quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Categorias de Aristóteles (v)

Escrito por Aristóteles





«O Organon é o conjunto de seis livros sobre a arte de filosofar; a propedêutica a toda a arte de filosofar. Não é a filosofia propriamente dita, é a arte de exercitar a filosofia, como o adro que está antes do santuário.

O primeiro livro intitula-se Categorias e tem por tema o estudo dos dez géneros do ser, ou, como dizia Álvaro Ribeiro (achando que esta definição é um barbarismo), as dez classes de predicados».

Pinharanda Gomes



49. Chamam-se relativas àquelas coisas que, o que são, são-no de outras; ou por algum modo o são relativamente a outras coisas.

Exemplo: Maior sempre se diz relativamente a outro, em toda a extensão do significado, porque se diz maior do que alguma outra coisa. Do mesmo modo, o que se diz ser duplo, também se diz relativamente a outra coisa, em toda extensão do seu significado, porque de alguma outra coisa se diz duplo. E assim de tudo o mais.

Também pertencem aos relativos expressões tais como hábito, disposição, ciência, situação, porque todas elas, isso que são, são-no de outras coisas e, sem isso, nada significam, porquanto hábito é hábito de alguma coisa e ciência é ciência de alguma coisa, e assim do resto. Logo isso que são, são-no relativamente a alguma outra coisa, aqueles que se dizem serem de outras, ou de algum modo relativamente a outras, como por exemplo, se diz de um monte, que é grande relativamente a outro, porque só relativamente a outro é que se diz grande. Assim, também o que se diz semelhante, é semelhante a outro. E é deste modo, que todas as outras coisas se chamam relativas. O estado de jazer, de estar em pé, de estar sentado, são certas situações; mas jazer, estar em pé, estar sentado, são expressões que se derivam daquelas situações.

50. Os relativos são susceptíveis de contrário. Exemplo: a virtude é o contrário do vício e cada uma destas expressões é relativa. Do mesmo modo a ciência é o contrário da ignorância.

51. Mas nem todos os relativos são susceptíveis de contrário. Porque a duplo não há nada que seja contrário, nem a triplo, nem a nenhuma outra destas coisas.

52. Também parecem ser os relativos susceptíveis de mais, e de menos. Porque semelhante e dissemelhante dizem-se sê-lo mais ou menos. Igual e desigual também se dizem sê-lo mais ou menos; estas expressões são relativas, porque o semelhante a alguma coisa é semelhante; o desigual é-o a respeito de alguma coisa.




53. Mas nem todos os relativos são susceptíveis de mais, nem de menos. Porque uma coisa dupla não se diz mais ou menos dupla, nem nenhuma das outras coisas semelhantes.

54. Todos os relativos são recíprocos daqueles de quem se dizem. Exemplo: o servo é servo de seu senhor, e o senhor é senhor do seu servo; o duplo é-o da sua metade, e a metade é metade do seu duplo; o que é maior, é-o do que é menor, e o que é menor é-o do que é maior, e assim das demais expressões semelhantes. Às vezes, as expressões correlatas diferem na desinência, como por exemplo, o conhecimento é-o do conhecido; e o conhecido é-o do conhecimento; a sensação é-o do sentido, e o sentido é-o da sensação.

55. Contudo, às vezes, pode parecer que não existe esta reciprocidade, a saber, quando o correlato se não exprime em termos próprios, e isto à proporção que o nome do relativo se afastar do do seu correlato. Exemplo: se se diz que a asa é da ave, nem por isso se pode dizer reciprocamente que a ave é da asa. Porque não têm entre si analogia (gramatical) as duas expressões: asa da ave, porquanto não é por se dizer ave, que se diz ser dela a asa, mas porque se diz alada, sendo assim que há asas de muitas outras coisas, que não de aves.

De modo que se se desse o nome analógico, então haveria reciprocidade, a saber: a asa é asa de alado; e alado refere-se a asa.

Mas, às vezes, seria necessário formar um nome analógico, quando o não apropriado. Exemplo: se se tratasse do leme de uma embarcação, não seria analógico o nome de leme, porque não é por ela se chamar embarcação, que ao leme se lhe chama assim; e por isso não há reciprocidade entre aquelas duas expressões, nem se diz de uma embarcação que é embarcação de tal leme. Seria porém analógico o nome, se se dissesse ser o leme de um alemeado, ou outra expressão cognominada; que, se existisse, então haveria reciprocidade, porque se diria ser o alemeado de leme. O mesmo é de outras expressões, como por exemplo, falando-se de cabeça, seria mais analógico dizer cabeça de um capitado, do que dizendo-se cabeça de um animal, porque não é por ter cabeça que é animal, pois há muitos animais que não têm cabeça.

Assim acontecendo, não ter uma coisa nome analógico com o do seu correlato, o mais fácil seria dar-lhe nome derivado deste, com quem essa mesma coisa se acha em reciprocidade; como nos exemplos precedentes de asa ou ala, alado; de leme, alemeado. De tudo o que se segue, que todos os correlatos, se se enunciam com propriedade, são recíprocos entre si. Mas se cada um se nomeia ao acaso, e sem analogia com o seu correlato, não pode haver reciprocidade entre eles com propriedade.

Digo pois, que mesmo daquelas coisas, que são recíprocas entre si, e que têm nomes cognominados, desaparece a reciprocidade, se em vez de eu enunciar a qualidade correlata de uma delas para a outra, enuncio qualquer outra ao acaso. Exemplo: se querendo-se nomear o correlato de servo, em vez de senhor, se disser homem ou bípede, ou outra coisa semelhante, não poderá haver reciprocidade, porque se não apontou a expressão apropriada. E portanto, se deixando de parte tudo o que é acidental a um dos correlatos, se expressar somente o nome apropriado ao do outro correlato, sempre este se poderá afirmar daquele. Por exemplo, tratando-se do servo relativamente a seu senhor, se deixando de parte tudo o que é acidental ao senhor (como o ser bípede, inteligente, homem), se chamar somente senhor, sempre se poderá afirmar deste que outro é seu servo; por isso que o servo é servo do seu senhor.

E a razão é que se não enunciarmos só a qualidade apropriada do correlato, deixando de parte todas as outras, ninguém dirá que é correlato. Porque, suponhamos que se diz o servo do homem, e a asa da ave, deixando-se de parte o dizer do homem que é senhor; não se segue que se deva dizer o servo do homem, porque se ele não for senhor, também o outro não é seu servo. Do mesmo modo, omitindo-se o dizer da ave que é alada, não se segue ser correlato de asa, porque não se supondo o ser alado, não se lhe pode referir aquela expressão de asa. De tudo o que se segue, que convém nomear os correlatos de uma maneira analógica, o que é fácil, quando ambos têm nomes entre si análogos; mas quando os não têm análogos, cumpre muitas vezes criá-los. Ora dados eles, é evidente que existe reciprocidade entre ambos os correlatos.

56. Igualmente parece ser da natureza dos correlatos o existir um, sempre que existe o outro. E, com efeito, assim se verifica pela maior parte. Porque duplo e metade andam sempre juntos e, se há duplo, é porque há metade. Se há servo, é porque há senhor e, se há senhor, é porque há servo. E à semelhança destas, todas as demais coisas. Igualmente se verifica que, tirado um dos correlatos, se tira também o outro, porque, não havendo metade, não pode haver o duplo, não pode haver coisa a que se dê o nome de metade. O mesmo se pode dizer de todas as outras coisas a estas semelhantes.

57. Mas não é da natureza de todos os correlativos o deverem sempre coexistir. Porque parece que o objecto da ciência deve existir antes da ciência; sendo assim, que pela maior parte primeiro existem as coisas antes, que nós delas tenhamos conhecimentos. E serão poucos, ou nenhuns os casos, em que se verifique, que os objectos começam a existir juntamente com o conhecimento deles. Além disso, não existindo o objecto do conhecimento, também este não pode ter lugar, mas nem por isso que não existe conhecimento, deixa de existir o objecto dele. Por exemplo: da quadratura do círculo não existe a ciência, mas nem por isso deixa de existir o que sobre isto há a saber, se é que se pode saber. Por outro lado, não existindo nenhum animal, também não há ciência, entretanto que nem por isso deixam de existir os muitos objectos de conhecimento. O mesmo acontece com a sensação, pois parece que os objectos sensíveis são anteriores à sensação, visto que, supondo-se não existir o objecto da sensação, também esta não pode existir; mas de não existir a ciência, não se segue que não existam os objectos dela.


Homem de Vitrúvio, de Leonardo da Vinci.


Porquanto as sensações versam sobre os corpos e nos corpos; e na suposição de não existir o objecto sensível, também não existem corpos (porque os corpos são do número das coisas sensíveis). Ora, não existindo corpos, também não pode existir sensação. E, por conseguinte, não existindo o objecto sensível, não existe a sensação; de não existir a sensação, não se segue que não exista o objecto sensível porque, supondo-se não existir nenhum animal, não existirá nenhuma sensação; e contudo existem objectos sensíveis, como os corpos quentes, doces, amargos, e todos os outros quantos são objectos da sensação. Ora a sensação começa a existir com o ente que sente, porque a sensação começa a existir com o animal, e os objectos sensíveis são tão anteriores à sensação, como aos animais; porque o fogo, a água, e mais elementos, de que o animal se compõe, existiam antes de haver animais nem sensação. Donde com razão parece, que os objectos da sensação são anteriores à mesma sensação.

58. Pode entrar em dúvida, se há alguma essência, que seja do número das coisas relativas; como, com efeito, parece não a haver, ou se isto acontece com algumas das essências secundárias, porque, quanto às primárias, é certo ser assim. Porque as partes de qualquer essência primária, nem singular, nem colectivamente se podem considerar como coisas relativas, porquanto um certo homem não é certo homem de certo homem; nem um certo boi é certo boi de certo boi. O mesmo é cada uma das partes, pois se não diz a certa mão de certo homem, porém a mão de certo homem; nem certa cabeça de certo homem, mas a cabeça de certo homem. Assim também acontece com as essências secundárias, quero dizer, pela maior parte, por exemplo: homem não se diz de certo homem, nem boi de certo boi, nem pão de certo pão; bem que qualquer destas coisas se possa chamar propriedade de alguém. Destas é pois claro que não são relativas. Mas há algumas outras essências secundárias, sobre as quais pode haver dúvida, como por exemplo: a cabeça diz-se cabeça de alguém; a mão diz-se mão de alguém, e assim de cada uma das outras coisas semelhantes, de modo que estas com razão podem parecer do número dos relativos. Se, pois, a definição que se tem de relativo é acertada, é muito difícil, ou impossível o demonstrar, que nenhuma essência há do número dos relativos. Mas se aquela definição não é exacta, e se são relativas aquelas coisas de que se verifica ser o mesmo existirem, que existirem de algum modo a respeito de outra alguma coisa, então poder-se-á talvez dizer que há coisas correlatas destas essências. A primeira daquelas definições sim, se verifica em todos os relativos, mas não é o mesmo serem eles relativos, que serem de outra coisa, isso que eles são em si mesmos.




De tudo o que fica manifesto, que se alguém conhecer definitivamente um relativo, também conhecerá definitivamente o seu correlato, e deduz-se claramente do que fica dito, porque se alguém conhece que uma determinada coisa é do número dos relativos, como ser relativo é ser de certo modo a respeito de outra alguma coisa, segue-se que ele também deve conhecer o objecto correlato, a respeito de quem aquele relativo é desse modo; porque se ele não conhece o correlato a respeito do qual o relativo é desse modo, também não conhece que ele lhe é relativo. Isto mesmo se manifesta, discorrendo-se por casos particulares. Por exemplo: se alguém sabe que uma determinada coisa é dupla, também há-de logo saber o de que é dupla porque, se não conhece nenhuma coisa determinada de que ela seja dupla, ignora absolutamente que ela seja dupla. Do mesmo modo, se alguém sabe que uma coisa é mais formosa que outra, também por isso mesmo deve logo saber determinadamente qual seja essa outra, que é menos bela; nem é de uma maneira indeterminada, que ele saberá ser essa coisa mais bela do que a outra, pois que nesse caso, haveria suposição, e não ciência, porque ainda se não conhece exactamente se é mais formosa do que a outra; porquanto, a ser assim, seguir-se-ia não haver coisa pior do que essoutra. De tudo o que fica manifesto, que se alguém conhece determinadamente um relativo, necessariamente conhece também de uma maneira determinada o seu correlato. Ora a cabeça, a mão, e outras semelhantes coisas que não essências, pode-se muito bem conhecer determinadamente o que elas são, sem contudo se seguir necessariamente, que devamos conhecer os objectos, a que se referem, porque não é consequência necessária, que conheçamos determinadamente de quem é a cabeça ou a mão. Logo nenhuma dessas coisas é do número dos relativos. E se nenhuma dela é do número dos relativos, será verdade dizer que nenhuma essência é do número dos relativos. Mas talvez não é fácil o demonstrá-lo evidentemente, não se tendo assiduamente meditado. Não deixa contudo de ter utilidade o questionar sobre cada um destes objectos em particular...» (ob. cit., pp. 43-45 e 75-86).


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