sábado, 1 de setembro de 2012

Platão (i)

Escrito por Eduardo Schuré







«No céu, aprender é ver
Na terra, é lembrar-se.

Feliz quem atravessou os Mistérios
E conhece a origem e o fim da vida».

Píndaro



Depois da tentativa de mostrar, mediante a personalidade e a obra de Pitágoras, o maior iniciado da Grécia, o fundo primordial e universal da verdade religiosa e filosófica, poderíamos deixar de falar de Platão, pois este apenas deu a essa verdade uma forma mais fantasista e mais popular. Eis a razão de nos determos um momento diante da nobre figura do filósofo ateniense.

Sim, há uma doutrina-mãe e síntese das religiões e das filosofias. Ela desenvolve-se e aprofunda-se no decorrer das idades. Mas o fundo e o centro permanecem os mesmos. Já encontrámos as suas grandes linhas. Deve-se ainda mostrar a razão providencial das suas diversas formas, segundo as raças e as idades. Deve-se restabelecer a cadeia dos grandes iniciados, que foram os verdadeiros iniciadores da humanidade. Então, a força de cada um deles se multiplicará pela de todos os outros e a unidade da verdade aparecerá na diversidade da sua expressão. Como tudo o mais, a Grécia teve a sua aurora, o seu apogeu e o seu declínio.

É a lei dos dias, dos homens, dos povos, das terras, dos céus. Orfeu foi o iniciado da aurora. Pitágoras foi o do apogeu do meio. Platão o do declínio, o ocaso de púrpura ardente, que será a claridade rósea de uma nova aurora, a da humanidade. Platão segue Pitágoras como nos mistérios de Elêusis o porta-estandarte acompanhava o grande hierofante. Com ele vamos entrar mais uma vez por um novo caminho, através das avenidas do santuário, até ao coração do templo, para contemplação do grande arcano.

Mas, antes de ir a Elêusis, ouçamos um instante o nosso guia, o divino Platão. Que ele nos deixe ver o seu horizonte natal, nos conte a história da sua alma e nos conduza até ao seu mestre bem-amado.


A mocidade de Platão

Platão nasceu em Atenas, a cidade do Belo e da Humanidade. Não havia limitações aos seus jovens olhares. Aberta a todos os ventos, a Ática avança como a proa de um navio no mar Egeu. Prepondera como rainha sobre os arquipélagos, ilhas que parecem sereias brancas, sentadas no azul-escuro das ondas. Ele cresceu aos pés da Acrópole, sob a guarda de Palas-Atenas, naquela extensa planície, rodeada de montanhas violentas, envoltas em azul luminoso, entre o Pentélico de flancos de mármore, o Himeto coroado de pinheiros odoríferos, onde esvoaçam as abelhas, e a tranquila baía de Elêusis.






A mãe de Platão deve ter contado ao filho uma cena de que ela teria sido testemunha, dois anos antes do nascimento do filósofo. Os Espartanos tinham invadido a Ática. Atenas, ameaçada na sua existência nacional, lutara durante um Inverno inteiro e Péricles era a alma da defesa. Naquele ano sombrio, houve uma cerimónia imponente no Cerâmico. Os ataúdes dos guerreiros mortos pela Pátria foram colocados em carros fúnebres. Convocou-se o povo para ficar em frente do túmulo monumental destinado a reunir aqueles corpos. O mausoléu parecia o símbolo magnífico e sinistro do túmulo que a Grécia estava cavando para ela na sua luta criminosa. Então Péricles pronunciou o mais belo discurso que a Antiguidade nos legou. Tucídides transcreveu-o em placas de bronze. Aquela peroração brilha como um escudo no frontão de um templo. "O túmulo dos heróis é o universo inteiro e não se apoia em colunas ornadas de faustosas inscrições". Não respira nesta frase a consciência da Grécia e da sua imortalidade?

Péricles morto, que restava da antiga Grécia, que vivia nos seus homens de acção? No interior de Atenas, havia uma demagogia ululante, provocadora de discórdias. No exterior, a invasão lacedemónia iminente, a guerra no mar e em terra. O ouro do rei da Pérsia circulava como veneno corruptor nas mãos dos tribunos e dos magistrados. Alcibíades substituíra Péricles, no prestígio público. Aquele tipo de moço de uma classe privilegiada tornara-se "o homem do dia". Político aventureiro, intrigante sedutor, levou a Pátria à sua perda. Platão observara-o bem. Mais tarde traçou-lhe com mão de mestre o perfil psicológico. Compara o furioso desejo de poder, na alma de Alcibíades, a um grande besouro, "em torno de quem as paixões, coroadas de flores, perfumadas de essências, embriagadas de vinho e de todos os prazeres desenfreados, vêm zumbir, alimentando-o, nutrindo-o, armando-o enfim com o aguilhão da ambição. Então, esse tirano da alma, escoltado pela demência, agita-se, furioso. Se ele encontra em torno pensamentos e sentimentos honestos, que possam fazê-lo enrubescer, ele mata-os, expulsa-os, até que tenha extirpado da alma toda a moderação, enchendo-a com o furor que traz consigo".

Durante a mocidade de Platão, foi sombrio o céu de Atenas. Aos vinte e cinco anos, ele assistiu à tomada de Atenas pelos Espartanos, depois da desastrosa batalha naval de Aigos Pótamos. Depois viu a entrada de Lisandro, na terra natal, o que significava o fim da independência ateniense. Viu a demolição das extensas muralhas, mandadas construir por Temístocles. A demolição foi feita aos sons de música festiva. O inimigo, vencedor literalmente, dançava sobre as ruínas da Pátria. Depois vieram os trinta tiranos e as suas proscrições.

Templo de Zeus


Esses espectáculos entristeceram a alma do jovem Platão, sem contudo perturbá-la. Platão era de estatura elevada, tinha os ombros largos, era grave, discreto, quase sempre silencioso. Quando falava, emanava das suas palavras uma doçura encantadora, uma sensibilidade delicada. Não era excessivo nas acções. As suas atitudes variadas fundiam-se na harmonia superior do seu ser. Uma graça alada, uma modéstia natural, ocultavam a seriedade do seu espírito.

Uma ternura quase feminina escondia a firmeza do seu carácter. Nele a virtude revestia-se do sorriso e o prazer de uma castidade ingénua. A marca dominante e extraordinária da sua alma era que nela parecia haver um pacto misterioso com a Eternidade. No fundo dos seus grandes olhos, pareciam vivas as coisas eternas. Tudo o mais se passava neles como vãs aparências num espelho profundo. Por trás das formas visíveis, mutáveis, imperfeitas, do mundo e dos seres, apareciam-lhe as formas invisíveis, perfeitas, para sempre radiantes desses mesmos seres, vistas pelo espírito, e que são os seus modelos eternos. Por isso, o jovem Platão, sem ter formulado a sua doutrina, sem saber mesmo que seria filósofo, tinha já consciência da realidade divina do ideal e da sua omnipresença. Por isso, vendo as mulheres com os seus meneios, os carros fúnebres, os exércitos, as festas, os lutos, o seu olhar parecia ver outras coisas e dizer: "Porque choram? Porque soltam gritos de alegria? Pensam ser e não são. Porque não posso apegar-me ao que nasce e ao que morre? Porque só posso amar o invisível, que não nasce nem morre nunca, mas que é sempre?"

O amor e a harmonia, eis o fundo da alma de Platão. Mas, que amor, que harmonia! O amor da beleza eterna e a harmonia que envolve o Universo. Quanto mais a alma é grande e profunda, mais demora a conhecer-se a si mesma. O seu primeiro entusiasmo dirigiu-se às artes. Ele era de origem nobre, pois o seu pai pretendia descender do rei Codro, a sua mãe de Sólon. A sua mocidade foi a de um ateniense rico, rodeado de todos os luxos, de todas as seduções da época de decadência. Entregou-se aos gozos, vivendo como os seus companheiros, gozando de uma bela herança, rodeado e festejado por numerosos amigos. No Fedro, descreveu muito bem a paixão do amor, sem ter sentido os êxtases e as decepções cruéis. Dele resta apenas um verso, tão apaixonado como os de Safo, tão cheio de luz como uma noite estrelada no mar das Cíclades: "Eu quisera ser o céu, para ser todo olhos para te olhar". Buscando o belo, em todas as suas modalidades, cultivou a pintura, a música e a poesia. Esta parecia corresponder aos seus anseios. Platão dispunha de maravilhosa facilidade para todos os géneros. Sentia com igual intensidade a poesia amorosa e ditirâmbica, a epopeia, a tragédia, a própria comédia com o seu mais fino sal ático. Que lhe faltava para ser um outro Sófocles e evitar a decadência iminente do teatro ateniense? Essa ambição tentou-o e os amigos animaram-no. Aos vinte e sete anos, tinha já composto várias tragédias e apresentou um dos originais em concurso. Nessa época, encontrou-se com Sócrates, que discutia com os rapazes nos jardins da Academia. Aquele filósofo falava do justo e do injusto, do belo, do bom, do verdadeiro. O poeta aproximou-se do filósofo, ouviu-o e voltou nos dias subsequentes.

Depois de algumas semanas, ocorrera uma revolução completa no seu espírito. Não se reconhecia mais o rapaz feliz, o poeta cheio de ilusões. Tinha mudado o curso dos seus pensamentos. Dentro dele nascera outro Platão, ao ouvir a palavra daquele que se denominava "parteiro de almas". O que houve? Aquele raciocinador de face de sátiro afastara do luxo, dos prazeres, da poesia, do belo, o genial Platão, convertendo-o à grande renúncia da sabedoria.


Sócrates


Sócrates era um homem muito simples, mas muito original. Filho de um escultor, chegou a esculpir um grupo das três Graças, quando adolescente. Depois deixou o cinzel, dizendo que preferia esculpir a sua alma. Desde então, consagrou-se à pesquisa da sabedoria. Viam-no nos ginásios, nas praças públicas, nos teatros, conversando com os jovens, os artistas, os filósofos, perguntando a cada um que justificasse o que estava a dizer. Desde alguns anos, os sofistas eram muitos em Atenas. O sofista é a falsificação do homem de Estado, o hipócrita é o oposto do sacerdote, o mago negro a oposição infernal do verdadeiro iniciado. O tipo grego de sofista é mais subtil, mais raciocinador, mais corrosivo do que os outros, embora o género pertença a todas as civilizações decadentes. Pululam nelas como os vermes num corpo em decomposição. Chamem-se ateus, niilistas, pessimistas, os sofistas de todos os tempos assemelham-se. Negam sempre Deus e a alma, quer dizer a verdade e a vida supremas. Os do tempo de Sócrates, os Górgias, os Pródicos, os Protágoras, diziam que não há diferença entre a verdade e o erro. Faziam questão de provar qualquer ideia e a sua oposta, afirmando que só há uma justiça, a força, uma só verdade, a opinião do indivíduo. Satisfeitos deles mesmos, vivendo bem, cobravam caro as suas lições e induziam os jovens ao deboche, à intriga, à tirania.

Sócrates, com a sua bonomia, a sua doçura insinuante, aproximava-se dos sofistas como um ignorante que procurava instruir-se. De pergunta em pergunta, ele forçava-os a dizerem o contrário daquilo que tinham antes afirmado, obrigando-os a confessarem que não sabiam aquilo de que estavam a falar. Depois, Sócrates demonstrava que eles ignoravam a causa e o princípio de tudo. No final, sorridente, ele agradecia-lhes por lhe terem ensinado com as suas respostas, acrescentando que saber que não se sabe é o começo da verdadeira sabedoria. Mas Sócrates, em que é que ele acreditava? Ele não negava os deuses, prestando-lhes o mesmo culto que os demais cidadãos. Dizia que era impenetrável a natureza deles. Confessava não compreender a física e a metafísica, ensinadas nas escolas. Segundo ele, o importante é acreditar no justo e no verdadeiro, aplicando-os na vida.

Assim a táctica da educação moral muda segundo os tempos e os meios. Diante dos seus iniciados, Pitágoras trazia a moral das alturas da cosmogonia. Em Atenas, na praça pública, entre os Cleos e os Górgias, Sócrates falava do sentimento inato do justo e do verdadeiro, para reconstruir o mundo e o estado social abalado. Mas, ambos, um na ordem descendente dos princípios, outro na ordem ascendente, afirmavam a  mesma verdade. Para não deixar o seu papel de divulgador, recusou iniciar-se em Elêusis. Nem por isso deixava de possuir a verdade total e suprema de que falavam os grandes mistérios.

Porque Platão foi irresistivelmente encantado e subjugado por esse homem? Vendo-o, compreendeu a superioridade do bem sobre o belo. O belo só realiza o verdadeiro na miragem da arte, ao passo que o bem executa-o no fundo das almas. Rara e poderosa fascinação, pois os sentidos não participam dela. Esse homem mostrou-lhe a inferioridade da beleza e da glória, tais como Platão as concebera até então, em face da beleza e da glória da alma em acção, atraindo outras almas à sua verdade, para sempre, ao passo que as pompas de arte conseguem apenas espelhar um instante a verdade enganadora sob um véu decepcionante. Essa beleza irradiante, eterna, que é o "esplendor do verdadeiro", matou a beleza mutável e enganadora na alma de Platão. Por isso, Platão, esquecendo e deixando tudo o que amara até então, dedicou-se a Sócrates, na flor da mocidade, com toda a poesia da sua alma. Grande vitória da verdade sobre a beleza, que teve incalculáveis consequências para a história do espírito humano.



Eros



Enquanto isso, os amigos de Platão vêem-no estrear na cena trágica. Ele convidou-os para um grande almoço na sua casa e todos estranharam que ele quisesse dar essa festa naquela ocasião. A praxe era dar essa festa depois de a peça ter sido premiada e representada. Mas ninguém recusava o convite do rico filho-família, em sua casa onde se encontravam as Musas e as Graças em companhia de Eros. Desde muito tempo, a casa de Platão gastou uma fortuna para aquele banquete. Prepararam a mesa no jardim. Criados segurando fachos iluminavam o local. As três mais belas heteras de Atenas participavam no festim. Cantaram hinos ao amor e a Baco. Houve bailados voluptuosos ao som das flautas. Afinal, pediram a Platão que declamasse um dos seus ditirambos. E ele, levantando-se, declarou:

- Este é o último festim que vos ofereço. A partir de hoje, renuncio aos prazeres da existência para consagrar-me à sabedoria e seguir os ensinamentos de Sócrates. Saibam todos: renuncio até à poesia. Reconheci a sua incapacidade para exprimir a verdade que estou a procurar. Não farei mais versos e vou queimar, diante de vós todos, os que compus.

De todos os pontos da mesa, elevou-se um brado de espanto e de protesto. Todos estavam sentados em leitos sumptuosos. Os convivas, coroados de rosas, faces enrubescidas pelo vinho, trocavam ditos alegres, alguns exprimiam surpresa, outros indignação. Ouviu risos de incredulidade e de desprezo, disseram que a intenção de Platão era loucura e sacrilégio. Intimaram-no a desistir da sua intenção. Mas ele, calmo e resoluto, afirmou:

- Agradeço a todos os que participaram desta festa de despedida. Só manterei ao meu lado aqueles que quiserem participar da minha nova vida. Os amigos de Sócrates serão agora os meus amigos.

Estas palavras foram como uma geada sobre um campo de flores. Ouvindo-as, todos ficaram tristes como pessoas que assistem a um enterro. As cortesãs levantaram-se, retiraram-se nas suas liteiras, lançando um olhar de desprezo para o dono da casa. Os sofistas e os elegantes afastaram-se, dizendo palavras irónicas e gracejos.

- Adeus, Platão. Sê feliz! Tu voltarás para a nossa companhia! Adeus!

Dois moços sérios ficaram a seu lado. Platão tomou-lhes as mãos e conduziu-os para o interior da sua casa, deixando as ânforas de vinho meio esvaziadas, as rosas sem pétalas, as liras e flautas atiradas ao chão, entre as taças ainda cheias de vinho. No pátio interno, eles viram, sobre um pequeno altar, uma pirâmide de rolos de papiro. Eram todas as obras poéticas de Platão. O poeta tomou um facho e lançou fogo aos papéis com um sorriso, dizendo: "Vulcano, vem! Platão necessita de ti" (1).

Quando a chama se apagou, os dois amigos sentiram lágrimas nos olhos e, silenciosamente, disseram adeus ao seu futuro mestre. Platão ficou sozinho. Não chorava. sentiu no íntimo uma paz, uma serenidade maravilhosa. Pensava em Sócrates, com quem iria encontrar-se. A alvorada já iluminava os terraços das casas, as colunas, os frontões dos templos. Logo, o primeiro raio do Sol faria brilhar o capacete de Minerva na ponta da Acrópole  (in «Os Grandes Iniciados», Vega, 1998, pp. 273-281).


(1) Fragmento das obras completas de Platão com este título : "Platão queimando as suas poesias".


Continua 


Um comentário:

  1. Tes yeux cherchaint la haut le destin de leur flamme, que ne suis-je harmonie et splendeur ces grands cieux pour repondre au désir qu´ils ton versé dans l´âme et pour te regarder avec des miliers d´yeux. Platon.

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