terça-feira, 30 de julho de 2013

Fédon ou da imortalidade da alma (i)

Escrito por Platão 




Oráculo de Delfos


«Todos os chamados acusmata se dividem em três categorias: uns indicam o que uma coisa é, outros o que é o mais importante, outros o que se deve ou não fazer. Exemplos da categoria "o que é" são: O que são as Ilhas dos Bem-Aventurados? O Sol e a Lua. O que é o oráculo de Delfos? A tetractys: que é a harmonia em que cantam as sereias. Exemplo da categoria "O que é o mais importante?" são: Qual a coisa mais justa? Fazer um sacrifício. O que é mais sábio? O número; mas, em segundo lugar, o homem que deu nomes às coisas. Entre nós, qual é a coisa mais sábia? A medicina. Qual a mais bela? A harmonia. Qual é a mais poderosa? O conhecimento. Qual a melhor? A felicidade. Que de mais verdadeiro há no que se diz? Que os homens são perversos».

Iâmblico (Vita Pythagorae).


«A maioria dos historiadores e filósofos modernos não têm notado que, na Grécia, foram raras as perseguições aos filósofos e que elas jamais saíram dos templos e sim dos meios políticos. A civilização helénica não conheceu a guerra entre os sacerdotes e os filósofos, a qual tem desempenhado um grande papel na nossa, desde a destruição do esoterismo cristão, no segundo século da nossa era. Tales pôde ensinar, tranquilamente, que o mundo provém da água. Heraclito dizia que o mundo sai do fogo. Anaxágoras afirmava que o Sol é massa de fogo incandescente. Demócrito pretendia que tudo vem dos átomos. Nenhum templo se inquietou com essas afirmativas. Nos templos, os sacerdotes sabiam disso e de mais alguma coisa. Sabiam que os negadores dos deuses não podiam destruí-los na consciência nacional. Os verdadeiros filósofos acreditavam nos deuses, à maneira dos iniciados, e viam neles os símbolos das grandes categorias da hierarquia espiritual, do divino que penetra toda a Natureza, do invisível governando o visível. A doutrina esotérica servia de laço entre a verdadeira filosofia e a verdadeira religião. Esse era o facto profundo, primordial, afinal, que explica o secreto entendimento entre ambas na civilização helénica».

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados»).


«É sabido, disse eu [Sócrates], que assim como os olhos foram moldados para a astronomia, assim também os ouvidos foram formados para a harmonia, e que estas ciências são irmãs, tal como afirmam os Pitagóricos e nós, ó Gláucon, com eles concordamos».

Platão («Politeia» 530d).


«Anaxágoras de Clazómenas, filho de Hegesibulo, sustentava que os primeiros princípios das coisas eram as homeomerias. Pois parecia-lhe completamente impossível que alguma coisa se originasse a partir do não-existente ou nele se dissolvesse. De qualquer forma, nós tomamos alimentos que são simples e homogéneos, tais como pão ou água, e com estes se alimentam os cabelos, as veias, as artérias, a carne, os tendões, os ossos e todas as outras partes do corpo. Sendo assim, temos que concordar que tudo o que existe está nos alimentos que tomamos, e nesses alimentos algumas partes que produzem o sangue, outras os tendões, outras os ossos, etc. - partes que só a razão pode apreender. Pois não há necessidade de referir à percepção dos sentidos o facto de o pão e a água produzirem todas estas coisas; antes, existem no pão e na água partes que só a razão pode apreender».

Écio (in G. S. Kirk, J. E. Raven e M. Schofield, «Os Filósofos Pré-Socráticos»).





«Estes dois, porém, diferem entre si, no que Empédocles imagina ser um ciclo de tais mudanças, e Anaxágoras uma única série. Além disso, Anaxágoras postulava uma infinidade de princípios, nomeadamente, as substâncias homeoméricas e, conjuntamente, os contrários, ao passo que Empédocles postula apenas os chamados "elementos". A teoria de Anaxágoras, de que os princípios são em número infinito, foi provavelmente devida à sua aceitação da opinião comum dos físicos, de que nada nasce do não-ser. Pois esta é a razão pela qual eles usam a frase "todas as coisas estavam juntas", e porque o nascimento desta ou daquela espécie de coisas se reduz a uma mudança de qualidade, ao passo que, outros falam de combinação e separação. Além disso, o facto de os contrários provirem uns dos outros levou-os à mesma conclusão. Um, raciocinavam eles, deve ter existido no outro; pois, uma vez que tudo o que nasce deve surgir quer do que é quer do que não é (neste ponto todos os físicos estão de acordo), eles pensavam que se seguia necessariamente a verdade da alternativa, nomeadamente, que as coisas nascem a partir de coisas que existem, isto é, de coisas já presentes, mas imperceptíveis para os nossos sentidos em virtude da pequenez do seu tamanho. Assim, afirmam eles que todas as coisas estão misturadas em tudo, porque viam que tudo procedia de tudo. Mas as coisas, como eles dizem, parecem diferentes umas das outras e recebem nomes diferentes, consoante a natureza da coisa que é numericamente predominante entre os inúmeros constituintes da matéria. Pois nada, afirmam eles, é pura e inteiramente branco ou preto ou doce ou carne ou osso, mas consideravam que a natureza de uma coisa é a daquilo que ela contém em maior quantidade».

Aristóteles (Physis).


«Dos que escreveram um único livro, fazem parte Melisso, Parménides e Anaxágoras».

Diógenes Laércio (in G. S. Kirk, J. E. Raven e M. Schofield, «Os Filósofos Pré-Socráticos»).





Fédon ou da imortalidade da alma

Sócrates - (...) Quando eu era jovem sentia um extraordinário desejo de conhecer aquela ciência que dá pelo nome de investigação da história da natureza. Pensava ser excelente conhecer as causas de todas as coisas, porque é que elas nascem, perecem e subsistem! E muitas vezes divagava a minha mente examinando questões como esta: É em virtude de uma espécie de putrefacção, na qual participam o quente e o frio, que como alguns afirmam, se formam os seres vivos? E por meio do sangue que pensamos, ou devido ao ar ou ao fogo? Ou não será por intermédio destes factores, mas é sim o cérebro que produz as sensações auditivas, visuais e olfactivas, das quais resultariam a memória e a imaginação, e destas, depois de consolidadas, a ciência? Além do mais, examinava também as causas da corrupção e os fenómenos do céu e da terra, até que acabei por considerar-me totalmente inapto para um tal estudo. Dar-te-ei uma prova que te bastará. Havia conhecimentos que antes possuía de modo seguro, ou que pelo menos a mim e a outros assim parecia. Em consequência desta investigação, tornei-me tão cego que desaprendi até quanto julgava saber, em particular, a causa do crescimento humano. Pensava antes que a resposta era óbvia, que a causa é o comer e o beber. Porque juntando-se através dos alimentos, carnes a carnes, ossos a ossos e, na mesma proporção, as demais substâncias às suas conaturais, resultava que uma massa pouco volumosa se tornava logo maior; assim um homem fazia-se grande. Assim pensava eu. Não te parece razoável?

- Sim -, respondeu Cebes.

- Escuta ainda mais este facto. Eu pensava estar certo, quando, na presença de um homem alto junto de outro baixo, aquele me parecia ser maior que este, pela altura da cabeça, e o mesmo de um cavalo em relação a outro. Mais claramente: 10 parecia-me mais do que 8, por a 8 terem adicionado 2; e dois côvados, mais do que um côvado, porque o excede em metade da sua extensão.




- E agora - indagou Cebes - que pensas tu sobre isso?

- Por Zeus - respondeu - estou longe de supor que conheço as causas dessas coisas, pois nem me atrevo a dizer, quando a uma unidade adicionamos outra, se é a unidade, a que a outra se adicionou que se tornou em 2, ou se é a unidade adicionada e aquela a que se adicionou, que consequentemente se tornaram em 2. Fico com efeito surpreendido: quando ambas existiam separadas, cada uma era unidade e não 2; mas após se terem aproximado, a justaposição foi a causa que as fez passar ao 2, quer dizer a junção resultante da sua mútua aproximação. E tão pouco me posso persuadir, que quando se fracciona uma unidade, seja esse fraccionamento a causa de haver 2; pois a causa que antes produzia 2 resulta contrária à anterior. No primeiro caso, a razão era a proximidade e adição de duas unidades e agora, o seu afastamento e separação uma da outra. Quanto a saber qual a causa da produção da unidade, estou longe da convicção de a saber, nem em suma, alguma outra coisa, porque aparece, desaparece ou existe, de acordo com este método; mas há outro método de investigação que busco sem orientação, já que de modo algum sigo o anterior.

Ouvindo, em certa ocasião, ler um livro, segundo me disseram, de Anaxágoras, onde se atribuía ao espírito a ordenação e a causa de todas as coisas, regozijei-me por isso e pareceu-me que, de certo modo era vantajoso ser o espírito a causa de tudo. Sendo assim, pensava eu, o espírito ordenador há-de ter disposto cada coisa no lugar mais conveniente. E se alguém quiser encontrar, para cada coisa, a causa porque nasce, perece, ou subsiste, deve investigar, acerca dela, o seu modo de existir, de ser paciente ou agente. Portanto, segundo este argumento, nada de mais interessante deve um homem investigar, a este respeito, a não ser o que é mais perfeito e excelente. E assim é forçoso que conheça também o pior, pois são ambos objecto do mesmo conhecimento. Estas reflexões foram para mim um motivo de júbilo, convicto de ter descoberto em Anaxágoras um mestre, como convinha ao meu espírito, capaz de me ensinar, sobre a causa dos seres, e que me faria compreender primeiro, se a terra é plana ou redonda; de seguida, expor-me-ia a causa e a necessidade da sua forma, declarando-me qual a preferível e porque era melhor que ela fosse de tal ou tal forma. E se afirmasse que estava no centro, explicar-me-ia a vantagem disso. Se me demonstrasse tudo isto, estava disposto a não buscar outro género de causa. E também estava disposto a informar-me do sol, da lua e demais astros, de suas relativas velocidades, revoluções e demais fenómenos, investigando as vantagens de cada um produzir ou padecer essas vicissitudes, do modo como as produz ou padece. Jamais teria suposto que, afirmando que tudo isso havia sido ordenado pelo espírito, lhes atribuísse outra causa, que não a de o melhor modo de elas serem, é serem como são. Julgava que ao atribuir tal causa a cada um desses seres e a todos em geral, explicaria o que é melhor para cada um em particular e o bem comum a todos. Não abandonando essa esperança, com que ardor, devorei o livro o mais depressa que pude, a fim de conhecer, com a máxima brevidade, o melhor e o pior.

Porém, da minha sedutora esperança, meu amigo, saí defraudado, quando, ao avançar na leitura, via diante de mim um homem que não se importava com o espírito, nem lhe atribuía a causa da ordem das coisas, alegando pelo contrário, o ar, o éter, a água e outras causas absurdas. Pareceu-me o seu caso semelhante ao de quem asseverasse que Sócrates executa todas as acções com o seu espírito, de seguida explicando as causas dos meus actos, nos seguintes termos: que estou aqui sentado, porque o meu corpo se compõe de ossos e de músculos; que os ossos são sólidos e separados uns dos outros por articulações, enquanto os músculos, cuja propriedade é a de se contraírem e distenderem, rodeiam os ossos com a carne e a pele que mantém o conjunto. É assim que, ao moverem-se os ossos nas suas articulações, a distensão e contracção dos músculos, tornam-me capaz de dobrar os membros, razão pela qual estou aqui sentado com os joelhos dobrados. Caso se tratasse da nossa conversa, alegaria causas análogas: os sons, o ar, o ouvido e milhares de coisas deste género, descurando a verdadeira causa, ou seja, que uma vez que aos Atenienses lhes pareceu melhor condenarem-me, por essa razão, me pareceu melhor e mais justo ficar aqui sentado, aguardando a execução da pena que me infligiram. Porque, pelo Cão, se não me engano, há já muito tempo que estes músculos e ossos estariam em Mégara, ou na Beócia, transportados pela ideia do melhor, se não estivesse convicto de ser mais justo e excelente, preferir à fuga e à evasão, a aceitação da pena imposta pela Cidade. Chamar, portanto, causas a semelhantes coisas é um claro absurdo. Se alguém afirmasse que eu não seria capaz de realizar os meus desígnios, sem possuir ossos, músculos e o que de mais possuo, falaria verdade. Mas afirmar que é por essa causa, que pratico os meus actos e que, o faço com o meu espírito, mas não pela eleição do que é melhor, seria um enorme abuso de linguagem. Isso traduz, em suma, a incapacidade de distinguir a verdadeira causa, daquela sem a qual a causa jamais poderia ser causa, ao que o vulgo, às apalpadelas, denomina impropriamente como sendo uma causa real. Em consequência, um turbilhão envolve a Terra, quer seja o céu a mantê-la; outro, coloca-lhe por debaixo o ar, como base e suporte, como a uma enorme gamela. Mas quanto ao poder, em virtude do qual estas coisas se encontram agora dispostas do melhor modo para elas, não o buscam, nem lhe atribuem uma força divina; julgam antes poder descobrir um novo Atlas mais poderoso e imortal, que melhor suporte todas as coisas, não pensando que é de verdade o bem e o dever o que as une e mantém coesas entre si. Eu, com muita alegria me tornaria discípulo de quem quer que me instruísse acerca de tal causa. Visto, porém, terem a este respeito falhado as minhas diligências, e não ter sido capaz de a encontrar nem de a aprender de outrem, desejas Cebes, que te faça uma descrição da minha segunda viagem em busca dessa causa?




- Desejo-o com todo o meu coração - respondeu Cebes.

- Depois disto - retomou ele - e uma vez que me tinha desiludido da investigação dos seres, decidi que devia acautelar-me, para que não me sucedesse o mesmo que aos que contemplam e observam um eclipse do sol, pois alguns chegam a perder a vista, a não ser que na água ou em algum outro meio semelhante observem a sua imagem.  Pensava em qualquer coisa desta natureza, com medo de ficar completamente cego da alma, por olhar directamente as coisas com os olhos e tentar percebê-las pelos sentidos. Pareceu-me então que me devia refugiar nas ideias, e ver nelas a verdadeira essência dos seres. Talvez seja verdade que a minha comparação, em certo aspecto, não seja exacta, pois não sem reserva, admiro que quem vê os seres nas ideias, os contempla mais em imagens, do que os examina nos factos do dia a dia. Lancei-me pois por esta via, e tomando cada vez por base, a ideia que julgava mais segura, tudo o que se me afigurava consonante com ela, quer causa, quer tudo o mais, considerava verdadeiro; tudo em que faltava esta consonância, entendia como falso. Porém, quero expor-te com mais clareza o meu pensamento, pois creio que ainda o não compreendes.

- Não, por Zeus - afirmou Cebes - não de todo.

- Todavia - continuou Sócrates - nada digo de novo, mas apenas o que na argumentação de há pouco, não deixei de dizer. Vou então tentar explicar-te a espécie de causa que procurei com afã, voltando às asserções tantas vezes repetidas, tomando como ponto de partida e base, a existência do belo em si e por si, do bom, do grande, e de tudo o mais. Se me concedes e admites a existência disto, espero a partir delas, mostrar-te qual seja a causa, que prova que a alma é imortal.

- Está bem - afirmou Cebes - concedo-to, não vaciles em prosseguir.

- Verifica então comigo - continuou Sócrates - se partilhas do próximo passo. É com efeito para mim evidente, que se alguma coisa bela existe além do belo em si, não será bela por nenhum outro motivo, senão porque participa desse belo. E o mesmo digo das demais qualidades. Admites esta espécie de causa?

- Admito - afirmou.

- Então - prosseguiu Sócrates - aqueloutras causas sábias, não compreendo nem posso reconhecer; se alguém me disser que uma coisa é bela, por virtude do brilho da sua cor, da sua forma, ou qualquer outro aspecto análogo, ponho de parte todas essas explicações, que me causam confusão, e agarro-me com uma simplicidade talvez ingénua, à ideia de que nada mais a torna bela senão o belo em si, por presença ou participação, seja por qualquer outro meio (sobre o modo como tal sucede, ainda não posso precisar, a não ser que todas as coisas belas recebem do belo a sua beleza). Penso que esta é a resposta mais segura, que me posso dar e aos outros; e fincando-me  neste princípio, creio que jamais arriscarei passos em falso e que poderei assegurar a toda a gente, que é graças ao belo que são belas as coisas belas! Não te parece o mesmo?

- Sim, parece-me.

- Ora, não concordas que as coisas grandes são grandes e as maiores, por causa da grandeza, assim como pela pequenez as mais pequenas, são mais pequenas?

- Concordo.

- Logo, não admitirias que alguém dissesse que tal homem é mais alto que outro pela sua cabeça, ou menor pela mesma razão, mas manterias o teu testemunho de que não afirmas nada mais que, toda a coisa maior do que outra, o é somente pela grandeza, e que de facto é maior por essa causa; e que o que é menor, por nenhuma outra coisa o é, a não ser pela pequenez, a que deve ser mais pequena. E creio, se sustentasses que alguém é maior ou mais pequeno por causa da cabeça, não deixarias de recear objecções como: primeiro, pelo mesmo motivo seja o maior, maior e o menor, menor; depois, que é graças à cabeça, ainda que pequena, que um homem maior é maior, - o que seria prodigioso que alguém pudesse ser grande, por algo tão pequeno. Não temerias tal objecção?



- Cebes, rindo, retorquiu:

- Eu sim.

- Não recearias também dizer - prosseguiu Sócrates - que 10 tem 2 a mais que 8, e que por esta razão o ultrapassa, e não por causa e por meio da quantidade? E também que o duplo côvado exceda pela metade um côvado, e não na e por causa da grandeza? Pois o caso é idêntico.

- É indubitável - respondeu Cebes.

- E então? Não te guardarias de dizer que, na adição de uma unidade a outra, a adição era a causa da produção do 2, ou que era a divisão, no caso de a dividirmos? E não proclamarias em altos brados, que desconheces outra causa da existência de cada coisa, a não ser por participação da própria essência de cada realidade, da qual deve participar? E que nestes casos não encontras outra causa para alegar o aparecimento do 2, senão a participação na dualidade, da qual necessariamente participa o que deve ser 2, bem como pela participação na unidade o que deve ser 1? Quanto às divisões, adições e demais subtilezas, deixá-las-ia para homens mais sábios que tu. Tu, temeroso, segundo o que foi dito, da tua própria sombra e incompetência, agarrando-te à segurança deste princípio, darias uma resposta semelhante. E se alguém o atacasse, lhe darias atenção e não lhe responderias até teres examinado se as consequências derivadas deste, concordavam ou discordavam entre si; e quando te fosse necessário dar razão do princípio, fá-lo-ias do mesmo modo, tomando como princípio básico um outro - até chegares a um resultado satisfatório. Entretanto, não confundirias, como os sofistas, discorrendo acerca do princípio e das suas consequências, se pretendes descobrir a realidade das coisas. Eles são tão inteligentes, que não têm provavelmente a esse respeito, qualquer pensamento ou preocupação, sentindo-se felizes com essa sabedoria que tudo mistura, com isso se contentando consigo mesmos. Mas, tu, se de verdade és filósofo, creio que deixarás de proceder como digo.

- É certíssimo o que dizes - afirmaram em simultâneo Símias e Cebes.

EQUÉCRATES - Por Zeus, Fédon, certamente, eles tinham razão. Parece com efeito, que Sócrates fez uma exposição de maravilhosa clareza, mesmo para um espírito medíocre.

FÉDON - É verdade Equécrates, foi também o que pensaram todos os que lá estiveram (in Fédon, Guimarães Editores, 2003, pp. 125-138).

Continua


sexta-feira, 26 de julho de 2013

O salto mortal do pensamento (ii)

Escrito por Carlos Castaneda 








«...A velhice é, segundo o famoso Índio inventado por Castaneda, o quarto inimigo do guerreiro...».

António Telmo


«MEUS LIVROS SÃO UM RELATO VERDADEIRO DE UM MÉTODO DE ensino que Don Juan Matus, um feiticeiro índio mexicano, usava para me ajudar a compreender o mundo dos feiticeiros. Nesse sentido, meus livros são o relato de um processo contínuo que se torna mais claro para mim à medida que o tempo passa.

(...) Em seu esquema de ensino, o qual foi desenvolvido por feiticeiros de tempos antigos, havia duas categorias de instrução. Uma era chamada de "ensinamentos para o lado direito", desenvolvida no estado normal da consciência. A outra era chamada de "ensinamentos para o lado esquerdo", posta em prática apenas em estados de consciência intensificada.

Essas duas categorias permitiam que os mestres ensinassem a seus aprendizes em três áreas de habilidades: a mestria da consciência, a arte da espreita e a mestria do intento.

Essas três áreas de habilidade são os três enigmas que os feiticeiros encontram em sua busca ao conhecimento.

A mestria da consciência é o enigma da mente; a perplexidade que os feiticeiros experimentam quando reconhecem o mistério espantoso e o alcance da consciência e da percepção. 

A arte da espreita é o enigma do coração; a perplexidade que os feiticeiros sentem ao se tornarem conscientes de dois factos; primeiro, que o mundo parece para nós inalteravelmente objectivo e factual, por causa das peculiaridades de nossa consciência e percepção; segundo, que, se diferentes peculiaridades de percepção entram em jogo, as mesmas coisas desse mundo que parecem tão inalteravelmente objectivas e factuais mudam.

A mestria do intento é o enigma do espírito, ou o paradoxo do abstracto - os pensamentos e acções dos feiticeiros projectados além da nossa condição humana.

A instrução de Don Juan quanto à arte da espreita e à mestria do intento dependia de sua instrução sobre a mestria da consciência, que era a pedra fundamental de seus ensinamentos e que consistia nas seguintes premissas básicas:

1. O universo é uma aglomeração infinita de campos de energia, semelhantes a filamentos de luz.

2. Esses campos de energia, chamados de "emanações da Águia", irradiam de uma fonte de proporções inconcebíveis, metaforicamente denominada Águia.

3. Os seres humanos também são compostos de um número incalculável desses mesmos campos de energia em forma de filamentos. Essas emanações da Águia formam uma aglomeração encapsulada que se manifesta como uma esfera de luz do tamanho do corpo da pessoa com os braços estendidos lateralmente, como um ovo luminoso gigantesco.

4. Apenas um grupo muito pequeno de campos de energia no interior dessa esfera luminosa é aceso por um ponto de brilho intenso localizado na superfície da esfera.




5. A percepção ocorre quando os campos de energia desse pequeno grupo imediatamente ao redor do ponto de brilho estendem sua luz para iluminar campos de energia idênticos no exterior da esfera. Uma vez que os únicos campos de energia perceptíveis são aqueles iluminados pelo ponto brilhante, esse ponto é chamado de "o ponto onde a percepção é aglutinada", ou simplesmente "o ponto de aglutinação".

6. O ponto de aglutinação pode ser movido de sua posição usual sobre a superfície da esfera luminosa para outra posição na sua superfície ou no seu interior. Uma vez que o brilho do ponto de aglutinação pode iluminar qualquer campo de energia com o qual entre em contacto, quando se move para uma nova posição ele ilumina de imediato novos campos de energia, tornando-os perceptíveis. Essa percepção é conhecida como ver.

7. Quando o ponto de aglutinação se desloca, torna possível a percepção de um mundo inteiramente diferente - tão objectivo e factual como aquele que normalmente percebemos. Os feiticeiros entram nesse outro mundo para obter energia, poder, soluções para problemas gerais e particulares, ou para encarar o inimaginável.

8. Intento é a força penetrante que nos faz perceber. Não nos tornamos conscientes porque percebemos; antes, percebemos como resultado da pressão e intrusão do intento.

9. O objectivo dos feiticeiros é atingir um estado de consciência total, de modo a experimentar todas as possibilidades de percepção disponíveis ao homem. Esse estado de consciência contém até uma maneira alternativa de morrer.

Carlos Castaneda («O Poder do Silêncio»).




O salto mortal do pensamento

Quando ouço as palavras - manifestou-se Don Juan quando terminei de ler -, sinto que aquele homem está vendo a essência das coisas e posso ver com ele. Não me importo sobre o que seja o poema. Importo-me apenas sobre o sentimento que os anseios do poeta trazem até mim. Tomo emprestado seus anseios, e com eles aproprio-me da beleza. E me maravilho diante do facto de que ele, como um verdadeiro guerreiro, ofereça generosamente tudo isso às pessoas, retendo para si mesmo apenas sua ansiedade. Esse golpe, esse choque de beleza, é espreitar.

Eu estava muito comovido. A explicação do Don Juan tocara uma corda estranha em mim.

- Diria, Don Juan, que a morte é o único inimigo real que temos? - perguntei-lhe um momento depois.

- Não - respondeu com convicção. - A morte não é um inimigo, embora cause essa impressão. A morte não é nosso destruidor, embora pensemos que seja.

- O que é, então, senão destruidor?





- Os feiticeiros consideram a morte como o único oponente valoroso que temos. A morte é nosso desafiante. Nascemos para aceitar esse desafio, homens comuns ou feiticeiros. Os feiticeiros têm consciência disso: os homens comuns não.

- Eu pessoalmente diria, Don Juan, que a vida, e não a morte, é desafio.

- A vida é o processo pelo qual a morte nos desafia - disse ele. - A morte é a força activa. A vida é a arena. E nessa arena há apenas dois contendores em qualquer época: o próprio indivíduo e a morte.

- Eu pensaria, Don Juan, que nós, seres humanos, somos os desafiantes.

- De maneira alguma - retorquiu ele. - Somos passivos. Pense a respeito. Se nos movemos, é apenas quando sentimos a pressão da morte. A morte estabelece o ritmo de nossas acções e nossos conhecimentos, e empurra-nos incansavelmente até que nos derrota e ganha a luta, ou então nos elevamos acima de todas as possibilidades e derrotamos a morte.

"Os feiticeiros derrotam a morte, e a morte reconhece a derrota, deixando que os feiticeiros partam livres, para nunca mais serem desafiados."

- Isso significa que os feiticeiros se tornam imortais?

- Não. Não é isso - replicou ele. - A morte deixa de desafiá-los. Isso é tudo.

- Mas o que significa isso, Don Juan?

- Significa que o pensamento deu um salto mortal para o inconcebível.

- O que é um salto mortal do pensamento para o inconcebível? - perguntei tentando não soar beligerante. - O problema que você e eu temos é que não partilhamos dos mesmos significados.

- Você não está sendo verdadeiro - interrompeu Don Juan. - Você compreende o que quero dizer. Para você, pedir uma explicação racional para "um salto mortal do pensamento para o inconcebível" é ridículo. Você sabe exactamente o que é.

- Não, não sei.

Então percebi que sabia, ou melhor, que intuía o que significava. Havia alguma parte de mim que podia transcender minha racionalidade e compreender e explicar, além do nível de metáfora, um salto mortal do pensamento para o inconcebível. O problema era que essa parte de mim não era forte o suficiente para emergir à vontade.

Expliquei isso a Don Juan, que riu e comentou que minha consciência era como um ioiô: às vezes subia a um ponto elevado e meu domínio era apurado, enquanto outras vezes descia, e eu me tornava um idiota racional. Mas, durante a maior parte do tempo, pairava numa média baixa onde eu não era nem uma coisa nem outra.




- Um salto mortal do pensamento para o inconcebível - explicou ele com ar de resignação - é a descida do espírito; o acto de quebrar nossas barreiras perceptivas. É o momento no qual a percepção do homem atinge os seus limites. Os feiticeiros praticam a arte de enviar corredores, batedores avançados, para testar nossos limites perceptíveis. Essa é outra razão pela qual gosto de poemas. Tomo-os como batedores avançados. Mas, como lhe disse antes, os poetas não sabem tão exactamente quanto os feiticeiros o que esses batedores avançados podem realizar.

No início, Don Juan disse que tínhamos muitas coisas a discutir e perguntou-me se eu queria sair para uma caminhada. Eu me encontrava num estado mental peculiar. Mais cedo havia notado em mim uma estranha indiferença que ia e vinha. No início pensei que fosse a fadiga física nublando meus pensamentos. Mas meus pensamentos eram cristalinamente claros. Assim fiquei convencido de que meu estranho alheamento era um produto de minha mudança para a consciência intensificada.

Deixámos a casa e demos uma volta ao redor da praça da cidade. Mais que depressa, perguntei a Don Juan sobre minha indiferença, antes que ele tivesse a chance de começar qualquer outra coisa. Explicou isso como uma mudança de energia. Disse que a energia que era extraordinariamente usada para manter a posição fixa do ponto de aglutinação ficara libertada, focalizara-se automaticamente naquele elo de conexão. Assegurou-me que não havia técnicas ou manobras que um feiticeiro pudesse aprender por antecipação para mover a energia de um lugar para outro. Antes, era questão de uma mudança instantânea acontecendo, uma vez que certo nível de proficiência havia sido atingido.

Perguntei-lhe o que era o nível de proficiência. Entendimento puro, respondeu ele. Para atingir esse deslocamento instantâneo de energia, era necessária uma conexão clara com o intento, e para obter uma conexão clara era preciso apenas intentá-la por meio do entendimento puro.

Naturalmente quis que ele explicasse o entendimento puro. Ele riu e sentou-se num banco.

- Vou-lhe contar algo de fundamental sobre feiticeiros e seus actos de feitiçaria - continuou. - Algo sobre o salto mortal do pensamento deles para o inconcebível.




Disse que alguns feiticeiros eram contadores de histórias. Contar histórias para eles não era apenas o batedor avançado que testava os seus limites perceptíveis, mas o seu caminho para a perfeição, para o poder, para o espírito. Ficou em silêncio por um momento, obviamente buscando um exemplo apropriado. Então lembrou-me que os índios yaquis tinham uma colecção de eventos históricos que chamavam "as datas memoráveis". Eu sabia que as datas memoráveis eram relatos orais de sua história como nação, quando estavam em guerra contra os invasores de sua terra: primeiro os espanhóis, depois os mexicanos. Don Juan, ele próprio um yaqui, afirmou enfaticamente que as datas memoráveis eram relatos de suas derrotas e desintegração.

- Assim, o que você diria - perguntou-me -, uma vez que é um homem instruído, sobre um feiticeiro contador de histórias, tomando um relato das datas memoráveis, digamos, por exemplo, a história de Calixto Muni, e mudando o final de modo que, em vez de descrever como Calixto Muni foi amarrado e esquartejado pelos executores espanhóis, que é o que aconteceu, ele contasse uma história de Calixto Muni, o rebelde vitorioso que teve sucesso na libertação de seu povo?

Eu conhecia a história de Calixto Muni. Era um índio yaqui que, de acordo com as datas memoráveis, serviu por muitos anos num navio bucaneiro no mar do Caribe a fim de aprender estratégias de guerra. Então voltou para sua Sonora nativa e conspirou para iniciar um levante contra os espanhóis, declarando uma guerra de independência, apenas para ser traído, capturado e executado.

Don Juan incitou-me a comentar. Contei-lhe que teria de admitir que mudar o relato factual da maneira que ele estava descrevendo seria um recurso psicológico, para expressar os desejos ocultos do feiticeiro contador de histórias. Ou talvez fosse uma maneira pessoal, idiossincrática, de aliviar a frustração. Acrescentei que até mesmo chamaria tal feiticeiro contador de histórias de patriota, porque era incapaz de aceitar a amarga derrota.

Don Juan riu até engasgar.

- Mas não é assunto de um só feiticeiro contador de histórias. Todos eles o fazem - argumentou.

- Então é um instrumento socialmente sancionado para exprimir o desejo oculto de uma sociedade inteira, um meio socialmente aceite de aliviar o stress psicológico de modo colectivo.

- Seu argumento é lisonjeiro, convincente e razoável - comentou. - mas, porque seu espírito está morto, você não consegue ver a falha de seu argumento.

Olhou-me como se me incitando a compreender o que estava dizendo. Eu não tinha comentários, e qualquer coisa que pudesse dizer me teria feito soar mesquinho.




- O feiticeiro contador de histórias que muda o final do relato "factual" - disse ele - o faz sob a direcção e os auspícios do espírito. Por conseguir manipular sua conexão indefinível com o intento, pode efectivamente mudar as coisas. O feiticeiro contador de histórias assinala que intentou isso tirando seu chapéu, colocando-o no solo e fazendo-o girar 360 graus completos em sentido contrário aos ponteiros do relógio. Sob os auspícios do espírito, esse acto simples lança-o no próprio espírito. Ele deixou seu pensamento dar um salto mortal para o inconcebível.

Don Juan levantou o braço acima da cabeça e apontou por um instante para o céu além do horizonte.

Pode ser o seu entendimento puro um batedor avançado testando a imensidão lá fora - continuou Don Juan -, o feiticeiro contador de histórias sabe, sem dúvida, que em algum lugar, de algum modo, naquele infinito, neste exacto momento o espírito desceu. Calixto Muni é vitorioso. Ele libertou seu povo. Seu objectivo transcendeu sua pessoa (in ob. cit., pp. 138-143).


terça-feira, 23 de julho de 2013

O salto mortal do pensamento (i)

Escrito por Carlos Castaneda 






«Ele [Don Juan] observou que cada um de nós era separado do conhecimento silencioso por barreiras naturais, específicas a cada indivíduo; e que a mais impregnável de minhas barreiras era a tendência de disfarçar minha complacência indefinível.

Desafiei-o a dar-me um exemplo concreto. Lembrei-lhe que certa vez me alertara que um tema de discussão favorito era fazer críticas gerais que não podiam ser amparadas por exemplos concretos.

Don Juan olhou-me e sorriu.

-  No passado, costumava dar-lhe plantas de poder - disse ele.

- No início, você foi a extremos para convencer-se a si mesmo de que o que estava experimentando eram alucinações. Depois quis que fossem alucinações especiais. Lembro-me que me diverti com a sua insistência em chamá-las de experiências alucinatórias didácticas.

Ele disse que minha necessidade de provar minha independência ilusória forçara-me a não aceitar que o que ele me dizia estava acontecendo, embora eu soubesse disso, silenciosamente, por mim mesmo. Eu sabia que ele estava empregando plantas de poder, apesar de serem instrumentos muito limitados, para fazer-me entrar em estados parciais ou temporários de consciência intensificada, ao mover meu ponto de aglutinação de sua localização habitual.

- Você usou sua barreira de independência para explicar a si mesmo suas experiências com as plantas de poder. A mesma barreira continua a funcionar até hoje, de modo que você ainda conserva essa sensação de angústia indefinida, talvez não tão pronunciada. Agora a pergunta é: como você está organizando suas conclusões de modo que suas experiências actuais se encaixem em seu esquema de complacência?

Confessei que a única maneira pela qual eu conseguia manter minha independência era não pensando de maneira alguma sobre as minhas experiências.

A gargalhada de Don Juan fê-lo cair de sua cadeira de vime. Levantou-se e caminhou ao redor para recuperar o fôlego. Sentou-se outra vez e se compôs. Empurrou a cadeira para trás e cruzou as pernas.

Disse que nós, como homens comuns, não sabíamos, nem jamais iríamos saber, que havia algo inteiramente real e funcional - nosso elo de ligação com o intento - que produz nossa preocupação ancestral com o destino. Assegurou que, durante as nossas vidas activas, nunca temos a chance de ir além do nível da mera preocupação, porque desde tempos imemoriais a rotina dos afazeres diários nos entorpeceu. É apenas quando nossas vidas quase se encontram por terminar que essa preocupação ancestral com o destino assume um carácter diferente. Começa a fazer-nos ver através da névoa das ocupações diárias. Infelizmente, esse despertar sempre vem de mãos dadas com a perda de energia causada pelo envelhecimento, quando não temos mais força para transformar nossa preocupação em descoberta pragmática e positiva. Nesse ponto, tudo o que permanece é uma angústia amorfa e penetrante, um desejo por algo indescritível e simples raiva por haver perdido tudo.

- Gosto de poemas por muitas razões - disse ele. - Uma delas é que os poemas captam o humor dos guerreiros e explicam o que dificilmente pode ser explicado.




Segundo ele, os poetas eram profundamente conscientes de nosso elo de ligação com o espírito, mas que essa consciência era intuitiva, não do modo deliberado e pragmático dos feiticeiros.

- Os poetas não têm conhecimento directo do espírito - continuou. - É por isso que seus poemas não podem realmente atingir o centro dos gestos verdadeiros para o espírito. No entanto, chegam muito perto».

Carlos Castaneda («O Poder do Silêncio»).




O salto mortal do pensamento

Entrámos em sua casa por volta das sete horas da manhã, em tempo para o desjejum. Eu estava faminto, mas não cansado. Tínhamos deixado a caverna para descer até o vale ao amanhecer. Dom Juan, em vez de seguir a rota mais directa, fez uma volta grande que nos levou ao longo do rio. Explicou que tínhamos de recuperar nossas capacidades mentais antes que voltássemos para casa.

Respondi que era muito gentil de sua parte dizer "nossas capacidades", quando eu era o único cujas capacidade estavam desordenadas. Mas ele replicou que estava agindo não por gentileza, mas pelo treino do guerreiro. Um guerreiro, disse, estava em guarda permanente contra a aspereza do comportamento humano. Um guerreiro era mágico e implacável, um dissidente com o gosto e as maneiras mais refinados, cuja tarefa mundana era afiar, ainda que disfarçadamente, suas bordas cortantes, de modo que ninguém fosse capaz de suspeitar de sua implacabilidade.

Depois do desjejum, pensei que seria bom dormir um pouco, mas Don Juan argumentou que eu não tinha tempo a desperdiçar. Disse que em breve eu perderia o pouco de clareza que possuía e, se fosse dormir, a perderia toda.

- Não é necessário um génio para deduzir que dificilmente há algum modo de falar sobre o intento - disse rapidamente, enquanto me perscrutava da cabeça aos pés -, mas fazer essa afirmação nada significa. Essa é a razão por que os feiticeiros apoiam-se em histórias de feitiçaria. E a esperança deles é que, algum dia, os cernes abstractos das histórias venham a fazer sentido para o ouvinte.

Entendi o que ele estava dizendo, mas ainda não conseguia conceber o que era um cerne abstracto ou o que deveria significar para mim. Tentei pensar a respeito. As imagens passavam com rapidez através de minha mente, não me deixando tempo para pensar a respeito delas. Não conseguia sequer desacelerá-las o suficiente para reconhecê-las. Por fim, a raiva tomou conta de mim e dei um murro na mesa.

Don Juan sacudiu-se da cabeça aos pés, engasgando-se de tanto rir.

- Faça o que fez a noite passada - incentivou-me, piscando. - Diminua sua velocidade.

Minha frustração tornou-me muito agressivo. Logo apresentei alguns argumentos absurdos; então tive consciência do meu erro e me desculpei por minha falta de limite.




- Não se desculpe - disse ele. - Devo dizer-lhe que a compreensão que está buscando é impossível neste momento. Os cernes abstractos das histórias de feitiçaria nada significam para você agora. Mais tarde, quero dizer daqui a alguns anos, poderão fazer sentido perfeito para você.

Implorei a Don Juan que não me deixasse no escuro, que discutisse os cernes abstractos. Não estava sendo claro para mim o que ele queria que eu fizesse com eles. Assegurei-lhe que meu estado de consciência intensificada actual poderia ser de grande ajuda para mim, permitindo-me compreender sua discussão. Incentivei-o a se apressar, pois eu não podia garantir quanto tempo esse estado iria durar. Avisei-o de que em breve voltaria ao meu estado normal e me tornaria um idiota maior do que era naquele momento. Disse-o meio de brincadeira. Seu riso revelou-me que ele o tomara como tal, mas fiquei profundamente afectado pelas minhas próprias palavras. Uma tremenda sensação de melancolia invadiu-me.

Do Juan segurou suavemente meu braço, puxou-me para uma poltrona confortável e então sentou-se diante de mim. Fitou fixamente os meus olhos, e por um momento fui incapaz de quebrar a força de seu olhar.

- Os feiticeiros espreitam-se a si mesmos constantemente - comentou numa voz reconfortadora, como se tentando acalmar-me com o som da sua voz.

Desejei dizer que meu nervosismo havia passado e que provavelmente havia sido causado pela falta de sono, mas ele não me permitiu dizer alguma coisa. Assegurou-me de que já me havia ensinado tudo o que tinha para saber sobre a espreita, mas eu ainda não recuperara meu conhecimento da profundeza da consciência intensificada, onde o tinha armazenado. Disse-lhe que sentia a desagradável sensação de estar bloqueado. Parecia haver alguma coisa trancada dentro de mim, que me fazia bater portas e chutar mesas, que me frustrava e me tornava irascível.

- Essa sensação de estar bloqueado é experimentada por todo o ser humano. É um lembrete da existência de nossa conexão com o intento. Para os feiticeiros, essa sensação é ainda mais aguda, precisamente porque o seu objectivo é sensibilizar seu elo de conexão até que possam fazê-lo funcionar à vontade.

"Quando a pressão de seu elo de conexão é grande demais, os feiticeiros aliviam-na espreitando-se a si mesmos".




- Ainda acho que não compreendo o que quer dizer por espreitar - disse eu. - Mas em certo nível penso que sei exactamente o que quer dizer.

- Tentarei ajudá-lo a esclarecer o que sabe, então. Espreitar é um procedimento muito, muito simples. Espreitar é um comportamento especial que segue certos princípios. É um comportamento secreto, furtivo, ilusório, designado a provocar um choque. E quando você se espreita a si mesmo, você se choca a si mesmo, usando seu próprio comportamento de um modo implacável e astucioso.

Explicou que, quando a consciência de um feiticeiro ficava enredada pelo peso de suas aquisições perceptivas, o que estava acontecendo comigo, o melhor, ou talvez o único remédio, era usar a ideia da morte para proporcionar esse choque de espreita.

- A ideia da morte, portanto, é de importância monumental na vida de um feiticeiro - continuou Don Juan. - Mostrei-lhe coisas inumeráveis a respeito da morte para convencê-lo de que o conhecimento de nosso fim iminente e inevitável é o que nos dá sobriedade. Nosso engano mais custoso como homens comuns é ceder à ideia de que somos imortais. É como se acreditássemos que, não pensando a respeito da morte, nos podemos proteger dela.

- Precisa concordar, Don Juan, que não pensar sobre a morte com certeza nos protege de nos preocuparmos com ela.

- Sim, isso serve a tal propósito, mas esse propósito não tem valor para os homens comuns e representa uma caricatura para os feiticeiros. Sem uma visão clara da morte, não há ordem, nem sobriedade, nem beleza. Os feiticeiros lutam para conquistar essa revelação crucial, de modo a ajudá-los a perceber no nível mais profundo possível que eles não têm nenhuma garantia sequer de que suas vidas continuarão além do momento. Essa realização dá aos feiticeiros a coragem para serem pacientes e no entanto agirem, coragem de serem complacentes sem serem estúpidos.

Don Juan fixou seu olhar em mim, sorriu e balançou a cabeça.

- Sim - continuou ele -, a ideia da morte é a única coisa que pode dar coragem aos feiticeiros. Estranho, não é? Dá aos feiticeiros a coragem de serem astutos sem serem presunçosos e, acima de tudo, dá-lhes a coragem de serem implacáveis sem serem convencidos.



Sorriu outra vez e cutucou-me. Disse-lhe que estava absolutamente aterrorizado pela ideia da minha morte, que pensava a respeito com frequência, mas que certamente isso não me dava coragem ou me incentivava a agir. Apenas me tornava cínico ou fazia com que eu caísse em estado de profunda melancolia.

- Seu problema é muito simples - disse ele. - Você fica facilmente obcecado. Estive-lhe dizendo que os feiticeiros se espreitam a si mesmos para quebrar o poder de suas obsessões.  Há muitas maneiras de se espreitar a si mesmo. Se não deseja usar a ideia de sua morte, use os poemas que lê para mim.

- Como disse, Don Juan?

- Disse-lhe que há muitas razões pelas quais gosto de poemas. O que eu faço é espreitar-me a mim mesmo com eles. Provoco um choque em mim com eles. Escuto e, enquanto você lê, interrompo meu diálogo interno e deixo meu silêncio interior ganhar impulso. Então a combinação do poema e do silêncio desfecha o golpe.

Explicou que os poetas inconscientemente anseiam pelo mundo dos feiticeiros. Por não serem feiticeiros no caminho do conhecimento, os anseios são tudo o que têm.

- Vamos ver se você pode sentir sobre o que estou falando - disse, estendendo-me um livro de poemas de José Gorostiza. Abri-o na página marcada, e ele apontou o poema de que gostava.


... este incessante morrer obstinado,
esta morte vivente,
que te retalha, ó Deus,
em tua rigorosa obra
nas rosas, nas pedras,
nos astros indomáveis
e na carne que se queima,
como uma fogueira acesa por uma música,
um sonho,
um matiz que atinge o olho.

... e tu, tu próprio,
talvez tenhas morrido eternidades de eras aí fora,
sem que saibamos a respeito,
nos refugos, migalhas, cinzas de ti;
tu que ainda estás presente,
como um astro imitado por sua própria luz,
uma luz vazia sem astros
que nos alcança,
escondendo
sua infinita catástrofe.


José Gorostiza


(In O Poder do Silêncio, Nova Era, 13.ª edição, 2010, pp. 133-138).


Continua


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Os Sete Pilares da Sabedoria (ii)

Escrito por Thomas Edward Lawrence 






«(...) No rebordo limpo pela água e fragrante desnudei o meu corpo sujo e entrei na pequena bacia, a fim de saborear finalmente a frescura do ar em movimento e da água sobre a minha pele fatigada. Era deliciosamente fresca. Deixei-me ficar quieto, deixando que a água límpida, de um vermelho-escuro, corresse sobre mim, dividida em pequenas estrias, levando consigo a poeira da viagem. Enquanto ali descansava, feliz, um homem esfarrapado, de barba grisalha, com um rosto esculpido, cheio de força e de cansaço, avançou lentamente pelo caminho até chegar diante da fonte e aí se deixou cair com um suspiro em cima das minhas roupas estendidas sobre uma pedra, ao lado do caminho, para que o calor do Sol expulsasse os parasitas nelas reunidos.

Ouviu-me e inclinou-se para a frente, espreitando com os olhos ramelosos aquela coisa branca que se banhava na concavidade por detrás do véu de neblina do calor. Ao fim de uma longa observação, pareceu ficar satisfeito, e fechou os olhos, resmungando: "O amor vem de Deus, é de Deus e é para Deus".

As suas palavras, ditas em voz baixa, ressoaram distintamente dentro da minha piscina, por qualquer razão acústica. Fizeram-me parar subitamente. Eu pensava que os Semitas eram incapazes de utilizar o amor como elo entre eles e Deus, até mesmo incapazes de conceberem uma tal relação, excepto com a intelectualidade de Espinoza, que amava tão racional e assexuadamente, e tão transcendentalmente, que não procurava, e nem sequer permitia, uma retribuição. O cristianismo parecera-me o primeiro credo a proclamar o amor neste mundo superior, do qual o deserto e os Semitas (de Moisés a Zeno) tinham sido excluídos; e o cristianismo era um produto híbrido, excepto quanto à sua primeira raiz não essencialmente semítica.

O seu nascimento na Galileia salvara-o de ser apenas uma das mais inúmeras revelações dos Semitas. A Galileia era a província não semita da Síria e o contacto com ela era quase impuro para o perfeito judeu. Como a Whitechapel em relação a Londres, era alheia a Jerusalém. Cristo, por opção, passara o seu ministério naquela liberdade intelectual; não entre as cabanas feitas de lama de uma aldeia síria, mas em ruas arranjadas, entre praças romanas e casas com colunas, e banhos requintados, produtos de uma civilização grega intensa, embora muito exótica e corrompida.

Os habitantes desta colónia estrangeira não eram gregos - pelo menos não na sua maioria -, mas sim levantinos de diversos tipos, a imitar uma cultura grega; e, produzindo, em contrapartida, não o correcto e banal helenismo da sua pátria exausta, mas uma variante tropical, em que o equilíbrio rítmico da arte grega e do idealismo grego florescia em novas formas, mais vistosas e adornadas com as cores apaixonadas do Oriente.

Os poetas gadarenos, tartamudeando os seus versos na excitação prevalecente espelharam a sensualidade e o fatalismo desiludido, que passavam ao desejo desordenado, da sua época e da sua situação; de cuja mundanidade a ascética religiosidade semita talvez tenha captado o sabor a humanidade e o amor real que tornou diferente a música de Cristo e a transportou aos corações da Europa, de um modo que o Judaísmo e o Islamismo nunca conseguiram.




E depois tivera o cristianismo a sorte de posteriores arquitectos de génio; e, na sua passagem através de tempos e climas, sofreu mudanças incomparavelmente superiores às do imutável judaísmo, desde a abstracção do intelectualismo alexandrino até à prosa latina, para o continente europeu; e, prova final e mais terrível de todas, quando se tornou teutónico, com uma síntese formal para satisfazer o nosso frio e controverso norte. Tão distante se encontrava o credo presbiteriano da fé ortodoxa da sua primeira ou segunda encarnação, que, antes da guerra, enviávamos missionários para converter aqueles cristãos orientais mais flexíveis à nossa ideia de um Deus lógico.

Também o islamismo mudara inevitavelmente de continente para continente. Evitara a metafísica, excepto o misticismo introspectivo dos devotos iranianos; mas em África adquirira as cores do feiticismo (para expressar numa palavra só as diversas animalidades do continente grego) e na Índia tivera de se curvar à legalidade e ao literalismo das mentes dos seus convertidos. Na Arábia, conservara um carácter semítico, ou, antes, o carácter semítico perdurara durante a fase do islamismo (como através de todas as fases dos credos com que os habitantes das cidades revestiam continuadamente a simplicidade da fé), expressando o monoteísmo dos espaços abertos, a passagem pelo infinito do panteísmo e a sua utilização quotidiana de um Deus pessoal que tudo consegue impregnar...».

T. E. Lawrence («Os Sete Pilares da Sabedoria»).




Os Sete Pilares da Sabedoria

A base comum de todos os credos semitas, vencedores ou fracassados, era a ideia sempre presente de falta de valor do mundo. A sua profunda reacção contra a matéria levou-os a pregar a nudez, a renúncia, a pobreza; e a atmosfera desta invenção asfixiava implacavelmente as mentes do deserto. Tive pela primeira vez conhecimento do seu sentido da pureza da rarefacção nos primeiros anos, depois de termos cavalgado longo tempo pelas planícies ondulantes do Norte da Síria até uma ruína do período romano que os Árabes pensavam ter sido feita por um príncipe da fronteira como palácio do deserto para a sua rainha. Dizia-se que o barro deste edifício fora amassado, para maior riqueza, não com água, mas com os preciosos óleos essenciais das flores. Os meus guias, cheirando o ar como cães, levaram-me pelas salas em ruínas, dizendo: «Esta é de jasmim, esta de violetas, esta de rosas».

Mas finalmente Dahoum puxou por mim: «Vem e aspira o mais doce de todos os perfumes». E entrámos na habitação principal, dirigimo-nos às armações abertas das janelas da sua face oriental, e aí bebemos, com as bocas abertas, o vento do deserto, passivo, vazio, sem refluxos, que pulsava sobre nós. Aquela lenta respiração tinha nascido algures, para além do distante Eufrates, e tinha-se arrastado durante muitos dias e muitas noites, percorrendo o seu caminho sobre as ervas mortas, até se lhe deparar o primeiro obstáculo, as paredes feitas pelo homem do nosso palácio em ruínas. Parecia agitar-se e demorar-se em volta delas, murmurando palavras infantis. «Este», disseram-me eles, «é o melhor: não tem sabor». Os meus árabes voltavam as costas aos perfumes e aos luxos e escolhiam as coisas em que a humanidade não toma parte.


Peter O'Toole em "Lawrence of Arabia", de 1962 (ver aqui).








O beduíno do deserto, nele nado e criado, abraçara com toda a sua alma esta nudez demasiado severa para os voluntários, pela razão, sentida mas não expressa, de que aí se sentia indubitavelmente livre. Afastava todos os laços materiais, todos os confortos, todas as coisas supérfluas e outras complicações, para alcançar uma liberdade pessoal que a fome e a morte perseguiam. Não via qualquer virtude na pobreza em si própria: apreciava os pequenos vícios e luxos - café, água potável, mulheres - que ainda podia conservar. Na sua vida tinha ar e ventos, sol e luz, espaços abertos e vastidões desertas. Não havia intervenção humana, nem fecundidade na natureza: apenas o Céu por cima dele e Terra imaculada por baixo. Aí se aproximava inconscientemente de Deus. Para ele, Deus não era antropomórfico, não era tangível, não era moral nem ético, nem se preocupava com o mundo ou com ele, não era natural: mas um ser incolor, informe, intangível, assim qualificado não por despojamento, mas por investimento, um Ser abrangente, a origem de todas as actividades, sendo a natureza e a matéria apenas um espelho que O reflectia.

O beduíno não podia procurar Deus dentro de si: sentia-se demasiado seguro de se encontrar dentro de Deus. Não podia conceber coisa alguma que fosse ou não fosse Deus, pois só Ele era grande; contudo, havia algo de singelo, de quotidiano, no climático Deus árabe, que era o facto de eles comerem, de eles lutarem, de eles desejarem, era o mais vulgar dos seus pensamentos, o seu recurso e companheiro familiar, de um modo inconcebível para aqueles cujo Deus se encontra tão tristemente oculto para eles pelo desespero do seu carnal não merecimento d'Ele e pelo decoro da adoração formal. Os Árabes não consideravam incongruente trazer Deus para as fraquezas e apetites das suas causas menos dignas. Era a mais familiar das suas palavras; e, efectivamente, falta-nos muita eloquência quando fazemos d'Ele o mais curto e mais feio dos nossos monossílabos.
















Esta crença do deserto parecia inexprimível em palavras e até em pensamentos. Era fácil senti-la como uma influência,e aqueles que estavam no deserto durante tempo suficiente para esquecerem os seus espaços abertos e o seu vazio eram inevitavelmente arrastados para Deus como único refúgio e ritmo de vida. O Bedawi poderia ser um Sunni nominal, ou um Wahabi nominal, ou qualquer outra coisa no perímetro semita, e não se importava com isso, um pouco como os vigias do portão de Sião, que bebiam cerveja e riam em Sião porque eram sionistas. Cada nómada tinha sua religião revelada, não oral, nem tradicional, nem expressa, mas instintiva, dentro de si próprio; e assim temos todos os credos semitas com (em carácter e essência) realce para a futilidade do mundo e a plenitude de Deus; e em conformidade com o poder e a oportunidade do crente, assim era a expressão deles.

O habitante do deserto não recebia honras pela sua crença. Nunca tinha sido evangelista ou prosélito. Chegara à sua intensa condensação de si próprio em Deus fechando os olhos ao mundo, a todas as complexas possibilidades nele latentes que apenas o contacto com a riqueza e as tentações poderia provocar. Alcançou uma confiança segura e uma confiança poderosa, mas quão estreito era o seu campo! A sua estéril experiência roubava-lhe a compaixão e pervertia a sua bondade humana à imagem da aridez em que ele se escondia. Consequentemente, magoava-se a si próprio, não apenas para ser livre, mas para agradar a si mesmo. Seguia-se um prazer no sofrimento, uma crueldade que era mais importante para ele do que os bens. O árabe do deserto não conhecia alegria maior do que a alegria de voluntariamente se abster. Encontrava conforto na abnegação, na renúncia, na autoprivação. Tornava a nudez da mente tão sensual como a nudez do corpo. Salvava a sua alma, talvez, e sem perigo, mas com duro egoísmo. O seu deserto era transformado num congelador espiritual, em que se conservava intacta, mas desaproveitada para todo o sempre, uma visão da unidade de Deus. Para aí fugiam, por vezes, aqueles que buscavam, vindos do mundo exterior, e aí permaneciam durante um período, olhando, de longe, para a natureza da geração que iriam converter.







Esta fé do deserto era impossível nas cidades. Era simultaneamente demasiado estranha, demasiado simples, demasiado impalpável, para exportação e para uso comum. A ideia, a crença básica de todos os credos semitas, aguardava-nos, mas tinha de ser diluída para se tornar compreensível. O grito de um morcego era excessivamente agudo para alguns ouvidos: o espírito do deserto escapava-nos, não penetrando na nossa textura mais grosseira. Os profetas regressavam do deserto com a sua visão de Deus e, através de um meio transmissor colorido (como se fosse através de vidro escurecido), mostravam-nos um pouco da majestade e do brilho, cuja visão total nos cegaria, nos ensurdeceria, nos emudeceria, nos faria como fez ao beduíno, afastando-o do mundo, transformando-o num ente à parte.

Os discípulos, tentando desfazer-se, eles próprios e os seus próximos, de todas as coisas, segundo a palavra do Mestre, tropeçaram na fraqueza humana e fracassaram. Para viver, o aldeão ou o citadino tem de satisfazer-se todos os dias com os prazeres da aquisição e da acumulação, e, por repercussão, transforma-se no mais baixo e no mais materialista dos homens. O notável desprezo pela vida que levou outros ao mais despojado ascetismo levou-o ao desespero. Esbanjou-se a si próprio imprudentemente, como um perdulário: gastou a sua herança da carne numa apressada procura do fim. O judeu na metrópole em Brighton, o mendigo, o adorador de Adónis, o devasso nos lupanares de Damasco, eram sinais semelhantes da capacidade semítica de prazer e expressões do mesmo vigor que nos deu, no outro extremo, a abnegação dos Essénios, ou dos primeiros cristãos, ou dos primeiros califas, achando mais belo o caminho do Céu para os pobres em espírito. O semita oscilava entre o prazer sensual e a abnegação.




Os Árabes podiam suspender-se de uma ideia como de uma corda; porque a fidelidade não comprometida das suas mentes fazia deles servidores obedientes. Nenhum deles fugiria ao compromisso até o êxito chegar, e, como ele, à responsabilidade e ao dever e às batalhas. Depois a ideia desaparecia e o trabalho terminava - em ruínas. Sem um credo, podiam ser arrastados para os quatro cantos do mundo (mas não para o Céu) se lhe mostrassem as riquezas da Terra e os seus prazeres; mas se no caminho, ao serem deste modo arrastados, encontrassem o profeta de uma ideia que não tivesse onde pousar a cabeça e dependesse, para se alimentar, da caridade ou das aves, seriam capazes de abandonar a riqueza por essa inspiração. Eram incorrigivelmente crianças perante uma ideia, débeis e cegos às cores, para quem o corpo e o espírito se encontravam eterna e inevitavelmente opostos. A sua mente era estranha e obscura, cheia de depressões e de exaltações, despida de regras, mas dotada de maior ardor e mais fértil em fé do que qualquer outra no mundo. Eram um povo de impulsos, para quem o abstracto era a mais forte motivação, o processo de infinita coragem e variação, e o fim nada. Eram tão instáveis como a água e, como a água, acabavam por triunfar finalmente. Desde a alvorada da vida, em vagas sucessivas, tinham-se precipitado sempre contra as costas da carne. Cada vaga era quebrada, mas, tal como o mar, desgastava uma parte infinitesimal do granito contra o qual se quebrava, e, um dia, muitas eras mais tarde, viria a rolar, sem se quebrar, sobre o sítio onde o mundo material tinha existido, e Deus avançaria sobre a superfície das águas. Uma dessas vagas (e não a última) fui eu que a elevei e a fiz rolar ao sopro de uma ideia, até atingir a sua crista e desabar sobre Damasco. O embate dessa onda, que a resistência das coisas empossadas fez recuar, fornecerá matéria à onda que se seguirá, quando, na plenitude do tempo, o mar se erguer uma vez mais (in ob. cit., pp. 39-43).