segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Problemática concreta da cultura portuguesa (iii)

Escrito por António Quadros







A Cultura Portuguesa perante a Crescente Valorização Económica do Ultramar


É este um tema de tão grande importância na sua projecção futura que, perante ele, empalidecem aqueles problemas culturais que hoje mais se agitam com bandeiras ou emblemas de inquietação.

Conhecemos a actividade que, com os melhores frutos, a Junta de Energia Nuclear vem desenvolvendo nas nossas províncias ultramarinas. Estamos a par das boas perspectivas mineiras e petrolíferas que ali se abrem.

Sem ir mais longe, bastariam estes dois factos para justificar, mais do que a esperança, a certeza de todos os portugueses no grande futuro que se abre aos pés da comunidade lusíada.

Mas o desenvolvimento económico, sabe-se, é uma moeda de duas faces: pode ser caminho de ascensão, e pode ser também o princípio de uma queda, quando se constrói sobre alicerces falsos, quando se olha a um futuro demasiadamente próximo, quando o material sobreleva o espiritual, a ponto de a valorização económica se transformar num mero jogo de interesses. Uma vez que se chegue a este ponto, a razão individual e a razão egoísta de um «trust» ou de uma classe ultrapassam a razão nacional, que sempre se identifica ou deve identificar com a razão espiritual. A Pátria realiza fins superiores e procura promover a ascensão, a dignificação e até a redenção do homem pelo concreto, isto é, respeitando as condições inerentes à natureza humana, que é histórica, situada e circunstancializada, e não abstracta, como queriam os teorizadores do século passado.

Se o conjunto das províncias europeias, africanas, asiáticas e oceânicas que constituem a Pátria Portuguesa não completar, pela radicação cultural a um mesmo tronco, a um mesmo ideal ou a um mesmo destino, aquela unidade cultural e espiritual de que deve partir a unidade política e económica, é de recear a dissolução, propiciada, aliás, pelas pressões das culturas estrangeiras, tanto mais insistentes quanto maior for o prémio material que possam obter.

É certo que as distâncias geográficas entre as províncias portuguesas de aquém e de além-mar necessariamente suscitarão, com o rodar dos tempos, diferenças culturais. Essas diferenças serão insignificantes, porém, se a cultura portuguesa principiar desde já a tomar consciência das suas enormes responsabilidades. A tradição das suas enormes responsabilidades. A tradição da irmandade das raças, dos continentes e das religiões sob o verde e o vermelho da bandeira nacional mantém-se, felizmente, pois a nossa política ultramarina afirmou expressamente, desde o seu início, no século XVI, o seu carácter oceânico e não exclusivamente europeu, universal e não imperialista, missionário e não conquistador.






É de prever, no entanto, que o desenvolvimento económico transforme por completo a paisagem humana do Ultramar, multiplicando o número dos seus habitantes, atraindo estrangeiros de todas as origens, seduzindo os centros internacionais de irradiação cultural, elevando as populações indígenas a um nível superior. Estará a cultura portuguesa, na sua relação com os problemas ultramarinos, preparada para fazer face a uma tão grande modificação do quadro actual de valores? Bem conhecemos a obra relevante que vêm realizando, não só a Agência-Geral do Ultramar, como a Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar.

Queremos apenas, nesta breve síntese das preocupações de escritor interessado, salientar a necessidade de reforçar cada vez mais os laços culturais entre todas as províncias portuguesas; de aumentar mais e mais o influxo da cultura original, que tem como base, origem e expressão a língua portuguesa; de levar aos pontos mais distantes a mensagem da nossa arte, da nossa literatura, do nosso pensamento; de preparar os portugueses, indistintamente, para a concorrência das culturas estrangeiras, vincando por todas as formas as características específicas e inconfundíveis da espiritualidade portuguesa; enfim, de promover de todos os modos, em todos os lugares, em todos os níveis, a solidificação da autonomia cultural, sem a qual não há autonomia política, social ou sequer económica. Uma tarefa ou uma missão como a que em breves palavras acabamos de sintetizar é obra para anos de ardoroso, de entusiástico, de persistente labor. A convicção de que a mensagem implícita da cultura portuguesa é, como poucas, libertadora, generosa e universal será, sem dúvida, o bordão de fé dos novos missionários que irão construir essa realidade nova, uma pátria autêntica, esparsa em quatro continentes, e, no entanto, unida em idêntica fé e idêntica esperança. Estamos no limiar de uma era sem precedentes na economia portuguesa. Saibamos estar também no limiar de uma era de superior afirmação cultural, quer no enriquecimento das ideias e das formas que exprimem o nosso génio quer na sua projecção para além das exíguas fronteiras do que antigamente se chamava a Metrópole. Hoje, a Metrópole é todo um Portugal cujo coração está no mar, para pertencer por igual a quatro continentes. E, ao nosso lado, o Brasil prepara-se para participar num movimento espiritual que será possivelmente a aquisição da sua voz nobre, singularmente experiente e ao mesmo tempo singularmente jovem, para o concerto fúnebre das nações que fizeram a nossa idade trágica.



Esfera Armilar



Temos o orgulho de, até aqui uma pequena nação, não termos participado na génese da tragédia. Temos a esperança de, possivelmente grande nação do futuro, contribuirmos para a transcensão da tragédia.

Deixamos aqui palavras de confiança que parecerão talvez estranhas aos olhos dos que não são capazes de viver na dimensão do futuro, antes vivendo, num passado que as novas gerações vão deixando para trás. Sabemos, no entanto, que estas palavras assumem a convicção, a esperança e o entusiasmo com que as camadas mais jovens se preparam para construir um Portugal diferente: um Portugal maior, se o desenvolvimento cultural e espiritual marchar ao ritmo da maturização política e do incremento económico, social e financeiro. Não são, pois, as palavras de um indivíduo, porque são as palavras de uma geração. O que lhes dá tanto maior relevo e acuidade, no momento decisivo que atravessamos.


Antropologia Ultramarina: Investigação e Formação

Ao abordarmos, há dias, o problema da cultura portuguesa perante a valorização económica do Ultramar, insistimos predominantemente, não nos modos da sua expansão, penetração e afirmação, mas apenas na própria dinâmica mútua entre os dois termos. Em face do prodigioso desenvolvimento demográfico, industrial e social que o nosso Ultramar dá sinais de poder vir a registar nos próximos vinte anos, a cultura portuguesa deve na verdade chamar a si o papel de mantenedora da unidade espiritual, virtualmente ameaçada no futuro por pressões de toda a ordem e a que dificilmente escaparemos.

Portugal é hoje uma pátria que tem as suas províncias colocadas em quatro continentes. Não é uma pátria de tipo continental, mas sim de tipo universal. Não deve julgar-se que as distâncias quilométricas que afastam as nossas províncias constituem hoje um gérmen real de separação. Assinalam sem dúvida diferenças rácicas e culturais. Mas diferenças também as há entre o Algarve e o Minho, entre o Alentejo e Trás-os-Montes. O progresso dos meios de transporte, mais assinalado ainda desde que a energia atómica possa começar a ser aplicada ao embaratecimento e rapidez das comunicações aéreas ou marítimas, tornou as distâncias factores infinitamente menos importantes do que o eram nos séculos XVII e XVIII. A própria morosidade das comunicações de então explicaria, sem mais, os desejos de independência de populações que viam a resolução dos seus problemas imediatos lenta e deficientemente encarada. Este factor «distância», agravado quando os mares se põem de permeio entre as províncias, caminha, pois, para se tornar cada vez mais insignificante. Não há também, na própria essência dos continentes, outros factores separativos que não possam ser transcendidos. A diversidade de raças e religiões, e até de línguas, não impediu, por exemplo, a formação do império russo por Catarina e Pedro, o Grande, império que se mantém como uma coexistência de raças, religiões e idiomas. Não impediu a formação das nações chinesa e indiana. Não impediu a formação da comunidade árabe. Não impediu também a formação dos Estados Unidos da América, onde se encontraram e aprenderam a mesma língua os indígenas peles-vermelhas, os negros africanos e os europeus de todas as nações, sem falar nos orientais que se fixaram na costa do Pacífico. Não impediu, não impede e não impedirá também a formação da Pátria Portuguesa nas suas verdadeiras dimensões. Pois tal é a grande, porventura única, diferença entre aqueles casos e o caso português? A separação das províncias pela distância e pelo mar - e já vimos como esse factor se torna cada dia menos importante.






Mas no seu processo de consolidação as pátrias defrontam sempre os obstáculos que os seus inimigos lhes preparam. Aqui, sim, reside o verdadeiro perigo. Perigo que aumentará à proporção do nosso desenvolvimento económico.

Quais serão as defesas naturais de uma pátria com as características da nossa? A coesão das ideias pela aprendizagem de uma língua comum, a coexistência harmoniosa e fraterna entre as raças, os cultos, os interesses locais, enfim, a integração de todos os seus filhos num comum ou afim projecto vital, quer dizer, num teleologismo que, em todas as ordens, desde as mais inferiores às superiores, nos irmane na mesma consciência da missão que ao homem cabe realizar neste mundo essencialmente dramático em que vive.

Se muito já se fez, é, no entanto, gigantesca a tarefa que falta ainda realizar. Ela pode dividir-se em dois aspectos diversos, mas estruturalmente ligados: de investigação e de formação.

Quanto ao primeiro, é óbvio que importa conhecer a fundo todas as parcelas dos nossos territórios ultramarinos, não só do ponto de vista antropológico, como do ponto de vista naturalista. Não se pode agir sobre o que não se conhece. Este trabalho tem sido notavelmente levado a efeito por algumas instituições credoras da nossa admiração, como a Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, a Sociedade de Geografia, a Agência-Geral do Ultramar ou o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. A investigação é, na verdade, fundamental e, sem ela, seria impossível radicar com profundeza qualquer acção formativa. A investigação tem dois aspectos: um, leva ao conhecimento dos homens, através de estudos antropológicos, com os seus aspectos etnográficos, artísticos, linguísticos e psicológicos; o outro, leva ao conhecimento da natureza sob os seus ângulos geográfico, botânico, zoológico, etc. Da investigação se parte, pois, para a formação do homem e para o aproveitamento da natureza.

Conforme dissemos, grande parte da tarefa está já realizada ou em vias de realização. Para comprovação, basta seguir atentamente a temática das Semanas do Ultramar que a Sociedade de
Geografia vem realizando todos os anos.

É no que se refere à formação, talvez, que o caminho a percorrer é mais longo. Ela exige uma irradiação constante, persistente e vasta da cultura portuguesa, quer através de organismos oficiais de ensino quer através dos meios modernos de expressão: o livro, a imprensa, a arte, a rádio, o cinema e a televisão. O ensino da língua portuguesa em todas as regiões das nossas províncias, e, mais do que o ensino, o seu uso quotidiano é ideal para que se tende irresistivelmente. Com o ensino e o uso da língua vêm todos os valores essenciais do espírito nacional, que deverá afirmar-se, em todos os recantos desta nação, que tem o seu centro, não num, mas em quatro continentes, pela realização artística, pelo direito, pela educação da sensibilidade e da inteligência. Consistente hoje, assim, a pátria portuguesa será cada vez mais consistente no futuro. Nesta faixa europeia da Península Ibérica estão apenas as províncias mais antigas. Pois a pátria, pois o coração da pátria bate igualmente em Angola, em Moçambique, em Goa ou em Macau. Gilberto Freyre distinguiu entre as nações teocêntricas, como as muçulmanas, e as nações etnocêntricas, como as anglo-saxónicas ou germânicas, em que se afirma o predomínio de uma raça. Mais próximo do primeiro caso do que o segundo, Portugal enriquece hoje o seu teocentrismo original com um pátrio-centrismo, que, irmanando raças, continentes e até cultos, contribui como poucos povos para a paz, para a compreensão dos homens, para a universalização nos seus termos mais válidos, para a final conciliação através da compreensão e da genorosidade, não de mera afirmação doutrinária, mas nas relações de homem para homem. Muito falta ainda percorrer neste sentido? Sem dúvida. Mas o que falta percorrer, percorrê-lo-emos (ob. cit., pp. 61-63).



Gilberto Freyre







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