. Quando lhe perguntei se tinha fé em Deus olhou-me muito espantado. Sem perceber sequer a minha pergunta, respondeu: «Não tenho ordem dos meus superiores para crer. Se me ordenarem acreditarei…».




Perante mim estava um homem cujo espírito tinha morrido, um homem que perdera a maior dádiva concedida por Deus às suas criaturas: o dom da personalidade. Já não pensava por si próprio. A lavagem ao cérebro transformou-o num instrumento dócil nas mãos dos comunistas, tornara-o um soviético típico, após todos estes anos de domínio marxista. Os comunistas não se limitaram a ocupar, pouco a pouco, o mundo, apoderando-se da terra e do gado do camponês; da humilde loja do barbeiro e do alfaiate – de gente pobre e sofredora.

… A 19 de Fevereiro de 1948, domingo, fui raptado pela polícia secreta. Durante mais de oito dias ninguém soube se estava vivo ou morto. A minha mulher recebeu a visita de agentes da polícia secreta que pretendiam ser antigos prisioneiros que me tinham conhecido muito bem. Contaram-lhe que assistiram ao meu enterro. Dilaceraram-lhe o coração.

… As torturas infligidas aos presos eram, para mim, abomináveis. Prefiro não me demorar na descrição do que tive de suportar. Num outro livro "L’Église des Catacombes" conto, de forma pormenorizada, as nossas experiências com Deus que nos assistia nas prisões. Um pastor foi torturado com tições incandescentes e com navalhas. Bateram-lhe de forma frenética. Depois, ratos esfomeados foram introduzidos na sua cela por uma canalização. Nem sequer podia dormir. Se por instantes caía na sonolência os ratos atacavam-no. Foi obrigado a manter-se de pé durante duas semanas. Os seus carrascos queriam força-lo a renegar um dos seus irmãos em religião mas ele resistiu com teimosia. Por fim trouxeram o seu filho de catorze anos e começaram a chicoteá-lo diante do pai, dizendo que continuavam a fazê-lo até que o pastor dissesse o que eles queriam. Quando o desgraçado já não podia suportar semelhante espectáculo gritou para o filho. «Tenho que dizer o que eles pedem, já não posso aguentar ver-te maltratado da forma como o estão fazendo». Mas o filho respondeu: "Pai, não faça a injúria de ter um traidor por pai… Se me matarem morrerei com estas palavras nos lábios: Jesus e minha Pátria". Os comunistas enraivecidos lançaram-se sobre o pobre jovem a baterem-lhe até o matarem… Algemas, guarnecidas de pregos no seu interior, envolviam os pulsos. Só quando nos conservávamos completamente imóveis é que não nos feriam. Nas celas glaciais tiritávamos de frio.

… Os cristãos eram pendurados de cabeça para baixo e batiam-lhes com violência tal que os corpos balançavam com a rudeza das pancadas desferidas. Eram colocados em câmaras frigoríficas com temperaturas tão baixas que o interior das paredes se cobriam de gelo. Fui lançado numa dessas celas quase despido. Pela vigia, os médicos da prisão vigiavam o "paciente"; aos primeiros sintomas da morte pelo frio chamavam os guardas para nos retirarem e reanimarem aquecendo-nos. Depois, e quando estávamos refeitos, mandavam-nos, de novo, colocar no frigorífico para de novo enregelarmos e esta brincadeira prosseguia de forma interminável. Ainda hoje não suporto que abram um frigorífico na minha presença.



… Outras vezes encerraram-nos em caixas de madeira pouco maiores do que nós. A exiguidade das suas dimensões impedia-nos de executar qualquer movimento. Dezenas de pregos de pontas aceradas guarneciam as paredes. Tudo corria bem se nós não nos movêssemos. Mas como permanecer de pé durante tantas horas sem, por fim, fraquejar. E quando vacilávamos, por efeito de fadiga, os pregos dilaceravam-nos a carne.

… A torturas infligidas pelos comunistas aos cristãos ultrapassava o entendimento humano. Assisti a muitas delas e verifiquei que o semblante dos carrascos estava radiante de uma alegria satânica. Enquanto os martirizavam bramavam: “Somos o diabo”.

… A nossa luta não é contra a carne e o sangue mas contra os Principados e os Poderes das Trevas. E afirmamos que o comunismo não procede de homens mas de Satanás. É uma força espiritual – diabólica e só pode ser combatida por uma força espiritual superior: o Espírito de Deus.

… Ouvi um dia um carrasco confessar: "agradeço a Deus, em quem não acredito, por ter vivido até esta hora em que posso exprimir toda a perversidade do meu coração". E dizia isto dando mostras de uma incrível ferocidade em relação aos prisioneiros que lhe eram entregues.

…Já depus como testemunha perante a Sub-Comissão de Segurança Interna do Senado Americano. Descrevi então, os terríficos espectáculos, a que me foi dado assistir, como por exemplo o de cristãos, durante quatro dias e quatro noites, atados a cruzes colocadas no solo de forma a que centenas de prisioneiros eram obrigados a satisfazer as suas necessidades sobre as caras e os corpos dos crucificados. Quando erguiam as cruzes, os comunistas riam e troçavam: "Olhai o vosso Cristo, como está belo". Já contei como um padre chegou à semi-loucura em virtude dos terríveis suplícios a que foi submetido. Obrigaram-no, na prisão de Pitesti, a consagrar excrementos humanos e urina e, sob esta forma, a distribuir a Comunhão a fiéis católicos… Todas as descrições do Inferno nas Santas Escrituras ou os suplícios narrados no Inferno de Dante, nada são em comparação com as torturas práticas nas prisões comunistas» (in Deirdre Manifold, Fátima e a Grande Conspiração, Edições Fernando Pereira, pp. 87-89).


La Porte de l'Enfer
Continua

domingo, 27 de junho de 2010

Bem-aventurança

Escrito por Dante Alighieri



Pedro Hispano

Eu sou a alma de Boaventura de Bagnoregio
que, no exercício dos mais altos ofícios eclesiásticos,
pospôs sempre as coisas mundanas às espirituais.

Aqui estão Iluminato e Agostinho,
que foram dos primeiros descalços pobres, que
humilde cordão franciscano tornou amigos de Deus.

Vêm em seguida Hugo de S. Vítor
e Pedro Mangiadore e Pedro Hispano, cujo
espírito, na Terra, brilha nos seus doze livros;

o profeta Natan, e o metropolitano
Crisóstomo, e Anselmo, e o famoso Donato,
que, à primeira arte, se dignou pôr mão.

Rabano também está aqui, e ao meu lado brilha
o calavrês Abade Joaquim,
dotado de espírito profético. 

A celebrar um tão grande paladino, eu, Boaventura,
fui levado pela inflamada cortesia de S. Tomás,
que fez o elogio de S. Francisco;

e moveu comigo esta companhia de
bem-aventurados.

(Paraíso, in A Divina Comédia, Canto XII).


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ciência e autoridade

Escrito por Álvaro Ribeiro



Aristóteles

Autoridade quer dizer autoria. A autoridade é assim correlativa com a liberdade. Este significado original e eminente de autoridade mantém-se ainda no domínio literário, onde autor é o escritor que comunica por meio de livro o seu livre pensamento.

Autor de todas as coisas visíveis e invisíveis é Deus, e dizem-se autorizados os sacerdotes que representam a divina autoridade. A autoridade política equivale à liberdade do legislador, pelo que não se deve confundir a autoridade das leis com o poder dos serviços públicos que as fazem cumprir. Ter autoridade é, pois, ter de qualquer forma o dom ou a graça de ser autor.

Autor indiscutível e indiscutido foi, durante séculos, Euclides, cujos Elementos de Geometria regularmente disciplinavam sucessivas gerações de estudantes. Os teoremas euclidianos foram impostos por virtude das demonstrações cogentes e gradativamente encadeadas que os acompanham e, por fim, foram tidos por modelos de simplicidade, de evidência e de intuição. Observe-se, porém, que o método euclidiano é um método de exposição e de demonstração, referido a um saber previamente construído, e não um método de investigação e de invenção.

Aristóteles foi, também, durante séculos, a primeira autoridade em física. Os livros aristotélicos não são, porém, livros de mera exposição e demonstração de doutrinas, mas, pelo contrário, exemplos e exercícios do orgão lógico para a indagação da verdade. Do uso que durante a Idade Média foi feito dos livros aristotélicos, muitas vezes discutidos e comentados sem prévio recurso à observação e experimentação, não há que inculpar o pensamento de Aristóteles.

Em questões que não podiam, ou não podem, ser resolvidas pela observação e pela experimentação, preconizava Aristóteles o método de autoridade. Não há, efectivamente, outro método de estudo senão a recensão das opiniões de vários autores, entre as quais o estudante escolhe a melhor, por preceitos de ordem lógica, e não por preconceitos alheios à indagação da verdade. O uso de citações, corrente em trabalhos universitários, demonstra que continua acima da crítica o método de autoridade.

A citação de autores, a descrição de observações e a narrativa de verificações, em ciência, valem apenas de complementos da indução ou da dedução. O que em ciência interessa é a relação do conceito com a tese, a antítese e a síntese. O que no livro de ciência constitui mensagem original é a estrutura linguística, estilística e lógica, o trivial.


Trivium


Quem escreve e publica não ignora quão difícil é obter do leitor a justa apreciação do que na obra existe de significativa e perene verdade. Todo o estudante universitário está advertido de que as citações e as ilustrações existentes nos livros de homens que passam por doutos, podem ter sido copiadas de livros anteriormente escritos sobre o mesmo tema, e que, por isso, não valem de prova de que o autor haja profundamente estudado o pensamento daqueles que chama em abono da sua tese ou proposição. As citas, ao passarem de livro para livro, são muitas vezes transcritas sem exactidão, sem referência verificável à página donde foram extraídas, e, no caso das frases mais célebres, sem alusão ao escrito onde pela primeira vez foram registadas.

O respeito pela autoridade, que também é o método de autoridade, prescreve que sempre as citações sejam acompanhadas da respectiva informação bibliográfica. Quando oriundas de livros estrangeiros devem as citações ser traduzidas para vulgar para que melhor se aprecie o valor que o escritor atribui ao argumento, se é certo que pela tradução se entende uma forma de assimilação; mas convém ainda que em nota figure o texto original, para que o leitor poliglota possa exercitar as suas faculdades de crítica. Recorrer à leitura do contexto das palavras citadas, afastar comentadores importunos, infiéis e desactualizados, discernir o que magister dixit, tal é o método para evitar pleitos que muitas vezes se dilatam em conversas inúteis e desultórias.

Ao estudante que quiser compreender as características de civilização em que vivemos, se aconselha a leitura imediata das obras de Aristóteles. Grande parte das críticas mais violentas que durante a Idade Média foram dirigidas contra as escolas aristotélicas resultaram improcedentes, não atingiam propriamente a essência da doutrina do Liceu. Os detractores do aristotelismo pretendiam ferir, para além do Filósofo, a verdade oculta nos seus escritos acroáticos.

A autoridade de Aristóteles não foi, durante a Idade Média, incompatível com a livre discussão de teses que caracteriza o ambiente das universidades europeias. S. Tomás de Aquino disse que o estudo da filosofia não tem por fim saber o que os outros pensaram, e afirmou também que em coisas humanas o argumento de autoridade é o mais débil (1). Todos os escritos filosóficos são obras humanas, não podem ser comparados a escrituras sagradas ou canonizadas, pelo que neles é permitido distinguir «o que é vivo e o que é morto», como a propósito de Hegel escreveu seu discípulo Benedetto Croce (2).

Basílica de S. Pedro (Vaticano).

Também a obra de Santo Tomás de Aquino, que o Magistério Eclesiástico manda ler, estudar e seguir no que for possível, está sujeita a adaptações, a alterações e a interpretações que atenuam, enfraquecem e anulam a designação de «filosofia tomista». A cosmologia, a antropologia e a teologia do Doutor Comum da Igreja podem pelos crentes ser discutidas em todos os pontos que não colidam com a fé católica. A obra de Santo Tomás de Aquino é, pois, muito respeitada pelo que significa de mediação cultural, mas por isso mesmo não desobriga do estudo de outros filósofos que, pela sua autoridade, facultaram a adequação do pensamento à realidade (3).

Os textos são letra morta: para ressuscitarem, precisam de ser lidos pela voz humana, e a vida das palavras depende do espírito que as anima. Não podemos esquecer que o Verbo é mediador entre a Letra e o Espírito. Não podemos esquecer que a tríade Letra-Verbo-Espírito corresponde a Espaço-Tempo-Eternidade.

A actualização do tomismo, com elementos de outros sistemas filosóficos que vão surgindo nos vários povos, tem sido trabalho árduo, e por vezes meritório, de escritores católicos. Entre a Encíclica Aeterni Patris /1879) e a Encíclica Humani Generis (1950) poderemos ver que o tomismo passa por um período de apologia perante o positivismo, tomando como linha de referência o trabalho propedêutico a que se dedicou o Cardeal Mercier enquanto esteve no instituto Filosófico de Lovaina (4). A tentativa de relacionar directamente a razão com a fé, de conciliar o pensamento gnósico com o pensamento pístico, sem mediação do pensamento sófico, ensinada por Aristóteles, nunca desenvolveu as virtudes nem suscitou as graças que os crentes esperam da apologética religiosa.

A inteligência humana inclina-se, sim, perante as escrituras que considera sagradas, aquelas em que os crentes lêem a palavra divina ou inspirada por Deus, e inclina-se porque de as interpretar só é digno quem estiver ungido por ordenação sacerdotal. Os estudos positivos de linguística, de estilística e de lógica, que habilitam para o exercício da filologia profana, não bastam para aproximar o estudante do misterioso domínio da teologia revelada. O pensador leigo deve estar liberto da ilusão de que lhe seria possível proceder ao «livre exame» da Escritura Sagrada, deve aceitar a interpretação que lhe for dada por quem se encontra para isso autorizado, ou seja, pelo indirecto ou directo representante do Autor, pelo ministro de Deus.

O exame da Escritura Sagrada, efectuado apenas com o auxílio do senso-comum e das ciências positivas, pode levar à profanação do culto e à derrogação das leis divinas, sem que do processo o examinador tenha consciência. Na ordem do hierárquico, do sagrado, do religioso, os efeitos da profanação não surgem patentes aos olhos de quem os causa: ficam ocultos até se declararem em devido tempo, e por isso na humanidade os filhos expiam os males provocados pelos pais e pelos avós, mas atribuem o erro das gerações antecedentes muito mais à ignorância do que à desobediência. É muito clara a doutrina da transmissão do pecado original que só aparece obscura nas palavras que a deslocam para o campo da hereditariedade biológica, o que repugna por incompatível com a ideia de Natureza.


A história relata, é certo, que alguns teólogos, intermediários e intérpretes entre as Sagradas Escrituras e a cultura profana do seu tempo, induziram em erro muitos fiéis; todos foram julgados, uns pelo Magistério Eclesiástico, outros pela crítica dos doutos, condenando-se assim as insubstantes formas de pontificado entre o temporal e o espiritual. Infelizmente, nos países e nas épocas de deficiente instrução teológica, alguns escritores religiosos transgridem a linha de demarcação entre a razão e a , (segundo a nomenclatura escolástica) e citam até a palavra divina em apoio de doutrinas muito contingentes e afastadas da interpretação canónica e autorizada. Na cultura portuguesa também há exemplos desse abuso que atingiu maior acuidade em esquecidos livros de política, mas aparece e reaparece em obras de apologética, escritas por estrangeiros, e traduzidas por portugueses, ou escritas por portugueses e abonadas com citações estrangeiras.

A apologia e a filosofia são processos diferentes de relacionar a cultura com o culto. Assim é que o apologeta da Igreja Católica não se limita a justificar a teologia dogmática, mas também a teologia moral e até a teologia política, fazendo passar a razão humana por todas as argúcias e subtilezas indispensáveis à acção missionária e até à acção militante. O que a Igreja Católica, ou os seus representantes da hierarquia eclesiástica, ou até os fiéis menos esclarecidos, decidiram ou resolveram em certas oportunidades e em certas circunstâncias, é apresentado como passado que o apologeta se vê coagido a defender, a justificar e a explicar. Ora na apologética nem tudo interessa a todas as épocas e a todos os povos, pelo que os livros escritos para os ambientes culturais da Europa Central nem sempre são utilizáveis para edificação religiosa das nações peninsulares e insulares.

Não só nos livros de apologética, mas também nos livros de moral, se nota a explicável mas injustificada preponderância do pensamento francês que ignora, limita e contraria muitos aspectos da portuguesa religiosidade. Importa não esquecer que a articulação da filosofia com a apologia não se tem efectuado pelo mesmo processo na história de todos os povos, e que só violentando a interpretação dos acontecimentos será possível estabelecer paralelo entre a história religiosa de Portugal e a história religiosa da França. Não se justifica, portanto, a real ou aparente subordinação do pensamento português à cultura francesa no que diz respeito à teologia dogmática e muito menos à teologia moral.


Álvaro Ribeiro


A análise da cultura conduz sempre ao reconhecimento de princípios inverificáveis e, de certo modo indiscutíveis, o que não quer dizer que sejam falsos: circunscrevê-los equivale a redigir o estatuto da crítica. Eis porque o estudo da teologia dogmática se nos afigura tão indispensável a quem se dedique à investigação histórica como a quem cultive a especulação filosófica. Habilitados com tais conhecimentos, os pensadores mais livres podem recusar, impugnar e refutar as abusivas interpretações que das misteriosas leis divinas e da imperscrutável vontade de Deus lhes propõem alguns escritores afamados, talvez piedosos, mas imprudentes (in Apologia e Filosofia, Guimarães Editores, 1953, pp. 91-99).


Notas:

(1) Studium philosophiae non est ad hoc quod sciatur quid homines sensirent, sed qualiter se habeat veritas rerum. 1. De Caelo et Mundo. Lest. 22 - Locus ab auctoritate quae fundatur super ratione humana infirmissimus est. Sum. Theol. 1.ª P. q. 1 a 8 ad 2. Citado por P. Pedro Descoqs S. J. Institutiones Metaphysicae - Éléments d'Ontologie - Paris, 1925. T. 1, p. 80.

(2) Benedetto Croce - O que é vivo e o que é morto na filosofia de Hegel. Tradução de Vitorino Nemésio - Coimbra, 1933.

(3) R. P. Jean-Baptiste Raus, C. SS R. - La Doctrine de S. Alphonse sur la vocation et la grace - Paris, 1926. Este livro é muito importante porque elucida o que se deve entender por tomismo e situa a doutrina perante as decisões do Magistério Eclesiástico. É, além disso, digno de especial menção porque se refer a um problema de interesse para a história da teologia em Portugal.

(4) L. de Raeymaeker - Le Cardinal Mercier et l'Institut Supérieur de Philosophie de Louvain, 1952.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ainda os filósofos

Escrito por Olavo de Carvalho




Honoré de Balzac


Diário do Comércio, 27 de maio de 2009

Expressar a experiência real em palavras é um desafio temível até para grandes escritores. Tão séria é essa dificuldade que para vencê-la foi preciso inventar toda uma gama de gêneros literários, dos quais cada um suprime partes da experiência para realçar as partes restantes. Se, por exemplo, você é Balzac ou Dostoiévski, você encadeia os fatos em ordem narrativa, mas, para que a narrativa seja legível, tem de abdicar dos recursos poéticos que permitiriam expressar toda a riqueza e confusão dos sentimentos envolvidos. Se, em contrapartida, você é Arthur Rimbaud ou Giuseppe Ungaretti, pode comprimir essa riqueza nuns poucos versos, mas eles não terão a inteligibilidade imediata da narrativa.

Essas observações bastam para mostrar que as idéias e crenças surgidas nas discussões públicas e privadas raramente se formam da experiência, pelo menos da experiência pessoal direta. Elas vêm de esquemas verbais prontos, recebidos do ambiente cultural, e formam, em cima da experiência pessoal, um condensado de frases feitas bastante desligado da vida. Se vocês lerem com atenção os diálogos socráticos, verão que a principal ocupação do fundador da tradição filosófica ocidental era dissolver esses compactados verbais, forçando seus interlocutores a raciocinar desde a experiência real, isto é, a falar daquilo que conheciam em vez de repetir o que tinham ouvido dizer. O problema é que, se você repete uma ou duas vezes aquilo que ouviu dizer, não apenas você passa a considerá-lo seu, mas se identifica e se apega àquele fetiche verbal como se fosse um tesouro, uma tábua de salvação ou o símbolo sacrossanto de uma verdade divina.

Para piorar as coisas, as frases feitas vêm muito bem feitas, em linguagem culta e prestigiosa, ao passo que a experiência pessoal, pelas dificuldades acima apontadas, mal consegue se expressar num tatibitate grosseiro e pueril. Há nisso um motivo dos mais sérios para que as pessoas prefiram antes falar elegantemente do que ignoram do que expor-se ao vexame de dizer com palavras ingênuas aquilo que sabem. Um dos resultados dessa hipocrisia quase obrigatória é que, de tanto alimentar-se de símbolos verbais sem substância de vida, a inteligência acaba por descrer de si mesma em segredo ou mesmo por proclamar abertamente a impossibilidade de conhecer a verdade. Como essa impossibilidade, por sua vez, é também um símbolo prestigioso nos dias que correm, ela serve de último e invencível pretexto para a fuga à única atividade mental frutífera, que é a busca da verdade na experiência real.

A própria palavra “experiência” já costuma vir carregada de uma nuance enganosa, pois se refere em geral a “fatos científicos” recortados a partir de métodos convencionais, que encobrem e acabam por substituir a experiência pessoal direta. Nessas condições, a discussão pública ou privada torna-se uma troca de estereótipos nos quais, no fundo, nenhum dos participantes acredita. É esse o sentido da expressão popular “conversa fiada”: o falante compra fiado a atenção dos outros – ou a sua própria – e não paga com palavras substantivas o tempo despendido. (Sempre achei uma injustiça que as leis punissem os delitos pecuniários, mas não o roubo de tempo. O dinheiro perdido pode-se ganhar de novo – o tempo, jamais.)


Heidegger




De Sócrates até hoje, a filosofia desenvolveu uma infinidade de técnicas para furar o balão da conversa estereotipada e trazer os dialogantes de volta à realidade. Zu den Sachen selbst – “ir às coisas mesmas” –, a divisa do grande Edmund Husserl, permanece a mensagem mais urgente da filosofia depois de vinte e quatro séculos. Ninguém mais que o próprio Husserl esteve consciente dos obstáculos lingüísticos e psicológicos que se opunham à realização do seu apelo. Todo o vocabulário técnico da filosofia – e o de Husserl é dos mais pesados – não se destina senão a abrir um caminho de volta desde as ilusões da classe letrada até à experiência efetiva. A conquista desse vocabulário pode ser ela própria uma dificuldade temível, mas decerto não tão temível quanto os riscos de ficar discutindo palavras vazias enquanto o mundo desaba à nossa volta. Ao incorporar-se à cultura ambiente como atividade academicamente respeitável, a própria filosofia tende a perder sua força originária de atividade esclarecedora e a tornar-se mais uma pedra no muro de artificialismos que se ergue entre pensamento e realidade.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

A unidade do intelecto

Escrito por S. Tomás de Aquino






Como todos os homens, por natureza, desejam saber a verdade, também neles é natural o desejo de fugir dos erros e de os refutar quando têm essa faculdade. Ora, entre todos os erros, o mais inconveniente parece ser aquele em que se erra sobre o intelecto que naturalmente nos habilita a conhecer a verdade evitando os erros. Há já algum tempo que se implantou entre muita gente um erro acerca do intelecto. Originado nos escritos de Averroes, consiste em defender que o intelecto a que Aristóteles chama "possível", e que Averroes designa impropriamente pelo nome "material", é uma substância separada do corpo segundo o ser, que de modo nenhum se une ao corpo como forma. Mais ainda: Averroes defende que o intelecto possível é único para todos os homens.

Já escrevemos por várias vezes contra este erro. Todavia, dado que que a impudência dos que o defendem não cessa de resistir à verdade, é nossa intenção avançar novos argumentos contra esse erro a fim de o refutarmos com toda a evidência.

Não iremos mostrar aqui que a posição acabada de referir é errónea por contrariar a verdade da fé cristã. Isso será imediatamente evidente seja para quem for. Se, de facto, se subtraísse aos homens, a diversidade do intelecto, a única de todas as partes da alma que se vê bem ser incorruptível e imortal, após a morte nada restaria das almas dos homens excepto a substância única do intelecto; e desta feita se suprimiria a retribuição das recompensas e das penas e a respectiva diversidade. Iremos mostrar outrossim que a posição referida não contraria menos os princípios da filosofia do que os ensinamentos da fé. E dado que nesta matéria alguns, como eles mesmo dizem, não querem saber das palavras dos Latinos e dizem-se seguidores da dos peripatéticos, cujos livros sobre essa matéria nunca viram, à excepção dos de Aristóteles, o fundador da seita peripatética, mostraremos em primeiro lugar que a referida posição vai contra as suas palavras e os seus ensinamentos.


Tomemos, então, a primeira definição da alma dada por Aristóteles no livro II sobre A Alma, onde afirma que ela é «o acto primeiro de um corpo natural organizado». E para que ninguém diga que esta definição não se aplica à alma toda, porque Aristóteles havia dito, no condicional, «se tivermos de afirmar qualquer coisa de comum à alma toda», - que eles interpretam, justamente, como se não pudesse ser o caso -, consideremos as palavras que se seguem no texto. Ei-las: «Dissemos, de facto, em sentido universal, o que a alma era: uma substância segundo a forma, isto é, a quididade de cada corpo», ou de outra maneira: a forma substancial de um corpo natural organizado.

E não se diga que se exclui a parte intelectiva dessa universalidade, o que Aristóteles refuta no que diz a seguir: «Que, portanto, a alma não é separável do corpo, ou, dado que ela é naturalmente divisível, ao menos algumas de suas partes da alma, eis o que é evidente, pois o acto de certas partes da alma é o acto de algumas partes do corpo. Já relativamente a outras partes nada impede a separação, porque não são acto de nenhum corpo». Isto só pode ser interpretado como dizendo respeito à parte intelectiva, a saber, intelecto e vontade. Daqui ressalta com evidência que certas partes desta alma, que antes definira universalmente designando-a como acto de um corpo, são acto de partes precisas do corpo, enquanto que outras não são acto de nenhum corpo. Porque, como mais adiante se verá, não é a mesma coisa a alma ser acto de um corpo e uma das suas partes ser acto de um corpo.


S. Gregório de Nissa

Mas, no que vem a seguir, ainda é mais evidente que ele inclui o intelecto também sob essa definição geral, sobretudo havendo suficientemente provado que a alma é o acto de um corpo, portanto, que a alma separada não vive em acto. Todavia, como se pode dizer que uma coisa vive em acto graças à presença de uma outra, não apenas se for a sua forma, mas também o seu motor - tal como a combustão em acto de um combustível na presença de um comburente e o movimento em acto de qualquer móbil na presença de um motor -, alguém podia duvidar se, estando a alma presente, um corpo vive em acto, como o móbil se move em acto na presença de um motor ou como uma matéria está em acto na presença de uma forma. E, principalmente, porque Platão defendeu que a alma não se une ao corpo como uma forma, mas mais como um motor ou um piloto, como é evidente por Plotino e Gregório de Nissa, que menciono porque não foram Latinos mas Gregos. O Filósofo insinua esta dúvida quando acrescenta, a seguir ao que disse: «Também não se vê se a alma é acto do corpo, como o timoneiro, do navio». E porque a dúvida persiste depois do que disse, conclui «que é metaforicamente que se determina e se descreve assim a alma», pois ainda não era líquido ter demonstrado a verdade.

A fim de tirar a dúvida, avança a seguir para a demonstração do que é mais certo em si e segundo o conceito com base naquilo que é menos certo em si mesmo, mas é mais certo para nós, ou seja, a partir dos efeitos da alma, que são os seus próprios actos. Para tal, distingue imediatamente as operações da alma, dizendo que «o animado distingue-se do inanimado pela vida» e que são muitas as operações que dizem respeito à vida como por exemplo, «a intelecção, a sensação, o movimento local e o repouso» bem como o movimento nutritivo e de crescimento, de maneira que diz-se que vive tudo aquilo que possui uma destas operações da alma. Depois, mostradas as suas relações mútuas, ou seja, como é que uma pode existir sem a outra, conclui com isto que a alma é o princípio de todas as operações e que «é determinada por elas, como pelas suas partes, que são as faculdades vegetativa, sensitiva, intelectiva e o movimento», mas que todas elas se encontram num só indivíduo, o homem.


Aristóteles e Averroes contra a torre da falsidade

Platão defendeu também a existência de diversas almas no homem em conformidade com a diversidade das operações da vida que o integram. Por esta razão, Aristóteles levanta a seguinte dúvida: «cada uma dessas faculdades é a alma» em si mesma ou uma parte da alma? E no caso de serem partes de uma mesma alma, elas diferem segundo o conceito ou também pelo lugar, quer dizer, pelo orgão? Acrescenta que «em relação a algumas não há dificuldade», mas em relação a outras há lugar para dúvida. Prova de imediato que é de facto claro, quanto ao que diz respeito à alma vegetativa e à alma sensitiva, dado que certas plantas e animais, mesmo quando seccionados, continuam a viver, pelo que todas as operações da alma que se dão no todo realizam-se numa qualquer das partes. Mas relativamente às que dão lugar a dúvidas, mostra, acrescentando, que «acerca do intelecto e da potência teorética, nada é ainda evidente». Aristóteles não diz isto querendo mostrar que o intelecto não é alma, conforme o Comentador e seus sequazes explicam de uma maneira ruim, porque é evidente que ele aqui está a responder ao que havia dito antes, «que relativamente a algumas há lugar para a dúvida» Daí dever entender-se: nada disto é ainda evidente, se o intelecto é alma ou se é uma parte da alma, e se for uma parte da alma, se está separada localmente ou apenas conceptualmente.

E mesmo dizendo que "nada é ainda evidente", não deixa de manifestar a primeira hipótese que vem à cabeça, acrescentando: «mas parece que é um outro género de alma». Esta afirmação não deve ser interpretada tal como o Comentador e os seus sequazes a explicam, de uma maneira ruim, que Aristóteles a fez porque é equivocamente que se chama alma ao intelecto ou porque não se lhe pode aplicar a definição referida. A maneira como devemos interpretá-la vem logo a seguir: «e só isto pode ser separado, como o eterno do corruptível». É nisto, portanto, que consiste o outro "género", em parecer que o intelecto é algo de eterno enquanto que as outras partes da alma são corruptíveis. E uma vez que o corruptível e o eterno não parecem ser compatíveis numa substância, parece que, entre todas as partes da alma, só o intelecto é que pode ser separado, não do corpo, evidentemente, tal como de maneira ruim o Comentador explica, mas das outras partes da alma, de forma que não se acham numa só substância da alma.


Torna-se evidente que é assim que se deve entender, a partir do que acrescenta: «Daí ser claro, em relação às outras partes da alma, que elas não são separáveis», quer dizer, segundo a substância da alma ou localmente.

Averroes

Já atrás o tínhamos averiguado, e o que então dissemos chega para provar. Que Aristóteles não está a pensar na separabilidade em relação ao corpo, mas da mútua separabilidade das potências, eis o que se torna evidente pelo que segue: «é claro que se distinguem conceptualmente», ou seja, umas em relação às outras, «o acto de sentir é diferente do de opinar». E, assim, é evidente que aquilo que aqui determina responde à pergunta feita acima. Com efeito, tinha-se perguntado se uma parte da alma se separa de outra apenas conceptualmente ou também segundo o lugar. Pondo de parte aqui esta questão relativa ao intelecto, sobre o qual agora nada determina, relativamente às outras partes da alma Aristóteles diz com clareza que não são separáveis segundo o lugar, mas que o são conceptualmente.

Portanto, posto isto, a saber, que a alma é determinada pela actividade vegetativa, vegetativa, sensitiva, intelectiva e pelo movimento, pretende mostrar de seguida que em todas estas partes a alma não se une ao corpo como o timoneiro ao navio, mas como uma forma. Deste modo certificar-se-á o que é a alma em geral, o que antes havia sido dito apenas metaforicamente. Prova-o com as operações da alma, assim: é, na verdade, evidente que aquilo que opera alguma coisa é em sentido primordial a forma do operador, como quando se diz que é pela alma que se conhece e que é pela ciência que se conhece, mas pela ciência primeiro do que pela alma, porque pela alma só conhecemos o que esta possui por ciência; de igual modo, dizemos que estamos de saúde pelo corpo e pela saúde, mas primeiro pela saúde. Desta maneira se torna evidente que a ciência é a forma da alma e que a saúde é a forma do corpo.

A Escola de Atenas, de Rafael (Vaticano).

A partir daqui acrescenta: «a alma é em sentido primordial aquilo pelo qual vivemos», que é dito por causa da faculdade vegetativa, «pelo qual sentimos», por causa da sensitiva, «pela qual nos movemos», por causa da faculdade motora, «e pela qual pensamos», por causa da faculdade intelectiva. E conclui: «Por esta razão ela será noção e forma, mas não como uma matéria e um sujeito». Portanto, é evidente que o que disse antes - a alma é o acto de um corpo natural - se conclui aqui, não só em relação à faculdade sensitiva, vegetativa e motora, mas também à intelectiva. A doutrina de Aristóteles foi, portanto, que aquilo pelo qual pensamos é a forma de um corpo natural.

Mas para que ninguém diga aqui que Aristóteles não afirma que aquilo pelo qual pensamos é o intelecto possível, mas outra coisa qualquer, excluímos manifestamente essa hipótese atendendo ao que diz no livro III sobre A Alma, falando acerca do intelecto possível: «Chamo, então, intelecto àquilo pelo qual a alma opina e pensa» (in A Unidade do Intelecto, Edições 70, 1999, pp. 45-55).



sábado, 19 de junho de 2010

Do Aquinense

Escrito por Dante Alighieri



Triunfo de São Tomás de Aquino sobre os Heréticos, de Filippino Lippi.

Eu fui frade da ordem dos Pregadores, fundada por
S. Domingos com uma santa Regra, a qual bem
observada conduz à perfeição cristã.

O que está mais próximo, à minha direita,
foi meu irmão e meu mestre: Alberto é de
Colónia, e eu Tomás d'Aquino.

(...) Esta alma [Ricardo de S. Vítor] de quem tua vista se afasta, a mim
voltando, é a luz dum espírito, que, gravemente
meditando, desejou morrer para se subtrair
aos enganos do mundo

essa é a luz eterna de Sigieri,
que ensinando na Rua de Fouarre,
fez silogismos de importunas verdades.

(O Paraíso, in A Divina Comédia, Canto X).


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Deuses, demónios e homens

Escrito por Santo Agostinho



Agostinho sacrificando a ídolos maniqueístas. Atribuído a Aert van den Bossche.

Definição dada pelo platónico Apuleio, dos deuses celestes, demónios aéreos e homens terrestres

Mas quê? Merecerá alguma atenção a definição que ele dá dos demónios (cujos termos a todos se aplicam) em que diz:

Os demónios são - quanto ao género, seres animados; passíveis, quanto ao ânimo; quanto à mente, racionais; aéreos, quanto ao corpo; quanto ao tempo, eternos.

Nestas cinco propriedades, nada, absolutamente nada, referiu em que os demónios parecessem ter de comum exclusivamente com os homens bons alguma coisa que não tivessem em comum com os maus. Efectivamente, descreve um pouco mais pormenorizadamente, no seu lugar próprio, homens, deles falando como de seres ínfimos e terrestres, depois de ter falado dos deuses do Céu; e, uma vez evocados os dois extremos, inferior e superior, trata em último lugar dos demónios, que ocupam o meio. Escreve ele:


Portanto, os homens, - orgulhosos pela razão, poderosos pela palavra, dotados de alma imortal, de membros votados à morte, de espírito ágil e inquieto, de corpos pesados e débeis, de costumes dessemelhantes e erros parecidos, de audácia obstinada e de esperança firme, de actividade estéril e de fortuna instável, individualmente mortais, todos, porém, no seu género, perpétuos porque se sucedem na renovação das gerações, de existência fugitiva, de tardia sabedoria, de morte rápida, de vida lastimosa -, habitam na terra.


Lúcifer

Ao mencionar tantas coisas que se referem à maior parte dos homens, acaso se calou acerca desse pormenor que sabia pertencer a um pequeno número - a tardia sabedoria? Se o tivesse omitido, a sua descrição do género humano, apesar de tão atento, ficaria na verdade incompleta. Pois bem - quando põe em relevo a excelência dos deuses, frisou bem que ela consistia nessa beatitude a que os homens pretendem chegar por meio da sabedoria. Por conseguinte, se a sua intenção fosse a de dar a entender que há bons demónios, teria juntado à sua descrição alguma propriedade donde parecesse que eles possuem, em comum com os deuses, uma certa beatitude, ou, com os homens, alguma sabedoria.

Ora ele não lhes pôs em relevo qualquer destas boas qualidades que permitem distinguir os bons dos maus. E, embora se tenha abstido de fazer ressaltar demasiado livremente a sua malícia, fê-lo, não para os ofender a eles, mas antes para não ofender os seus adoradores, a quem se dirigia. Todavia permitiu que os seus leitores precavidos compreendessem o que deviam pensar desses demónios: assim, aos deuses, no seu entender todos bons e felizes, pô-los absolutamente a salvo das paixões e, como ele mesmo confessa, das tempestades que agitam os demónios, e só os relacionou pela eternidade dos corpos; todavia, em relação à alma, declarou abertamente que os demónios se assemelham, não aos deuses, mas aos homens. E, mesmo esta semelhança, respeita não à sabedoria, bem de que os próprios homens podem participar, mas à perturbação das paixões que dominam os insensatos e os maus, que os sábios e os bons dominam, preferindo não as ter, a ter de as vencer. Se Apuleio quisesse dar a entender que os demónios têm de comum com os deuses, não a eternidade do corpo mas a da alma, não teria de certo excluído os homens deste comum privilégio porque, como platónico que é, pensa sem dúvida que também os homens têm alma imortal. Por isso é que, ao descrever esta espécie de seres animados, ele diz que os homens são dotados

de alma imortal, de membros votados à morte. (...)

Se o homem pode obter a amizade dos deuses por intercessão dos demónios

De que raça são então esses mediadores entre os deuses e os homens, por intermédio dos quais poderão os homens aspirar à amizade com os deuses - se o que há de melhor nos seres animados, a alma, é o que neles, como nos homens, há de pior; e se o que há de pior nos seres animados, o corpo, é o a que neles, como nos deuses, há de melhor? Efectivamente, o ser animado ou animal é composto de alma e corpo. Destes dois, o melhor é, sem dúvida, a alma, mesmo que viciosa e doente seja ela, e perfeitamente são e vigoroso o corpo. É que a sua natureza é de ordem mais elevada; a mácula dos vícios não a faz descer abaixo do corpo. É assim como o ouro, que, mesmo impuro, tem maior valor do que a prata e o chumbo mais puros. Estes mediadores entre os deuses e os homens têm como os deuses um corpo eterno e, como os homens, uma alma viciosa - como se a religião, pela qual pretendem que os homens se unem aos deuses por intermédio dos demónios, tivesse o seu fundamento mais no corpo do que na alma!

Arcanjo S. Miguel

Enfim, que malícia, que castigo suspendeu estes falsos e falazes mediadores, como se, por assim dizer, estivessem de cabeça para baixo? É que a parte inferior do seu ser animado, isto é, o corpo, têm-na eles em comum com os seres superiores; mas a parte superior, isto é, a alma, têm-na em comum com os seres inferiores. Estão unidos aos deuses celestes pela parte que é escrava e, desgraçados, estão unidos aos homens terrestres pela parte que domina. Realmente, o corpo é escravo, como diz Salústio:

Usamos do espírito preferentemente para mandar e do corpo para servir,
e acrescenta:

Uma qualidade é comum a nós e aos deuses, e outra a nós e aos brutos,

ao falar dos homens que têm, como os brutos, um corpo mortal. Mas estes, que os filósofos nos propuseram como mediadores entre nós e os deuses, bem podem dizer do seu corpo e da sua alma: esta é comum a nós e aos homens, e aquele é comum a nós e aos deuses. Com a diferença, como disse, de que estão ligados e suspensos às avessas, tendo o corpo escravo comum com os deuses bem-aventurados e a alma suspensa, com os degraçados dos homens, ou seja: exaltados pela parte inferior e rebaixados pela parte superior. Donde se conclui: ainda que alguém julgue que eles têm de comum com os deuses a eternidade, porque morte nenhuma poderá, como acontece nos seres terrestres, separar o seu espírito do seu corpo como veículo eterno de um corpo de seres dignos de honra, mas antes como eterno veículo de condenados.

Na opinião de Plotino, são menos desgraçados os homens num corpo mortal do que os demónios num corpo eterno

Plotino é justamente louvado por ter, nos tempos mais recentes, compreendido Platão melhor que os seus outros discípulos. Diz ele, ao tratar das almas humanas:

O Pai, na sua misericórdia, preparava-lhes vínculos (vincla) mortais.

Assim, o facto de os homens terem um corpo mortal, pensou ele atribuí-lo à misericórdia de um Deus-Pai, que não quis mantê-los sempre na miséria desta vida. Desta misericórdia considerou indigna a iniquidade dos demónios, que, na miséria duma alma sujeita às paixões, receberam, não um corpo mortal como o dos homens, mas sim um corpo eterno. De certo que seriam mais felizes do que os homens se, como estes, tivessem um corpo mortal e, como os deuses, uma alma bem-aventurada. E seriam iguais aos homens se, com uma alma atribulada, tivessem ao menos merecido, como eles, um corpo mortal - contanto que, evidentemente, pudessem repousar, pelo menos depois da morte, das suas tribulações. Mas eles, devido à miséria da sua alma, não são mais felizes do que os homens, e, devido à perpétua prisão que é o seu corpo, são até mais infelizes do que os homens. Ao afirmar que eles são eternos, quis dar a entender que eles não poderiam transformar-se em deuses, porque os demónios não são capazes de progredir na prática da piedade e da sabedoria.


Arcanjo S. Miguel

(...) Sendo mortais, poderão os homens gozar da verdadeira felicidade?

Se o homem poderá ser simultaneamente feliz e mortal - é a grande questão que entre os homens se põe. Alguns, olhando para a sua condição com demasiada modéstia, negaram ao homem a capacidade de ser feliz enquanto vive sujeito à mortalidade. Outros, considerando-se superiores, ousam dizer que os mortais poderão ser felizes desde que estejam de posse da sabedoria. Se assim é, porque é que se não colocam estes como intermediários entre os homens miseráveis e os felizes imortais, pois têm de comum com os imortais felizes a felicidade e com os mortais miseráveis a mortalidade? Com certeza que, se são felizes, a ninguém invejam (haverá realmente algo de mais miserável que a inveja), e ajudam, na medida que lhes é possível, os mortais infelizes a obterem a felicidade para que possam também ser imortais depois da morte e possam unir-se aos anjos imortais e felizes.

O homem Jesus Cristo mediador entre Deus e os homens

Mas, se, segundo a opinião mais aceitável e mais provável, todos os homens são necessariamente infelizes por serem mortais, tem que se procurar um intermediário que seja, além de homem, também Deus - para, por mediação da sua bem-aventurada imortalidade, encaminhar os homens da sua miserável mortalidade à imortalidade bem-aventurada. Era necessário que nem fosse excluído da mortalidade nem constrangido a permanecer mortal. Tornou-se, de facto, mortal, não por enfraquecimento da divindade do Verbo, mas por assunção da fraqueza da carne. Mas não permaneceu mortal na carne, que Ele ressuscitou dos mortos. O fruto da sua mediação é precisamente este: que aqueles para cuja libertação se fez mediador não permaneçam mais na morte perpétua da carne. Foi, pois, necessário que o mediador entre Deus e nós possuísse uma mortalidade transitória e uma felicidade permanente, para se poder acomodar aos mortais no passageiro e levá-los de entre os mortos ao que permanece.

Ressurreição de Jesus Cristo

Os anjos bons não podem, portanto, ocupar uma posição intermediária entre os infelizes mortais e os imortais bem-aventurados. Contrário a eles está o bom mediador que, contra a imortalidade e desgraça dos anjos maus, quis tornar-se mortal por algum tempo e pôde permanecer bem-aventurado na eternidade. Assim, para impedir que os maus anjos, imortais orgulhosos e infelizes criminosos, seduzissem os homens, valendo-se da sua imortalidade para os conduzir à infelicidade, - o bom mediador, pela humildade da sua morte e a suavidade da sua beatitude destruiu o domínio daqueles nos corações que pela fé purificou da sua imundíssima tirania.

Assim, o homem mortal e infeliz, muito afastado dos seres imortais e felizes, que mediador poderá escolher que o conduza à imortalidade e à beatitude? O que poderia deleitá-lo na imortalidade dos demónios, é miséria; o que poderia chocá-lo na mortalidade de Cristo, já não existe. Naquele caso, tem que se precaver contra a desgraça sem fim, - neste caso, já não tem que temer a morte que não pôde ser eterna, mas amar a felicidade sempiterna. Se se interpusesse um mediador imortal e infeliz, seria para fechar a passagem à imortalidade feliz, porque o que impede de lá chegar - a própria infelicidade - persiste sempre. Mas, ao contrário, o que era mortal e feliz interpôs-se, uma vez passada a mortalidade, para dar aos que morreram a imortalidade - o que ele mostrou em si próprio ressuscitando e conferindo aos que são infelizes a beatitude de que jamais foi privado.

Há, pois, um mediador mau que separa os amigos - e há um mediador bom que congraça os inimigos. São muitos os mediadores que separam, porque, se a multidão dos anjos bons tira a sua beatitude da participação no Deus único, a desgraçada multidão dos anjos maus, privada desta participação, faz oposição mais para impedir do que para facilitar a nossa felicidade. A sua própria multidão de certo modo nos ensurdece com a sua vozearia, para nos tornar impossível o acesso ao bem único e beatificante. Para o conseguirmos, não são precisos muitos mediadores: basta um - precisamente aquele cuja participação nos torna felizes, o Verbo de Deus incriado, por quem tudo foi criado. Todavia, não é enquanto Verbo que ele é mediador, porque o Verbo, soberanamente imortal e soberanamente feliz, está longe dos imortais infelizes. Ele é mediador enquanto homem, mostrando por isso mesmo que, para atingir aquele que é, não somente o Bem feliz (beatum) mas também beatificante (beatificum) não é preciso procurar outros mediadores que julguemos encarregados de dispor os degraus da nossa ascensão - pois foi o próprio Deus bem-aventurado (beatus) e beatificante (beatificus), tornado partícipe da nossa humanidade, quem nos forneceu um meio rápido de participarmos na sua divindade. Realmente, ao libertar-nos da mortalidade e da miséria, não foi para os anjos imortais e felizes que nos encaminhou, para nos alcançar uma felicidade e uma imortalidade deles recebida: foi sim para aquela Trindade cuja participação faz a felicidade dos próprios anjos. Por isso, quando quis, para ser mediador, pôs-se abaixo dos anjos na forma de escravo, manteve-se acima deles na sua forma de Deus, fazendo-se caminho da vida entre os inferiores, Ele mesmo que é a vida entre os superiores (in A Cidade de Deus, Fundação Calouste Gulbenkian,1993, Vol. II, pp. 837-44 e 853-857).


Conversão de Santo Agostinho, por Charles-Antoine Coypel.

Agostinho ensinando em Roma

Agostinho na Universidade de Cartago

Túmulo de Santo Agostinho, em San Pietro in Ciel d'Oro, em Pavia.

Triunfo da Igreja, por Peter Paul Rubens