sexta-feira, 19 de julho de 2013

Os Sete Pilares da Sabedoria (ii)

Escrito por Thomas Edward Lawrence 






«(...) No rebordo limpo pela água e fragrante desnudei o meu corpo sujo e entrei na pequena bacia, a fim de saborear finalmente a frescura do ar em movimento e da água sobre a minha pele fatigada. Era deliciosamente fresca. Deixei-me ficar quieto, deixando que a água límpida, de um vermelho-escuro, corresse sobre mim, dividida em pequenas estrias, levando consigo a poeira da viagem. Enquanto ali descansava, feliz, um homem esfarrapado, de barba grisalha, com um rosto esculpido, cheio de força e de cansaço, avançou lentamente pelo caminho até chegar diante da fonte e aí se deixou cair com um suspiro em cima das minhas roupas estendidas sobre uma pedra, ao lado do caminho, para que o calor do Sol expulsasse os parasitas nelas reunidos.

Ouviu-me e inclinou-se para a frente, espreitando com os olhos ramelosos aquela coisa branca que se banhava na concavidade por detrás do véu de neblina do calor. Ao fim de uma longa observação, pareceu ficar satisfeito, e fechou os olhos, resmungando: "O amor vem de Deus, é de Deus e é para Deus".

As suas palavras, ditas em voz baixa, ressoaram distintamente dentro da minha piscina, por qualquer razão acústica. Fizeram-me parar subitamente. Eu pensava que os Semitas eram incapazes de utilizar o amor como elo entre eles e Deus, até mesmo incapazes de conceberem uma tal relação, excepto com a intelectualidade de Espinoza, que amava tão racional e assexuadamente, e tão transcendentalmente, que não procurava, e nem sequer permitia, uma retribuição. O cristianismo parecera-me o primeiro credo a proclamar o amor neste mundo superior, do qual o deserto e os Semitas (de Moisés a Zeno) tinham sido excluídos; e o cristianismo era um produto híbrido, excepto quanto à sua primeira raiz não essencialmente semítica.

O seu nascimento na Galileia salvara-o de ser apenas uma das mais inúmeras revelações dos Semitas. A Galileia era a província não semita da Síria e o contacto com ela era quase impuro para o perfeito judeu. Como a Whitechapel em relação a Londres, era alheia a Jerusalém. Cristo, por opção, passara o seu ministério naquela liberdade intelectual; não entre as cabanas feitas de lama de uma aldeia síria, mas em ruas arranjadas, entre praças romanas e casas com colunas, e banhos requintados, produtos de uma civilização grega intensa, embora muito exótica e corrompida.

Os habitantes desta colónia estrangeira não eram gregos - pelo menos não na sua maioria -, mas sim levantinos de diversos tipos, a imitar uma cultura grega; e, produzindo, em contrapartida, não o correcto e banal helenismo da sua pátria exausta, mas uma variante tropical, em que o equilíbrio rítmico da arte grega e do idealismo grego florescia em novas formas, mais vistosas e adornadas com as cores apaixonadas do Oriente.

Os poetas gadarenos, tartamudeando os seus versos na excitação prevalecente espelharam a sensualidade e o fatalismo desiludido, que passavam ao desejo desordenado, da sua época e da sua situação; de cuja mundanidade a ascética religiosidade semita talvez tenha captado o sabor a humanidade e o amor real que tornou diferente a música de Cristo e a transportou aos corações da Europa, de um modo que o Judaísmo e o Islamismo nunca conseguiram.




E depois tivera o cristianismo a sorte de posteriores arquitectos de génio; e, na sua passagem através de tempos e climas, sofreu mudanças incomparavelmente superiores às do imutável judaísmo, desde a abstracção do intelectualismo alexandrino até à prosa latina, para o continente europeu; e, prova final e mais terrível de todas, quando se tornou teutónico, com uma síntese formal para satisfazer o nosso frio e controverso norte. Tão distante se encontrava o credo presbiteriano da fé ortodoxa da sua primeira ou segunda encarnação, que, antes da guerra, enviávamos missionários para converter aqueles cristãos orientais mais flexíveis à nossa ideia de um Deus lógico.

Também o islamismo mudara inevitavelmente de continente para continente. Evitara a metafísica, excepto o misticismo introspectivo dos devotos iranianos; mas em África adquirira as cores do feiticismo (para expressar numa palavra só as diversas animalidades do continente grego) e na Índia tivera de se curvar à legalidade e ao literalismo das mentes dos seus convertidos. Na Arábia, conservara um carácter semítico, ou, antes, o carácter semítico perdurara durante a fase do islamismo (como através de todas as fases dos credos com que os habitantes das cidades revestiam continuadamente a simplicidade da fé), expressando o monoteísmo dos espaços abertos, a passagem pelo infinito do panteísmo e a sua utilização quotidiana de um Deus pessoal que tudo consegue impregnar...».

T. E. Lawrence («Os Sete Pilares da Sabedoria»).




Os Sete Pilares da Sabedoria

A base comum de todos os credos semitas, vencedores ou fracassados, era a ideia sempre presente de falta de valor do mundo. A sua profunda reacção contra a matéria levou-os a pregar a nudez, a renúncia, a pobreza; e a atmosfera desta invenção asfixiava implacavelmente as mentes do deserto. Tive pela primeira vez conhecimento do seu sentido da pureza da rarefacção nos primeiros anos, depois de termos cavalgado longo tempo pelas planícies ondulantes do Norte da Síria até uma ruína do período romano que os Árabes pensavam ter sido feita por um príncipe da fronteira como palácio do deserto para a sua rainha. Dizia-se que o barro deste edifício fora amassado, para maior riqueza, não com água, mas com os preciosos óleos essenciais das flores. Os meus guias, cheirando o ar como cães, levaram-me pelas salas em ruínas, dizendo: «Esta é de jasmim, esta de violetas, esta de rosas».

Mas finalmente Dahoum puxou por mim: «Vem e aspira o mais doce de todos os perfumes». E entrámos na habitação principal, dirigimo-nos às armações abertas das janelas da sua face oriental, e aí bebemos, com as bocas abertas, o vento do deserto, passivo, vazio, sem refluxos, que pulsava sobre nós. Aquela lenta respiração tinha nascido algures, para além do distante Eufrates, e tinha-se arrastado durante muitos dias e muitas noites, percorrendo o seu caminho sobre as ervas mortas, até se lhe deparar o primeiro obstáculo, as paredes feitas pelo homem do nosso palácio em ruínas. Parecia agitar-se e demorar-se em volta delas, murmurando palavras infantis. «Este», disseram-me eles, «é o melhor: não tem sabor». Os meus árabes voltavam as costas aos perfumes e aos luxos e escolhiam as coisas em que a humanidade não toma parte.


Peter O'Toole em "Lawrence of Arabia", de 1962 (ver aqui).








O beduíno do deserto, nele nado e criado, abraçara com toda a sua alma esta nudez demasiado severa para os voluntários, pela razão, sentida mas não expressa, de que aí se sentia indubitavelmente livre. Afastava todos os laços materiais, todos os confortos, todas as coisas supérfluas e outras complicações, para alcançar uma liberdade pessoal que a fome e a morte perseguiam. Não via qualquer virtude na pobreza em si própria: apreciava os pequenos vícios e luxos - café, água potável, mulheres - que ainda podia conservar. Na sua vida tinha ar e ventos, sol e luz, espaços abertos e vastidões desertas. Não havia intervenção humana, nem fecundidade na natureza: apenas o Céu por cima dele e Terra imaculada por baixo. Aí se aproximava inconscientemente de Deus. Para ele, Deus não era antropomórfico, não era tangível, não era moral nem ético, nem se preocupava com o mundo ou com ele, não era natural: mas um ser incolor, informe, intangível, assim qualificado não por despojamento, mas por investimento, um Ser abrangente, a origem de todas as actividades, sendo a natureza e a matéria apenas um espelho que O reflectia.

O beduíno não podia procurar Deus dentro de si: sentia-se demasiado seguro de se encontrar dentro de Deus. Não podia conceber coisa alguma que fosse ou não fosse Deus, pois só Ele era grande; contudo, havia algo de singelo, de quotidiano, no climático Deus árabe, que era o facto de eles comerem, de eles lutarem, de eles desejarem, era o mais vulgar dos seus pensamentos, o seu recurso e companheiro familiar, de um modo inconcebível para aqueles cujo Deus se encontra tão tristemente oculto para eles pelo desespero do seu carnal não merecimento d'Ele e pelo decoro da adoração formal. Os Árabes não consideravam incongruente trazer Deus para as fraquezas e apetites das suas causas menos dignas. Era a mais familiar das suas palavras; e, efectivamente, falta-nos muita eloquência quando fazemos d'Ele o mais curto e mais feio dos nossos monossílabos.
















Esta crença do deserto parecia inexprimível em palavras e até em pensamentos. Era fácil senti-la como uma influência,e aqueles que estavam no deserto durante tempo suficiente para esquecerem os seus espaços abertos e o seu vazio eram inevitavelmente arrastados para Deus como único refúgio e ritmo de vida. O Bedawi poderia ser um Sunni nominal, ou um Wahabi nominal, ou qualquer outra coisa no perímetro semita, e não se importava com isso, um pouco como os vigias do portão de Sião, que bebiam cerveja e riam em Sião porque eram sionistas. Cada nómada tinha sua religião revelada, não oral, nem tradicional, nem expressa, mas instintiva, dentro de si próprio; e assim temos todos os credos semitas com (em carácter e essência) realce para a futilidade do mundo e a plenitude de Deus; e em conformidade com o poder e a oportunidade do crente, assim era a expressão deles.

O habitante do deserto não recebia honras pela sua crença. Nunca tinha sido evangelista ou prosélito. Chegara à sua intensa condensação de si próprio em Deus fechando os olhos ao mundo, a todas as complexas possibilidades nele latentes que apenas o contacto com a riqueza e as tentações poderia provocar. Alcançou uma confiança segura e uma confiança poderosa, mas quão estreito era o seu campo! A sua estéril experiência roubava-lhe a compaixão e pervertia a sua bondade humana à imagem da aridez em que ele se escondia. Consequentemente, magoava-se a si próprio, não apenas para ser livre, mas para agradar a si mesmo. Seguia-se um prazer no sofrimento, uma crueldade que era mais importante para ele do que os bens. O árabe do deserto não conhecia alegria maior do que a alegria de voluntariamente se abster. Encontrava conforto na abnegação, na renúncia, na autoprivação. Tornava a nudez da mente tão sensual como a nudez do corpo. Salvava a sua alma, talvez, e sem perigo, mas com duro egoísmo. O seu deserto era transformado num congelador espiritual, em que se conservava intacta, mas desaproveitada para todo o sempre, uma visão da unidade de Deus. Para aí fugiam, por vezes, aqueles que buscavam, vindos do mundo exterior, e aí permaneciam durante um período, olhando, de longe, para a natureza da geração que iriam converter.







Esta fé do deserto era impossível nas cidades. Era simultaneamente demasiado estranha, demasiado simples, demasiado impalpável, para exportação e para uso comum. A ideia, a crença básica de todos os credos semitas, aguardava-nos, mas tinha de ser diluída para se tornar compreensível. O grito de um morcego era excessivamente agudo para alguns ouvidos: o espírito do deserto escapava-nos, não penetrando na nossa textura mais grosseira. Os profetas regressavam do deserto com a sua visão de Deus e, através de um meio transmissor colorido (como se fosse através de vidro escurecido), mostravam-nos um pouco da majestade e do brilho, cuja visão total nos cegaria, nos ensurdeceria, nos emudeceria, nos faria como fez ao beduíno, afastando-o do mundo, transformando-o num ente à parte.

Os discípulos, tentando desfazer-se, eles próprios e os seus próximos, de todas as coisas, segundo a palavra do Mestre, tropeçaram na fraqueza humana e fracassaram. Para viver, o aldeão ou o citadino tem de satisfazer-se todos os dias com os prazeres da aquisição e da acumulação, e, por repercussão, transforma-se no mais baixo e no mais materialista dos homens. O notável desprezo pela vida que levou outros ao mais despojado ascetismo levou-o ao desespero. Esbanjou-se a si próprio imprudentemente, como um perdulário: gastou a sua herança da carne numa apressada procura do fim. O judeu na metrópole em Brighton, o mendigo, o adorador de Adónis, o devasso nos lupanares de Damasco, eram sinais semelhantes da capacidade semítica de prazer e expressões do mesmo vigor que nos deu, no outro extremo, a abnegação dos Essénios, ou dos primeiros cristãos, ou dos primeiros califas, achando mais belo o caminho do Céu para os pobres em espírito. O semita oscilava entre o prazer sensual e a abnegação.




Os Árabes podiam suspender-se de uma ideia como de uma corda; porque a fidelidade não comprometida das suas mentes fazia deles servidores obedientes. Nenhum deles fugiria ao compromisso até o êxito chegar, e, como ele, à responsabilidade e ao dever e às batalhas. Depois a ideia desaparecia e o trabalho terminava - em ruínas. Sem um credo, podiam ser arrastados para os quatro cantos do mundo (mas não para o Céu) se lhe mostrassem as riquezas da Terra e os seus prazeres; mas se no caminho, ao serem deste modo arrastados, encontrassem o profeta de uma ideia que não tivesse onde pousar a cabeça e dependesse, para se alimentar, da caridade ou das aves, seriam capazes de abandonar a riqueza por essa inspiração. Eram incorrigivelmente crianças perante uma ideia, débeis e cegos às cores, para quem o corpo e o espírito se encontravam eterna e inevitavelmente opostos. A sua mente era estranha e obscura, cheia de depressões e de exaltações, despida de regras, mas dotada de maior ardor e mais fértil em fé do que qualquer outra no mundo. Eram um povo de impulsos, para quem o abstracto era a mais forte motivação, o processo de infinita coragem e variação, e o fim nada. Eram tão instáveis como a água e, como a água, acabavam por triunfar finalmente. Desde a alvorada da vida, em vagas sucessivas, tinham-se precipitado sempre contra as costas da carne. Cada vaga era quebrada, mas, tal como o mar, desgastava uma parte infinitesimal do granito contra o qual se quebrava, e, um dia, muitas eras mais tarde, viria a rolar, sem se quebrar, sobre o sítio onde o mundo material tinha existido, e Deus avançaria sobre a superfície das águas. Uma dessas vagas (e não a última) fui eu que a elevei e a fiz rolar ao sopro de uma ideia, até atingir a sua crista e desabar sobre Damasco. O embate dessa onda, que a resistência das coisas empossadas fez recuar, fornecerá matéria à onda que se seguirá, quando, na plenitude do tempo, o mar se erguer uma vez mais (in ob. cit., pp. 39-43).






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