sábado, 13 de fevereiro de 2010

Juízo Final (iii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte




e) o terrorismo em Angola fora, na realidade, preparado, instigado e lançado do exterior. Tivera, portanto, o apoio comunista por via diplomática, académica e revolucionária dirigida aos países africanos, especialmente no que toca à ficção jurídica da autodeterminação e do plebiscito. De resto, a política estadounidense também fora paradoxalmente contraditória na defesa da Europa, acabando por favorecer o inimigo comunista (6);

f) o comunismo multiforme e aparentemente inócuo na sua identidade doutrinal tivera por base o nacionalismo na Ásia e o internacionalismo na Europa;

g) a instrumentalização da ONU fora já então essencial para a consecução de uma Nova Ordem Mundial em detrimento da existência soberana dos povos, nações e pátrias de todo o mundo (7).

Ora, assim se explica o porquê da crise político-diplomática em 1961, que veio na sequência do ataque à província de Angola a 15 de Março e da invasão de Goa a 18 de Dezembro do mesmo ano. Atestam-no, em parte, as palavras de Franco Nogueira:

«Naquele dia de 11 de Dezembro de 1961, ao cair da tarde e conforme um anterior pedido de audiência, Salazar vai receber o ministro da Educação Nacional. Afaga a testa, aperta a cabeça nas mãos, e diz para os ministros que saem: "A Educação Nacional! Que será? Bem, vamos tratar do analfabetismo em Santa Comba! A Educação Nacional! Que interesse posso eu neste momento sentir pela Educação Nacional!"» (in Franco Nogueira, ob. cit., Vol. V, p. 361).

Seja como for, o salazarismo encontra-se definitivamente morto, como já o reconhecera Franco Nogueira (cf. «Duas Palavras Finais», in ob. cit., vol. VI). Ficam, porém, os factos históricos, ainda que discretos e omissos, protagonizados pelo último monarca na defesa de Portugal perante o movimento hostil e desnacionalizante da maré internacionalista.






Não há dúvida: hoje, em termos políticos e económicos, os portugueses encontram-se reféns de uma máquina burocrática ao serviço de partidos, poderes e organizações internacionais. E no que toca à cultura e à universidade, tudo se processa segundo uma planificação ideológica que, por um lado, distorce e falsifica a verdade histórica, e, por outro, minora valores científicos, artísticos e filosóficos.

Raríssimos são, pois, os indivíduos que conseguem ver como a revolução comunista de 1974 deu lugar a um processo de branqueamento sobre o que verdadeiramente se passou antes e depois do 25 de Abril. Por conseguinte, torna-se perfeitamente compreensível que Franco Nogueira, já devedor de uma larga e comprovada experiência política, se visse desde logo confrontado com sérias dificuldades e obstáculos na sua investigação sobre a vida, o pensamento e a obra de Salazar. Daí nas suas palavras:

«… o Arquivo Salazar, transferido das caves de S. Bento (onde julgo que foi largamente saqueado após o 25 de Abril) para a Biblioteca Nacional (onde creio estar devidamente instalado), continua defeso para os historiadores. Todas as consultas e extensas pesquisas que ali fiz, quando ainda em S. Bento, cessaram pelo menos para mim com o 25 de Abril – ainda que segundo parece o Arquivo esteja agora aberto estranhamente à pesquisa política, com objectivos que antecipadamente se confessam comprometidos e orientados num sentido, e destinados a provar o que deliberadamente se quer provar, sem sujeição à contradita e à rectificação através de pesquisas de investigadores e historiadores. (…) Quando comecei a descrever períodos mais recentes, nos volumes IV e V, e a aludir à acção de homens ainda felizmente vivos, deparei com reacções opostas. Uns teriam querido que eu simplesmente omitisse qualquer referência: sentem horror em que se documente que trabalharam ou exerceram funções de grande relevo com Salazar. Outros teriam desejado que lhes fizesse alusão, e extensa, mas somente para sugerir que já naquela altura se opunham a Salazar, e que até foram vítimas deste, mesmo quando a documentação demonstra quanto eram seus devotados colaboradores…» (in «Duas Palavras Finais»).








Nesta linha, prossegue ainda Franco Nogueira: «Iniciada antes do que se designa por revolução de 25 de Abril de 1974, apenas agora, ao cabo de mais de onze anos, me foi possível concluir esta biografia. Para os hábitos portugueses, é trabalho que tem de ser considerado excepcional, e a obra tem de ser havida por inusitada, embora em muitos países seja curial que a história da vida e do tempo dos seus homens importantes ocupe muitos volumes, às vezes distribuídos por vários autores. Digo trabalho excepcional, evidentemente, apenas no sentido da sua extensão, minúcia, documentação, e até tenacidade no esforço. Durante aqueles anos, muitas foram as vicissitudes a enfrentar. Por um longo período, julguei mesmo inviável prosseguir e terminar o trabalho. Primeiro, pela razão óbvia de, sem acusação, sem interrogatório, sem julgamento, estar preso meses e meses, sem saber se o estaria por anos; e depois porque não cessavam em Portugal as perseguições contra mim, os insultos, as ameaças. Sendo de prever um assalto ao andar onde moro em Lisboa, fiz dispersar toda a documentação, por residências de amigos. Mas o facto foi misteriosamente sabido por misteriosos e solícitos vigilantes. E aqueles amigos começaram-se a sentir também em risco; alguns foram também vítimas de ameaças pouco veladas; houve outros que, tendo escondido malas com documentos em jazigo de família, nem aí os consideraram salvos; e como resultado de todo esse admirável clima de liberdade, de segurança, de respeito pela cultura e pela história, esses amigos sentiram-se forçados a devolver para minha casa toda a documentação, lamentando não poder mais guardá-la. Entretanto, eu estava já exilado em Inglaterra. Então minha mulher, que se conservava em Lisboa, tomou uma decisão, e fê-lo sem mesmo me avisar, porque a correspondência para mim era aberta e as ligações telefónicas de minha casa estavam sob escuta: reúne toda a documentação, os meus apontamentos, os manuscritos, e quase uma biblioteca, em pastas e malas; e, com o auxílio de parentes, atravessa a fronteira numa madrugada, pondo a coberto de atentados todo o material que de outra forma estaria destinado a perda quase certa. Assim foi viável continuar e completar em país estrangeiro o meu trabalho» (in «Duas Palavras Finais»).

De facto, é sempre útil contarmos com informação e documentação de inestimável valor para a posteridade, até porque a «realidade», de um modo geral, parece ir ao encontro do que já Luís Furtado afirmara algures: «…não pensamos o mundo e a realidade… somos pensados!» (8).


Notas:

(6) Sobre o terrorismo em Angola, escreve Oliveira Salazar: «Trata-se de um fio de água, nascido além-fronteiras, protegido até elas, que se infiltra através das ínvias picadas das florestas para reaparecer no interior do nosso território. Por mais estranho que pareça, esse pequeno fio que nasce no Congo, em Conakry ou em Accra, ou ainda mais longe, poderia no entanto ser estancado e enxuto nalgumas grandes capitais como Washington ou Londres. Mas a política não é aí compreendida da mesma forma» (in «Defesa de Angola – Defesa da Europa», SNI, 1962, p. 4). Ora, por um lado, tal se devia aos «contactos secretos entre a Administração Kennedy e a UPA» (cf. José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, Difusão Cultural, 1991, p. 237) e, por outro, a «um entendimento ou acordo político entre o encarregado de negócios americano em Léopoldville [antiga Kinshasa] e o chefe do movimento terrorista, Holden Roberto (…), discriminando subsídios financeiros [de início 6000 dólares acrescidos de mais 10.000 por ano de 1961 a 1969 – in José Freire Antunes, ob. cit., p. 238] e fornecimento de armas» (in Franco Nogueira, Salazar, Vol. V, pp. 271- 272). Isto para já não falar das actividades dos missionários em Angola (Metodistas e Baptistas) para fins de cover up (ou fins subversivos, na expressão de Adriano Moreira) levados a cabo por operacionais da CIA em África (in José Freire Antunes, ob. cit., pp. 171-173).


Adriano Moreira e Kaúlza de Arriaga



Demais, também se sabe como o terrorismo, ateando fogo em Angola e na Guiné, tentou fazê-lo em Moçambique. Mas não pôde – conta-nos Franco Nogueira – ir muito além em intensidade comparável, «porque nos encontraram preparados e atentos» (in Salazar, Vol. VI, p. 7). Aliás, sabia-se perfeitamente que o alegado chefe canalizado para a "libertação" de Moçambique era «um professor de uma universidade norte-americana» (ob. cit., Vol. V, p. 507), o que não constituía uma simples coincidência.

Trata-se, como é óbvio, de Eduardo Mondlane, que chegara mesmo a visitar Moçambique enquanto funcionário da ONU. E nisto, chegou-se até ao ponto de, nas Nações Unidas, bem como em Adis Abeba (1963), acusar Portugal de genocídio em Angola, havendo até quem atribuísse aos responsáveis portugueses «uma estranha incompreensão sobre o valor de um genocídio ou uma impossível ignorância do que realmente se passava na colónia» (cf. «A Saga Solitária de Franco Nogueira na ONU», in Os Anos de Salazar, Centro Editor PDA, 2008, 25, p. 77). Contudo, a ignorância e a má-fé são tristes requisitos de quem escreve ao sabor da história dos vencedores, e segundo a qual os actos terroristas praticados na África portuguesa (uma “inacreditável selvajaria”, segundo a expressão apropriada de Vasco Garin nas Nações Unidas) não passavam – imagine-se – de uma versão menor nas comunicações oficiais do Governo português da época.

Correndo o ano de 1965, veio ainda à baila o plano do embaixador Anderson para o desmantelamento programado do Ultramar português. É claro que o Departamento de Estado norte-americano se descomprometera a dar garantias políticas no que respeita ao cessar imediato do terrorismo na África portuguesa. Porém, o curioso é que George Anderson, após visita aos territórios portugueses em África (Fevereiro e Março de 1964), tivesse chegado à conclusão de que «a alternativa a uma continuação da presença portuguesa em Angola e Moçambique num futuro imediato» era «o retorno ao tribalismo e o desenvolvimento do caos interno» (cf. «O Plano Anderson de Descolonização», in Os Anos de Salazar, 21, p. 53).



15 de Março de 1961: Massacres pela UPA de Holden Roberto, no Norte de Angola, com a conivência dos EUA.





Além disso, o embaixador americano não só pudera constatar como a maioria dos países-membros das Nações Unidas se abstivera de condenar a venda de armas aos «nacionalistas», como ainda «criticara» a política dos Estados Unidos em relação a Portugal, nomeadamente quanto ao «reconhecimento» da UPA e do seu líder Holden Roberto, que nem sequer tinha «uma base legítima para falar pelo povo de Angola», posto ser apenas «o líder tribal do povo bacongo». E mais dizendo, referia também a existência de «armas, muitas fabricadas por comunistas e fornecidas por outros africanos [do Ghana e da Guiné-Conakry – cf. José Freire Antunes, ob. cit., p. 250] e, possivelmente de forma directa, por certos estados comunistas, incluindo a União Soviética, a Checoslováquia, a China Vermelha e a Jugoslávia». Em suma: tudo isso não somente confirmava a orientação intuitiva de Salazar perante uma «África em fogo», mas também o relatório elaborado pelo segundo secretário da embaixada em Lisboa, Everett Briggs, que sugeria uma mudança da política norte-americana por ser altamente lesiva para Portugal na qualidade de potência aliada, e, como tal, não menos lesiva para os interesses americanos na região.

(7) Esta instrumentalização torna-se perfeitamente visível na organização internacional do ensino, bastando ver como, entre nós, se processa a passiva e obediente subordinação do sistema escolar e universitário às directrizes programáticas de organizações internacionais, como é o caso da UNESCO e da OCDE. Referi-mo-nos, pois, a um processo que, por via do veiga-simonismo - em pleno governo marcelista -, levou a que os portugueses ficassem, técnica e financeiramente, dependentes de modelos de ensino copiados e importados do estrangeiro. Deste modo, advogando a «democratização do ensino», Veiga Simão foi não só o agente encarregue do igualitarismo socialista no plano universitário – para cujo efeito copiava os modelos universitários da Alemanha, da América, da Inglaterra e dos países socialistas –, como ainda, a par da contratação de professores estrangeiros, no plano do ensino médio e primário.

De facto, o veiga-simonismo encontra-se hoje praticamente induzido nas nossas escolas, ainda que a maioria do professorado o ignore. Por outras palavras, o veiga-simonismo continua presente por via de uma máquina burocrática que vai substituindo os professores por agentes de ensino que devem proceder todos da mesma maneira, dar os mesmos programas e utilizar os mesmos textos num sentido que compromete e apaga a personalidade única e singular dos seres individuados. Deste modo, o socialismo veiga-simonista é, entre nós, um dado incontornável, ora comprovado no facto de Veiga Simão ter aparecido «no dia 26 de Abril de 1974 a querer inculcar-se como um dos próceres da revolução e a pretender figurar no primeiro governo provisório», ora no facto de também ter aceite «o lugar, eminentemente político, de embaixador de Portugal nas Nações Unidas» (cf. «Resposta do prof. Marcello Caetano à carta do Prof. Veiga Simão», in Marcello Caetano, o 25 de Abril e o Ultramar/Três Entrevistas e alguns Documentos, Verbo, p. 97). Enfim, um verdadeiro camaleão à luz dos estudos zoológicos de António Quadros (cf. A Arte de Continuar Português, Edições do Templo, 1978, pp. 139-140).






(8) Aliás, o trecho que se segue fala igualmente por si no que toca à formação das mentalidades: «Dizia-se em Portugal que a diferença de atitude do público perante os discursos do Doutor Salazar e os seus [de Marcello Caetano] é que as pessoas não entendiam o Doutor Salazar, mas sabiam perfeitamente o que ele queria, ao passo que, a si, entendiam muito bem o que dizia, mas não percebiam o que queria…» (in «primeira entrevista», publicada em 25 de Junho de 1976 no jornal do Rio de Janeiro O Mundo Português, in ob. cit., p. 14).

Continua


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