sábado, 8 de outubro de 2022

Génese da grandeza e decadência das civilizações

Escrito por Gustave Le Bon


«Portugal é uma Raça, porque existe uma Língua portuguesa, uma Arte, uma Literatura, uma História (incluindo a religiosa) – uma actividade moral portuguesa; e, sobretudo, porque existe uma Língua e uma História portuguesas.

A faculdade que tem um Povo de criar uma forma verbal aos seus sentimentos e pensamentos, é que melhor revela o seu poder de carácter, de raça.

Por isso, quanto mais palavras intraduzíveis tiver uma Língua, mais carácter demonstra o Povo que a falar. A nossa, por exemplo, é muito rica em palavras desta natureza, nas quais verdadeiramente se perscruta o seu génio inconfundível.

(...) Basta falar nas Descobertas que não foram uma obra peninsular, mas exclusivamente portuguesa, filha da nossa iniciativa aventureira, do nosso poder de raça em actividade. Para demonstrar isto, não precisamos de recorrer à Cronologia nem à porção de mundo descoberto pelos nossos marinheiros.

As Descobertas foram uma obra essencialmente portuguesa, porque o génio português, encarnado em Camões, lhe deu forma espiritual, sublimada e eterna.

Não devemos ao acaso a glória imortal de Os Lusíadas...

Temos ainda a História do reinado de D. Dinis, D. João I e a História de D. Sebastião, principalmente depois da sua morte; isto é: o Sebastianismo.

Sim: quase toda a nossa História religiosa, política e jurídica, apresenta factos característicos da Raça, como a primitiva Igreja lusitana, a organização municipalista do País, a sua representação nas cortes e o carácter da nossa antiga monarquia.» 

Teixeira de Pascoaes («Arte de Ser Português»).


«E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são constituídas "daquilo de que os sonhos são feitos". E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-arremedo, realizar-se-á divinamente.»

Fernando Pessoa («A Nova Poesia Portuguesa»).

 

«(...) a geografia prefigura a história e a estirpe vital dos povos afunda as raízes na leiva em que nasceram.

Da estreita penetração entre a Terra e o Mar vai, pois, nascer o Português com os seus modos de vida típicos, o seu carácter, o seu idioma, a sensibilidade religiosa e as expressões artísticas, flor suprema de uma espiritualidade própria.»

Jaime Cortesão («Os Factores Democráticos na Formação de Portugal»). 

 

«Não coube Portugal no berço “onde o corpo nasceu”, ainda que então lhe sobrasse mantimento dentro dele [Torga (...) o reconhece, nos “Poemas Ibéricos”: "Terra de pão e vinho (a fome e a sede só virão depois, quando a espuma salgada for caminho...")]. Se não caber foi “destino”, uma das causas partiu do próprio instinto vital, pois não conseguiria que o deixassem sobreviver em tão reduzido torrão; e esta causa, este risco, acicatou uma outra, – a tendência expansionista, congénita, prestes desperta, que afinal o salvou.»

Francisco da Cunha Leão («Ensaio de Psicologia Portuguesa»).


«A contradição do universalismo abstracto

- Um dos grandes argumentos - recentemente invocado em afirmações culturais de diversa origem contra a existência das filosofias nacionais e, consequentemente da filosofia portuguesa, é o de que o pensamento é universal... O que diz o Sr. Dr. sobre este tema?

-  Compreendo e respeito o ponto de vista, mas não me é possível perfilhá-lo. A simples experiência quotidiana ensina que o universal é recebido pelo espaço e pelo tempo. Além dessas limitações naturais, históricas e geográficas, existem hoje limitações técnicas, artificiais, como o falso ideal de um absurdo humanitarismo abstracto, que alguns querem impor pela força, para substituir o ideal da fraternidade universal. Ora repare que até os irmãos são diferentes.

- E quem diz irmãos...

- ... diz raças. Para os que perfilham um abstracto universalismo, será uma contradição existirem as raças humanas e as raças serem diferentes umas das outras, o que implica necessariamente uma distinção entre superiores e inferiores ou, o que é o mesmo, mais atrasadas e mais adiantadas. E dentro das raças há os povos, com as suas características étnicas. Sabe qual é o melhor processo de combater a resistência das raças e dos povos, em vista a um qualquer totalitarismo?

- Diga, Sr. Dr. ...

- É negar-lhes o direito à existência, negar que verdadeiramente existam, negar a evidência. Ora a verdade é diferente deste paradoxo. Existem a etnografia, a etnologia e a antropologia cultural a confirmar uma verdade que resiste a todas as revoluções.»

Resposta a um Inquérito aos Pensadores Portugueses. Introdução e entrevista conduzida por António Quadros. In 57, Ano I, números 3-4, Lx.ª, Dezembro de 1957.


«Exponhamos (...) antes de mais nada e sucintamente, uma classificação das multidões.

O ponto de partida será a multidão simples. A sua forma mais inferior apresenta-se quando constituída por indivíduos pertencentes a raças diversas, tendo apenas como laço comum a vontade mais ou menos respeitada de um chefe. São tipos desta espécie de multidões os bárbaros de origens muito diversas que durante alguns séculos invadiram o Império Romano.

Superior a estas multidões de raças diferentes, encontram-se as que, sob a acção de certos factores, adquiriram caracteres comuns e acabaram por constituir uma raça. Sempre que a ocasião o proporcione, apresentarão as características especiais das multidões, muito embora essas características venham a ser mais ou menos dominadas pelas da raça.

Essas duas categorias podem, sob a acção dos factores que já estudámos, transformar-se em multidões organizadas ou psicológicas. Destas multidões organizadas apresentamos a seguinte classificação:

Multidões heterogéneas

1.º Anónimas (multidões das ruas, por exemplo)

2.º Não anónimas (júris, assembleias parlamentares, etc.)


     Multidões homogéneas

1.º Seitas (seitas políticas, religiosas, etc.)

2.º Castas (castas militar, sacerdotal e operárias, etc.)

3.º Classes (classes burguesa, dos camponeses, etc.)».

Gustave Le Bon («A Psicologia das Multidões»).

«Afigura-se-me que as Nações Unidas se encontram num passo crucial da sua vida, não porque tenham avançado no sentido da universalidade – foram criadas para albergar em seu seio todos os Estados independentes – mas porque se vão afastando do espírito que presidiu à sua criação, ao mesmo tempo que substituem os processos de trabalho. É visível a tendência para converterem-se em parlamento internacional, a que não faltam mesmo sessões tempestuosas, partidos ideológicos e rácicos, arranjos de corredores. Para que a solução por que alguns anseiam se completasse, seria no entanto necessário sobrepor-lhe um executivo responsável da confiança da Assembleia, o que oferece dificuldades, na medida em que os Estados Unidos se não disponham a custear a política aventurosa de alguns novos Estados ou a Rússia não esteja resolvida a trabalhar com um parlamento que não seja inteiramente seu, e esse não é ainda o caso. Mesmo sem governo e sem capacidade de impor normas obrigatórias para os Estados membros, esse parlamento pode criar – está já criando – através das suas tribunas e da ressonância que emprestam às afirmações produzidas, vagas de agitação, ambientes subversivos, estados de espírito que funcionam como meios de pressão sobre as nações estranhas aos grandes clãs da Assembleia. E tendo sido instituídas para a paz, já ali se ouvem em demasia vozes que a não pressagiam.

Muitos Estados recém-vindos às Nações Unidas mostram-se convencidos de que só ali podem ter apoio e defesa. O resultado é que, junta a essa convicção a deficiência natural das suas representações diplomáticas, a via bilateral para a solução dos problemas vai sendo abandonada e é fatal nas Comissões e na Assembleia a tendência para a internacionalização de todas as questões e conflitos, mesmo que em nada interessem ao resto do mundo.

A distância que vai do direito de voto à capacidade de decisão, ou de uma maioria votante à força efectiva das nações, faz que soem um pouco a falso as grandes objurgatórias, mas não anula o seu perigo. Revela em todo o caso um desequilíbrio que ou desaparecerá ou de alguma forma terá de ser compensado

Para mim, sem o dom da profecia, o carácter parlamentarista, excessivamente intervencionista e internacionalizante das Nações Unidas marcará o próximo futuro, até uma crise grave que as porá à prova. Temos de tê-lo presente, visto que não nos dispomos a aceitar a intervenção abusiva de terceiros na nossa vida interna.»

Oliveira Salazar («Portugal e a Campanha Anticolonialista», 4.ª Edição, SNI, 1960).


«[Oliveira Salazar] lança as bases do próprio estatuto político que deveria enquadrar a nação: as suas linhas eram idênticas às que expusera em entrevistas e declarações, e as suas raízes ideológicas permaneciam imutáveis desde os tempos de Viseu e Coimbra. E aí estavam o nacionalismo, a família, as corporações, a autoridade, o bem-comum: era uma síntese da democracia cristã de Leão XIII, das doutrinas económicas de Le Play, do princípio da vitória pela vontade de Gustave Le Bon, do historicismo de Maurras. Além do mais, era uma afirmação de portuguesismo supremo: nada contra a Nação, tudo pela Nação

Franco Nogueira («Salazar, II, Os tempos áureos, 1928-1936»).


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O convite às autoridades portuguesas para cessarem imediatamente as medidas de repressão é uma atitude, digamos, teatral do Conselho de Segurança e que ele não tem a menor esperança de ver atendida, tão gravemente ofende os deveres de um Estado soberano. Desde os meados de Março não acharam nem o Conselho nem a Assembleia oportunidade para ordenar aos terroristas que cessassem os seus morticínios e depredações, e tantos dos seus membros o podiam ter feito com autoridade e eficácia. Mas quando intervém a autoridade cuja obrigação é garantir a vida, o trabalho e os bens de toda a população, essa obrigação ou primeiro dever do Estado não haverá de ser cumprido, porque é necessário que os terroristas continuem impunemente a sua missão de extermínio e de regresso à vida selvagem.

A consideração de que a situação em Angola é susceptível de se tornar uma ameaça para a paz e para a segurança internacionais, essa, sim, pode ter algum fundamento, mas só na medida em que alguns dos votantes decidam a passar do auxílio político e financeiro que estão dando, para o auxílio directo com as suas próprias forças contra Portugal em Angola. Tudo começa a estar tão do avesso no mundo que os que agridem são beneméritos, os que se defendem são criminosos, e os Estados, cônscios dos seus deveres, que se limitam a assegurar a ordem nos seus territórios são incriminados pelos mesmos que estão na base da desordem que ali lavra. Não. Não levemos ao trágico estes excessos: a Assembleia das Nações Unidas funciona como multidão que é e portanto dentro daquelas leis psicológicas e daquele ambiente emocional a que estão sujeitas todas as multidões. Nestes termos é-me difícil prever se o seu comportamento se modificará para bem ou não agravará ainda para pior. Se porém virmos este sinal no céu de Nova Iorque, é meu convencimento que estão para breve catástrofes e o total descalabro da Instituição

Oliveira Salazar («O Ultramar Português e a ONU», SNI, 1961).


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Génese da grandeza e decadência das civilizações

A incessante criação de leis e regulamentos restritivos, que vêm cercar com as mais bizantinas formalidades os menores actos da vida, tem como resultado fatal o apertar cada vez mais a esfera dentro da qual os cidadãos possam livremente mover-se. Vítimas da ilusão de que a igualdade e a liberdade se acham mais bem asseguradas pela multiplicação das leis, os povos aceitam todos os dias as mais pesadas peias.

Mas não é impunemente que as aceitam. Habituados a suportar todos os jugos, acabam por procurá-los e chegam a perder toda a espontaneidade e toda a energia. Então não passam de vãs sombras, autómatos passivos, sem vontade, sem resistência, sem força.

E então também o homem vê-se forçado a procurar fora de si a força que em si não encontra. Com as crescentes indiferença e incapacidade dos cidadãos, o papel dos governos aumentará ainda forçadamente. São eles que forçosamente hão-de ter o espírito de iniciativa, de empreendimento e conduta que os particulares não têm. Será necessário que os governos tudo empreendam, tudo dirijam, tudo protejam. O Estado será um deus omnipotente. Mas a experiência ensina-nos que o poder de tais deuses nunca é nem muito duradouro nem muito forte.

A progressiva restrição de todas as liberdades em certos povos, não obstante a licença exterior, que lhes dá a ilusão da posse dessas liberdades, parece ser consequência da sua velhice tanto como a de qualquer regime. Constitui um dos sintomas precursores da fase de decadência a que nenhuma civilização até hoje pôde escapar.

A avaliarmos pelas lições do passado e por sintomas que por toda a parte se manifestam, algumas das nossas civilizações modernas chegaram à fase da velhice extrema, que precede a decadência. Ao que parece, são fatais em todos os povos fases idênticas, pois que as vemos muitas vezes repetidas na História.

É fácil indicar sumariamente estas fases da evolução geral das civilizações e com essa indicação terminaremos a obra. O rápido quadro que vamos apresentar projectará porventura alguma luz sobre as causas do actual poder das multidões.

O que vemos, ao analisarmos nas suas grandes linhas a génese da grandeza e decadência das civilizações que precederam a nossa?

Na aurora dessas civilizações, há uma nuvem de homens de variadas origens, reunidos pelos acasos das imigrações, das invasões e das conquistas. Estes homens de diversos sangues, de crenças igualmente diversas, só têm como laço comum a lei meio reconhecida de um chefe. Nestas confusas aglomerações encontram-se no mais alto grau os caracteres psicológicos das multidões. Têm destas a momentânea coesão, os heroísmos, as fraquezas, os impulsos e as violências. Nada nelas é estável. São bárbaras.




Depois o tempo acaba a sua obra. A identidade dos meios, a repetição dos cruzamentos, as necessidades de uma vida comum, actuam lentamente. A aglomeração de unidades dissemelhantes começa a fusionar-se e a formar uma raça, isto é, um agregado que possui caracteres e sentimentos comuns, que a hereditariedade vai fixando cada vez mais. A multidão fez-se povo e este povo vai ter a possibilidade de sair da barbaria.

Todavia sairá completamente quando, após longos esforços, depois de lutas incessantemente repetidas e inumeráveis tentativas, haja adquirido um ideal. A natureza deste ideal pouco importa; seja ele o culto de Roma, o poder de Atenas ou o triunfo de Alá, será o bastante para dar a todos os indivíduos da raça em via de formação uma unidade perfeita de sentimentos e pensamentos.

Só então é que pode nascer uma civilização nova, com as suas instituições, crenças e artes. Arrastada pelo seu sonho, a raça adquirirá sucessivamente tudo o que dá brilho, força e grandeza. Em algumas horas será ainda, sem dúvida, multidão, mas então, por detrás dos caracteres móveis e mutáveis das multidões, encontrar-se-á o substracto sólido, a alma da raça, que estreitamente limita a extensão das oscilações de um povo e vai regularizar o acaso.

Depois de haver exercido a sua acção criadora, o tempo começa, porém, a obra de destruição a que nada escapa, nem deuses, nem homens. Chegando a um certo nível de poder e complexidade, a civilização deixa de aumentar e, desde que isto se dá, está condenada a declinar. A hora da velhice está prestes a soar para ela.

Esta hora inevitável é sempre marcada pelo enfraquecimento do ideal que sustentava a alma da raça. À proporção que este ideal empalidece, todos os edifícios religiosos, políticos ou sociais de que ele era o inspirador começam a abalar-se.

Com a expansão progressiva do seu ideal, a raça perde cada vez mais o que constituía a sua coesão, a sua unidade e a sua força. O indivíduo pode crescer em personalidade e em inteligência, mas também, ao mesmo tempo, o egoísmo colectivo da raça é substituído por um desenvolvimento excessivo do egoísmo individual acompanhado pelo rebaixamento de carácter e pela diminuição das aptidões para a acção. O que até então formava um povo, uma unidade, um bloco, acaba por fazer-se uma aglomeração de individualidades sem coesão, que ainda mantém artificialmente durante algum tempo as tradições e as instituições. É então que, divididos pelos seus interesses e aspirações, não sabendo já governar-se, os homens exigem uma direcção para os actos mais insignificantes e o Estado exerce a sua absorvente acção.

Com a perda definitiva do antigo ideal, a raça acaba por perder completamente a alma; esta já não é mais do que uma nuvem de indivíduos isolados e transforma-se no que foi o seu ponto de partida: uma multidão. Tendo desta todos os caracteres sem consistência e sem futuro. A civilização deixa de ter fixidez e fica à mercê de acasos. A plebe é senhora e os bárbaros avançam. A civilização poderá então parecer ainda brilhante, porque possui a fachada exterior construída por um longo passado, mas, na realidade, é um edifício arruinado que já não tem amparos e se desmoronará à mais leve tempestade.

Passar da barbaria para a civilização, prosseguindo um sonho, depois declinar e morrer, fogo que esse sonho perdeu a força, tal é o ciclo da vida de um povo.

(In Gustave Le Bon, A Psicologia das Multidões, Bookbuilders, 1.ª edição, Janeiro de 2020, pp. 188-191).





quinta-feira, 6 de outubro de 2022

"A Nação, (por leis divinas,)..."

Escrito por António Correia de Oliveira



A Nação, (por leis divinas,)

Para que ninguém a vença,

Sua fortaleza imensa

Assenta em quatro colinas:

Chão e Raça, a Língua e a Crença.


A Fala que Deus nos deu


segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Tentativa de Revolução

Escrito por Oliveira Salazar




«São os fins de Agosto, e apesar disso as noites estão inusitadamente frias; mas Salazar não desiste dos seus passeios a pé, por Santa Comba ou no Caramulo. Em 26 de Agosto o ambiente turva-se: naquele dia recebe de Lisboa informações graves, e até Sebastião Ramires, que se encontra na Alemanha, telefona de Hamburgo a exprimir a sua preocupação perante as notícias que lhe chegam. Efectivamente, o chefe da polícia telefona a prevenir de possíveis alterações de ordem pública: e dá conta dos preparativos de uma revolução. Salazar não se alarma, e depois de jantar sai em passeio a pé com Jerónimo Lacerda e Guilherme Possolo. Pelo país tudo decorre calmamente. Nos últimos dias de Agosto Bissaia Barreto vem passar vinte e quatro horas, e Emídio Mendes traz notícias de Lisboa; e Salazar convida para almoçar Armindo e Lúcia Monteiro e Teixeira de Sampaio, e depois o ministro dos Estrangeiros transmite as suas impressões da reunião da Liga de Genebra. Duarte Pacheco passa um dia completo com Salazar, e todo o plano de obras públicas, em execução ou a executar, é minuciosamente discutido. Entra Setembro. No dia 1, Salazar sai cedo do Vimieiro para uma larga digressão. Vai a Tondela e ao Buçaco. E passa em Coimbra, aqui demora-se em conferência com Agostinho Lourenço, que fora ao seu encontro: e o chefe da polícia põe o Presidente do Conselho a par de quanto tem apurado sobre os manejos revolucionários. Tranquilamente, Salazar segue para Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, inspecciona em Cernache de Bonjardim o Colégio das Missões; pára uns instantes em Penela; percorre as escavações arqueológicas em Condeixa; e de novo por Coimbra regressa às suas paragens, para jantar no Caramulo. Nos dias imediatos sente-se indisposto, enfermiço. Deixa-se estar pelo Caramulo, com idas rápidas a Santa Comba. Não recebe ninguém; entrega-se à leitura de jornais e à sua correspondência particular. Mas a 8, de manhã, aparece Assis Gonçalves, seu antigo secretário e devoto fiel: traz boatos, notícias alvoraçadas. E no dia seguinte, uma segunda-feira, Agostinho Lourenço telefona de Lisboa a comunicar que os revolucionários fixaram o golpe para a madrugada de terça-feira.

Salazar não se perturba. Dá ao chefe da polícia as suas instruções. E pouco depois as autoridades prendem em Lisboa os conjurados, que haviam planeado reunir-se no quartel da Penha de França, e o comandante Mendes Norton, que ao tentar sublevar o Bartolomeu Dias é detido pelo comandante Correia da Silva; e em Cascais são surpreendidos e presos os que se deviam avistar com o Presidente Carmona, para lhe impor a aceitação do golpe revolucionário. Ao fim da manhã de terça-feira, dia 10, Salazar abandona então o Caramulo e dirige-se a Santa Comba. Ao almoço tem por conviva Teixeira de Sampaio, com quem trata de minúcias do Ministério dos Estrangeiros. Mas pela tarde toma o comboio para Lisboa. Na Pampilhosa junta-se-lhe o ministro da Marinha, que interrompera as suas férias em S. Martinho do Campo. E na chegada a Lisboa reúnem-se imediatamente com o Ministro do Interior e o chefe da polícia. Era já seguro que fora evitado o golpe, e o país não se apercebera de coisa alguma. Naquela noite, com Agostinho Lourenço e Costa Leite, Oliveira Salazar redige então uma nota oficiosa. Publicam-na os jornais do dia 11. Dá o chefe do governo conta ao país da rede de conspiradores e demonstra como desde há muito as actividades eram seguidas pela polícia; atribui a tentativa a indivíduos dos antigos partidos, a militares demitidos, a elementos da direita afins do nacional-sindicalismo, a membros de organizações secretas da Confederação Geral do Trabalho; e, depois de esclarecer como foi abortado o golpe, informa que além do comandante Mendes Norton e do tenente-coronel Manuel Valente foram presos outros envolvidos na trama revolucionária. Do documento a opinião pública fica com o sentimento da força do governo, da serenidade do seu chefe, da eficiência da polícia. Nesse dia 11, pela manhã, Salazar avista-se em Cascais com o Presidente Carmona e informa-o dos acontecimentos; e depois, durante cinco horas, está reunido em S. Bento o Conselho de Ministros. Salazar revela então um novo episódio: Paiva Couceiro fizera circular uma carta acusando o governo de negociar a entrega de Angola. Na manhã seguinte, a 12, Salazar convoca nova reunião do Conselho. São decididas as prisões de todos os revolucionários, e seu julgamento; a Couceiro é proibida, por seis meses, a residência em território nacional “mais como protesto do que como penalidade”. Carmona aprova as resoluções do gabinete. E em nova declaração o governo repudia com indignação as alegações de Couceiro quanto ao Ultramar. Depois Salazar dá as suas directivas ao chefe da polícia quanto ao prosseguimento das averiguações. E a 14 à noite segue para o Caramulo a retomar as suas férias interrompidas. [Henrique de Paiva Couceiro. Recorde-se a sua carreira: fizera parte, com Mousinho, Galhardo, Aires de Ornelas, Caldas Xavier, Eduardo Costa, do grupo de oficiais que acompanharam António Enes em Moçambique na campanha que levou à destruição do Gungunhana; governou depois Angola; bateu-se heroicamente na defesa da Monarquia; tentou, nos primeiros anos da República, derrubá-la com incursões organizadas em Espanha. Era lendária a sua bravura pessoal].»

Franco Nogueira («Salazar, II, Os tempos áureos – 1928-1936»).


A «geração» de Mouzinho de Albuquerque. Os companheiros de África. Sentados da esquerda para a direita: Dr. Baltasar Cabral, Mouzinho de Albuquerque e Aires de Ornelas. De pé, da esquerda para a direita: Andrade Velez, Gomes da Costa, Eduardo Costa, João de Azevedo Coutinho, João Galvão e Baptista Coelho. Ver aqui


Henrique Mitchell de Paiva Cabral Couceiro

«(...) Este grupo de militares teve o condão de, pelas suas proezas nunca alcançadas nos anos recentes, despertar o país para a realidade colonial e de promover a afirmação de Portugal perante o exterior numa altura em que o prestígio nacional em África já tinha conhecido melhores dias. Os inimigos não eram as azagaias dos Vátuas, mas sim os apetites que a debilidade da presença portuguesa despertou nas potências europeias, nomeadamente na Grã-Bretanha e na rival Alemanha».

Paulo Jorge Fernandes («MOUZINHO DE ALBUQUERQUE. Um soldado ao serviço do Império»).


Tentativa de Revolução


Nota oficiosa publicada nos jornais de 11 de Setembro de 1935 a propósito dos acontecimentos da véspera:

Desde há muito tempo vem o Governo seguindo, por intermédio dos seus orgãos de informação e vigilância, os trabalhos preparatórios de alteração da ordem prosseguidos por elementos inimigos ou apenas descontentes com a marcha política e administrativa do País.

Conheciam-se os locais das reuniões, os dirigentes, os elementos de ligação, os futuros Ministros, os planos de acção e o seu projectado desenvolvimento. Mais se conheciam os entendimentos estabelecidos entre os indivíduos de antigos partidos, militares demitidos das velhas revoluções e elementos das chamadas direitas, alguns com serviços à situação política actual e simpatizantes com os processos políticos do nacional-sindicalismo já dissolvido.

Por falta de acordo, primeiro acerca da distribuição das pastas, depois acerca da chefia do governo que cada um dos grupos desejava para si, desavieram-se os principais dirigentes, mas os elementos de uma e outra banda continuaram trabalhando de modo que pudessem no momento decisivo usufruir sozinhos os proventos da vitória.

Convinha ao Governo desta vez não se mostrar informado da conjura nem tomar prevenções que fizessem adiar o movimento. E por isso o esperou para as seis da manhã de hoje em que devia eclodir.

Estava no plano que o sinal fosse dado do destacamento da Penha de França, tendo-se comprometido o capitão de mar e guerra Mendes Norton a secundá-lo de bordo do Bartolomeu Dias. O Presidente do Conselho e alguns Ministros deviam ser presos.

Como quer que a Polícia fosse prendendo, à sua chegada à Penha, os conjurados e à espera destes se encontrasse o oficial comprometido a revoltar a unidade, o sinal não foi dado. Por seu turno o comandante Mendes Norton entrava abusivamente no Bartolomeu Dias e, não conseguindo fazer-se obedecer pela guarnição, foi por esta preso.

À mesma hora já se encontravam em Cascais dois conspiradores – um civil e outro militar – os quais tinham tomado sobre si a missão de comunicar ao Chefe do Estado a revolução e de convidar o Sr. Presidente da República a tomar o movimento como expressão da vontade do País – o que pelos motivos referidos não pôde sequer ser tentado.

Os elementos presos à sua chegada à Penha de França, bem como os civis detidos em vários pontos da cidade, são conhecidos revolucionários dos antigos partidos e das organizações secretas da Confederação Geral do Trabalho com os quais deveriam colaborar oficiais de bem diferente ideal. O mais categorizado destes presos é o tenente-coronel dentista veterinário, Manuel Valente.



Está-se procedendo à prisão dos conspiradores para aplicação das sanções legais, devendo reunir-se amanhã o Conselho de Ministros para tomar conhecimento pormenorizado dos acontecimentos e adoptar as medidas que se tornem necessárias para continuar assegurando ao País a tranquilidade e ordem que mais do que nunca ele tem o direito de exigir, para eficaz defesa dos seus maiores interesses.

Todos os actos se desenrolaram sem que o público tivesse conhecimento do que se passara, e sem se ter notado a menor alteração da ordem pública.

(In Oliveira Salazar, Discursos e Notas Políticas, II, 1935-1937, Coimbra Editora, 2.ª Edição, 1945, pp. 59-61).

sábado, 1 de outubro de 2022

NOVAS REFLEXÕES SOBRE WIRYAMU - Uma atrocidade que não existiu -

Escrito por James J. Kilpatrick




WIRYAMU: UM EPISÓDIO DUVIDOSO, CONFUSO E MANIPULADO, devidamente analisado num texto esclarecedor, publicado em Maio de 1974 na 'National Review' por James J. Kilpatrick, traduzido e também publicado pela revista 'Resistência' em Julho do mesmo ano.


 


 





Em Londres, da esquerda para a direita: Lord Caradon, Adrian Hastings e Mário Soares.

«Os dirigentes trabalhistas boicotariam todas as cerimónias, tendo Harold Wilson recebido uma delegação do PS, chefiada por Mário Soares, o que provocaria grande histeria no seio do governo português. Este participaria ainda numa importante sessão solene organizada pelo padre Adrian Hastings em Chatham House, com a presença da fina flor da esquerda britânica. Pela primeira vez, aparecia o nome de Mário Soares na imprensa britânica e em toda a imprensa mundial, enquanto Marcello Caetano era apresentado, com desdém e sem subterfúgios, como um ditador.»

Rui Mateus («Contos Proibidos. Memórias de um PS Desconhecido»).


«O fiasco foi das manifestações de uma escória de trabalhistas e homossexuais, reunida por Mário Soares e comandada por um conhecido agitador paquistanês que a polícia prendeu em flagrante, como toda a imprensa londrina noticiou, revelando que a hostilidade não era portuguesa.»

Marcello Caetano («Confidências do Exílio)».





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segunda-feira, 11 de julho de 2022

It took the Russian war in Ukraine to expose the scam of “green” energy

Written by Ethan Huff


The West’s forced transition away from reliable fossil fuel energy into “green” energy alternatives has proven to be disastrous. And thanks to the war in Ukraine, Western economies are finally waking up to that fact.

As we reported, the European Union (EU) is slated to bring oil and gas production into the green energy fold – something that even just a year ago would have been unheard of.

Russian Pres. Vladimir Putin’s decision to stop the deep state from using Ukraine as a proxy nation to commit atrocities led to sanctions, which led to energy shortages, which led Western Europe to realize that if it does not revert back to fossil fuel use, it will be lights out very soon.

Even the corporate-controlled media, which has long praised green energy, is now admitting that we had better get those oil pumps and drilling operations going or else we can all expect a third-world style collapse come winter.

“… an energy-starved world is turning to coal as natural-gas and oil shortages exacerbated by Russia’s war against Ukraine lead countries back to the dirtiest fossil fuel,” the Journal reported.

Going “green” means destroying your economy and going into POVERTY

It turns out that fossil fuels do not have to be the “dirty” sources of energy that the greenies have long claimed they are. There are clean, safe and efficient ways to pull up fossil fuels from the earth and use them to power businesses, homes, vehicles and so much more without destroying the planet.

The EU plans to keep policies in place to ensure that fossil fuels are generated cleanly and responsibly, but no longer will they be on the chopping block for a full phase-out and ban like before.

See here

Even “clean coal” is making a comeback as it is needed along with the others to keep heaters going, plants growing and the world economy flowing. Wind, solar and wishful thinking are simply not enough to keep the lights on.

“… from the U.S. to Europe to China, many of the world’s largest economies are increasing short-term coal purchases to ensure sufficient supplies of electricity, despite prior pledges by many countries to reduce their coal consumption to combat climate change,” another report explains.

There is actually now so much demand for coal that prices in the global market are spiking dramatically – or at least this is the reason we are being told for the massive jump on the charts that has been seen ever since early 2021.

Benchmark prices for coal reached new records this year, one example being spot coal prices at Australia’s Newcastle port, a key supplier to Asia. There, oil topped $400 a ton for the first time ever last month.

“Hilariously, the push for coal is being led by Europe, ground zero of the ‘green movement’ which finally realized that one can’t burn fake virtue or melt posing in front of camera in the winter to keep warm, and is boosting coal purchases to ensure it can keep power flowing to homes and factories after Russia cut gas supplies to the continent,” reported Zero Hedge.

“Germany, which not long ago promised to eliminate coal as a power source by 2030, is among the nations now importing more.”

Instead of phasing out coal completely by 2030, Germany could be more reliant on it than ever before by that time. The same goes for its nuclear power plants, which were slated to shut down but will now be resurrected and put back to use in order to avoid a total economic collapse.

More of the latest news about the “green” scam can be found at GreenTyranny.news.

(In POWER.NEWS)

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sexta-feira, 8 de julho de 2022

French energy firms tell people to CUT BACK on energy usage immediately, or face catastrophic outages

Written by Ramon Tomey







Three major energy firms in France told people to cut back on their energy usage at the soonest, lest the country spirals into an energy crisis.

Executives of the three energy companies – Engie Managing Director Catherine MacGregor, EDF CEO Jean-Bernard Lévy and TotalEnergies CEO Patrick Pouyanné – issued the admonishment in a joint statement published in the French newspaper Le Journal de Dimanche.

The three bigwigs pointed to rising prices as a result of the energy crisis following the Russia-Ukraine war as a matter that threatens the “social and political cohesion” of France.

“Acting this summer will allow us to be better prepared to tackle next winter and, in particular, to preserve our gas reserves,” they said.

“We therefore call for awareness and collective and individual action so that each of us – each consumer [and] each company – changes behavior and immediately limits consumption of energy, electricity, gas and petroleum products.”

“The effort must be immediate, collective and massive,” the three energy executives noted, adding that “every gesture counts.”

France is one of many countries in the European Union (EU) that have been crippled by Russia’s decision to turn off supplies of natural gas flowing through the Nord Stream pipeline, in response to the West’s sanctions on Moscow. The resulting energy shortage, coupled with an over-dependence on clean energy under Paris’ “zero coal” policy, put France in a precarious situation. (Related: International Energy Agency head tells EU: Prepare for Russian gas shutdown.)

In a bid to address this energy shortage, the French government has proposed restarting the Emile Huchet coal-fired power plant near the country’s northwestern border with Germany.

According to Energy Central, the French Ministry of Ecological Transition revealed plans to reactivate the fossil-fuel plant “as a precaution, given the Ukrainian situation.” The ministry added that it is not ruling out operating the power plant, set to produce approximately one percent of the country’s electricity, “for a few more hours if we need it next winter.”

Nord Stream opening ceremony on 8 November 2011 with Angela Merkel, Dmitry Medvedev, Mark Rutte and François Fillon.







Germany, Italy also reeling from shutoff of Russian gas

The joint statement from MacGregor, Lévy and Pouyanné followed neighboring Germany inching closer toward economic collapse. The abrupt cutoff of natural gas from Russia has left Berlin scrambling to figure out how to maintain ample energy supply come the winder.

German Vice Chancellor Robert Habeck, who also serves as the country’s minister for economic affairs and climate action, remarked that he may be forced to shut down industry in order to keep the German power grid afloat. He previously appealed to the public to conserve energy.

“Companies would have to stop production [and] lay off their workers. Supply chains would collapse. People would go into debt to pay their heating bills [and those] people would become poorer,” said Habeck, who is a member of the Green Party in the German parliament.

Italy, also affected by the sudden stop of natural gas supply from Russia, took steps to ration its energy supply. Authorities issued a mandate limiting the use of heating and air conditioning within government buildings. The law, which took effect on May 21, prohibited schools and public offices from setting their thermostats below 25 C (77 F) in the summer and above 19 C (66 F) during the winter.

Italian Prime Minister Mario Draghi remarked that while “a gas embargo is not on the table,” he stressed that the country would “follow the decision of the EU” on the matter.”

Nevertheless, Draghi called on Italians to do their part in keeping energy prices low through a challenge issued in the form of a question: “Do we want to have peace [in Ukraine] or do we want to have the air conditioning on?”

Watch this One America News report below discussing the energy crisis the U.S. and the EU are about to face.

(In POWER.NEWS)

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sábado, 2 de julho de 2022

Aristotle in a New Perspective

Written by Olavo de Carvalho