quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Presente da Águia (i)

Escrito por Carlos Castaneda






«Carlos Castaneda foi um dos pensadores mais profundos e influentes do século XX. Suas ideias estão definindo a direcção da evolução futura da consciência humana. Todos nós lhe devemos muito».



«Don Juan nos dissera que os seres humanos são divididos em dois. O lado direito, que ele chamava de tonal, engloba tudo o que o intelecto pode conceber. O lado esquerdo, chamado nagual, é um reinado de aspectos indescritíveis, um reinado impossível de ser descrito em palavras. O lado esquerdo é talvez compreendido, se é compreensão o que acontece, com o corpo inteiro; daí a sua resistência ao conceitualismo.

Don Juan também nos falara que todas as faculdades, possibilidades e realizações da feitiçaria, da mais simples à mais elaborada, residiam no próprio corpo humano».

Carlos Castaneda («O Presente da Águia»).




Seis proposições explicativas

Apesar das manobras que don Juan fez com a minha consciência, eu persistia com teimosia, ao longo dos anos, em tentar avaliar o que ele fazia, racionalmente. Embora tenha escrito longamente sobre essas manobras, escrevi sempre de um ponto de vista experimental, e, sobretudo, de um ângulo estritamente racional. Imerso como estava na minha própria racionalidade, eu era incapaz de reconhecer as metas do seu ensinamento. Para poder entender o objectivo dele com precisão, foi necessário que eu perdesse minha forma humana e chegasse à totalidade de mim mesmo.

Os ensinamentos de don Juan tinham como objectivo guiar-me no segundo estágio do desenvolvimento do guerreiro: a compreensão e a total aceitação de que há outro tipo de consciência dentro de nós. Seus ensinamentos dividiam-se em duas categorias. A primeira e mais abrangente, para a qual pediu a ajuda de don Genaro, era a que lidava com as actividades. Consistia em mostrar-me certos procedimentos, acções e métodos organizados para exercitar a minha outra consciência. A segunda preocupava-se com a apresentação das seis proposições explicativas.

Em vista da dificuldade que tive em deixar minha racionalidade aceitar o que me estava sendo ensinado, dom Juan apresentou essas proposições explicativas em termos dos meus antecedentes académicos.




A primeira coisa que fez, como introdução, foi criar uma divisão em mim por meio de um golpe preciso aplicado na minha omoplata direita, golpe esse que me fez entrar num estado incomum de consciência - estado que eu era incapaz de me lembrar quando voltava ao normal.

Até ter entrado nesse estado de consciência eu tinha um inegável senso de continuidade, que acreditava ser o resultado da minha experiência de vida. Achava que era um ser completo e que podia ser responsável por tudo o que tinha feito. Sobretudo, estava convencido de que o centro daquela consciência encontrava-se na minha cabeça. Contudo, don Juan provou-me com seu golpe que existe um centro na espinha, à altura das omoplatas, que é obviamente um local de consciência intensificada.

Quando o questionei sobre a natureza desse golpe, dom Juan explicou que o nagual é um líder que tem a responsabilidade de abrir caminhos, e que deve ser impecável, a fim de transmitir a seus guerreiros um espírito de confiança e clareza. Só nessas circunstâncias o nagual se encontra na posição de aplicar o golpe nas costas e forçar uma mudança de consciência; pois é o poder do nagual que nos leva a fazer essa transição. Se o nagual não for um praticante impecável, não há mudança, como aconteceu quando eu tentei em vão fazer os aprendizes entrarem num estado de consciência intensificada batendo nas suas costas, antes de nos aventurarmos a atravessar a ponte.

Perguntei a dom Juan o que acontecia naquela mudança de consciência. Ele disse que o nagual tem de aplicar o golpe numa região precisa, que varia de pessoa para pessoa, mas que se localiza sempre na área geral das omoplatas. O nagual deve ver a fim de precisar a região, localizada no contorno do corpo luminoso da pessoa e não no próprio corpo físico; uma vez identificado o local, ele mais empurra que bate, formando assim uma cavidade irregular, uma depressão na concha luminosa. O estado de consciência intensificada que resulta desse golpe dura enquanto a depressão permanece. Algumas conchas luminosas voltam à forma original por si só, outras têm de ser pressionadas em outra região para voltarem ao normal, e outras ainda nunca recuperam sua forma de ovo.

Don Juan explicou que os videntes vêem a consciência como um brilho peculiar. A consciência da vida diária é um brilho no lado direito, estendendo-se do corpo físico ao contorno de nossa luminosidade. A consciência intensificada é um brilho mais intenso, associado a uma grande velocidade e concentração, brilho esse que satura o contorno do lado esquerdo.

Disse que os videntes explicam o que acontece com o golpe do nagual como um deslocamento temporário de um centro localizado no casulo luminoso do corpo. As emanações da Águia são na realidade avaliadas e seleccionadas nesse centro. O golpe altera seu funcionamento normal.




Através de suas observações, os videntes concluíram que os guerreiros devem ser colocados em estado de desorientação. A mudança na maneira com a qual a consciência opera nessas condições torna esse estado um campo ideal para elucidar as emanações da Águia, permitindo que o guerreiro funcione como se estivesse com a consciência da vida diária, com a diferença de poder focalizar tudo o que quiser com uma força e clareza sem precedentes.

Don Juan falou que minha situação era semelhante à que ele próprio tinha experimentado. Seu benfeitor criou uma profunda divisão nele, fazendo-o trocar várias vezes da consciência do lado direito para o lado esquerdo. A clareza e a liberdade da sua consciência do lado esquerdo se opunham directamente às racionalizações e defesas sem fim do seu lado direito. Disse que todo o guerreiro é lançado nas profundezas da mesma situação que essa polaridade modela, e que o nagual cria e reforça essa divisão como um meio de conduzir seus aprendizes à convicção de que existe uma consciência não explorada nos seres humanos.


1. O que conhecemos como mundo são as emanações da Águia

Don Juan explicou que o mundo que conhecemos não tem existência transcendental. Nossa familiaridade com ele nos leva a acreditar que o que percebemos é um mundo de objectos existentes tal qual os conhecemos, quando na verdade não há um mundo de objectos, mas sim um universo das emanações da Águia.

Essas emanações representam a única realidade imutável. É uma realidade que engloba tudo o que existe, o perceptível e o não-perceptível, o conhecido e o desconhecido.

Os videntes que vêem as emanações da Águia chamam-nas de comandos por causa da sua força compulsória. Todas as criaturas vivas são compelidas a usar as emanações, e usam-nas sem nunca saberem o que elas significam. O homem comum interpreta-as como realidade. E os videntes que vêem as emanações interpretam-nas como o regulamento.

Apesar de os videntes verem as emanações, não há um meio de eles saberem o que estão vendo. Em vez de entrarem em conjecturas supérfluas, entram numa especulação funcional de como os comandos da Águia podem ser interpretados. Don Juan insistia em dizer que intuir uma realidade que transcende o mundo que conhecemos se dá num nível de conjectura; não é suficiente para um guerreiro resumir que os comandos da Águia são percebidos de uma vez só por todas as criaturas vivas da Terra e que nenhuma delas os perceba da mesma maneira. Os guerreiros devem ter como objectivo presenciar o fluxo das emanações e ver como o homem e os outros seres vivos usam-nas para construir seu mundo perceptível.

Quando propus o uso da palavra "descrição" em vez de emanações da Águia, don Juan esclareceu que não estava construindo uma metáfora. Disse que a palavra "descrição" tem uma conotação de concordância do homem, e que o que percebemos deriva de um comando no qual a concordância do homem é deixada de fora.

2. A atenção é o que nos faz perceber as emanações da Águia como o acto de "desnatar" (1)



Don Juan disse que a percepção é uma faculdade física cultivada por todos os seres vivos da terra; nos seres humanos o resultado final é conhecido pelos observadores como "atenção". Acrescentou que qualquer tentativa de defini-la é perigosa, pois transforma uma realização mágica numa coisa comum. Descreveu a atenção como a utilização e a canalização da percepção.

Disse que é a nossa maior realização em separado, cobrindo toda a gama de alternativas e possibilidades humanas. Fez uma distinção precisa entre alternativas e possibilidades. As alternativas humanas são nossa capacidade de escolher como pessoas que funcionam dentro do seu meio social. Nosso raio de acção nessa esfera é bastante limitado. As possibilidades humanas são nossa capacidade de alcance como seres luminosos.

Don Juan desenvolveu um esquema classificatório de três tipos de atenção, enfatizando que chamá-los de "tipos" podia levar a dúvida. São, na realidade, três níveis de conhecimento: a primeira, a segunda e a terceira atenção; cada uma com seu domínio independente, cada uma completa por si só.

Para um guerreiro nos estágios iniciais de sua aprendizagem, a primeira atenção é a mais importante das três. Don Juan disse que suas proposições explicativas eram tentativas de trazer a um primeiro plano o modo como a primeira atenção funciona. Considerava imperativo que os guerreiros compreendessem a natureza da primeira atenção se quisessem aventurar-se nas outras duas.

Explicou que a primeira atenção tem de ser treinada a se mover instantaneamente através de todo o espectro das emanações da Águia, no qual não coloca a menor ênfase evidente, a fim de alcançar as "unidades perceptíveis" que todos nós aprendemos a aceitar como perceptíveis. Essa realização da nossa primeira atenção é chamada pelos videntes de "desnate" porque engloba a capacidade de afastar as emanações supérfluas e escolher as emanações a serem enfatizadas.

Don Juan elaborou esse processo tomando como exemplo a montanha com que nos estávamos deparando naquele momento. Argumentou que a minha primeira atenção, quando eu olhava a montanha, tinha tocado de leve num número infinito de emanções a fim de conquistar um milagre de percepção; o desnate que chamamos de "montanha", e que é conhecido de todos os seres humanos da terra porque eles próprios a alcançaram.

A argumentação dos  videntes é que tudo o que a primeira atenção afasta a fim de conquistar um desnate não pode ser retirado dela em nenhuma condição. Do momento em que aprendemos a perceber em termos de desnates, as emanações supérfluas deixam de ser registadas por nossos sentidos. Para elucidar esse ponto ele deu-me como exemplo o desnate "corpo humano". Disse que nossa primeira atenção é completamente inconsciente das emanações que formam a casca externa luminosa do nosso corpo físico; nosso casulo em forma de ovo não está sujeito à percepção; as emanações que o tornariam perceptível foram descartadas em favor daquelas que tornam possível à primeira atenção perceber o corpo físico como é conhecido por nós.




O objectivo perceptivo a ser atingido pelas crianças, enquanto estão crescendo, é aprender a isolar as emanações apropriadas a fim de transformar a sua percepção caótica na primeira atenção; ao fazer isso aprendem a construir os desnates. Todos os adultos que rodeiam as crianças as ensinam a desnatar. Com o tempo as crianças aprendem a controlar sua primeira atenção a fim de perceber os desnates em termos semelhantes aos de seus mestres.

Don Juan ficava admirado com a capacidade dos seres humanos de instituir ordem ao caos da percepção. Afirmava que cada um de nós, é um mago magistral, e nossa magia consiste em impregnar de racionalidade os vestígios que nossa primeira atenção aprendeu a construir. Nossa percepção em termos de desnates provém dos comandos da Águia, mas a percepção desses comandos como objectos provém do nosso poder, nosso dom mágico. Nosso erro, por outro lado, é que sempre acabamos sendo unilaterais ao esquecermos que nossos desnates são reais apenas no sentido de que os percebemos como reais, em virtude do poder que temos de fazer isso. Don Juan chamava a isso um erro de julgamento, que destrói em nós a riqueza de nossas origens misteriosas.


3. Os desnates recebem significado do primeiro anel de poder

Don Juan disse que o primeiro anel de poder é a força que se desprende das emanações da Águia para agir exclusivamente na nossa primeira atenção. Explicou que foi descrita como "anel" devido ao seu dinamismo, seu  movimento ininterrupto. Foi chamada de anel "de poder", primeiro por seu caráter obrigatório, e segundo por sua capacidade única de parar suas obras, mudá-las ou reverter sua direcção.

Seu carácter obrigatório se faz mais evidente pelo facto de que não só compele a primeira atenção a construir e perpetuar desnates, como também exige a concordância de todos os participantes. A concordância em reproduzir fielmente o desnate é exigida de todos nós, pois nossa conformidade ao primeiro anel de poder tem de ser total.

É precisamente essa conformidade que nos dá a certeza de que os desnates são objectos existentes como tal, independentemente de nossa percepção. Além do mais, a obrigatoriedade do primeiro anel de poder não cessa depois da nossa concordância inicial, mas exige que renovemos continuamente tal concordância. Temos de operar durante toda a nossa vida, por exemplo, como se cada um de nossos desnates fosse perceptivamente o mesmo para todos os seres humanos, a despeito da língua e da cultura. Don Juan admitia que a coisa é séria demais para ser vista como uma piada, mas que o carácter compulsório do primeiro anel de poder é tão intenso que nos força a crer que se uma "montanha" pudesse ter consciência própria, ela se veria como o desnate que aprendemos a construir.




Para os guerreiros, a característica mais válida do primeiro anel de poder é a sua capacidade de interromper seu fluxo de energia ou de pará-lo completamente. Don Juan disse que é uma capacidade latente que existe em todos nós como uma unidade de apoio. Em nosso mundo fechado de desnates não há necessidade de usá-la. Como nos apoiamos e defendemos com a rede da primeira atenção, não temos consciência de que possuímos recursos ocultos do qual nem suspeitamos. Se uma escolha alternativa nos é apresentada, tal como a opção do guerreiro em utilizar a segunda atenção, a capacidade latente do primeiro anel de poder poderia ser posta em funcionamento com resultados espectaculares.

Don Juan enfatizou que o processo envolvido em activar essa capacidade latente é a maior realização do feiticeiro; é chamada de bloquear o intento do primeiro anel de poder. Explicou que as emanações da Águia, que já foram isoladas pela primeira atenção para construir o mundo da vida diária, exercem uma forte pressão sobre a primeira atenção. Para que essa pressão cesse de agir, é preciso que o intento seja deslocado. Os videntes chamam a isso interrupção ou parada do primeiro anel de poder (in O Presente da Águia, Nova Era, 2002, pp. 347-355).


(1) Escolher o melhor de alguma coisa. Como o acto de separar a nata do leite fervido, depois que ele esfria. Aqui também usamos a palavra em espanhol desnate.

Continua


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