quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Sobre a vida de Miyamoto Musashi

Escrito por Victor Harris



3 folhas de malva num círculo (Tokugawa).

«A educação dos filhos dos xóguns Tokugawa era ministrada através da aprendizagem dos clássicos chineses e de exercícios de manejo da espada. Enquanto um ocidental poderia afirmar: “A caneta é mais poderosa que a espada”, os japoneses diriam: “Bunbu ichi”, ou “A caneta e a espada estão em harmonia”».

(«Introdução: o Japão na época de Musashi», in O Livro dos Cinco Anéis, Chancela Marcador, Impresso na China, 1.ª edição, Lisboa, 2005).


«No quadro de um Japão recuperando os seus valores, só pode ser o mais perfeito dos homens, primeiro teoricamente identificado e depois realmente aceite, o bushi, o guerreiro, logo o gesto último destinado a exprimir a perfeição e a cultura, será o de fazer da morte uma obra de arte, em conformidade com o miyabi, da “Beleza aristocrática”. Mas esta “Beleza mortal” não se pode exercer senão sobre uma “Beleza corporal” sob pena de cair na indecência, um corpo são que, chegado à perfeição formal, será submetido à prova da morte, tal como a flor de cerejeira que, em pleno desabrochar, se solta do seu suporte e morre na plenitude da sua beleza. A natureza passageira da perfeição e a consciência aguda da morte, ideias directamente provenientes da mentalidade dos samurai, são centrais no pensamento metapolítico e cultural de Mishima, que esclarece:

“O que no fundo poupa a carne ao ridículo, é o elemento de morte que reside num corpo vigoroso, inteiramente são: eu entendia que isto era o que mantinha a dignidade da carne”. (O Sol e o Aço).

Mas esta “louca morte” aplicada a um corpo belo não teria qualquer sentido para Mishima se não estivesse inscrita num determinado objectivo: o de suprimir a ruptura operada pelo Japão depois de 1945 entre a estética e a ética, o intelecto e a acção, o que o autor designava por o crisântemo e a Espada.



Kiku: Flor de Crisântemo (selo imperial).

(...) Mishima passou os seus últimos anos a bater-se por um reequilíbrio destes dois dados essenciais da cultura nipónica, afirmando ser daqueles

“[...] que incarnam a tradição japonesa do Belo” e preconizando mesmo “regras [...] para a criação de um Estado estético”. (Manifesto contra-revolucionário no Tate no kai).

Ao fazê-lo, o escritor reatava com um ideal “arcaico”, mítico e analógico, daquele do bunburyodo, a “dupla via” da Pena e do Sabre, da elegância requintada e do heroísmo total, em que todos os actos, inevitavelmente culturais pela sua demarcação para com o estado natural, estavam ligados por uma visão totalizante do mundo. A perfeição desta “dupla via” atingiu o seu apogeu na época dos Tokugawa. Mas Mishima sabia que as suas ideias teriam pouco efeito se não fossem acompanhadas por um acto significativo, sangrento e estético, que provocasse uma catarse no seio de um povo esquecido do seu passado e dos seus valores. Daí, o acto de Novembro de 1970, suicídio simultaneamente do tipo munebara, suicídio de ressentimento ou de protesto contra o estado de coisas que denunciava, e junshi, suicídio sacrificial de acompanhamento na morte de uma cultura defunta. O Acto de Mishima, de certo modo a sua Grande Obra, pela sua estética, a sua teatralidade e a sua publicidade – pequeno toque moderno num combate tradicional no restante -, semeou a emoção no povo nipónico, que se sentiu tocado na sua carne e no seu intelecto. A semente de Mishima, ao purificar e iluminar a visão turvada que os japoneses tinham dos diversos aspectos da sua cultura, nomeadamente a relativa à morte, contribuiu para lançar um raio de luz vivo e breve sobre a beleza intrínseca desta cultura e reconciliou, talvez por um curto momento, o Crisântemo com a Espada. Ainda que só por esse breve instante, o sacrifício de Yukio Mishima não foi em vão.»

(«O primeiro dos escritores nipónicos e o último dos samurai: Yukio Mishima», nota adicional em Bernard Marillier, Samurai). 






Hana wa sakura gi

hito wa bushi

Entre todas as flores, a flor de cerejeira;

entre todos os homens, o guerreiro.


Sakura (Cerejeira em flor). Ao fundo: Monte Fuji-san.


SOBRE A VIDA DE MIYAMOTO MUSASHI

Shinmen Musashi no Kami Fujiwara no Genshin, mais conhecido como Miyamoto Musashi, nasceu numa aldeia chamada Miyamoto, na província de Mimasaka, em 1584. «Musashi» é o nome de uma região a sudoeste de Tóquio e a designação no Kami significa pessoa nobre dessa região, enquanto «Fujiwara» é o nome da família nobre mais importante do Japão há mais de mil anos.

Os antepassados de Musashi pertenciam a um dos ramos do poderoso clã Harima de Kyushu, a ilha do sul do Japão. O seu avô, Hirada Shokan, era um dos guardiões de Shinmen Iga no Kami Sudeshige, o senhor do castelo de Takeyama. O seu amo tinha uma grande estima por Hirada Shokan, que acabou por se casar com a filha do seu amo.

Quando Musashi tinha sete anos, o pai, Munisai, morreu ou abandonou o filho. Como a mãe também havia falecido, Musashi foi entregue aos cuidados de um tio do lado materno, um sacerdote. E assim sabemos que Musashi era orfão durante as campanhas de unificação de Hideyoshi, filho de um samurai numa terra violenta e infeliz.

Toyotomi Hideyoshi


Emblema do Clã Toyotomi 


Réplica da armadura de Toyotomi Hideyoshi

                                                     UM TEMPERAMENTO AGRESSIVO

Em jovem era violento, determinado e fisicamente corpulento para a idade. Desconhece-se se foi incentivado pelo tio a praticar Kendo ou se a sua natureza agressiva o levou a fazê-lo, mas há registos de que matou um homem num combate individual quando tinha apenas treze anos.

O adversário era Arima Kiheu, um samurai da escola de artes militares de Shinto-ryu, exímio no manejo da espada e da lança. O rapaz atirou o homem ao chão e bateu-lhe na cabeça com um pau quando este tentou levantar-se. Kihei morreu a vomitar sangue.

O combate seguinte de Musashi teve lugar aos dezasseis anos, quando derrotou Tadashima Akiyama. Por esta altura, saiu de casa para participar na «Peregrinação do Guerreiro», que o levou a vencer dezenas de competições e o conduziu à guerra seis vezes, até que finalmente assentou aos cinquenta anos, tendo chegado ao fim da sua demanda pela razão. Deve ter havido inúmeros ronin a viajar pelo país em expedições semelhantes, alguns sozinhos, como Musashi, e outros com patrocínios, embora não à escala da peregrinação do famoso mestre da espada Tsukahara Bokuden, que viajou com um séquito de mais de cem homens no século anterior.

Esta fase da vida de Musashi foi passada à margem da sociedade, enquanto se dedicava com uma feroz determinação à busca da iluminação através do Caminho da Espada. Preocupado apenas em aperfeiçoar as suas capacidades, viveu como os homens não precisam viver, vagueando pelo Japão, açoitado pelos ventos frios do Inverno, de cabelo desgrenhado, sem contrair matrimónio, nem seguir profissão além do seu estudo. Diz-se que nunca entrava numa banheira temendo ser apanhado desprevenido sem uma arma, e que o seu aspecto era desleixado e miserável.

Na Batalha de Sekigahara, que resultou na sucessão de Ieyasu sobre Hideyoshi como xógum do Japão, Musashi juntou-se às fileiras do exército Ashikaga para lutar contra Ieyasu. Suportou os terríveis três dias durante os quais morreram setenta mil pessoas, e sobreviveu à caça e ao massacre do exército derrotado. Com vinte e um anos, dirigiu-se para a capital, Quioto. Foi então que deu início à sua vingança contra a família Yoshioka. Os Yoshiokas eram instrutores de esgrima da casa Ashikaga havia várias gerações. Posteriormente, foram proibidos de ensinar Kendo pelo Lorde Tokugawa e tornaram-se tintureiros, sendo ainda hoje essa a sua actividade. Munisai, o pai de Musashi, fora convidado para ir a Quioto alguns anos antes pelo xógum, Ashikaga Yoshiaka. Munisai era um espadachim competente e exímio com o jitte, uma espécie de bastão de ferro com uma lingueta para agarrar as lâminas das espadas. Reza a história que Munisai lutou contra três dos Yoshiokas, vencendo dois dos duelos, e talvez este facto tenha alguma relação com a atitude de Musashi para com essa família. 

Jitte








Batalha de Sekigahara

Teppo: arcabuzes japoneses da Era Edo.

ARTE DE MANEJAR A ESPADA

Yoshitaka Seijiro, o chefe da família, foi o primeiro a lutar contra Musashi, numa charneca nos arredores da cidade. Seijiro estava armado com uma espada verdadeira e Musashi com uma espada de madeira. Musashi deitou Seijiro ao chão com um ataque feroz e bateu-lhe selvaticamente enquanto este jazia por terra. Os criados levaram o seu senhor para casa numa caleche, onde, por vergonha, ele cortou o seu carrapito de samurai.

Musashi permaneceu na capital, e a sua presença constante irritou ainda mais os Yoshiokas. O segundo irmão, Denshichiro, desafiou Musashi para um duelo. Recorrendo a uma estratégia militar, Musashi atrasou-se no dia marcado e, segundos após o início do combate, partiu o crânio do adversário com um golpe da sua espada de madeira, matando de imediato Denshichiro.


Ichijoli Sagarimatsu, lugar onde se deu a disputa entre Musashi e a Escola Yoshioka.

A família propôs uma nova disputa com Hanshichiro, o jovem filho de Seijiro, no papel de campeão. Hanshichiro era apenas um rapaz que ainda não tinha entrado na adolescência. A competição deveria ter lugar junto a um pinheiro situado perto de campos de arroz. Musashi chegou ao local de encontro muito antes da hora marcada e aguardou, escondido, pelo seu rival. O jovem chegou vestido formalmente em trajes de guerra, com um grupo de lacaios bem armados, determinados a eliminar Musashi. Musashi esperou, oculto por entre as sombras; quando julgaram que aquele tinha pensado melhor e decidido abandonar Quioto, Musashi irrompeu por entre eles e matou o rapaz. De seguida, desembainhando as duas espadas, abriu caminho por entre o séquito e fugiu.

Após esse terrível episódio, Musashi vagueou pelo Japão, tornando-se uma lenda do seu tempo. Há referências ao seu nome e histórias sobre as suas proezas em registos, diários e monumentos, na memória popular, de Tóquio a Kyushu. Antes dos vinte e nove anos, participou em mais de sessenta combates e venceu-os todos. O relato mais recente desses combates consta no Niten Ki, ou «Crónica dos Dois Céus», um registo compilado pelos seus alunos uma geração após a sua morte.


Musashi vs. Inshun

Em 1605, no ano do incidente com os Yoshiokas, visitou o templo Hozoin, no sul da capital. Aí teve uma disputa com Oku Hozoin, o aluno da seita Nichiren do monge zen, Hoin Inei. O monge era lanceiro e não estava à altura de Musashi, que o derrotou duas vezes com a sua espada curta de madeira. Musashi permaneceu no templo durante algum tempo, estudando técnicas de combate e desfrutando de conversas com os monges. Subsiste nos dias de hoje uma forma tradicional de luta com lança, praticada pelos monges de Hozoin. É interessante notar que, nos tempos antigos, o termo osho, que actualmente significa sacerdote, significava «professor de luta com lanças». Hoin Inei foi aluno de Izumi Musashi no Kami, um mestre de Shinto Kendo. O monge utilizava lanças com lâminas em forma de cruz que eram guardadas no exterior do templo, sob o beiral, caso necessitasse delas para qualquer urgência.

Quando Musashi se encontrava na província de Iga, encontrou um exímio lutador de correntes e foices chamado Shishido Baikin. Enquanto Shishido fazia rodar a sua corrente, Musashi desembainhou um punhal e trespassou-lhe o peito, avançando para o matar. Os alunos que observavam atacaram Musashi, mas ele afugentou-os em quatro direcções.

Em Edo, um guerreiro chamado Muso Gonosuke visitou Musashi desafiando-o para um duelo. Naquele momento, Musashi estava a cortar madeira para fazer um arco e, atendendo ao pedido de Gonosuke, levantou-se, com o objectivo de se servir do fino bastão que estava a cortar como espada. Gonosuke atacou-o com fúria, mas Musashi avançou e bateu-lhe na cabeça. Gonosuke desistiu.

Ao passar pela província de Izumu, Musashi visitou o Mestre Matsudaira e pediu-lhe permissão para lutar com o seu guerreiro mais forte. Havia muitos bons estrategas em Izumo. A permissão foi concedida contra um homem que usava uma vara de madeira hexagonal de 2,4 m de comprimento.

A luta teve lugar no jardim da biblioteca do mestre. Musashi usou duas espadas de madeira. Perseguiu o samurai pelos dois degraus de madeira da varanda da biblioteca, atingiu-lhe o rosto no segundo degrau e bateu-lhe em ambos os braços quando ele se esquivou. Para surpresa dos servos reunidos, o Mestre Matsudaira pediu a Musashi que lutasse com ele. Musashi impeliu o mestre a subir os degraus da biblioteca como antes e, quando este tentou adoptar uma posição determinada de esgrima, Musashi golpeou-lhe a espada, proferindo as palavras «o fogo e as pedras cortam», partindo-a em duas. O senhor fez uma vénia em sinal de derrota e Musashi permaneceu durante algum tempo como seu professor.




Duelo entre Musashi e Sasaki Kojiro

«CORTE DA ANDORINHA»

O duelo mais célebre de Musashi teve lugar no décimo sétimo ano de Keicho, em 1612, quando se encontrava em Ogura, na província de Bunzen. O seu adversário era Sasaki Kojiro, um jovem que tinha desenvolvido uma forte técnica de esgrima conhecida como Tsubame-gaeshi ou «corte da andorinha», inspirada no movimento da cauda de uma andorinha em voo. Kojiro foi mantido ao serviço do senhor da província, Hosokawa Tadaoki. Através dos contactos de Nagaoka Sato Okinaga, um dos guardiões de Hosokawa que fora aluno do pai de Musashi, este pediu autorização a Tadaoki para combater contra Kojiro. A permissão foi concedida para que o combate se realizasse às oito horas da manhã seguinte, e o local seria uma ilha a alguns quilómetros de Ogura. Nessa noite, Musashi deixou o seu alojamento e mudou-se para a casa de Kobayashi Tare Zaemon. Este facto deu origem a um rumor de que a admiração pela técnica subtil de Kojiro tinha levado Musashi a fugir, temendo pela sua vida.

No dia seguinte, às oito horas, Musashi ainda dormia, e foi preciso que um dos emissários reunidos na ilha fosse buscá-lo. Levantou-se, bebeu a água que lhe haviam levado para se lavar e dirigiu-se directamente para a costa. Enquanto Sato remava para a ilha, Musashi fez um cordel de papel para atar as mangas do seu quimono e cortou uma espada de madeira do remo que sobrara. Depois de ter feito isto, deitou-se e descansou.



O barco aproximou-se do local do combate; Kojiro e os funcionários que o aguardavam ficaram estupefactos ao verem a estranha figura de Musashi, com o seu cabelo despenteado amarrado a uma toalha, a saltar do barco empunhando o longo remo de madeira e a correr através das ondas até à praia em direcção ao seu adversário. Kojiro desembainhou a sua espada longa, uma fina espada de Nagamitsu de Bizen, e deitou fora a bainha. «Não precisas de nada disso», disse Musashi enquanto corria com a espada de lado. Kojiro foi provocado a dar o primeiro golpe e Musashi avançou com a sua espada, batendo com o remo na cabeça de Kojiro. Musashi apercebeu-se do estado de Kojiro e fez uma vénia aos funcionários estupefactos antes de regressar a correr para o barco. Isso deu origem a boatos de que, depois de matar Kojiro, Musashi atirou o remo ao chão e, dando rapidamente um salto para trás, desembainhou as duas espadas e brandiu-as com um grito contra o adversário derrotado.

Em 1614, e novamente em 1615, teve a oportunidade de voltar a participar em guerras e cercos. Ieyasu cercou o castelo de Osaka, onde os apoiantes da família Ashikaga se insurgiam. Musashi juntou-se às forças Tokugawa nas campanhas de Inverno e de Verão, lutando agora contra aqueles por quem tinha lutado quando era jovem em Sekigahara.

De acordo com os seus próprios relatos, apenas veio a compreender a estratégia em 1634, com cinquenta ou cinquenta e um anos. Nesse ano, estabeleceu-se em Ogura com o seu filho adoptivo, Lori, um orfão que encontrara na província de Dewa durante as suas viagens. Musashi nunca mais voltou a sair da ilha de Kyushu. O castelo de Kumamoto, sede da província de Higo, tinha sido confiado à casa Hosokawa e o novo senhor de Bunzen era um Ogasawara.

Lori conseguiu um emprego sob o comando de Ogasawara Tadazane e, na qualidade de capitão do seu exército, lutou contra os cristãos na revolta de Shimabara de 1638. Os senhores das províncias do sul foram sempre hostis aos Tokugawas e fomentavam intrigas com potências estrangeiras e com cristãos japoneses. Musashi era membro da força militar em Shimabara, onde os cristãos foram massacrados. Após este episódio, Ieyasu fechou os portos do Japão ao comércio externo, tendo permanecido fechados durante mais de duzentos anos.

Após seis anos em Ogura, Musashi foi convidado a residir como hóspede em casa de Churi, o senhor feudal Hosokawa, do castelo de Kumamoto. Ficou alguns anos com o senhor feudal Churi e dedicou o seu tempo ao ensino e à pintura. Em 1643, retirou-se para uma caverna chamada Reigendo, onde passou a viver em reclusão. Foi aí que escreveu O Livro dos Cinco Anéis, destinado ao seu aluno Teruo Nobuyuki, poucas semanas antes da sua morte, a 19 de Maio de 1645.

Castelo de Kumamoto

Musashi é conhecido pelos japoneses como Kensei, ou seja, «o santo da espada». O Livro dos Cinco Anéis é único na literatura sobre artes marciais e figura no topo de qualquer bibliografia sobre o Kendo. Aborda a estratégia de guerra e os métodos de combate individual exactamente da mesma forma. É, segundo as palavras de Musashi, «um guia para os homens que querem aprender estratégia», e é o último testamento de Musashi, a chave para o caminho que ele percorreu. Quando, aos vinte e oito ou vinte e nove anos, se tornou um forte guerreiro, não se acomodou e construiu uma escola, recheada de sucessos, mas dedicou-se ao estudo em dobro. Até nos seus últimos anos de vida, desprezou a vida de conforto com o senhor Hosokawa e viveu dois anos sozinho numa gruta na montanha, em profunda contemplação.

Musashi escreveu: «Quando alcançar o Caminho da Estratégia, não haverá mais nada que não possa compreender» e «Verá o Caminho em tudo».

Pintura de Miyamoto Musashi em biombo, feita a pedido da família Hosokawa.

Também produziu obras-primas de pinturas com tinta, trabalhos em metal e fundou uma escola de fabricantes de guardas de espada. As suas pinturas apresentam por vezes o seu selo, «Musashi», ou o seu pseudónimo «Nitten». Nitten significa «Dois Céus», o que, de acordo com alguns relatos, faz alusão à sua atitude de combate, com uma espada em cada mão, empunhadas acima da cabeça.



Também escreveu «Estuda os Caminhos de todos os ofícios» e é evidente que foi isso mesmo que fez. Procurou não só os grandes esgrimistas, como também monges, estrategas, artistas e artesãos, desejoso de alargar os seus conhecimentos.

Musashi escreve sobre os vários aspectos do Kendo de tal forma que é possível ao principiante estudar no nível principiante e aos mestres de Kendo estudar as mesmas palavras num nível mais elevado. E isso aplica-se não só à estratégia militar, mas também a qualquer situação em que se utilizem planos e tácticas. Os homens de negócios japoneses usam hoje O Livro dos Cinco Anéis como um guia para a prática comercial, transformando campanhas de vendas em operações militares, empregando os mesmos métodos enérgicos.

Castelo Hirosake

O estudo da vida de Musashi é, desta forma, tão relevante no século XX como o foi no campo de batalha medieval e não se aplica apenas ao Japão, mas a todas as nações. Suponho que se poderia resumir a sua fonte de inspiração como «humildade e trabalho árduo».

(«Sobre a vida de Miyamoto Musashi», in O Livro dos Cinco Anéis, Chancela Marcador, Impresso na China, 1.ª edição, Lisboa, 2005, pp. 23-37).







sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Do movimento divino

Escrito por Sun Wu Tzu



Sê água, meu amigo.

Siu Loong


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Um exército poderá parecer-se com a água, uma vez que somente a água evita as alturas e corre rapidamente para as terras baixas, assim como um exército evita a força e ataca a fraqueza.

E tal como a água molda o seu fluxo em função do terreno, também um exército obtém a vitória em função da situação do inimigo.

E tal como a água não tem forma constante, não há na guerra condições constantes.

Assim, aquele que consegue obter a vitória modificando a sua táctica em função da situação do inimigo, pode dizer-se que é divino.

Dos cinco elementos, nenhum é sempre predominante; das quatro estações, nenhuma dura sempre; dos dias, alguns são longos outros são curtos, e a Lua cresce e mingua.

(In A Arte da Guerra, Nova Edição Ilustrada, Taschen 2007, p. 153).






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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Os Portugueses no Japão

Escrito por Jorge Álvares


Carraca portuguesa em Nagasaki, cidade fundada pelos portugueses no Japão em 1570. Painel japonês do Período Nanban (séc. XVII).

«Estes homens [os Portugueses] são comerciantes. Compreendem, até certo ponto, a distinção entre superior e inferior, mas não sei se existe entre eles um sistema próprio de etiqueta. Bebem em copo, sem oferecerem aos outros. Comem com os dedos e não com pauzinhos como nós. [...] Não compreendem o significado dos caracteres escritos. São gente que passa a vida viajando de aqui para além, sem morada certa, e trocam produtos que têm pelos que não possuem, mas no fundo não são má gente.»

Crónica japonesa Teppo-ki (séc. XVI).


«Mas realmente, há cerca de quatro séculos, comia-se em Portugal com as mãos, como a Peregrinação leva a supor?... Oh, não, não pode ser!... Imagino que Mendes Pinto e os outros quatro, habituados por longos anos aos costumes indianos, haviam posto de parte os próprios usos para adoptarem os estranhos. Ainda hoje, quem viaja nos grandes paquetes pode observar, como eu observei por muitas vezes, os índios, ao serviço das máquinas, sentarem-se no convés, em volta de uma selha, de onde sacam às mãos cheias o caril dos seus repastos».

Wenceslau de Moraes («Fernão Mendes Pinto no Japão»).


A gente do Japão é pouco cobiçosa e muito educada. Quando se vai à sua terra, os mais ricos convidam-vos para comer e dormir em suas casas; parece que vos querem meter na alma. São muito desejosos de saberem de nossas terras e de todas as coisas. Em casa, é costume estarem assentados com as pernas cruzadas. [...] Comem no chão como os Mouros, com pauzinhos como os Chineses e cada pessoa em sua tijela.

Estimam muito em falar baixo e têm-nos a nós por destemperados porque falamos alto. Cada dia se lavam duas vezes [...]. As mulheres são muito bem proporcionadas e muito alvas e são muito maviosas e meigas. São mulheres muito limpas e fazem em casa todo o trabalho como tecer, fiar e coser. As mulheres honradas são muito veneradas de seus maridos; os maridos são mandados por elas. São mulheres que vão onde querem, sem o perguntarem a seus maridos.

In Informação sobre o Japão (1547).


Missionação jesuíta 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Conquista de Lisboa

Escrito por Raul Correia




E tu, famoso Moniz, que a porta abriste

Ao forte povo, entrando por ti dentro,

E a vida, que perdeste, lhe ofereceste,

Para que a pátria livre fosse centro.


Luís de Camões (Os Lusíadas).


CONQUISTA DE LISBOA


Depois da conquista da cidade de Santarém, a determinação dominadora dos mouros pareceu esmorecer, enquanto nas hostes cristãs crescia o impulso para novos cometimentos.

D. Afonso Henriques tinha ao seu alcance toda a região ao longo do Tejo, apenas defendida pelos castelos de Lisboa e de Sintra, visto que os outros pontos fortificados, distantes uns dos outros, pouca resistência poderiam oferecer aos portugueses.

Por essa altura iria passar diante de Lisboa a segunda cruzada a caminho do Oriente, que seria comandada pelo rei Luís VII de França e pelo imperador Conrado III da Alemanha. Alguns desses cruzados, bastante numerosos, tinham embarcado no porto inglês de Dathmouth, sob as ordens de Arnulfo de Aresnot e Cristiano de Gestell. Mas a armada, que deveria costear a Península para entrar no Mediterrâneo, havia sido surpreendida por um violento temporal, que a obrigara a procurar refúgio nas águas mais tranquilas do Douro.

Sabendo da presença da frota dos cristãos, apressou-se D. Afonso Henriques a convidá-los para o ajudarem na tomada de Lisboa, o que os cruzados aceitaram na condição de poderem arrecadar o produto das pilhagens que fizessem e o valor do resgate dos vencidos... que antecipadamente se contava serem mouros.

Estabeleceu-se o plano de um ataque simultâneo por terra e por mar, e logo a armada dos cruzados, amainado o temporal, se fez de vela para o sul, enquanto as hostes dos portugueses seguiam por terra na mesma direcção.

O castelo de Lisboa era quase inacessível, mas grande parte da população, calculada num total de cento e cinquenta mil habitantes, vivia nas encostas, especialmente no lugar que constitui ainda hoje o Bairro de Alfama.

Foram os cruzados os primeiros a chegar, tendo a frota ancorado no Tejo. A guarnição mourisca do castelo de Lisboa, alertada pelo desusado movimento de embarcações no rio, viu desembarcar um troço de estrangeiros que se dirigiam para os muros da cidade, e saiu ao seu encontro com tal ímpeto que os forçou a bater em retirada. Esta escaramuça levou os comandantes dos cruzados a assentarem planos para outra forma de luta, mais demorada, estabelecendo-se em terra, num morro fronteiro ao castelo.

Tendo-se gorado igualmente uma tentativa para obter a rendição pacífica da cidade, decorreram quinze dias sem que se travasse qualquer recontro digno de nota. Convencidos de que a empresa se apresentava mais difícil do que haviam suposto, os cruzados aproveitaram essas relativas tréguas para construírem engenhos de guerra, aríetes, balistas e catapultas... mas os primeiros engenhos a serem utilizados foram incendiados pelos mouros, que sobre eles dispararam virotões munidos de estopa a arder. De igual modo falharam as diligências para arrimar uma torre de madeira às muralhas, bem como as que se fizeram para estabelecer pontes que permitissem o ataque pelo lado do rio.

Entretanto, os portugueses e os seus aliados começaram a sentir a escassez das provisões de boca, e isso teria dado a vitória aos mouros se os cruzados não tivessem recebido, quando mais necessária lhes era, uma importante ajuda em mantimentos.

Por seu lado, os sitiados sentiam agudamente os efeitos da fome. O chefe mouro enviou sucessivas mensagens aos vális (governadores árabes) de além Tejo, pedindo socorros, mas alguns dos mensageiros foram aprisionados pelos cristãos, que, ao tomarem conhecimento da precária situação dos defensores do castelo, renovaram os assaltos, sem todavia conseguirem abrir caminho.

Na manhã de 19 de Outubro de 1147, o arcebispo de Braga celebrou uma solene missa campal, abençoando os combatentes cristãos e dirigindo-lhes palavras de incitamento.

Logo depois as trombetas de guerra deram sinal, e tudo se aprestou para o combate. Após renhida luta, em que os mouros infligiram numerosas perdas aos assaltantes, estes conseguiram encostar à muralha uma torre de madeira, protegida com couros de boi para não poder ser incendiada. Ao mesmo tempo uma brecha era aberta por meio de uma nova mina (outras, anteriores, haviam sido destruídas pelos mouros), e por ambos os lados se lançou a avalancha dos assaltantes. Ante o impetuoso ataque, os defensores desanimaram. Na verdade, o seu heroísmo não podia prolongar-se. Enfraquecidos pela fome, exaustos pelos sucessivos combates, atacados a ferro e fogo, pediram finalmente tréguas para serem combinadas as condições da rendição.

Foram duras essas condições, pois os mouros tinham de entregar aos vencedores todas as riquezas da cidade, incluindo os bens pessoais das famílias. Essa entrega seria feita no castelo, imediatamente ocupado por cerca de trezentos cavaleiros.

Entretanto, as ambições dos cruzados e a sua ganância estiveram prestes a causar um conflito entre eles e os cavaleiros portugueses. Só evitou esse conflito a firmeza de D. Afonso Henriques, o qual declarou que não consentiria no saque e na pilhagem, fosse quais fossem as consequências da sua decisão.

No sábado seguinte – 25 de Outubro de 1147 – D. Afonso Henriques fez a sua entrada triunfal na cidade de Lisboa (a antiga Achbuna mourisca). No alcáçar foi celebrado um solene Te Deum em acção de graças, mas a unção religiosa dos cruzados nãos os impediu de cometerem, mau grado todas as proibições, vários actos de violência impiedosa sobre os vencidos.

Entre as admiráveis manifestações de heroísmo que se verificaram, tanto por parte dos vencedores como por parte dos vencidos (esse heroísmo bélico que lamentamos mas que não deixa de ser admirável), saliente-se a proeza espantosa de Martim Moniz, cavaleiro fidalgo, dedicado companheiro de D. Afonso Henriques, que não hesitou em morrer, retalhado de golpes e esmagado pela pesada porta de uma das entradas do castelo, para impedir que os mouros a fechassem e impedissem o acesso dos cristãos atacantes.

Martim Moniz já antes se distinguira pela sua extraordinária coragem na batalha de Ourique.

Segundo a tradição – talvez ligeiramente alindada por uns salpicos de lenda, que é a poesia da História –, no instante em que os mouros se precipitavam para fechar uma das portas do castelo – desde então conhecida pelo nome de «a Porta de Martim Moniz» - o intrépido guerreiro atravessou-se nela e, enquanto não se aproximavam os seus companheiros, defendeu-a a golpes de montante, para manter a distância os sarracenos.

Ferido por sua vez, e gravemente, Martim Moniz manteve-se de pé, sem renunciar à luta, até que a perda de sangue o fez cair sem forças... mas assim mesmo tombou atravessado no limiar, continuando assim a impedir que a enorme porta fosse fechada. Os mouros cortaram-lhe a cabeça, mas o corpo do herói, ainda que meio esmagado, permitiu a entrada dos atacantes.

Ao que parece, não existe qualquer documento da época em que o caso esteja registado. Mas a proeza ficou para sempre gravada na memória do povo...

(In Raul Correia, Quadros da História de Portugal, Amigos do Livro, Lisboa, 1985, pp. 57-60).



domingo, 14 de dezembro de 2025

20 teses acerca da formação e sobrevivência de Portugal

Escrito por Francisco da Cunha Leão





«As causas da independência portuguesa não são geográficas. A caractereologia geográfica pode resumir-se em simples frases: apesar de algumas diversidades, as fronteiras naturais entre Portugal e Espanha são inexistentes. As fronteiras geográficas costumam indicar-se por acidentes orográficos e hidrográficos que, em virtude da fortaleza telúrica, compartimentavam as terras. Mas agora? Para que servem essas longas pontes sobre os estuários, e esses profundos e canudos túneis sob os montes, senão para aproximar o que estava separado? Mesmo aos olhos distraídos do turista, a Hispânia ressaltará como a unidade peninsular na diversidade da paisagem.

Oliveira Martins anotou as variedades e as variações geo-sociológicas da Península mas, convém ter em mente a ideologia iberista e desligada do contexto ultramarino do ilustre membro da geração de 1870, para melhor entendermos a sua perspectiva, em muito semelhante à de Garrett. De facto, está ainda por estudar o desinteresse metropolitano no decurso do século XIX. A metrópole oitocentista viveu na sombria ausência da dimensão de Portugal. Porventura voltados para os novos interesses de uma sociedade, abriram as portas à cisão brasileira, amorteceram a visão imperial, estavam mais atentos à evolução da política prussiana do que à realidade portuguesa e, uma vez pesado Portugal, tal como o viam na balança europeia, logo se viu que Portugal não pesava o bastante.

Contudo, o bloco peninsular só geograficamente é um bloco, um caldeirão, uma fortaleza, uma ilha, a flecha avançada da cristandade, da arabidade e da hebreidade, a charneira onde os opostos se unem, ponte, refúgio, entreposto, fonte da vida, ovo genesíaco dos mundos e dos povos que são a Europa continuada, a Europa ultrapassada.

Ora, na Península, Portugal e Espanha, os dois poderes políticos mais fortes, fizeram sucumbir os poderes políticos mais fracos, esses de âmbito regional , como são os da Catalunha e Galiza. Mais: o destino peninsular português, segundo a lógica deduzida dos trâmites históricos, seria naturalmente o mesmo das outras regiões hispânicas: embora mantendo as tradições locais, designadamente as linguísticas, Portugal tende a ser englobado na Espanha, pelo poder político espanhol, e a Espanha tende a englobar Portugal. Nós podemos hoje dizer: talvez isso tivesse sido possível nos tempos da monarquia mas actualmente, em regimes de orientação democrática, a conveniência da existência de dois países peninsulares é evidente, porque, em caso de revoluções internas num desses países, o poder, ou alguns membros do poder, têm onde buscar fácil e próximo exílio e, por conseguinte, as forças políticas hão-de respeitar o estado presente da dualidade hispânica, muito útil, como ficou provado durante a guerra civil, na medida em que os nacionalistas contaram com a ajuda portuguesa, impossível se Portugal não fosse um país autónomo.»

Pinharanda Gomes («Meditações Lusíadas»).

 

«Mas que era a Galiza? Uma finis-terra resguardada por forte maciço montanhoso. No extremo dos Cantábricos, este conjunto orográfico vai até ao Vouga (galaico-duriense). Ângulo pronunciado para noroeste, sobre o oceano. Costas, na maior parte, profundamente recortadas.

Cabo Finisterra (Galiza).

Como em regra as finisterras, etnicamente diferenciadas. Termo de invasões, resíduo de velha raça, tais os Peloponesos, as Bretanhas, as Escócias, as Escandinávias.

Os sábios corroboram-no, desde remotas eras. Com mais ou menos celtas, mais ou menos suevos, é uma finisterra assaz caracterizada, de boa defesa, propícia para mais à fixação agrícola de numeroso povo. Que assim foi, demonstra-o a teimosa vitalidade da sua gente: centro de irradiação de dólmenes nos tempos pré-históricos; a resistência dos brácaros às legiões de Augusto; a heresia de Prisciliano, quando da introdução do Cristianismo; a individualização e renitência do Estado Suevo; o florescimento de lirismo próprio, a denunciar enraizada ruralidade, de muita e dispersa população, convivendo em romarias (Pidal); a rivalidade de Leão e Castela, na qual Menéndez y Pelaio descortina a oposição mais funda entre o espírito galego e o castelhano; e, precedida de outros factos de rebeldia, a independência de Portugal, física e espiritualmente originada na Galiza, e que o ensaísta Otero Pedrayo considera uma prova da vitalidade desta.

Fosse Douro ou o Mondego e Coimbra (finis Galeciae) o seu limite meridional, importa reconhecer que por aí (do Douro litoral para Coimbra) se desenha a charneira humana na Galiza com a Lusitânia, inclinada sobre esta pelo sentido norte-sul da linha de força.

(...) E a Lusitânia, que era a Lusitânia? Mais que uma província romana, interessa considerá-la núcleo populacional, cujo músculo estaria no extremo oeste do espinha, corográfico da Península.  Finisterra do relevo, os montes Hermínios e outros dessa região eram sentinelas por excelência sobre os desgastes ocidentais da Meseta e seus vales férteis que decaíam para o Atlântico, dele beneficiados; esses e outros, já da Espanha (Gata, Peña de Francia, etc.), davam para as vastas estremaduras, boas para a hibernação dos gados, cortadas por grandes rios.

Os montanheses da actual Serra da Estrela já sobressaem na história de Cartago e Roma pelo seu carácter independente, inassimilável. Às fáceis infiltrações que a Bética permitia ao imperialismo estranho, os lusitanos opunham ali a sua indomável barragem.

Na Beira serrana e mais relevos centro-ocidentais, se encontra o outro grande núcleo populacional português, do mais puro e persistente, pela irredutibilidade natural que lhe serve de suporte.

Assim raciocinamos, quanto à Lusitânia (exceptuando o Algarve, que é um caso à parte e mais tardiamente reintegrado), por a maior parte do Alentejo, Ribatejo e mesmo Estremadura contarem ainda nos primeiros tempos da Monarquia pequena população, reduzida a alguns centros, embora importantes de solidez pouco estável, no meio de grandes espaços vazios e infindáveis matagais.

Será de estranhar que me impressione com a desproporção de população que ainda hoje existe entre o Norte e o Sul, após oito centúrias de drenagem de gente daquele para este? Creio ser uma impressão baseada objectivamente.

Os dois grandes blocos de irradiação demográfica (Além-Douro e Beira) ultrapassam quatro milhões de habitantes, enquanto o resto do País, em área maior, só conta cerca de três milhões, incluindo Lisboa com todo o seu poder aglutinador.

Um pormenor: pelo censo de 1940, 49% da população da capital nem sequer era nascida no distrito.




Qual a mistura que originou a etnia de cada um desses blocos, quais os elementos simples que os constituíram, ao caso não interessa agora. Comparticipando em maior ou menor grau de sangue celta, romano ou germânico – factores comuns que alguns sejam – basta-me a afirmação de caracteres distintivos, em relação aos demais peninsulares, de galegos e lusitanos, e a verificação da persistência desses caracteres nos tempos históricos.

As importantes fracções destes dois povos, para sempre ligados na pátria portuguesa, creio que apresentavam entre elas aspectos diferenciais que hoje se notam ainda, a despeito de incontestáveis afinidades que tão longo destino comum reforçou, juntando-lhe marca própria.»

Francisco da Cunha Leão («Do Homem Português»).

 

«Apesar da mentalização proveniente da disciplina de História Pátria, Castela sempre levou a melhor; perdeu batalhas mas venceu guerras, e, se perdeu guerras no campo militar, ganhou-as nas secretarias. O que teve de ceder em Tordesilhas, (metade do mundo), ganhou-o todo à morte do Cardeal D. Henrique, ficando com o mundo inteiro, mas, no concerto peninsular, foi Afonso VII de Leão que, liquidando os projectos de Peres de Trava, ganhou para Castela a Galiza, pondo fim à integração do genuíno espaço lusitano.»

Pinharanda Gomes («Meditações Lusíadas»).

 

«É certo que com a propagação dos estudos históricos começou logo a filosofia da história; género de romance impertinente ... ».

Alexandre Herculano

 

«Uma vez perdido o pensamento da História, isto é, não achado o princípio filosófico da História de Portugal, continuar seria uma violência por assim dizer automática; Herculano obedeceu a essa falta de estímulo que vem de um pensamento, e deixou-se ficar na inércia, abandonando a História de Portugal como um edifício interrompido, não pela falta de material, mas pela falta de destino.»

Teófilo Braga


20 TESES ACERCA DA FORMAÇÃO E SOBREVIVÊNCIA DE PORTUGAL

 

Por certo, muitas circunstâncias foram apontadas, nem faltaram suposições sagazes para explicar a independência e sobrevivência livre de Portugal. Esses factores, ainda que a sua ordenação se discuta, são na maioria integráveis numa hipótese explicativa. A fluidez e um sentimento de insuficiência deles ressalta, no entanto, em contraste à nítida resultante histórica e sua pronta, eficaz, inconfundível afirmação através dos tempos. O país não constitui uma ilha, uma península, um compartimento definido, unidade ou indivíduo geográfico, nem porção substancial de uma unidade; não passa de pequena parte de um todo individualizado fortemente; de uma das varandas e praias do portentoso polígono arquitectónico da Ibéria; couraçado embora em muitas zonas da fronteira setentrional, o sistema defensivo acaba-lhe a meio do território na linha de água do Tejo, ficando a outra metade amplamente vulnerável; quanto à caracterização económica, não faltam outros litorais, até na Península, bastante diferenciados.

Os elementos antropológicos são flutuantes e as observações positivas, tanto da História como somáticas, não chegam por si mesmas para explicar o fenómeno. São débeis em relação à sua grandeza. É preciso ir às manifestações civilizacionais e interpretá-las, prospectar a alma do nosso povo, construindo hipótese que incorpore os estudos feitos e, mediante novas observações, possa ganhar foros de teoria.

As justificações políticas, ainda que ponderáveis, também não convencem, mesmo apoiadas em parte da argumentação das teses geográficas e antropológicas.

Quantos chefes de valor presidiram até com certa continuidade, a feudos ou Estados, sumidos mais tarde em conjuntos geográficos ou étnicos maiores? Quantos localismos fortes, organizados mesmo, não soçobraram sacrificados às grandes unidades políticas? Para mais Portugal não surgiu de nenhum tratado de conveniência ou compromisso entre potências. Se teve apoios internacionais para opor às sucessivas forças que no decurso histórico arriscavam a sua integridade, ganhou-as, conseguiu-as pela própria iniciativa: – a Santa Sé, primeiro; a Inglaterra, uma constante; de outra vez, a França; o Brasil, e até a Espanha.

Acresce que, depois de fundado (e diversas nacionalidades brotaram contra o Islão na Península), o Reino sofreu várias gravíssimas crises de independência, que chegou mesmo a ser perdida por seis dezenas de anos – tempo bastante para a comprometer definitivamente se as razões da autonomia não fossem na realidade muito profundas. Mais da ordem intrínseca do que da extrínseca, essas razões. Frutos de um impulso interior, de um cerne irredutível, de uma vontade que buscou, torceu, aproveitou as circunstâncias. A independência não só deflagrou com incrível pujança e tenacidade como se reforçou em formas originais. Ao reflectirmos sobre os seus efeitos e suportes psicológicos condicionados teremos a chave da intrigante irredutibilidade portuguesa e da sobrevivência nacional. E do presente para o pretérito; a partir dos apogeus representativos pela sua eficácia e das depressões tão esclarecedoras como os fenómenos patológicos em Psicologia.



Muito haverá a corrigir, a rever até ao ponto de se lhe mudar o sinal – de menos para mais, de mais para menos. Ou Portugal seria absurdo. Não poderia sequer existir.

Temos um enigma de génese e sobrevivência agravado pelo de uma alma – conteúdo mental, emocional e actuante – cuja interpretação corrente, cujas aparências e sintomas surgem paradoxais, desajustados ou opostos à cada vez mais evidente documentada grandeza de um curso histórico singular, fértil em acções e êxitos.

Tentemos compreender. Nesse sentido formulamos as seguintes proposições:

1. Uma parte da Galiza e outra da Lusitânia formaram Portugal. Só razões de ordem política, de condicionalismo religioso e estratégia militar condenaram a circunscrever-se à terra portucalense a completa autonomia de toda a Galiza.

2. Dois blocos regionais, secularmente emissores de população, e que não se misturam entre si, ainda hoje nos permitem, pela sua relativa natureza, ajuizar dos elementos humanos constitutivos de Portugal: – O Noroeste, cujos habitantes são identificáveis aos galegos espanhóis; a zona montanhosa das Beiras, para os lusitanos.

3. Lusos e galaicos distinguem-se, posto que povos individualizados em finisterra, de parentesco próximo e afinidades incontestáveis.

4. O Português é uma síntese de lusitano e galaico, um luso-galego e só metaforicamente lusitano.

5. O tipo do Português formou-se a partir da linha do Douro e Vouga – a charneira luso galaica – ao longo da faixa de trânsito litoral, e daí por toda a Estremadura, Lisboa, Riba e Além-Tejo, com assimilação dos elementos exóticos.

6. A população portuguesa tende para a homogeneidade, pelo intenso convívio dentro de fronteiras oito vezes seculares que a fácil articulação das comunicações ao corredor de trânsito litoral assegura, na estreiteza do seu território.

O Português é uma combinação feliz. Estudadas as duas grandes reservas humanas relativamente intactas quanto a caracteres, – do Além-Douro interamnense e transmontano e do bloco beirão – nas manifestações espirituais encontramos estremadas as suas características harmoniosamente complementares.

7. A idealidade sonhadora, a contextura sentimental branda, mas rica em tonalidades e teimosia surda, o fundo instável de inquietação, a mundi-visão saudosa, o pathos da alma portuguesa radicam-se no viveiro galaico, em semelhança flagrante com a Galiza propriamente dita; o espírito realista, de organização jurídica e independência pessoal, o talento político, a afirmação intrépida são principalmente lusitanos.

8. Sentimentos dominantes do português tidos aparentemente, comummente por negativos e até por suicidas escondem carácter contraditório. Se fossem na essência assim depressivos, e patenteando-se eles há tantos séculos, a História de Portugal surgir-nos-ia absurda, por inexplicável e impossível.

9. A Saudade, fulcro da sensibilidade portuguesa, de modo algum é apenas retrospectiva; encerra um conteúdo insuspeitado de indeterminação e sentido futurante, pleno de impulso dinamogénico, por força do que insere de subconsciente, esperançoso apego à vida. A Saudade impregna toda a vida religiosa, sentimental e activa dos portugueses.

10. A forma de resistência nacional à adversidade é o Sebastianismo, inteiramente diversa da forma de resistência espanhola: – o Senequismo.

11. A História de Portugal é uma história do Sentimento aproveitado, temperado pela Reflexão. Uma aventura consciente caracteriza-lhe os momentos mais densos, eficazes e significativos. Aventura consciente a independência, os descobrimentos, a formação do Brasil. A rotura entre aqueles elementos, ora traz o domínio da Paixão, ora o da Razão correctiva.

Aparta-se flagrantemente da História da França e da História da Espanha.

12. A História de Portugal, partindo da exiguidade geográfica, ao longo de um corredor marítimo, numa linha de força norte-sul é uma história em trânsito contínuo, compensando-se maritimamente da escassez continental correspondente à sua idiossincrasia.

13. Com esse trânsito, de tendência oceânica, correspondente à sua idiossincrasia, o Português aprendeu a triunfar do meio geográfico, obteve as maiores vitórias sobre o espaço.

14. Os descobrimentos e a colonização constituem por isso a suprema afirmação dos portugueses, a linha das cumeadas do seu contorno histórico, e bem assim o complexo fenomenal que mais aproveita à interpretação da Grei.

15. Na base da sua causalidade há que primeiro inscrever entre outros estímulos uma raiz antropológica, tão obscura como evidente, de interesse pelo mundo com apetência do desconhecido e novo, a par do apego sentimental à pátria, a qual é condicionadora de plasticidade à natureza e às gentes, que vai a ponto de lhes aderir por inteiro, levando à incorporação no exótico das formas originais.

16. O Cristianismo teve na maneira de ser e actuação dos portugueses o mais decisivo esforço no sentido de destruição das barreiras raciais e das incompatibilidades do apostolado, e bem assim a instituição das mais belas formas de socorro humano.

17. Por sua vez, o curso histórico, além de individuar Portugal no quadro do mundo moderno, influiu na psique portuguesa num sentido activista, apurando-lhe as aptidões de adaptação e enriquecendo-a com experiência, exotismo, calor e claridade. Com isso a distanciou da galega.

18. O fundo temperamental do Nordeste mantém-se, no entanto como «limite» da sensibilidade portuguesa e da posição perante a vida.

A afirmação é válida para os luso-descendentes.

19. A grandeza, a intensidade do movimento histórico, a absorção e natural desgaste pelas desmedidas áreas e tarefas universais, retardaram a sistematização do conteúdo pensante português, já de si do tipo emocional e assistemático. Nos escritos poéticos e de viagens estão os expoentes do nosso génio.

20. No quadro hispânico a oposição psicológica, em muitos aspectos diametral, de portugueses e castelhanos tem sido a prima razão e a salvaguarda instintiva da independência nacional.

(In Francisco da Cunha Leão, O Enigma Português, Guimarães Editores, Lisboa, 4.ª Edição, 1998, pp. 95-100).