quarta-feira, 17 de junho de 2026

As duas escolas filosóficas – a itálica e a jónica – e os seus fundadores

Escrito por Santo Agostinho



 

«O espírito de Orfeu circula em toda a parte onde palpita a Grécia imortal. Encontramo-lo na poesia e na ginástica, nos jogos de Delfos e de Olímpia, felizes instituições idealizadas pelos sucessores do mestre para aproximar e unir as doze tribos gregas. Sentimos o seu espírito no tribunal dos Anfictiões, assembleia de grandes iniciados, corte suprema e arbitral reunida em Delfos, grande poder judiciário e conciliador, no qual a Grécia encontrava a sua unidade nas horas de heroísmo e de abnegação [O juramento anfictiónico daqueles povos associados pela ideia da grandeza e força social daquela instituição: “juramos jamais destruir as cidades anfictiónicas e, seja na paz seja na guerra, não desviar as nascentes de água que lhes forem necessárias. Se alguma potência ousar tal marcharemos contra ela e destruiremos as suas cidades. Se os ímpios ousarem roubar as oferendas no templo de Apolo, juramos usar os nossos pés, os nossos braços, a nossa voz, todas as nossas forças contra eles e os seus cúmplices”].




Mas a Grécia de Orfeu, com a sua doutrina guardada nos templos, uma alta corte judiciária em Delfos, começava a periclitar já no sétimo século. Não se respeitavam mais as ordens de Delfos, violavam-se os territórios sagrados. Desaparecera a geração dos grandes iniciados. Baixara o nível intelectual e moral. Os sacerdotes vendiam-se aos poderes públicos. Os próprios Mistérios corrompiam-se. Mudara o aspecto geral da Grécia. A antiga realeza sacerdotal e agrícola estava a ser substituída pela tirania, pura e simples, pela aristocracia anárquica. Os templos não podiam impedir a dissolução ameaçadora. Necessitavam de um novo auxílio. Tornara-se necessária a divulgação das doutrinas esotéricas. Para o pensamento de Orfeu continuar vivo, expandindo-se em todo o seu brilho, a ciência dos templos teria de transferir-se para as ordens leigas. E assim se fez, sob diversos disfarces, nas escolas dos poetas, nos pórticos dos filósofos. Estes sentiram, como Orfeu, que se impunha uma doutrina secreta e outra pública, ambas apoiadas na mesma verdade. Essa evolução proporcionou à Grécia, três séculos de criação artística e de esplendor intelectual. Permitiu ao pensamento órfico irradiar sobre o mundo inteiro, antes de a nação ser atingida pelos golpes da Macedónia e, no final, ficar subjugada pela mão de ferro de Roma.



 

Nessa evolução, surgem físicos do vulto de Tales, legisladores do porte de Sólon, heróis como Epaminondas e, também, Pitágoras, inteligência soberana, criadora e ordenadora. Ele é o mestre da Grécia laica como Orfeu o tinha sido da Grécia sacerdotal. Traduz e continua o pensamento religioso do seu predecessor, aplicando-o aos tempos modernos. Embora apareça à luz da História, Pitágoras permaneceu uma personagem quase lendária. Explica-se isso pela perseguição encarniçada de que foi vítima na Sicília, durante a qual morreram muitos pitagóricos. Com dificuldade e por um grande preço, Platão obteve de Arquitas um manuscrito do mestre. Este sempre redigira os seus trabalhos em signos secretos e sob a forma simbólica. A sua influência exercia-se através do ensino oral. Mas a essência do sistema está nos Versos Áureos de LISIS, no comentário de HIÉROCLES, nos fragmentos de Filolau e de Arquitas, no Timeu de Platão, em que se apresenta a cosmogonia de PITÁGORAS. Os escritos da Antiguidade estão cheios do pensamento do filósofo de Crotona. Citam-nos como autoridade os neoplatónicos de Alexandria, os gnósticos, e até os primeiros padres da Igreja. Vista do alto, aberta com as chaves do esoterismo comparado, a sua doutrina é um magnífico conjunto, um todo solidário, cujas partes estão unidas por uma concepção fundamental. Nela encontramos a reprodução racional da doutrina esotérica da Índia e do Egipto, às quais Pitágoras deu a clareza e a simplicidade helénicas, acrescentando-lhes um sentimento mais enérgico, uma ideia mais nítida da liberdade humana.



(...) Antes de dizer a sua palavra à Grécia, Pitágoras viajou por todo o mundo antigo. Esteve na África, na Ásia, em Mênfis, na Babilónia, onde observou a política e participou em ritos iniciáticos. A sua vida agitada assemelha-se à travessia de um barco no mar, em plena tempestade. Soltas as velas, prossegue na rota, sem se desviar, até ao porto, apesar da fúria dos elementos desencadeados. A sua doutrina causa-nos a impressão de uma noite fresca, depois do calor causticante de um dia de Verão. Faz pensar na beleza do firmamento com seus arquipélagos cintilantes e as suas harmonias etéreas.»

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados. Esboço da História Secreta das Religiões»).




«Mas se não foi na vida pública que Homero alcançou fama, não é voz corrente que, durante a sua vida, ele foi o guia pessoal e o educador de alguns, que o estimavam pela sua companhia e que transmitiram às gerações que se lhes seguiram um estilo de vida homérico, como o próprio Pitágoras, que foi particularmente apreciado por esse mesmo motivo, e até os seus seguidores ainda hoje chamam pitagórico a esse regime de vida e por ele se distinguem no meio dos outros homens?».

Platão («República»).

 

«Segundo ouvi dizer aos Gregos que vivem no Helesponto e no Mar Negro, este Salmoxis era um homem, escravo em Samos, de facto escravo de Pitágoras, filho de Mnesarco ... Os Trácios levavam uma vida miserável e não eram lá muito inteligentes, ao passo que Salmoxis conheceu o modo de viver da Jónia e mentalidades mais profundas do que a dos Trácios, visto ter tido contactos com os Gregos e, entre estes, com Pitágoras, não o mais débil dos seus sábios. Deste modo, mandou construir uma grande sala, onde recebia os mais destacados cidadãos e lhes oferecia banquetes, e lhes ensinava que nem ele mesmo nem os seus hóspedes nem qualquer dos seus descendentes morreriam, mas que haviam de ir para um lugar, onde sobreviveriam para sempre e possuiriam tudo quanto há de bom.»

Heralito de Éfeso

 

«É sabido, disse eu, que, assim como os olhos foram moldados para a astronomia, assim também os ouvidos foram formados para a harmonia, e que estas ciências são irmãs, tal como afirmam os Pitagóricos e nós, ó Gláucon, com eles concordamos.»

Platão («República»).

 

«Íon de Quios refere nos Triagmoi que também Pitágoras atribuiu certos escritos a Orfeu. Mas Epígenes, na sua obra sobre a poesia atribuída a Orfeu, diz que a Descida ao Hades e a História Sagrada são obra do pitagórico Cercops, e que o Peplos e a Física são de Brontino.»

Clemente

 

«Contudo, artigos de lã nunca são levados para o interior dos templos, nem com eles são sepultados, por ser um sacrilégio. Estas práticas concordam com as chamadas órficas e báquicas, mas, na realidade, são egípcias e pitagóricas. Pois é um sacrilégio para quem participa nestes ritos ser sepultado com roupas de lã. Há uma história sagrada que se conta sobre este assunto.»

Heródoto

 

«Aristóxeno diz que ele [Pitágoras], com a idade de quarenta aos, ao ver que a tirania de Polícrates era demasiado opressiva para um homem livre poder suportar um tal domínio e despotismo, partiu, por esse motivo, para Itália.»

Aristóxeno, fr. 16, Porfírio Vida de Pitágoras 9 (DK 14. 8).

 


«Cílon, membro de uma das mais antigas famílias de Crotona, era o seu cidadão mais destacado pelo nascimento, reputação e riqueza; mas, por outro lado, era uma pessoa de trato difícil, violento, turbulento e de um carácter tirânico. Manifestou todo o empenho em partilhar do estilo de vida dos Pitagóricos e acercou-se do próprio Pitágoras, que era já um ancião, mas foi rejeitado como indigno pelos motivos acima referidos. Quando tal aconteceu, ele e os amigos declararam uma guerra feroz contra o próprio Pitágoras e seus companheiros, e tão excessiva e descomedida se tornou a rivalidade do próprio Cílon e dos seus partidários, que perdurou até ao tempo dos últimos Pitagóricos. Foi por este motivo que Pitágoras se retirou para o Metaponto e aí morreu, segundo consta.»

Aristóxeno, fr. 18, Iâmblico Vita Pythagorae 248-9 (DK 14, 16).

 

«Os Cilónios (conforme eles eram conhecidos) prosseguiram com as suas intrigas contra os Pitagóricos e a demonstrar-lhes toda a espécie de inimizade. Contudo, durante algum tempo prevaleceu o nobre carácter dos Pitagóricos, juntamente com o desejo das próprias cidades em terem os seus negócios administrados por eles. Mas eventualmente os Cilónios levaram as insídias contra eles a um tal extremo, que, quando os Pitagóricos estavam reunidos em conselho em casa de Milão, em Crotona, e deliberavam sobre matéria política, deitaram fogo à casa e queimaram-nos a todos eles, com excepção de dois, Arquipo e Lísis. Como eram os mais jovens e os mais fortes de entre eles, estes dois conseguiram de uma ou de outra forma escapar. Quando isto aconteceu e dado que as cidades não se importaram com a calamidade que tinha ocorrido, os Pitagóricos abandonaram o seu envolvimento na política ... Dos dois (ambos tarentinos) que sobreviveram, Arquipo regressou a Tarento, mas Lísis partiu para a Grécia, magoado com a indiferença das cidades, e viveu algum tempo na Acaia, no Peloponeso, mas depois mudou-se para Tebas, onde se tinha gerado um certo interesse pela sua pessoa. Aí, Epaminondas tornou-se seu pupilo e chamou-o de “pai”. Foi aí também que morreu. Os demais Pitagóricos reuniram-se em Régio e aí passaram algum tempo, em convívio com os outros. Porém, com o decorrer do tempo e como a situação política se tivesse deteriorado, abandonaram a Itália, com excepção de Arquitas de Tarento.»

Aristóxeno fr. 18 (continuação), Iâmblico Vita Pythagorae 249-51 (Dk 14, 16).

 

«Após estes acontecimentos [sc. A batalha de Sagras] os Crotoniatas abandonaram a prática das virtudes varonis e o exercício das armas. Começaram a odiar o que tinham empreendido com tão mau sucesso, e ter-se-iam entregado a uma vida de sensualidade, se não tivesse sido o filósofo Pitágoras ... Equipado com toda esta experiência [sc. a sabedoria oriental e as leis de Creta e Esparta], veio para Crotona; e ao deparar-se com a população entregue a hábitos sensuais, atraiu-a, com a sua autoridade, para a busca da simplicidade. Todos os dias exaltava a virtude, e enumerava os males da sensualidade e o destino das cidades arruinadas por essa peste. Provocou no homem comum um tal entusiasmo pela simplicidade de vida, que parecia impossível acreditar que alguns deles se tivessem entregue à sensualidade. Ministrou, com frequência, ensinamentos a mulheres casadas, sem a presença dos maridos, e a rapazes, separadamente dos pais.»

Iustinus ap. Pomp. Trog. Hist. Phil. Epit. XX, 4, 1-2 e 5-8.

 

«Dicearco diz que, quando ele [Pitágoras] desembarcou em Itália e chegou a Crotona, foi recebido como homem de notáveis poderes e experiência, devido às suas muitas viagens, e como pessoa bem dotada pela fortuna, no tocante às suas características pessoais. É que a sua aparência era imponente e própria de um homem livre, e na sua voz, no seu carácter e em tudo o mais da sua pessoa havia graça e harmonia em profusão. Por consequência, foi capaz de organizar a cidade de Crotona, por tal forma que, depois de ter persuadido o conselho governativo dos anciãos com a nobreza de numerosos discursos, por ordem do governo fez aos jovens adequadas exortações, após o que se dirigiu às crianças, trazidas das escolas, e por fim às mulheres, pois também tinha convocado uma reunião delas.»

Dicearco fr. 33 Wehrli, Porfírio Vida de Pitágoras 18 (DK 14, 8 a).

 

«Aristóteles diz que Pitágoras foi chamado Apolo Hiperbóreo pelo povo de Crotona. O filho de Nicómaco [i.e. Aristóteles] acrescenta que Pitágoras foi visto certa vez por muita gente, no mesmo dia e à mesma hora, tanto no Metaponto como em Crotona; e que em Olímpia, durante os jogos, ele se pôs de pé em pleno teatro e mostrou que uma das suas coxas era de ouro. O mesmo escritor diz que Pitágoras, ao atravessar o rio Cosas, foi saudado por este, e que muita gente ouviu essa saudação.»

Aristóteles fr. 191 Rose, Eliano V. H. II, 26 (DK 14, 7).

 


«Novamente em Caulónia, segundo afirma Aristóteles, profetizou o advento de uma ursa branca; e é ainda Aristóteles que, em aditamento a muitas outras informações a seu respeito, diz que na Tuscânia matou à dentada uma serpente, cuja mordedura era fatal. Refere ainda que Pitágoras predisse aos Pitagóricos o próximo conflito político; foi essa a razão que o levou a partir para o Metaponto sem que ninguém se tivesse dado conta disso.»

Aristóteles fr. 191, Apolónio Hist. Mir. 6 (DK 14, 7). 


«Afirma Aristóteles, na sua obra Sobre os Pitagóricos, que Pitágoras prescrevia a abstenção de favas, tanto por elas se assemelharem às partes pudendas, como por se parecerem com os portões do Hades (é que esta planta é a única que não tem nós), como por serem destrutivas, ou por serem semelhantes à natureza do universo, ou por serem oligárquicas (pois é por meio delas que os governantes são tirados à sorte). Vedado lhes era apanhar o que tombava das mesas – para os habituar a comer com moderação, ou porque isso indicava a morte de alguém. E também Aristófanes diz que o que cai pertence aos heróis, quando nos seus Heróis adverte: “Não provem o que cai no meio da mesa.” Não devem tocar num galo branco, em virtude deste animal ser consagrado ao Mês e ser um suplicante, e a súplica ser uma boa coisa. O galo era consagrado ao Mês, porque anuncia as horas; além disso, a cor branca é da natureza do que é bom, a preta, da natureza do mal. Não deviam tocar em qualquer peixe que fosse sagrado, por não ser justo que os mesmos alimentos fossem servidos aos deuses e aos homens, do mesmo modo que se procedia entre os homens livres e os escravos. Não deviam partir o pão (por ser à volta de um único pão que os amigos antigamente se reuniam, como ainda hoje fazem os bárbaros), nem deviam dividir o pão que os reunia. Outros há que explicam esta norma como uma referência ao julgamento no Hades; dizem outros que a divisão do pão dava origem à cobardia na guerra; outros ainda explicam que é pelo pão que começa o universo.»

Aristóteles fr. 195, Diógenes Laércio VIII, 34-5 (DK 58 c 3).

 

«Havia também outra espécie de símbolos, ilustrados pelo que se segue: “Não passes por cima de uma balança”, i.e. não sejas ambicioso; “Não atices o lume com uma espada”, i.e. não humilhes com duras palavras um homem a rebentar de cólera; “Não desfolhes a coroa”, i.e. não violes as leis, que são as coroas das cidades. Ou ainda, “Não comas o coração”, i.e. não vivas na ociosidade; “Quando viajares, não voltes para trás”, i.e. quando estiveres para morrer, não te apegues à vida.»

Aristóteles fr. 197, Porfírio Vida de Pitágoras 42 (DK 58 c 6).

 

«Todos os chamados acusmata se dividem em três categorias: uns indicam o que uma coisa é, outros o que é o mais importante, outros o que se deve ou não fazer. Exemplos da categoria “o que é?” são: O que são as Ilhas dos Bem-Aventurados? O Sol e a Lua. O que é o oráculo de Delfos? A tetractys: que é a harmonia em que cantam as Sereias. Exemplos da categoria “O que é o mais..?” são: Qual é a coisa mais justa? Fazer um sacrifício. O que é mais sábio? O número; mas, em segundo lugar, o homem que deu nomes às coisas. Entre nós, qual é a coisa mais sábia? A medicina. Qual é a mais bela? A harmonia. Qual é a mais poderosa? O conhecimento. Qual a melhor? A felicidade. Que de mais verdadeiro há no que se diz? Que os homens são perversos.»

Iâmblico Vita Pythagorae 82 (DK 58 c 4).

 

«Dois são os tipos de filosofia itálica, chamada pitagórica. Pois duas foram também as categorias dos seus praticantes, os acusmatici e os mathematici. Destes, os acusmatici eram aceites como pitagóricos pelo outro grupo, mas não admitiam que os mathematici fossem pitagóricos, ao sustentarem que as suas actividades intelectuais derivavam, não de Pitágoras, mas de Hipaso. Uns dizem que Hipaso era natural de Crotona, outros do Metaponto. Mas os Pitagóricos que se ocuparam das ciências concordam que os acusmatici são pitagóricos, e afirmam que eles próprios o são numa escala ainda maior, e que o que dizem é a verdade.»

Iâmblico Comm. Math. sc. pp. 76, 16-77, 2 Festa.

 


«Pitágoras fez certas afirmações de um modo místico e simbólico, e Aristóteles recolheu a maior parte delas; por exemplo, que ele chamava ao mar lágrimas de Cronos, às Ursas, mãos de Reia, às Plêiades, lira das Musas, aos planetas, cães de Perséfone; o som produzido pelo bronze, quando percutido, era, dizia ele, a voz de um ser divino (dáimon) aprisionado no bronze.»

Aristóteles fr. 196, Porfírio Vida de Pitágoras 41 (DK 58 c 2).

 

«A origem dos tremores de terra, no dizer de Pitágoras, não era outra coisa senão um encontro de mortos; o arco-íris, o brilho do Sol, e o eco, que frequentemente fere os nossos ouvidos, a voz de seres mais poderosos.»

Aristóteles fr. 196, Eliano V. H. IV, 17 (DK 58 c 2).

 

«Se troveja, então – se é verdade o que afirmam os Pitagóricos – isso é para ameaçar os que se encontram no Tártaro, por forma a amedrontá-los.»

Aristóteles An. Post. 94 b 32-4 (DK 58 c 1).

 

«O que ele dizia aos seus companheiros, ninguém o pode referir com segurança; é que entre eles reinava um invulgar silêncio. Mesmo assim, tornou-se universalmente conhecido o seguinte: em primeiro lugar, que ele afirma que a alma é imortal; depois, que ela se muda para outras espécies de seres animados; além disso, que os acontecimentos ocorrem em determinados ciclos, e que nunca nada é absolutamente novo; e por fim, que todos os seres vivos devem ser considerados como aparentados. Segundo parece, Pitágoras foi o primeiro a introduzir estas crenças na Grécia.»

Porfírio, Vida de Pitágoras 19 (DK 14, 8 a).


«Diz-se que ele [Anaxágoras] tinha vinte anos por ocasião da travessia de Xerxes, que viveu até aos setenta e dois. Apolodoro diz nas suas Crónicas que ele nasceu na septuagégima Olimpíada (500-497 a. C.) e que morreu no primeiro ano da octogésima oitava (428/7). Iniciou a sua actividade de filósofo em Atenas, no arcontado de Cálias (456/5), com a idade de vinte anos, segundo as palavras de Demétrio de Faléron no seu Registo dos Arcontes, e dizem que lá passou trinta anos ... Diversas são as versões do seu julgamento. Sócion, na sua Sucessão de Filósofos, refere que ele foi acusado de impiedade por Cléon, por sustentar que o Sol era uma massa de metal em brasa, e que, depois de Péricles, seu discípulo, ter proferido um discurso em sua defesa, foi multado em cinco talentos e exilado. Por outro lado, Sátiro, nas suas Vidas, diz que a acusação foi feita por Tucídides na sua campanha política contra Péricles; e acrescenta que a acusação foi não apenas por impiedade, mas também por Medismo; e que foi condenado à morte, à revelia ... Por fim, retirou-se para Lâmpsaco, e lá morreu. Diz-se que, quando os governantes da cidade lhe perguntaram qual o privilégio que desejava lhe fosse conferido, ele respondeu que dessem feriado às crianças, todos os anos, no mês da sua morte, costume que se tem mantido até hoje. Quando morreu, os habitantes de Lâmpsaco sepultaram-no com todas as honras.»

Diógenes Laércio

 

«Anaxágoras de Clazómenas, que, apesar de mais velho que Empédocles, lhe foi posterior [ou: inferior] na actividade filosófica...».

Aristóteles («Metafísica»).

 


«Estes dois, porém, diferem entre si, no que Empédocles imagina ser um ciclo de tais mudanças, e Anaxágoras uma única série. Além disso, Anaxágoras postulava uma infinidade de princípios, nomeadamente, as substâncias homeómeres e, conjuntamente, os contrários, ao passo que Empédocles postula apenas os chamados “elementos”. A teoria de Anaxágoras, de que os princípios são em número infinito, foi provavelmente devida à sua aceitação da opinião comum dos físicos de que nada nasce do não-ser. Pois esta é a razão pela qual eles usam a frase “todas as coisas estavam juntas”, e porque o nascimento desta ou daquela espécie de coisas se reduz a uma mudança de qualidade, ao passo que, outros falam de combinação e separação. Além disso, o facto de os contrários provirem uns dos outros levou-os à mesma conclusão. Um, racionavam eles, deve ter já existido no outro; pois uma vez que tudo o que nasce deve surgir quer do que é quer do que não é, e que lhe é impossível surgir do que não é (neste ponto todos os físicos estão de acordo), eles pensavam que se seguia necessariamente a verdade da alternativa, nomeadamente, que as coisas nascem a partir de coisas que existem, i.e., de coisas já presentes, mas imperceptíveis para os nossos sentidos em virtude da pequenez do seu tamanho. Assim, afirmam eles que todas as coisas estão misturadas em tudo, porque viam que tudo procedia de tudo. Mas as coisas, como eles dizem, parecem diferentes umas das outras e recebem nomes diferentes, consoante a natureza da coisa que é numericamente predominante entre os inúmeros constituintes da mistura. Pois nada, afirmam eles, é pura e inteiramente branco ou preto ou doce ou carne ou osso, mas consideravam que a natureza de uma coisa é a daquilo que ela contém em maior quantidade.»

Aristóteles («Física»).



«O pensamento [de Empédocles de Agrigento] gera-se à volta do problema da unidade do ser em face da multiplicidade. O ser para Empédocles é uno e assume em si próprio o segredo insondável da harmonia. O ser é o Spherus.

Como é que esta unidade se corresponde com a multiplicidade? Esta unidade é insondável e, como tal, só poderemos compreender o uno a partir do múltiplo em que nos encontramos. O problema será, pois, como é que a multiplicidade se vai convertendo em unidade.

Para Empédocles, há duas forças no universo: o Amor e a Discórdia. É o Amor que atrai a si ou que vai unindo todas as partes que a Discórdia separa. Como tal, há um período intermédio que é este em que vivemos, em que o que é positivo e o que é negativo, o que une e o que separa, lutam em si. É através desta luta que tudo o que existe tenta regressar à unidade.

Todo o pensamento de Empédocles gira à volta desta relação que, aliás, é semelhante ao pensamento de Heraclito. Assim, ele vê na natureza quatro elementos fundamentais: a terra, a água, o ar e o fogo. “Todas estas coisas são iguais e coeternas, porém cada uma tem o seu valor e carácter distinto no valer do tempo” (Fr. 17).   

“Exporei um duplo discurso. Em certo momento cresceu de muitas coisas um só todo em unidade. Em outro momento, ao contrário, separaram-se as coisas do mundo, o fogo, a água, a terra e a propícia altura o ar. É a funesta Discórdia pensando igualmente em derredor. E o Amor no meio das mesmas, igualmente em comprimento e em largura”... “E também ele ( Amor) está nos homens e, por isso, pensam coisas amáveis e realizam obras de paz, chamando-as pelos nomes de Alegria e Afrodite”.

A filosofia de Empédocles é uma filosofia de eterno retorno, ou seja, cíclica, em que a vitória do Amor sucede e alterna-se com a vitória da Discórdia.»

Luís Furtado («Cadernos de Filosofia»).

 

«Os Gregos laboram num erro ao admitir o nascimento e a morte; pois coisa alguma se cria ou perde, mas tudo se une ou separa das coisas que existem. Por isso, andariam melhor em chamar ao criar-se, unir-se, e, ao perder-se, separar-se.»

Simplício

 

«Péricles adquiriu elevação de espírito a juntar aos seus dons naturais; pois ele encontrou, creio eu, Anaxágoras, que já possuía essa qualidade, e, embrenhando-se em especulações naturais e apreendendo a verdadeira natureza do espírito e da loucura (que eram os temas da maior parte das discussões de Anaxágoras), retirou dessa fonte tudo o que podia contribuir para a arte do debate.»

Platão («Fedro»).






«Dos que escreveram um único livro, fazem parte Melisso, Parménides e Anaxágoras.»

Diógenes Laércio

 

«(...) explica-nos, Meleto, como é que, em tua opinião, corrompo a juventude? Será, como disseste na tua acusação, ensinando-lhes a não crer nos deuses em que a cidade crê, mas em outros, em novos deuses?

– É precisamente o que digo.

– Então, Meleto, em nome desses mesmos deuses acerca dos quais ora falamos, fala ainda mais claramente para mim e para este auditório. Não consigo compreender se admites que eu ensino que há outros deuses, e nesse caso acredito haver deuses, pelo que não sou ateu não sendo, por conseguinte, um malfeitor, mas que os deuses por mim admitidos não são os deuses reconhecidos pela cidade, sendo este o crime pelo qual me acusas; ou, ainda, se deveras afirmas que não creio que há deuses, e que ensino a descrença aos outros.

– É isso o que afirmo, tu não crês nos deuses.

– Fazes-me rir, Meleto, porque dizes isso? Então eu não creio, como todos os cidadãos, que o sol e a lua são deuses?

– Não, juízes, por Zeus, uma vez que ele sustenta que o sol é uma pedra e que a lua é uma terra.

– Mas quem estás a acusar é a Anaxágoras, meu caro Meleto, e fazes essa acusação depreciando estes cidadãos, julgando-os tão iletrados que não sabem que os livros de Anaxágoras de Clazómenas estão repletos de análogas expressões? Ora esta, então porque haviam os jovens de aprender comigo essas doutrinas que podem adquirir frequentemente (se o preço for elevado) por um dracma na orquestra, ficando a rir-se de Sócrates, se este ousasse fazê-las passar por suas, especialmente sendo tão absurdas? Por Zeus, mas tu pensas isso de mim, que eu não creio em nenhum deus?

– Não, por Zeus, tu não crês em nenhum.

– Ninguém pode acreditar em ti, Meleto, nem mesmo tu. Este homem, cidadãos de Atenas, parece-me de uma arrogância e de uma desfaçatez tais, que se decidiu a mover este processo impelido apenas pela violência, desfaçatez e temeridade da sua própria idade. Dá a impressão de ter querido forjar um enigma para me pôr à prova, como quem diz: “vamos a ver se o sábio que é Sócrates compreende que brinco com ele e me contradigo, ou se consigo iludi-lo, a ele e aos outros”. De facto, parece-me contradizer-se, no seu discurso, como se dissesse: “Sócrates é um malfeitor porque não crê em deuses, mas deveras crê em deuses. Ora isto é próprio de um chalaceador.»

Platão («Apologia de Sócrates»).

 

«Anaxágoras de Clazómenas, filho de Hegesibulo, sustentava que os primeiros princípios das coisas eram as homeomerias. Pois parecia-lhe completamente impossível que alguma coisa se originasse a partir do não-existente ou nele se dissolvesse. De qualquer forma, nós tomamos alimentos que são simples e homogéneos, tais como pão ou água, e com estes se alimentam os cabelos, as veias, as artérias, a carne, os tendões, os ossos e todas as outras partes do corpo. Sendo assim, temos que concordar que tudo o que existe está nos alimentos que tomamos, e que tudo deriva o seu crescimento das coisas que existem. Deve haver nesses alimentos algumas partes que produzem o sangue, outras os tendões, outras os ossos, etc. – partes que só a razão pode apreender. Pois não há necessidade de referir à percepção dos sentidos o facto de o pão e a água produzirem todas estas coisas; antes, existem no pão e na água partes que só a razão pode apreender.»

Écio


Vale do Nilo

«A Terra [segundo Anaxágoras] é de forma plana e mantém-se suspensa onde está, devido ao seu tamanho, porque não há vazio e porque o ar, que é muito forte, mantém a Terra a flutuar nele. Da humidade da terra, o mar veio das águas nela existentes, cuja evaporação deu origem a tudo o que emergiu, e dos rios que correm para ele. Os rios devem sua origem, em parte, à chuva, em parte, às águas da terra; pois a Terra é oca, e nas suas partes ocas contém água. O Nilo aumenta de caudal no Verão graças às águas que para ele correm, procedentes das neves do Sul. O Sol, a Lua e todos os astros são pedras incandescentes que a rotação do aither faz girar consigo. Por baixo dos astros encontram-se certos corpos, invisíveis para nós, que giram com o Sol e a Lua. Nós não sentimos o calor dos astros, porque eles estão muito longe da Terra; além disso, eles não são tão quentes como o Sol, porque ocupam uma região mais fria. A Lua está por baixo do Sol e mais perto de nós. O Sol excede o Peloponeso em tamanho. A Lua não tem nenhuma luz própria, mas recebe-a do Sol. Os astros, na sua revolução, passam por baixo da Terra. Os eclipses da Lua são devidos ao facto de ela ser ocultada pela Terra, ou às vezes pelos corpos que se encontram por baixo da Lua; os do Sol, à interposição da Lua, na fase de lua-nova ... Ele sustentava que a Lua era feita de terra e tinha planícies e ravinas.»

Hipólito

 

«Anaxágoras, quando diz que o ar contém as sementes de todas as coisas e que são estas sementes que, quando arrastadas para baixo com a chuva, dão origem às plantas ...».

Teofrasto

 

«Anaxágoras pensa que a percepção se obtém por obra dos contrários, pois o semelhante não é afectado pelo semelhante ... Uma coisa que está quente ou tão fria como nós nem nos aquece nem nos arrefece, quando se aproxima, nem podemos reconhecer o doce ou o amargo pelos seus semelhantes; nós conhecemos, isso sim, o frio pelo quente, o insonso pelo salgado e o doce pelo amargo, proporcionalmente à nossa deficiência de cada um. Pois todas as coisas, diz ele, existem já em nós ... Todas as percepções são acompanhadas de dor, uma consequência que pareceria advir da sua hipótese; pois tudo o que não é semelhante produz dor pelo contacto; e a presença desta dor torna-se clara, tanto por uma duração demasiado longa ou por um excesso de sensação.»

Teofrasto

 

«Arquelau de Atenas ou de Mileto, filho de Apolodoro ou, segundo referem alguns, de Mídon, foi discípulo de Anaxágoras e professor de Sócrates; foi ele quem primeiro transferiu a filosofia física da Jónia para Atenas, e foi chamado físico. Além disso, a filosofia física terminou com ele devido à introdução da ética de Sócrates. Arquelau parece ter também abordado questões éticas, pois filosofou igualmente sobre as leis, a bondade e a justiça.»

Diógenes Laércio

 

«Arquelau de Atenas, discípulo de Anaxágoras, com quem se diz que Sócrates se associou, tenta introduzir algo de original, e de seu, na cosmogonia e noutros assuntos, mas ainda conserva os mesmos princípios de Anaxágoras. Ambos sustentam que os primeiros princípios são em número infinito e diferentes em espécie, e postulam as homeomerias como princípios...».

Simplício

Anaxágoras de Clazómenas

«Arquelau era, por nascimento, um ateniense, filho de Apolodoro. Ele acreditava numa mistura material como a de Anaxágoras, e os seus primeiros princípios foram os mesmos; mas sustentava que desde o princípio havia uma certa mistura imanente no Espírito. A origem do movimento foi a mútua separação do quente e do frio, o primeiro dos quais se move e o segundo fica parado. Quando a água está liquefeita corre para o centro, e lá arde e se transforma em ar e terra, destes, o primeiro é levado para cima, ao passo que a terra ocupa uma posição em baixo. Assim, por estas razões, a terra nasceu, e permanece imóvel no centro, sem constituir uma fracção apreciável de todo o universo. <O ar> produzido pela conflagração <tem poder sobre o universo> e da sua combustão original surge a substância dos corpos celestes. Destes, o Sol é o maior, a Lua o segundo, e dos restantes alguns são mais pequenos, outros maiores. Diz ele que os céus estão inclinados, sendo por isso que o Sol deu luz à Terra, fez o ar transparente e a Terra seca. Pois, originariamente, esta era um pântano, muito alta nos bordos e côncava no meio. Ele apresenta como prova da concavidade da Terra o facto de o Sol não nascer nem se pôr ao mesmo tempo para todos os homens, como inevitavelmente aconteceria, se fosse plana. Sobre os animais, ele sustenta que, quando a Terra estava originariamente a aquecer na região mais baixa, onde o quente e o frio estavam misturados, começaram a aparecer muitos animais, incluindo os homens, todos com a mesma espécie de vida e todos extraindo o seu sustento do limo. Estes viviam pouco tempo; mas mais tarde, começaram a nascer uns dos outros. Os homens distinguiram-se dos animais, e estabeleceram governantes, leis, ofícios, cidades, etc. O Espírito, diz ele, é, de igual modo, inato em todos os animais; pois cada um dos animais, tal como o homem, faz uso do Espírito, se bem que alguns mais rapidamente que outros.»

Hipólito 


As duas escolas filosóficas – a itálica e a jónica – e os seus fundadores

No que respeita às letras gregas, cuja língua é considerada como a de maior lustre entre as nações, a tradição dá-nos a conhecer duas escolas de filósofos: uma, denominada itálica, desta parte da Itália a que outrora se dava o nome de Grande Grécia, e a outra, a jónica, da parte a que ainda se dá o nome de Grécia.

A escola itálica teve por fundador Pitágoras de Samos de quem provém também, segundo se conta, o nome da filosofia. Efectivamente antes dele chamavam-se sábios aqueles que de certo modo sobressaíam dos demais por uma conduta digna de louvor; mas ele, interrogado acerca da sua profissão, respondeu que era um filósofo, isto é, um estudante ou amigo da sabedoria. É que lhe parecia demasiado pretensioso chamar-se sábio a si próprio.

A escola jónica teve por chefe Tales de Mileto, um dos chamados sete sábios. Os outros seis distinguiram-se pelo seu género de vida e por certas regras próprias para assegurarem uma boa conduta. Tales, na mira de suscitar sucessores, elevou-se acima de todos aprofundando a natureza das coisas e reduzindo as suas pesquisas a escrito. O que lhe valeu maior admiração foi ter conseguido captar as leis da astronomia e predizer os eclipses do Sol e da Lua. Pensou que a água é o princípio das coisas donde provêm todos os elementos do mundo, o próprio mundo e o que nele se produz. Mas a esta actividade que a consideração do mundo nos faz ver tão admirável, não prepôs ele qualquer princípio proveniente da inteligência divina.


Θαλῆς ὁ Μιλήσιος (Tales de Mileto).

Anaximandro, um dos seus auditores, sucedeu-lhe e modificou a sua concepção da natureza. Para este não é duma só coisa, – como a água para Tales –, que tudo provém; mas cada coisa nasce dos seus princípios próprios. Estes princípios próprios de cada coisa são, crê ele, em número infinito e geram inúmeros mundos com tudo o que nele aparece. Ainda segundo a sua opinião, estes mundos ora se dissolvem ora renascem, conforme o tempo que cada um pode durar. Também ele não reconhece à inteligência divina nenhuma interferência nas actividades da natureza.

Deixou como sucessor Anaxímenes que atribuiu ao ar infinito todas as causas dos seres. Não negou os deuses, nem deixou de a eles se referir; todavia não julgou que tivessem feito o ar, mas, antes, eles é que provêm do ar.

Pelo contrário Anaxágoras, auditor de Anaxímenes, julgou que todos os seres que vemos tiveram por autor um espírito divino e afirmou que ele os tirou de uma matéria infinita, constituída por partículas semelhantes entre si. Cada um dos seres era feito das suas partículas próprias, mas sob a acção do espírito divino.

Diógenes, outro auditor de Anaximandro, afirmou, também ele, que o ar era a matéria de que todos os seres eram feitos; mas que o ar era dotado duma inteligência divina sem a qual dele nada se pode fazer.

A Anaxágoras sucede seu auditor Arquelau. Também este pensou que todas as coisas são constituídas por partículas semelhantes entre si, mas entendia que todas elas se mantinham coesas graças a uma inteligência que movia os corpos eternos, isto é, as referidas partículas, unindo-as e separando-as.

Diz-se que teve por discípulo Sócrates, mestre de Platão; foi em consideração a este mestre que resumi todas estas doutrinas.

           (In A Cidade de Deus, Fundação Calouste Gulbenkian, Volume I, 1991, pp. 705-706).              




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