quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Reencarnação (ii)

Escrito por Rudolf Steiner




«Nem conseguimos sequer imaginar as complexas forças que estão por detrás de todos os acontecimentos que ocorrem nas nossas vidas. Existe uma conspiração de coincidências, que tece a teia do carma ou destino e cria uma vida pessoal do indivíduo - minha ou sua. A única razão por que não experimentamos a sincronicidade nas nossas vidas quotidianas é por não abandonarmos o nível em que ela se desenrola. Normalmente, vemos apenas relações de causa-efeito. Isto causa aquilo, que causa isto, que causa aquilo - trajectórias lineares. Contudo, sob a superfície, algo mais acontece. Invisível aos olhos, está toda uma teia de conexões. À medida que se torna notória para nós, vemos o modo como as nossas intenções são urdidas nessa teia, que está muito mais ligada ao contexto, é muito mais relacional, muito mais holística, muito mais consistente do que a nossa experiência à superfície».

Deepak Chopra («Os Sete Princípios da Realização Espiritual»).


«Os seres humanos nunca teriam sucumbido à influência arimaniana se não tivessem começado por ser vítimas da de Lúcifer. Mas, uma vez que se abriram a ela, estabeleceu-se entre os quatro elementos constitutivos do homem, corpo físico, corpo etéreo, corpo astral e eu, um elo que não se teria formado se Lúcifer não tivesse actuado, e se só tivessem estado activas as forças das quais Lúcifer é o adversário. O homem teria então evoluído de maneira diferente. O princípio luciferino provocou pois uma perturbação no seu ser interior. Mas é do ser interior que depende a forma como o homem entra em contacto com o mundo exterior. É exactamente como se num dos vossos olhos alguma coisa tivesse sido inutilizada. Não veríeis o mundo exterior correctamente por causa dessa imperfeição interna, e devido à influência luciferina nunca mais veríeis o mundo exterior como ele é. E uma vez que o homem tinha um motivo para não ver o mundo exterior como ele é, a influência arimaniana pôde invadir a falsa imagem desse mundo exterior, por forma a que Ahriman só pudesse abordar o ser humano graças à acção da influência luciferina. Da influência arimaniana resultou não só que o homem pode sucumbir às paixões egoístas, às pulsões, aos desejos, à vaidade, ao orgulho, etc., mas também que num organismo humano em que o egoísmo pode actuar desse modo, formaram-se orgãos que deviam ter do mundo exterior uma visão falsa, inexacta. Foi assim que Ahriman pôde insinuar-se nas imagens inexactas do mundo exterior. Ele aproximou-se, e com isso o ser humano ficou exposto à outra influência, e pôde assim sucumbir às seduções interiores, mas também ao erro e - no julgamento que faz do mundo exterior e no que afirma sobre ele - à mentira. Ahriman actua sem dúvida do exterior, mas fomos nós que lhe demos a possibilidade de chegar até nós.

(...) Pensemos que os grandes acontecimentos que ocorreram ao longo da evolução da humanidade só tiveram lugar por terem sido realizados por certas pessoas. É preciso que num determinado momento certas pessoas se encarreguem dos desígnios da evolução. Pensem no curso que teria tido a evolução na Idade Média se Carlos Magno não tivesse intervindo numa determinada época, ou no curso que teria seguido a vida espiritual do passado se num momento específico Aristóteles não tivesse estado activo. Pensem que, se quiserem compreender o curso da evolução humana, tereis de, mentalmente, inserir Aristóteles na época que ele viveu; porque, sem ele, muitas coisas ter-se-iam mais tarde passado de outro modo. Vemos por aqui que personalidades como Carlos Magno, Aristóteles, Lutero, entre outros, deviam viver na época que foi a sua, não por eles próprios, mas pelo mundo...».

Rudolf Steiner («Reencarnação»).





«X: Não é Rudolf Steiner que atribui a Lúcifer a criação de uma esfera espiritual própria, rica e prodigiosa mas separada da criação divina? Esta ideia deixa de nos parecer fantasmagórica quando pensamos na televisão. Televisão é quase um sinónimo de Lúcifer, se decompusermos cada uma das duas palavras nos seus dois elementos e os fizermos compreender um a um. Só o automóvel disputa à televisão a supremacia do mundo. As aldeias, as vilas e as cidades perderam a naturalidade antiga, como direi?, aquela relação serena da terra com o céu que se exprimiu pela arte das chaminés, dos campanários e dos galos indicando a direcção das brisas e dos ventos. Hoje, por toda a parte, onde há casas, oferece-se-nos o espectáculo irritante de todos os telhados com antenas de televisão, lembrando esquisitos insectos.

Y: A relação que encontrou entre a palavra Lúcifer e a palavra televisão é impressionante.

X: A ideia de que a televisão corresponde à prostituta que está sentada sobre as águas anunciada no Apocalipse para o fim dos tempos também me tem ocupado ultimamente. É uma prostituta porque recebe todas as correntes, é uma misturadora de sémens. Assistimos a uma missa e, no intervalo, a um anúncio de camisas de Vénus. As águas são a humanidade onde se movem todas as correntes.

Y: E está sentada nas nossas casas e toda a família à volta, como se ela desempenhasse a função das antigas lareiras. As antenas usurparam, de facto, o lugar das chaminés.

X: Há qualquer coisa de tenebroso na manipulação da luz. Só lhe lembro o seguinte: João Villaret morreu e, depois disso, de tempos a tempos, aparece na televisão a declamar poemas. É a aparição de um morto. É um morto porque não tem iniciativa psíquica, mas sente, move-se e fala. Este, como outros, prodígios luciferinos são recebidos com toda a naturalidade pelos espectadores, mas, se a mesma imagem lhes aparecesse de noite, no quarto, haveria quem morresse de terror. Os fantasmas que a técnica manipuladora da luz conserva e projecta, quando bem quer, parecem inofensivos. São-no, de facto?».

António Telmo («Arte Poética»).


«...a esperança de um ulterior progresso nas ciências estará bem fundamentada quando se recolherem e reunirem na história natural muitos experimentos que em si não encerram qualquer utilidade, mas que são necessários na descoberta das causas e dos axiomas. A esses experimentos costumamos designar por lucíferos, para diferenciá-los dos que chamamos de frutíferos. Aqueles experimentos têm, com efeito, admirável virtude ou condição: a de nunca falhar ou frustrar, pois não se dirigem à realização de qualquer obra, mas à revelação de alguma causa natural».

Francisco Bacon («Novum Organum»).





Apliquemos agora a estas mesmas reflexões o que sabemos sobre as vidas sucessivas do homem na terra. A consciência da qual acabámos de falar, que, excepto no caso referido, se estende a toda a vida entre o nascimento e a morte, deve-se ao facto de o homem poder servir-se do instrumento que é o seu cérebro. Quando o homem transpõe o limiar da morte, surge um outro tipo de consciência, independente do cérebro e sujeita a condições essencialmente diferentes. Sabemos que, diante desta consciência que perdura até ao nascimento seguinte, surge uma espécie de retrospectiva de tudo o que o homem fez entre o nascimento e a morte. Ao longo da sua vida terrestre, primeiro, foi necessário que ele tomasse a resolução de buscar as faltas cometidas sobre si próprio, se quisesse dirigir de facto, em termos cármicos, os efeitos para a sua vida. Depois da morte, a visão retrospectiva da sua existência mostra-lhe as suas faltas, de uma maneira geral, as suas acções, e o que elas fizeram da sua alma ou sobre a sua alma.

Ele vê de que forma determinado acto diminuiu ou acrescentou o seu valor. Se, por exemplo, tivermos feito mal a outra pessoa, o nosso valor terá sido depreciado por causa disso; valemos menos, por assim dizer, por termos praticado esse mal, tornámo-nos mais imperfeitos. Ora, na visão retrospectiva depois da morte, somos confrontados com um grande número de casos perante os quais dizemos: «Esta acção tornou-nos mais imperfeitos». Mas esta constatação faz surgir na consciência do morto a força e a vontade de tudo fazer, desde que a ocasião volte a apresentar-se, para recuperarmos o valor perdido, por outras palavras, a vontade de compensar o mal praticado. Entre a morte e um novo nascimento, o homem toma portanto a resolução de reparar o mal que provocou, de fazer tudo para reconquistar o grau de perfeição que deve possuir enquanto homem e que viu ser-lhe retirado por esse tipo de actuação.

Em seguida, ele regressa à existência. A sua consciência volta a mudar; não se recorda do tempo que se escoou entre a sua morte e um novo nascimento, nem da resolução tomada para compensar certas coisas. Mas essa resolução está ancorada nele. Mesmo que desconheça que deve fazer uma ou outra coisa para reparar isto ou aquilo, será impelido para uma acção compensadora pela força que reside em si próprio. E agora podemos fazer a representação do que acontece quando, aos vinte anos, por exemplo, um homem é atingido por um grande sofrimento. A sua consciência terrestre sente apenas o peso do sofrimento. Mas se ele se recordasse das resoluções que tomou durante a existência entre a morte e o novo nascimento, descobriria também a força que o impeliu para o sítio onde essa dor podia atingi-lo, porque sentiu que afrontá-la era a única maneira de alcançar o grau de perfeição perdida. Deste modo, embora a consciência comum veja apenas o sofrimento que a oprime e considere unicamente o seu efeito, a consciência que também abrange o tempo compreendido entre a morte e um novo nascimento pode ter como finalidade última justamente a busca do sofrimento ou de uma qualquer dor.

E é isto, de facto, o que se nos apresenta quando consideramos a vida humana de um ponto de vista mais elevado. Vemos então que na vida humana existem acontecimentos da existência que não são efeitos de causas ocorridas apenas nesta vida, mas cujas causas emanam de uma outra consciência, daquela que reside para lá do nascimento e pela qual a nossa vida existe anteriormente àquilo que se desenrolou desde que nascemos.




Ao apreendermos com exactidão esta ideia, diremos que temos antes de mais uma consciência que perdura entre o nascimento e a morte e que designaremos consciência pessoal, sendo a personalidade aquilo que se manifesta entre o nascimento e a morte. Veremos em seguida, que uma consciência alheada do homem no estado habitual pode actuar para lá do nascimento e da morte exactamente do mesmo modo que a consciência comum. Por isso é que começaremos por descrever o modo como podemos encarregar-nos a nós próprios do nosso carma e começar, por exemplo, aos quarenta anos, e antes que esses efeitos nos atinjam, a compensar uma coisa cujas causas remontam aos doze anos. Num tal caso, tomamos o carma em si mesmo, na sua consciência pessoal. Se, pelo contrário, o homem chegou a um lugar onde pode passar por um sofrimento reparador da sua falta e que o torna um homem melhor, também aí terá sido ele a desejá-lo, mas desta vez o impulso não vem da consciência pessoal, mas de uma consciência mais vasta que abrange o tempo compreendido entre a morte e um novo nascimento. À entidade cuja consciência foi por nós apreendida, apelidamos individualidade do homem, e chamamos consciência individual a essa consciência que é constantemente sufocada pela consciência pessoal. Deste modo, a forma como o carma actua reporta-se à individualidade humana.

Todavia, não compreenderemos a vida humana se nos contentarmos em seguir a sucessão dos fenómenos, como fizemos até agora, se considerarmos no homem apenas as causas que existem nele e os efeitos que lhe dizem respeito. Basta-nos evocar interiormente um caso muito mais simples que nos leva ao essencial para vermos de imediato que não compreendemos a vida humana quando temos em conta apenas o que foi dito até agora.

Tomemos o caso de um inventor ou de um explorador, por exemplo, Cristovão Colombo, ou o inventor da máquina a vapor, ou qualquer outro. Em todas as descobertas existe um acto preciso. Se analisarmos o modo como esse homem praticou esse acto e se em seguida procurarmos a causa que o levou a praticá-lo, encontramos sempre aquelas de cujo género evocámos. Assim, por que motivo Colombo partiu para a América? Por que razão tomou ele justamente essa decisão num determinado momento? Encontramos as causas disso no seu carma individual e pessoal. Mas agora podemos questionar-nos se a causa deve ser procurada apenas no seu carma pessoal e individual. O acto, enquanto efeito, não deverá ser considerado apenas do ponto de vista da individualidade que se manifestou em Colombo? O facto de ter descoberto a América causou nele um certo efeito; ele elevou-se, tornou-se mais perfeito. O desenvolvimento da sua individualidade na sua vida seguinte testemunhá-lo-á. Mas que efeitos teve este acto para outros homens? Não se devia considerá-lo também como uma causa que influenciou um número incalculável de vidas humanas?

No entanto, também aqui se trata de fazer uma ideia bastante abstracta de algo que podemos ver numa perspectiva muito mais profunda ao examinarmos a vida humana na perspectiva de longos períodos. Consideremo-lo tal como se desenrolou na época caldaico-egípcia, a que antecedeu a época greco-latina. Se estudarmos este período do ponto de vista do que ele trouxe aos homens, das experiências que lhes permitiu viver, descobriremos algo de muito singular. Ao compararmos esta época com a nossa, verificamos que o que acontece nesta está associado ao que ocorreu na época caldaico-egípcia. A época greco-latina situa-se entre as duas. Há coisas que não teriam chegado à nossa época se determinados factos não tivessem ocorrido durante a civilização caldaico-egípcia. Se a ciência actual chegou a determinado resultado, de facto, ela deve-o também a forças que se desenvolveram e se expandiram a partir da alma humana. Mas as almas que se manifestam nos nossos dias também encarnaram na época caldaico-egípcia e passaram então por certas experiências sem as quais não teriam podido realizar o que hoje fazem. Se os pupilos dos sacerdotes do antigo Egipto não tivessem recebido as descrições do céu ensinadas pela astrologia, mais tarde não teriam conseguido penetrar, à sua maneira, nos mistérios do universo, e algumas almas do nosso tempo não teriam possuído as forças que orientaram a humanidade actual para os espaços celestes. De que modo Kepler, por exemplo, foi levado a fazer as suas descobertas? É que nele vivia uma alma que, na época caldaico-egípcia, recebera as forças necessárias para as descobertas, que lhe foi permitido fazer na quinta época. Sentimos uma certa satisfação interior ao vermos surgir em alguns espíritos como que a lembrança de terem recebido outrora o embrião das suas acções actuais. Kepler, esse espírito ao qual devemos muito do ponto de vista da investigação das leis celestes, diz ao falar de si próprio (1):

«Sim, fui eu que roubei os vasos de ouro dos Egípcios para com eles erigir um santuário ao meu Deus, bem longe das fronteiras do Egipto! Se mo desculpardes, regozijo-me com isso, mas se mo recriminardes, acatá-lo-ei; lanço aqui os dados e escrevo este livro. Que seja lido hoje ou mais tarde, não me importa! Ainda que seja preciso esperar cem anos para que seja lido, o próprio Deus teve que esperar seis mil por aquele que, pelos seus conhecimentos, concebesse a sua obra».





Recorda-se esporadicamente do que recebeu como embrião do que devia realizar ao longo da sua existência pessoal sob o nome de Kepler. Podíamos dar centenas de exemplos deste género. No entanto, vemos em Kepler mais do que a manifestação de efeitos, cuja causa remonta a uma vida anterior. Vemos manifestar-se o que aparece como o efeito necessário para toda a humanidade de qualquer coisa que tinha já a sua importância para todos nós em tempos recuados. Vemos de que forma o indivíduo é colocado ali onde pode actuar para toda a humanidade. Vemos que não só para toda a vida humana individual, mas para o conjunto da humanidade, existem portanto relações de causa e efeito que perduram por longos períodos. Podemos daqui deduzir que a Lei do Carma Individual irá interferir com as leis a que podemos chamar Leis Cármicas da Humanidade. Por vezes é bastante difícil desfazer essas interferências. Pensai no que se teria tornado a nossa astronomia se o telescópio nunca tivesse sido inventado. Recuem na história desta ciência e constatarão que uma infinidade de coisas se deveram a esta invenção. Ora, é um facto conhecido que a descoberta do telescópio se deve à brincadeira de duas crianças numa oficina de óptica. Enquanto brincavam com lentes ópticas, o «acaso», podemos dizer, quis que elas as combinassem de tal forma que ocorreu a ideia a alguém de transformar essa combinação num telescópio. Pensem até onde devem ir procurar o carma individual destas crianças e o carma da humanidade que provocou esta invenção numa época determinada! Tentem reunir estes factos no vosso pensamento e vereis de que forma notável o carma de individualidades isoladas e o de toda a humanidade intervêm e se entrecruzam. Concordareis que seria necessário delinear uma imagem completamente diferente da evolução da humanidade se, numa determinada época, um acontecimento qualquer não tivesse tido lugar.

Habitualmente, não tem qualquer utilidade questionar-nos sobre o que teria sucedido ao Império Romano se, num determinado momento, os Gregos não tivessem contido o assalto dos Persas durante as Guerras Médicas. Todavia, tem alguma utilidade colocarmos a seguinte questão: «O que é que fez com que as Guerras Médicas se tivessem desenrolado daquela forma?». Quem procurar a resposta verá que no Oriente certas conquistas se devem apenas à existência de déspotas que só cobiçavam domínios pessoais e com esse objectivo se aliavam aos sacerdotes sacrificiais, etc. Nessa época, todas as instituições do Estado eram necessárias aos desígnios do Oriente. Mas essas instituições também trouxeram todos os males que daí haviam de resultar. Isso liga-se ao facto de um povo constituído de outra forma, o grego, ter conseguido conter no momento desejado a investida oriental. Ao reflectirmos sobre estas coisas, questionamo-nos sobre o que dizer do carma das personalidades a quem a Grécia deve a contenção dos Persas. Encontraremos inúmeros factores pessoais no carma desses homens, mas perceberemos também que esse carma pessoal está ligado ao do povo e ao da humanidade. De modo que podemos dizer que foi justamente o carma de toda a humanidade que colocou essas personalidades particulares nesse local e nessa época! Verificamos aqui que o carma da humanidade interveio no indivíduo. E devemos continuar a interrogar-nos sobre a forma como tudo isto se coordena. Mas, para irmos ainda mais longe, consideremos um outro conjunto de factos.


Do ponto de vista da ciência do espírito, podemos remontar a uma época da evolução terrestre na qual o reino mineral ainda não existia na terra. A nossa evolução terrestre foi antecedida das fases de Saturno, do Sol e da Lua, quando não havia reino mineral no sentido que hoje habitualmente lhe atribuímos. Ele apareceu apenas na terra sob a forma dos actuais minérios. Foi por se ter diferenciado no decurso da evolução terrestre que passou a existir como reino autónomo em todos os tempos futuros. Até então, os homens, os animais e as plantas tinham-se desenvolvido sem se apoiarem num reino mineral. Para realizar uma evolução ulterior, os outros reinos foram obrigados a segregar o reino mineral. Na sequência disso, o único desenvolvimento possível tornou-se aquele que seguiram num planeta dotado de uma base sólida, mineral. E nunca as coisas surgirão de outro modo a não ser com base em condições introduzidas pela formação de um reino mineral Este existe, e todas as existências futuras dos outros reinos estão ligadas ao seu aparecimento, que se produziu num passado muito longínquo do nosso estado terrestre. Toda a evolução futura da terra está portanto dependente daquilo que aconteceu devido ao aparecimento do reino mineral. Em todos os outros seres cumprir-se-á aquilo que é a consequência do aparecimento do reino mineral. Também aqui vemos em tempos futuros a realização cármica de factos anteriores. É na Terra que se realiza o que foi preparado na Terra. Existe uma relação entre o antes e o depois, mas esta é de tal natureza que o efeito reage sobre o ser gerador da causa. Os homens, os animais e as plantas rejeitaram o reino mineral, e o reino mineral reagiu actuando sobre eles! Verificamos deste modo que é possível falar-se num carma da Terra.

Por fim, salientamos um outro facto. Sabemos que certas entidades permaneceram no patamar da evolução da antiga Lua, com a finalidade de atribuírem ao homem terrestre faculdades bem definidas. Ora, não só essas entidades, mas também certas substancialidades da época lunar da Terra ficaram para trás. Certos seres permaneceram no patamar lunar da evolução, actuando sobre as nossas condições terrestres enquanto entidades luciferinas. Devido a esta paragem num estádio da evolução, esta foi afectada por efeitos cujas causas foram desencadeadas aquando da evolução lunar. Do ponto de vista das substâncias, ocorre um facto semelhante. Se considerarmos o nosso sistema solar actual, vemos que é composto por corpos celestes cujos movimentos se repetem regularmente e exprimem uma certa coerência interna. Encontramos, no entanto, outros corpos cósmicos que também se movem segundo certos ritmos, mas que transgridem, por assim dizer, as leis normais do sistema solar; eles são os cometas. Ora, a substância dos cometas não obedece às mesmas leis que as que regem o nosso sistema solar regular, mas a leis semelhantes às que existiam quando da antiga lua. De facto, as leis da antiga Lua conservaram-se em tudo o que é fenómeno cometário. Já referi inúmeras vezes que a ciência do espírito demonstrou que essas leis existiam antes das ciências as confirmarem. Em 1906, em Paris, demonstrei que durante o antigo estado lunar, determinadas combinações de carbono e azoto tiveram um papel semelhante ao que é hoje representado na terra pelas combinações de oxigénio e carbono, como o gás carbónico, o dióxido de carbono, etc. Estes têm propriedades tóxicas. As combinações de cianogénio, os componentes do ácido prússico desempenharam um papel semelhante na antiga Lua. Do ponto de vista da ciência do espírito, estes factos foram já estabelecidos em 1906 (2). Outras conferências também demonstraram o modo como a natureza cometária introduz no nosso sistema solar as leis do antigo estado lunar; de modo que ficaram para trás não só os seres luciferinos, mas também as leis da antiga Lua, que intervêm irregularmente na ordenação do nosso sistema solar. Sempre dissemos que devia subsistir na atmosfera dos cometas qualquer coisa como combinações de cianogénio (3). Muito tempo depois da ciência do espírito ter anunciado isto, só em 1910, a análise espectral descobriu nos cometas o espectro do ácido prússico.


Vereis nisto uma prova a dar àqueles que vos dizem: «Demonstrai pois de uma vez por todas que a ciência do espírito pode verdadeiramente conduzir a uma descoberta!». Encontraríamos muitos outros factos deste género, se quiséssemos simplesmente observá-los. Qualquer coisa do nosso antigo estado lunar continua portanto a actuar sobre as condições terrestres actuais.

Questionemo-nos agora se podemos sustentar que os fenómenos sensíveis exteriores assentam numa base espiritual.

Aquele que reconhece o ensino da ciência do espírito não duvida que por detrás de toda a realidade sensível reside um elemento espiritual. Se, do ponto de vista da substância, houver uma acção das antigas condições lunares sobre o nosso estado terrestre, se o cometa irradiar sobre a nossa terra, é porque, em segundo plano, também actua qualquer coisa de espiritual. E poderemos mesmo especificar que ela é, por exemplo, a realidade espiritual que se manifesta através do cometa Halley. Sempre que entra na esfera da existência terrestre, este cometa torna-se a expressão exterior de um novo impulso em direcção ao materialismo. Para o mundo actual, isto pode parecer uma superstição, mas bastaria que as pessoas se lembrassem de como elas próprias atribuem certos efeitos espirituais às posições dos astros. Quem negaria, por exemplo, que o esquimó é feito de modo diferente do índio por na região polar os raios solares caírem de acordo com um ângulo diferente? Os próprios estudiosos atribuem em toda a parte às posições dos astros efeitos sobre o espírito humano. Um impulso supersensível para o materialismo acompanha o cometa Halley (4). Isto pode ser demonstrado. O aparecimento deste cometa em 1835 foi, de facto, seguido da corrente materialista da segunda metade do século XIX. O seu aparecimento anterior foi seguido da filosofia materialista das Luzes dos enciclopedistas franceses. Estas associações existem, de facto.

Determinadas coisas não puderam acontecer na terra senão porque as suas causas foram anteriormente situadas fora das condições terrestres actuais. E aqui temos mesmo de falar no carma do mundo. Por que razão alguns elementos espirituais e certas substâncias foram separadas da antiga Lua? Para que certos efeitos pudessem, por sua vez, reflectir-se nas entidades causadoras da separação. As entidades luciferinas foram separadas e tiveram que passar por uma outra evolução para que o livre-arbítrio e a possibilidade do mal pudessem ser atribuídos na terra aos seres que a habitam. Eis um facto que excede os efeitos cármicos encerrados nos limites do estado terrestre. Esta é uma perspectiva sobre o carma do universo.


Ahriman esculpido por Rudolf Steiner

Hoje podemos pois falar no conceito de carma, no seu significado para a personalidade, para a individualidade e para o conjunto da humanidade. Descrevemos os seus efeitos no nosso quadro terrestre, e para lá dele,chegámos àquilo a que podemos chamar o carma do mundo. Encontramos, deste modo, a Lei do Carma, à qual poderemos chamar Lei das Relações de Causa e Efeito, desde que o efeito recaia sobre a causa e que a identidade do ser se tenha conservado, que ele tenha permanecido o mesmo quando o efeito vier a tocá-lo de novo. Voltamos a encontrar essas leis cármicas por toda a parte no universo na medida em que o consideramos espiritual. Prevemos que o carma irá manifestar-se nos domínios mais variados e das formas mais diversas. Prevemos que as correntes cármicas, as do indivíduo, da humanidade, da terra, do universo, etc., irão cruzar-se e que isso nos fornecerá a chave que permite compreendermos a vida. Os diferentes pormenores da vida não poderão ser compreendidos a não ser que saibamos desvendar a acção simultânea das correntes cármicas mais diversas» (in ob cit., pp. 30-41).


Notas:

(1) Excerto da introdução do Livro V («Sobre a harmonia muito perfeita dos movimentos celestes, e sobre a origem das Excentricidades a partir dos mesmos, e dos Semi-diâmetros e dos Tempos periódicos») da obra de Kepler Harmonices mundi libri V, Lincci Austriae, sumpt. G. Tampachii, 1619, segundo a versão alemã Weltharmonik...

(2) Ver a conferência realizada em Paris, no dia 11 de Junho de 1906, em L'ésoterisme chrétien. Esquisse d'une cosmogonie psychologique d'áprés des conférences faites à Paris en 1906, in GA 94, T, 1957, p. 120.

(3) A propósito do papel das combinações de cianogénio e da sua presença na atmosfera cometária, vejam-se também as conferências do dia 10 de Outubro e sobretudo do dia 24 de Outubro de 1923 em Manifestations de l'esprit dans la nature, GA 351, É.A.R.

(4) O cometa Halley foi assim designado em referência ao nome do primeiro estudioso a calcular a sua trajectória, o astrónomo Halley (1656-1742). Enquanto realizava os seus cálculos, ficou surpreendido com o facto da trajectória de 1862 do grande cometa ser semelhante às trajectórias dos cometas de 1531 e 1607. Com isso concluiu que, naquelas três aparições, devia tratar-se do mesmo cometa. Halley previu o regresso desse cometa de forma exacta para 1759, depois de completado um ciclo de 75 a 76 anos. Foi deste modo que o primeiro cometa de regresso periódico foi descoberto. Esta descoberta foi da máxima importância na medida em que, por esse facto, «os cometas misteriosos foram despojados do seu nimbo e classificados no domínio da validade das leis gerais da natureza» (Max Gerstenberger, Kometen - Aussenseiter am Himelszelt, Estugarda, 1951). Por outro lado, pensávamos deste modo colocar pelo menos os cometas periódicos numa trajectória elíptica como a dos planetas. A propósito da missão do cometa Halley, veja-se também as conferências de Rudolf Steiner dos dias 25 de Outubro de 1909 e 9 de Março de 1910 em l'Impulsion du Christ et la conscience du moi, GA 116, T 1985, e de 5 de Março de 1910 e, l'Apparition du Christ dans le monde éthérique, GA 118, É.A.R.





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