domingo, 29 de agosto de 2010

Quem tem medo da filosofia portuguesa?

Escrito por Orlando Vitorino







A traição dos intelectuais


«... em Portugal, a classe mais estúpida é a dos intelectuais».

António Sérgio



Veio novamente a lume, num pasquim de somenos importância (JL), o escrito de mais um intelectual da lusofonia (um tal de "M. Real") a dar por finda a filosofia portuguesa. Trata-se de mais uma... só mais uma aleivosia vinda de um cangalho cangalheiro cangarilhado, capaz de se fazer de morto para assaltar o coveiro. De facto, na linha sinuosa e serpentina de Eduardo Lourenço, o parvoeirão vem escrevinhando contra a filosofia portuguesa sem nunca acertar no alvo. Porém, ao invés, a filosofia portuguesa acerta-lhe sempre.

Tal sanha ardilosa, tendo sempre quem a sugira e promova, fora bem documentada por Orlando Vitorino nas mais diversas ocasiões. A que se segue é uma delas.

Miguel Bruno Duarte





Quem tem medo da filosofia portuguesa?


A designação de "filosofia portuguesa" é a que foi dada, a partir de 1943 (data em que Álvaro Ribeiro publicou o livro "O Problema da Filosofia Portuguesa") à sistematização das teses dos grandes pensadores deste século, Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, José Marinho, Santana Dionísio e o mesmo Álvaro Ribeiro, bem como as dos poetas que pensam e lhes são afins: Pascoaes, Pessoa e Régio. Com esta sistematização, tornou-se evidente que a "filosofia portuguesa" constitui o movimento intelectual mais importante da cultura portuguesa e logo se verificou que as suas teses se opõem às diversas expressões da cultura oficial, isto é, da cultura que, formada por psitacismo e ignorante da realidade portuguesa, seus princípios, seus valores e seus fins, é transmitida através da organização do ensino, do controlo da comunicação social, das forças políticas dominantes, das instituições do Estado e dos ambientes literários e artísticos subsidiários desses meios de transmissão.

Tornou-se, então, um caso de sobrevivência para a cultura oficial a hostilidade à filosofia e, com ela, o prolongamento daquela que se exerceu, antes de 1943 e desde o início do século, às obras e personalidades de Bruno, Leonardo, Pascoaes e Pessoa.



Afonso Costa




Os adversários da "filosofia portuguesa" não hesitam em utilizar todos os meios a que podem recorrer: desde a tentativa do assassínio de Sampaio Bruno perpetrada por Afonso Costa em pessoa (da qual dá notícia Fernando Pessoa), desde a campanha contra Leonardo que foi movida em todo o país pela organização universitária e culminou na extinção salazarista da escola de filosofia que ele havia criado no Porto [cf. sobre este ponto a correcção de Pinharanda Gomes], até à condenação ao silêncio e à mais humilde, difícil e crucificante existência de homens como Álvaro Ribeiro e José Marinho. Apoiando-se sempre nos poderes estabelecidos, os adversários da "filosofia portuguesa" acompanham servilmente as sucessivas rotações dos poderosos. Quando em 1974, os mesmos que se apoiavam nas instituições salazaristas passam a apoiar-se nas sucedâneas socialistas para, com a acrescida vesânia característica dos trânsfugas, continuarem a sua hostilidade à mesma "filosofia portuguesa". E enquanto um tal Urbano Tavares Rodrigues, professando o comunismo, abrindo caminho para a cátedra universitária em que veio a sentar-se e ganhando o epíteto de "libélula sanguinária", publicava na imprensa um apelo ao assassínio de quem não provasse subserviência aos novos senhores, Eduardo Lourenço apressava-se a editar um livro em que solidarizava com o "fascismo" os humildes representantes da filosofia portuguesa, A. Casais Monteiro lançava, do Brasil, um livro com a mais vil, ressentida e odienta calúnia sobre Álvaro Ribeiro, de quem se mostrara amigo desde os bancos da escola até às tertúlias de café", Eduardo Prado Coelho apontava António Quadros aos habituais facínoras de todas as revoluções e Santana Dionísio era perseguido, com os seus quase oitenta anos, até à barra dos tribunais.

A "filosofia portuguesa" resistiu, porém, a todas as aleivosias. E sempre resistirá enquanto perdurar a existência de Portugal, porque é ela que dá razão dessa existência. Não é a filosofia de um grupo, de um "movimento", de uma "escola"; é a consciência da Pátria e encontra-se difusa em todos os Portugueses que pensam. Assim acontece com ela o mesmo que aconteceu com aquela "filosofia alemã" que, ao surgir dando razão da existência da Alemanha nos "Discursos à Nação Alemã de Fichte, veio a ver esses "Discursos" saudados por N. Hartmann como "um dos maiores acontecimentos da história universal".








Há dias, apareceu numa revista da Universidade de Lisboa ("Cultura", Vol. IV, 1985) mais um artigo contra a "filosofia portuguesa" de mais um candidato à docência universitária, um tal Onésimo Teutónio Almeida. Este senhor, embora mostrando ter do que fala pouco saber, até daquele parasitário saber erudito e monografista que é próprio dos doutores, lá vai escrevendo a sua prova de hostilidade à "filosofia portuguesa" que constitui uma boa recomendação curricular. O daimon da "filosofia portuguesa" pregou-lhe, porém, a partida soprando-lhe uma verdade que ele evidentemente não entendeu, essa mesma de a filosofia portuguesa se encontrar difusa em todos os Portugueses, e fazendo-o escrever que a "filosofia portuguesa é uma movimentação muito complexa de gente que entra e sai em grupos, forma revistas que desaparecem e se volta a reagrupar e a surgir em outras iniciativas e movimentos".

Resta-nos fazer notar, para instrução dos políticos pouco cultos e das pessoas que em geral se deixam ficar na servil quietude da ignorância, que entre as teses da "filosofia portuguesa" se contam algumas que, expressa ou implicitamente, contêm a refutação de todas as espécies de socialismo.

- a afirmação da singularidade irredutível de cada indivíduo ou pessoa, com a consequente refutação do igualitarismo socialista (tese demonstrada, em especial, por Leonardo Coimbra e Álvaro Ribeiro; este último chega a considerar o igualitarismo como o principal factor da degradação das sociedades);

- a universal dependência da transcendência principial (tese de vários modos demonstrada por todos os representantes da filosofia portuguesa mas que constitui o núcleo essencial da poesia de José Régio);






- a refutação das doutrinas do evolucionismo natural (Leonardo), bem como da adaptação que delas faz o progressismo indefinido ou infinito (José Marinho), e com a demonstração de que só há evolução no domínio do espírito ou da relação de cada homem com o espírito (Álvaro Ribeiro);

- a exigência de compreensão omnímoda e universal (José Marinho), com a implícita anulação dos contrários e respectiva dialéctica platónica ou hegeliana (Álvaro Ribeiro), seja a da baixa política corrente;

- a refutação da sociologia, falsa e impossível ciência cujo ensino só pode conduzir ao ateísmo e ao agnosticismo (Leonardo, A. Ribeiro);

- a teorização da economia liberal como única economia científica, teorização cujos princípios ou conceitos essenciais se encontram em A. Ribeiro, Leonardo e Bruno e foram expressamente aplicados por F. Pessoa à organização do comércio (in O processo das Presidenciais 86, Organizado e Publicado pelos Serviços da Candidatura de ORLANDO VITORINO, pp. 29-30).










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