Escrito por Fustel de Coulanges
«(...) o cepticismo, o subjectivismo e o relativismo encontram-se já na antiguidade. Os representantes clássicos do subjectivismo são, nesta época, os sofistas. A sua tese fundamental tem a sua expressão no conhecido princípio de Protágoras (século V a. C.): o homem é a medida de todas as coisas. Este princípio do homo mesura, como se lhe chama abreviadamente, está formulado no sentido de um subjectivismo individual com a maior probabilidade. O subjectivismo geral, que é idêntico ao psicologismo, como se disse, tem encontrado defensores mesmo na actualidade. OSWALDO SPENGLER defendeu-o recentemente na sua Decadência do Ocidente. “Só há verdades – diz-se nesta obra – em relação a uma humanidade determinada”. O círculo de validade das verdades coincide com o círculo cultural e temporal do qual procedem os seus defensores. As verdades filosóficas, matemáticas e das ciências naturais só são válidas dentro do círculo cultural a que pertencem. Não há uma filosofia nem uma matemática, nem uma física universalmente válidas, mas uma filosofia fáustica e filosofia apolínea, uma matemática fáustica e uma matemática apolínea, etc.».
J.
Hessen («Teoria do Conhecimento»).
«Ficamos sabendo que Tales, motejado pela sua pobreza, comprou a prazo todos os lagares e pôde assim fixar preços de monopólio para o seu uso. Fê-lo mas para mostrar que os filósofos podem ganhar dinheiro, e se o não o fazem é por terem coisas mais sérias em que pensar.»
Bertrand Russell («História da Filosofia Ocidental»).
«Em
primeiro lugar, note-se que só muito
poucos homens se puseram a filosofar lá pelo século VI antes de Cristo.
Encontravam-se em uma circunstância comum a outros muitos homens, e no entanto
só eles necessitaram filosofar. Situação histórica alguma é suficiente para
explicar qualquer realidade humana, porque sempre cabem actuações muito
diferentes, dimanantes das diversas pretensões possíveis. (...) Os que primeiro
filosofaram tiveram que o fazer porque pretendiam algo que antes deles não fora
pretendido e que os seus concidadãos tampouco o pretendiam. É isto o decisivo.
Tendo
a história da filosofia grega se articulado principalmente do ponto de vista
das “ideias” ou “doutrinas”, tomou-se como seu unício a especulação da escola
de Mileto, em particular de Tales; é preciso advertir que na mente dos gregos
Tales apareceu, de começo, como um dos sete sábios, junto a figuras que para
nós têm outra significação – Sólon, Pítaco de Mitilene, Bías (ou Biante), às
vezes Periandro de Corinto e Cléobulo de Rodes, outras Epiménides e Anacarsis,
Quílon, etc. – e que não são incluídos habitualmente na história da filosofia.
Estes sábios eram homens ricos, que estavam no poder, negociantes, com
actividades técnicas, grandes viajantes: gente que vivia em íntimo contacto com
a realidade, de maneira alguma nas nuvens, nem absorta ou metida numa cela.
Conta-se de Tales que por olhar as estrelas caiu num poço, mas também se
relata, e com maior precisão, que foi conselheiro político perspicaz, que
desviou o curso de um rio e que, prevendo uma grande colheita de azeitonas,
arrendou muitas moendas e enriqueceu-se. Heródoto conta que Sólon viajava “para
ver” (theories heineken), coisa que
os orientais sempre admiraram nos gregos. Que é que viam estes homens, Tales,
Sólon, o próprio Heródoto? Sobretudo as cidades, os homens, o que faziam os
habitantes de outros lugares; visitavam os monumentos, enumeravam com minúcia
as oferendas feitas pelos reis e tiranos aos santuários e templos. Narram-nos
os costumes dos habitantes de cada país; em lugar de comerciar com os povos
estranhos ou lhes fazer guerra, os consideram; procuram neles suas
características, o que poderíamos chamar sua consistência, para saber como se
comportam e para poderem estar esclarecidos em relação aos mesmos. Os humanos
aparecem para eles articulados em povos, em unidades definidas por um tipo de
comportamento: os egípcios, os lídios, os persas, os escitas são “variedades”
humanas; quanto a eles mesmos, sua consistência própria é a de gente que olha,
que vê coisas, dotada de certa superioridade que se estriba em perguntar-se
acerca da consistência das coisas e dos demais homens, em saber a que se ater
sobre eles. Dentro desta atitude geral é que se deve colocar o aparecimento da
filosofia. Em que Tales de Mileto difere destes seus contemporâneos? O que faz
com que a sua figura se separe do grupo impreciso dos “sete sábios” – que, é
claro, não eram sete – para converter-se no iniciador de uma nova e misteriosa
ocupação do homem?
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| Ruínas de Mileto |
Segundo
os testemunhos existentes, era poderoso, rico, influente na política da sua
cidade, homem de negócios, engenheiro, viajante, astrónomo; aparece como
fundador da filosofia e ao mesmo tempo – o que não é casual – da matemática. Um
homem, por conseguinte, familiarizado com o real em suas formas diversas, nele
plenamente imerso, capaz de invenção técnica, isto é, dessa forma de ficção
novelesca em que consiste, originariamente, o pensamento técnico.
Provavelmente, Tales era homem de muita imaginação, capaz de projectar e
projectar-se, de prever a trajectória dos astros e assim predizer um eclipse,
ou o curso futuro do rio que iria desviar, ou o comportamento dos compradores
de azeite, ou o resultado da guerra entre Creso e Ciro. Foi um futurista, tinha
de o ser. Tales visitou o Egipto, entrou em relação com os sacerdotes dos quais
aprendeu certas técnicas, como por exemplo, a de restabelecer os limites das
propriedades depois das inundações, calcular a altura das pirâmides medindo a
longitude de sua sombra ou determinar a distância de uma embarcação no mar,
distanciada da costa. Tales aprendeu tudo isto; mas quando voltou à Grécia e
pensou sobre todas essas coisas, lhes deu uma direcção um pouco diversa, que
teria consequências inesperadas.
Em
lugar de limitar-se, como faziam os egípcios ou os caldeus, ao simples manejo
dos números ou das figuras, ao que se denominava logistiké ou cálculo e à
agrimensura, Tales inicia uma nova forma de trato pensante com os números,
triângulos e poliedros, que se baseia em considerá-los como algo dotado de um
certo modo permanente de comportar-se. Há triângulos, círculos, octaedros ou
pirâmides, há números pares e ímpares, e cada um dos mesmos, por ser o que é,
tem uma realidade constante e fixa, tem certas “propriedades” que lhe
pertencem, efectivamente, como propriedade e para sempre; do mesmo modo que há
lídios, persas ou masságetas com sua respectiva maneira habitual de se
comportarem, que permite prever sua conduta, outro tanto acontece com os
objectos da matemática. Tales faz com eles algo análogo ao que Sólon fazia com
os povos estranhos que visitava: em lugar de “manejá-los” – comerciar ou
guerrear com eles, contar ou medir, tanto dá –, os considera em sua
consistência própria. A passagem de uma a outra atitude não é tão óbvio como
possa parecer: foi mister para isso uma total remoção dos pressupostos em que o
homem vivia. Ora, é preciso indagar por que Tales necessitou perguntar pela
consistência das coisas mesmas, e de forma exemplar dos objectos matemáticos.
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| Teorema de Tales |
Insisti no facto de que Tales e as demais figuras que o acompanham nesse momento inicial do filosofar eram homens que viviam em íntimo e variável contacto com a realidade. Haviam procurado saber a que se ater sobre as coisas e os assuntos da vida através dos procedimentos habituais, dominantes em seu meio e em seu tempo. Tiveram provavelmente frequentes fracassos, que neles engendraram um estado de incerteza e insegurança; a experiência do mando, as dificuldades técnicas, a necessidade de prever o resultado das acções históricas, produziram neles um precipitado de desconfiança a respeito dos modos usuais de pensamento que haviam recebido de sua tradição imediata. Por outro lado, estes homens haviam sido grandes viajantes. Costuma-se acentuar a contribuição positiva das viagens, o enriquecimento que promovem em saberes e notícias; é necessário, porém, insistir com não menor energia em seu momento negativo: a perplexidade provocada pelo contacto com uma multidão de crenças e ideias. Tales, e outros como ele, haviam conhecido outros meios que possibilitavam assumir as situações, diferentes daqueles usados em seu país, e que eram sentidos como eficazes pelos homens dos povos estranhos. Ante o boi Apis, Tales sentia-se indiferente; ao dar-se conta porém, de que o mesmo não acontecia com o egípcio, que, pelo contrário, contava com ele real e efectivamente para orientar sua vida, isto lhe teria levado a observar que a respeito do oráculo délfico os termos da questão se invertiam: enquanto o grego nele fundava suas decisões, era inoperante para o homem do Nilo. Esta experiência multiplicada, este confronto do sistema de crenças em que se está com outros diferentes, força a tomar uma nova atitude diante do seu próprio, que aparece então como um dos muitos possíveis, ao qual se pode continuar aderindo, evidentemente, mas não só simplesmente porque “se está neles” e sim por algo. Daí a incerteza e a necessidade de apelar directamente às coisas mesmas, à realidade tal como é, para saber de verdade a que se ater, para decidir, inclusive, entre as crenças tradicionais e as novas ou estrangeiras. Desponta, pois, outra instância superior, capaz de salvar daquela incerteza. E esta atitude, por certo, já transparece no “exame de oráculos” que, segundo Heródoto, levou a efeito Creso – contemporâneo de Tales –, homem nada “teorético”, antes de conceder-lhe crédito e deles se valer para orientar sua política. Ante a falha dos recursos vigentes para alcançar certeza, surgem interrogações de conteúdo inesperado: como serão as coisas para que tudo isto aconteça? O que é tudo isto, definitivamente? O dia em que um grego – chame-se ele Tales ou como se queira – não soube, de verdade, a que se ater e fez a si mesmo estas perguntas, havia nascido a filosofia.»
Julían
Marías («Biografia da Filosofia»).
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| Ver aqui |
«Durante
o século V – fosse qual fosse a parte dos sofistas na mudança – deu-se em
Atenas uma transformação de certa simplicidade firme e puritana para um vivo e
talvez cruel cinismo, em conflito com a tardia e igualmente cruel defesa da
inconsistente ortodoxia. No começo do século dá-se a chefia ateniense das
cidades da Jónia contra os persas e a vitória de Maratona, em 490 a. C. No fim é
a derrota de Atenas por Esparta, em 440, e a execução de Sócrates, em 339.
Desde então Atenas perdeu importância política, mas adquiriu incontestada
supremacia cultural, até à vitória do cristianismo.
É
necessário algo da história de Atenas do século V para compreender Platão e
todo o pensamento grego ulterior. Na primeira guerra pérsica, a maior glória
coube a Atenas, pela vitória de Maratona. Na segunda, dez anos depois, os atenienses
ainda foram os melhores no mar, mas em terra a vitória deveu-se principalmente
aos espartanos, chefes reconhecidos do mundo helénico. Mas estes, com visão
estreitamente provinciana, deixaram de opor-se aos persas logo que os
expulsaram da Grécia europeia. A direcção dos gregos asiáticos e a libertação
das ilhas conquistadas pelos persas foi obra de Atenas, que se tornou dirigente
do poder marítimo e adquiriu considerável domínio imperialista sobre as ilhas
jónias. Atenas prosperou sob a chefia de Péricles, democrata moderado e
moderado imperialista. Por iniciativa sua se construíram os grandes templos,
que em ruínas são ainda a glória de Atenas, em substituição dos destruídos por
Xerxes. A cidade cresceu rapidamente em riqueza e cultura, e como
invariavelmente acontece em tal caso, principalmente se a riqueza se deve ao
comércio externo, decaíram a moralidade e as crenças tradicionais.
Houve
nessa época em Atenas um número extraordinário de homens de génio. Os três
grandes dramaturgos, Ésquilo, Sófocles e Eurípides pertencem ao século V.
Ésquilo combateu em Maratona e viu a batalha de Salamina. Sófocles é ainda
religiosamente ortodoxo. Mas Eurípides foi influenciado por Protágoras e pelo
espírito livre-pensador do tempo e trata os mitos céptica e subversivamente. Aristófanes,
o poeta cómico, ridiculiza Sócrates, sofistas e filósofos, mas pertence ao
mesmo círculo; no Banquete, Platão
representa-o em termos muito amigáveis com Sócrates. Fídias, o escultor,
pertencia, como vimos, ao círculo de Péricles.
Neste
período, a excelência de Atenas foi mais artística do que intelectual. Não era
ateniense qualquer dos grandes matemáticos ou filósofos do século V, excepto
Sócrates; e Sócrates não foi escritor, mas limitou-se à discussão oral.
A
Guerra do Peloponeso, em 431 a. C., e a morte de Péricles, em 429, iniciaram o
período mais obscuro da história ateniense. Os atenienses eram superiores no
mar, mas os espartanos tinham supremacia em terra, e repetidamente ocuparam a
Ática (excepto Atenas) durante o verão. Daí um excesso de população em Atenas
que sofreu gravemente com a peste. Em 414 a. C. os atenienses enviaram à
Sicília uma grande expedição na esperança de conquistar Siracusa, aliada de
Esparta, mas a tentativa falhou. A guerra tornara os atenienses ferozes e
vingativos. Em 416 conquistaram a ilha de Meios, mataram todos os homens em idade
militar e escravizaram os outros habitantes. As Mulheres Troianas, de Eurípides, são um protesto contra esta brutalidade.
O conflito tinha aspecto ideológico; Esparta era campeão da oligarquia e Atenas
da democracia. Os atenienses suspeitavam com motivo os aristocratas de traição
e pensava-se em geral que eles tinham tido parte na derrota de Aegospotamos, em
405 a. C.
No fim da guerra Esparta estabeleceu em Atenas um governo oligárquico chamado dos Trinta Tiranos. Alguns, incluso Crítias, seu chefe, foram discípulos de Sócrates. Merecidamente impopulares, foram derrubados ao fim de um ano. Com acordo de Esparta restaurou-se a democracia amarga, em que apesar da amnistia concedida aos inimigos internos, se aproveitava o menor pretexto para persegui-los. Nessa atmosfera ocorreram o julgamento e a morte de Sócrates (399 a. C.).
Bertrand Russell («História da Filosofia Ocidental»).
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| "A Morte de Sócrates", por Jacques-Louis David (1787). |
«Chegado é o tempo de partirmos. Eu para a morte, vós para a vida. Qual dos destinos é o melhor, a não ser o deus, ninguém o sabe».
Platão («Apologia de Sócrates»).
«Quem acusou Sócrates? Os sacerdotes de Elêusis, que tinham amaldiçoado os autores da guerra do Peloponeso, não pronunciaram uma palavra contra ele. Quanto ao templo de Delfos manifestou o mais elevado elogio a um homem. Consultada sobre o que Apolo pensava de Sócrates, a Pítia respondeu: "Não há ninguém mais livre, mais justo, mais sensato"».
Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados»).
O FIM DA CIDADE ANTIGA
Novas crenças; a filosofia altera as normas da política
(...)
vimos como se deu a constituição do regime municipal entre os antigos. Religião
muito antiga fundara primeiramente a família, depois a cidade; estabelecera primeiro
o direito doméstico e o governo da gens,
em seguida as leis civis e o governo municipal. O Estado estava estreitamente
ligado à religião, desta derivando e com ela se confundindo. Por isso, na
cidade primitiva, todas as instituições políticas haviam sido instituições
religiosas; as festas haviam sido cerimónias do culto; as leis, fórmulas
sagradas; e os reis e os magistrados tinham sido sacerdotes. Pelo mesmo motivo
ainda, a liberdade individual fora ali desconhecida, e o homem não conseguia
subtrair a sua própria consciência à omnipotência da cidade. Pela mesma causa,
enfim, o Estado continuava restringido aos limites da urbe, jamais podendo
transpor o recinto pelos deuses nacionais traçado quando da fundação. Cada
cidade tinha não somente a sua independência política, mas também o seu culto e
o seu código. A religião, o direito, o governo, tudo era municipal. A cidade
era a única força viva, nada lhe sendo superior e nada lhe estando inferior:
nem unidade nacional, nem liberdade individual.
Resta-nos
dizer como desapareceu este regime, isto é, como, tendo mudado o princípio da
associação humana, o governo, a religião e o direito se despojaram do carácter
municipalista da sua antiguidade.
A ruína do regime político que a Grécia e a Itália haviam criado pode relacionar-se com duas causas principais. A primeira pertence à categoria dos actos morais e intelectuais; a segunda, à ordem dos actos materiais; a primeira consiste na evolução das crenças; a segunda, na conquista romana. Estes dois factos são contemporâneos; desenvolveram-se e realizaram-se conjuntamente, durante os cinco séculos que precederam a era cristã.
A religião primitiva, cujos símbolos estavam na pedra inamovível do lar e o
túmulo dos antepassados, religião que constituíra a família antiga e organizara
em seguida a cidade, alterou-se com o tempo e envelheceu. O espírito humano
aumentou as suas forças e concebeu novas crenças. Principiou-se a formar ideia
da natureza material; a noção de alma humana precisou-se, e, quase ao mesmo
tempo, surgiu nos espíritos a noção do ser divino.
Que
pensar-se então das divindades dos primeiros tempos desses mortos vivendo no
túmulo, desses deuses Lares que haviam sido homens, desses antepassados
sagrados necessitando alimentarem-se com comidas? Tornou-se impossível
semelhante fé. Estas crenças deixaram de estar ao nível da inteligência humana.
É de facto verdade que estes juízos, por muito grosseiros que fossem, não se
arrancaram facilmente do entendimento do vulgo; dominaram no homem comum ainda
por muito tempo, embora, desde então, os homens que pensavam se tivessem
libertado desses erros. Interpretavam a morte de maneira diversa; uns
acreditavam no aniquilamento total, outros, numa segunda existência
espiritualizada e vivida em mundo de almas; mas, em todo o caso, já não admitem
que o morto viva no túmulo, alimentando-se de oferendas. Principiava-se
portanto a formar conceito muito elevado do divino para poder persistir-se
nesta crença da divindade dos mortos. Imaginou-se, pelo contrário, a alma
humana como indo aos Campos Elísios buscar a sua recompensa ou a expiar o
castigo de suas culpas; e por notável progresso de ideias, divinizavam entre os
homens só aqueles a quem o reconhecimento ou a adulação colocavam acima da
vulgaridade.
O
conceito de divindade modificou-se pouco a pouco, por natural efeito do maior
poder do espírito. A ideia atribuída primeiramente pelo homem à força invisível
em si própria sentida transportou-a ele para as potências incomparavelmente
maiores que encontrava na natureza, até vir enlevar-se na concepção de um ser
acima e para além da natureza. Então os deuses Lares e os Heróis deixaram de
ser adorados por quem quer exercesse o seu pensamento.
Quanto
ao lar, que parece só ter tido sentido enquanto ligado ao culto dos mortos,
perdeu também o seu prestígio. Continuou-se tendo em casa um lar doméstico, a
saudá-lo, adorá-lo, a oferecer-lhe a libação; mas ficando apenas como culto de
mera observância, que já nenhuma fé vivificava.
O
lar das urbes, ou pritanado, insensivelmente entrou no mesmo descrédito em que
já decaíra o lar doméstico. Não se sabia o que significava; olvidara-se que o
fogo sempre vivo do pritanado representava a vida invisível dos antepassados,
dos fundadores, dos Heróis nacionais. Continuava a manter-se esse fogo, a
fazerem-se os repastos públicos, a cantarem-se os velhos hinos: cerimónias vãs
de que não ousavam desembaraçar-se, mas cujo sentido já ninguém compreendia.
Mesmo
as divindades da natureza, que se haviam associado aos lares, mudaram de
carácter. Depois de começarem por ser divindades domésticas, depois de se terem
tornado divindades da cidade, ainda mais evoluíram. Os homens acabaram por
compreender como os diferentes seres a que davam o nome de Júpiter podiam muito
bem não ser mais do que um só e mesmo ser, e o mesmo se dando em relação aos mais
deuses. O espírito ficava embaraçado perante a grande quantidade de divindades,
e sentia a necessidade de reduzir o seu número. Compreendeu que os deuses já
não pertenciam um a cada família, ou a cada urbe, mas todos ao género humano e
velando pelo universo. Os poetas iam de urbe em urbe e ensinavam aos homens, em
lugar dos velhos hinos da cidade, cânticos novos onde se não falava dos deuses
Lares nem das divindades políadas, antes de referiam lendas dos grandes deuses
da terra e do céu, e, deste modo, o povo grego se ia esquecendo dos seus velhos
hinos domésticos ou nacionais, substituindo-os pela poesia nova, já não filha
da religião, mas da arte e da livre imaginação. Ao mesmo tempo, alguns grandes
santuários, como os de Delfos e de Delos, atraíam a atenção dos homens
fazendo-os esquecerem-se dos cultos locais. Os mistérios e a doutrina que
encerravam habituaram-nos a desdenhar da religião vazia e insignificante da
cidade.
Destarte, lenta e obscuramente, se foi operando uma revolução intelectual. Os próprios sacerdotes não lhe opunham resistência; desde que os sacrifícios continuassem a realizar-se nos dias marcados, parecia-lhes salva a velha religião; as ideias podiam modificar-se e a fé esmorecer desde que os ritos não fossem atingidos. Sucedeu porém que, sem se modificarem as práticas, as crenças se transformaram, e a religião doméstica e municipal logo perdeu todo o seu comando sobre as almas.
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| Ruínas de Delos |
Depois,
apareceu a filosofia a derribar todas as regras da velha política. Era
impossível atingirem-se as opiniões dos homens sem se tocar ao mesmo tempo nos
princípios fundamentais do seu governo. Pitágoras, possuidor de vaga concepção
do Ser supremo, desdenhou dos cultos locais, e tanto bastou para, enjeitando as
antigas formas de governo, tentar fundar nova sociedade.
Anaxágoras
concebeu o Deus-Inteligência reinando por sobre todos os homens e todos os
seres. Afastando-se das velhas crenças, distanciou-se também da velha política.
Como não acreditasse nos deuses do pritanado, Anaxágoras não cumpria tão-pouco com os deveres de cidadão, e deste modo fugia das
assembleias e não desejou ser magistrado. A sua doutrina ofendia a cidade; os
atenienses sentenciaram-no à morte.
Vieram
em seguida os sofistas e exerceram maior acção do que estes dois grandes
espíritos. Eram homens ardentes no seu combate contra velhos erros. Na luta
travada contra tudo quanto ainda estava ligado ao passado, estes homens não
poupavam já as instituições da cidade nem os preconceitos da religião.
Examinaram e discutiram ousadamente as leis que ainda tutelavam o Estado e a
família. Os sofistas iam de urbe em urbe, pregando os novos princípios,
ensinando não precisamente a indiferença ao justo e ao injusto, mas a nova
justiça, menos estreita e menos exclusivista do que a antiga, mais humana, mais
racional, e libertada das fórmulas das idades anteriores. Empresa atrevida,
levantando sua tempestade de ódios e de rancores. Acusaram-nos de não terem
religião, nem moral, nem patriotismo. A verdade manda dizer-se que não tinham
doutrina bem definida sobre todas estas coisas e, combatendo os preconceitos,
julgavam ter feito muito. Os sofistas abalaram, como nos diz Platão, o que até
então estivera firme. Colocavam, tanto a lei do sentimento religioso, como a da
política, na consciência humana e não nos costumes dos antepassados, na
tradição imutável. Ensinavam aos gregos que, para governar o Estado, não bastava
invocar os velhos usos e as leis sagradas, mas era preciso persuadir os homens
a actuar como vontades livres. Substituíam o conhecimento dos antigos costumes
pela arte de raciocinar e de falar, a dialéctica e a retórica. Os seus
adversários tinham por si a tradição; os sofistas tiveram por eles a eloquência
e o saber.
Uma
vez estimulada assim a sua reflexão, o homem nunca mais quis crer sem
compreender, nem deixar-se governar sem discutir as suas instituições. Duvidou da justiça
de suas velhas leis sociais, e outros princípios lhe surgiram. Platão põe na
boca do sofista estas belas palavras: «Vós todos estais aqui, eu vos considero
parentes uns dos outros. A natureza, a despeito da lei, tornou-vos concidadãos.
Mas a lei, essa tirana do homem, violenta a natureza em muitas ocasiões». Opor
assim a natureza à lei e ao costume era atacar fortemente os próprios
fundamentos da política antiga. Debalde os atenienses exilaram Protágoras e
queimaram os seus escritos; o golpe dera-se e o resultado do ensinamento dos
sofistas tinha sido imenso. A autoridade das instituições desaparecia com a
autoridade dos deuses nacionais, e o uso do livre exame estabelecia-se nas
casas e na praça pública.
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| "Sócrates na Batalha de Délio", por Thomas Couture (1843). |
Sócrates,
embora reprovasse inteiramente o abuso que os sofistas faziam do direito de
duvidar, pertencia, no entanto, à sua escola. Como os sofistas, não admitia a
autoridade da tradição, e acreditava estarem as regras de conduta gravadas na
consciência humana. Sócrates não discordava dos sofistas, senão em que estudava
esta consciência religiosamente e no
firme desejo de nesta encontrar o dever de ser justo e de fazer o bem. Colocava
a verdade acima do costume, a justiça acima da lei. Distinguia a moral da
religião; anteriormente a Sócrates, não se concebia o dever senão como mandato
dos antigos deuses, mas o filósofo mostrou estar a origem do dever na própria
alma do homem. Em tudo isto, quer Sócrates o quisesse, quer não, fazia guerra
aos cultos da cidade. Baldadamente tinha Sócrates o cuidado de assistir a todas
as festas e de tomar parte nos sacrifícios; as suas crenças e palavras
desmentiam a sua conduta. Fundava religião nova, aparecendo esta como contrária
à religião da cidade. Acusaram-no com razão «de não adorar os deuses pelo
Estado adorados». Fizeram-no morrer por ter atacado os costumes e as crenças
dos antepassados, ou, como então se dizia, por corromper a geração do tempo. A
impopularidade de Sócrates e os grandes ódios dos seus concidadãos explicam-se,
se pensarmos nos costumes religiosos desta sociedade ateniense, onde existiam
tantos sacerdotes e onde estes eram tão poderosos. Mas a revolução iniciada
pelos sofistas e com mais moderação continuada por Sócrates não se deteve com a
morte de um velho. A sociedade grega liberta-se, dia a dia, cada vez mais, do
domínio das velhas crenças e das velhas instituições.
Depois
de Sócrates, os filósofos discutiram em toda a liberdade os princípios e as
regras da associação humana. Platão, Críton, Antístenes, Espeusipo,
Aristóteles, Teofrasto e muitos outros, escreveram tratados sobre a política.
Buscou-se, examinou-se; os grandes problemas da organização do Estado, da
autoridade e da obediência, das obrigações e dos direitos, levantaram-se a
todos os espíritos.
Sem
dúvida, o pensamento não pôde desprender-se facilmente dos laços criados pelo
hábito. Platão sofreu ainda, sob certos aspectos, o domínio das velhas
concepções. O Estado que imaginou é ainda a cidade antiga; muito acanhado,
neste Estado, continua ainda regulado pelos antigos princípios, a liberdade
continua ali desconhecida, e o fim proposto pelo legislador revela-se menos o
aperfeiçoamento do homem que a segurança e grandeza da associação. A própria
família é ali quase esmagada, para não fazer concorrência à cidade. Só o Estado
é proprietário, só o Estado é livre, só ele tem uma vontade, uma religião e
crenças, e quem quer que não pense como o Estado deve morrer. Não obstante, no
meio de tudo isto, as novas ideias aparecem. Platão, tal como Sócrates, e os sofistas, proclama também que a regra de
moral e de política está em nós próprios, nada valendo a tradição, que só a
razão devemos escutar, e que as leis somente são justas enquanto conformes à
natureza humana.
Em
Aristóteles, estas ideias precisam-se ainda mais. «A lei, diz o filósofo, é a
razão.» Aristóteles ensina que é preciso procurar, não o que é conforme ao
costume dos pais, mas o que, em si, é bom. Acrescenta que, à medida que o tempo
caminha, se torna necessário modificarem-se as instituições. Põe de lado a
veneração dos antepassados: «Os nossos primeiros pais, diz ele, quer sejam
nascidos do seio da terra, ou tenham sobrevivido a algum dilúvio, seriam,
segundo todas as aparências, o que hoje existe de mais vulgar e de mais
ignorante entre os homens. Seria evidente absurdo atermo-nos à opinião dessa
gente.» Aristóteles, como todos os filósofos, desconhecia em absoluto a origem
religiosa da sociedade humana; não fala dos pritanados; ignora os cultos locais
como fundamento do Estado. «O Estado, acrescenta, nada mais é que uma
associação de seres iguais procurando em comum uma existência feliz e fácil.»
Destarte, a filosofia rejeita os velhos princípios das sociedades, e procura um
novo fundamento sobre o qual possa basear as suas leis sociais e a noção de
pátria[1].
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| "Diógenes", por John William Waterhouse (1882). |
A
escola cínica vai mais longe. Nega a própria pátria. Diógenes gloriava-se de
não ter direito de cidade em parte alguma, e Crates dizia que, para ele, a sua pátria
era o desprezo pela opinião dos outros. Os cínicos repetiam a verdade, então
bastante recente, de que o homem é cidadão do universo, e que a pátria não é o
acanhado recinto da urbe. Consideravam o patriotismo municipal como mero
preconceito, e suprimiam do número dos sentimentos o amor pela cidade.
Por
desgosto ou desdém, os filósofos afastavam-se cada vez mais dos negócios
públicos. Sócrates ainda cumprira os seus deveres de cidadão. Platão tentara
trabalhar pelo Estado, reformando-o. Aristóteles, já mais indiferente,
limitou-se ao papel de observador fazendo do Estado objecto de estudos
científicos. Os epicuristas puseram de lado os negócios públicos. «Não lhes
ponhais a mão, criticava Epicuro, a não ser que algum poder superior a isso
vos obrigue.» Os cínicos não queriam sequer ser cidadãos.
Os
estóicos regressaram à política. Zenão, Cleanto e Crísipo escreveram numerosos
tratados sobre o governo dos Estados. Mas os seus princípios estavam muito
distanciados da velha política municipal. Vejamos em que termos nos explica um
antigo as doutrinas contidas nos seus escritos. «Zenão, no seu tratado sobre o
governo, propõe-se mostrar-nos que somos não os habitantes de tal demo ou de
tal urbe, separados uns dos outros por direito particular e leis exclusivas,
antes devendo olharmos a todos os homens como concidadãos, como se todos
pertencêssemos a um mesmo demo, ou à mesma cidade»[2]. Por
estes dizeres se vê o caminho percorrido pelas ideias desde Sócrates a Zenão.
Sócrates ainda se julga obrigado a adorar, tanto quanto pudesse, aos deuses do
Estado. Platão não concebia ainda outro governo, senão o da cidade. Zenão passa
por cima de tão acanhados limites da associação humana. Desdenha das divisões
estabelecidas pela religião das velhas cidades. Como concebe o Deus do
universo, concebe a ideia de um Estado onde entrasse todo o género humano[3].
Mas
vejamos um princípio ainda mais recente. O estoicismo, alargando a associação
humana, emancipa o indivíduo. Como não aceita a religião da cidade, reprova de
igual modo a servidão do cidadão. Já não quer que a pessoa humana seja
sacrificada ao Estado. Distingue e separa nitidamente tudo quanto deve
permanecer livre do homem, e liberta-lhe, pelo menos, a consciência. Indica ao
homem que deve concentrar-se, procurar em si o dever, a virtude, a recompensa.
Não lhe proíbe ocupar-se dos negócios públicos; convida-o até a isso, mas
advertindo-o de que o seu principal trabalho deve ter por objecto o
aperfeiçoamento individual, e, qualquer que seja o governo, a sua consciência
deve manter-se independente. Grande princípio, desconhecido na cidade antiga,
mas que havia de se tornar numa das regras mais sagradas da política.
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| Ζήνων ὁ Κιτιεύς: Zenão de Cítio (333-262 a. C.) |
Começou-se
então por compreender existirem outros deveres mais, além dos deveres para com
o Estado; outras virtudes, além das virtudes cívicas. A alma prende-se a outros
elementos além da pátria. A cidade antiga fora tão poderosa e tão tirânica que
o homem tinha feito dela razão de todo o seu trabalho e de todas as suas
virtudes; a cidade fora a regra do belo e do bem, e o homem só para ela
conhecera o heroísmo. Mas eis que Zenão ensina ao homem a existência de uma
dignidade, não de cidadão, mas de homem; que, além dos seus deveres para com a
lei, o homem os tem também para consigo próprio, estando o supremo mérito do
homem, não em viver ou morrer pelo Estado, mas em ser virtuoso e agradar à
divindade. Virtudes talvez egoístas e deixando afrouxar no homem a
independência nacional e a liberdade, mas por via das quais o indivíduo se
desenvolveu. As virtudes públicas foram enfraquecendo, mas as virtudes pessoais
definiram-se e surgiram no mundo. Tiveram primeiro que lutar, quer contra a
corrupção geral, quer contra o despotismo. Mas a pouco e pouco enraizaram-se na
humanidade, e, como o tempo, tornaram-se uma potência com a qual todo o governo
tem de contar, e tornou-se imprescindível modificar as regras da política para
que lhes fosse dado lugar.
Assim, e pouco a pouco, se transformaram as crenças; a religião municipal, fundamento da cidade, extingue-se; o regime municipal, tal como os antigos o haviam concebido, teve de soterrar-se nos escombros da cidade antiga. Insensivelmente, os homens foram-se desligando das regras rigorosas e das formas acanhadas de governo. Ideias mais elevadas solicitavam-nos para formar sociedades mais amplas. Os homens tenderam para a unidade; foi esta a aspiração geral dos dois séculos que precederam a era cristã.
(In A Cidade Antiga, Clássica Editora, 11.ª edição, 1988, pp. 429-438).
[1] Aristóteles, Política, II, 12; IV, 5; IV, 7, 2; VII,
4 (VI, 4).
[2] Pseudo-Plutarco, Fortuna de Alexandre, I.
[3] A concepção de cidade universal em Séneca, Ad Marciam, 4; De tranquilitate, 14; em Plutarco, De exsilio; em Marco Aurélio: «Como antonino, tenho Roma por pátria; como homem, o mundo».



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