terça-feira, 23 de julho de 2013

O salto mortal do pensamento (i)

Escrito por Carlos Castaneda 






«Ele [Don Juan] observou que cada um de nós era separado do conhecimento silencioso por barreiras naturais, específicas a cada indivíduo; e que a mais impregnável de minhas barreiras era a tendência de disfarçar minha complacência indefinível.

Desafiei-o a dar-me um exemplo concreto. Lembrei-lhe que certa vez me alertara que um tema de discussão favorito era fazer críticas gerais que não podiam ser amparadas por exemplos concretos.

Don Juan olhou-me e sorriu.

-  No passado, costumava dar-lhe plantas de poder - disse ele.

- No início, você foi a extremos para convencer-se a si mesmo de que o que estava experimentando eram alucinações. Depois quis que fossem alucinações especiais. Lembro-me que me diverti com a sua insistência em chamá-las de experiências alucinatórias didácticas.

Ele disse que minha necessidade de provar minha independência ilusória forçara-me a não aceitar que o que ele me dizia estava acontecendo, embora eu soubesse disso, silenciosamente, por mim mesmo. Eu sabia que ele estava empregando plantas de poder, apesar de serem instrumentos muito limitados, para fazer-me entrar em estados parciais ou temporários de consciência intensificada, ao mover meu ponto de aglutinação de sua localização habitual.

- Você usou sua barreira de independência para explicar a si mesmo suas experiências com as plantas de poder. A mesma barreira continua a funcionar até hoje, de modo que você ainda conserva essa sensação de angústia indefinida, talvez não tão pronunciada. Agora a pergunta é: como você está organizando suas conclusões de modo que suas experiências actuais se encaixem em seu esquema de complacência?

Confessei que a única maneira pela qual eu conseguia manter minha independência era não pensando de maneira alguma sobre as minhas experiências.

A gargalhada de Don Juan fê-lo cair de sua cadeira de vime. Levantou-se e caminhou ao redor para recuperar o fôlego. Sentou-se outra vez e se compôs. Empurrou a cadeira para trás e cruzou as pernas.

Disse que nós, como homens comuns, não sabíamos, nem jamais iríamos saber, que havia algo inteiramente real e funcional - nosso elo de ligação com o intento - que produz nossa preocupação ancestral com o destino. Assegurou que, durante as nossas vidas activas, nunca temos a chance de ir além do nível da mera preocupação, porque desde tempos imemoriais a rotina dos afazeres diários nos entorpeceu. É apenas quando nossas vidas quase se encontram por terminar que essa preocupação ancestral com o destino assume um carácter diferente. Começa a fazer-nos ver através da névoa das ocupações diárias. Infelizmente, esse despertar sempre vem de mãos dadas com a perda de energia causada pelo envelhecimento, quando não temos mais força para transformar nossa preocupação em descoberta pragmática e positiva. Nesse ponto, tudo o que permanece é uma angústia amorfa e penetrante, um desejo por algo indescritível e simples raiva por haver perdido tudo.

- Gosto de poemas por muitas razões - disse ele. - Uma delas é que os poemas captam o humor dos guerreiros e explicam o que dificilmente pode ser explicado.




Segundo ele, os poetas eram profundamente conscientes de nosso elo de ligação com o espírito, mas que essa consciência era intuitiva, não do modo deliberado e pragmático dos feiticeiros.

- Os poetas não têm conhecimento directo do espírito - continuou. - É por isso que seus poemas não podem realmente atingir o centro dos gestos verdadeiros para o espírito. No entanto, chegam muito perto».

Carlos Castaneda («O Poder do Silêncio»).




O salto mortal do pensamento

Entrámos em sua casa por volta das sete horas da manhã, em tempo para o desjejum. Eu estava faminto, mas não cansado. Tínhamos deixado a caverna para descer até o vale ao amanhecer. Dom Juan, em vez de seguir a rota mais directa, fez uma volta grande que nos levou ao longo do rio. Explicou que tínhamos de recuperar nossas capacidades mentais antes que voltássemos para casa.

Respondi que era muito gentil de sua parte dizer "nossas capacidades", quando eu era o único cujas capacidade estavam desordenadas. Mas ele replicou que estava agindo não por gentileza, mas pelo treino do guerreiro. Um guerreiro, disse, estava em guarda permanente contra a aspereza do comportamento humano. Um guerreiro era mágico e implacável, um dissidente com o gosto e as maneiras mais refinados, cuja tarefa mundana era afiar, ainda que disfarçadamente, suas bordas cortantes, de modo que ninguém fosse capaz de suspeitar de sua implacabilidade.

Depois do desjejum, pensei que seria bom dormir um pouco, mas Don Juan argumentou que eu não tinha tempo a desperdiçar. Disse que em breve eu perderia o pouco de clareza que possuía e, se fosse dormir, a perderia toda.

- Não é necessário um génio para deduzir que dificilmente há algum modo de falar sobre o intento - disse rapidamente, enquanto me perscrutava da cabeça aos pés -, mas fazer essa afirmação nada significa. Essa é a razão por que os feiticeiros apoiam-se em histórias de feitiçaria. E a esperança deles é que, algum dia, os cernes abstractos das histórias venham a fazer sentido para o ouvinte.

Entendi o que ele estava dizendo, mas ainda não conseguia conceber o que era um cerne abstracto ou o que deveria significar para mim. Tentei pensar a respeito. As imagens passavam com rapidez através de minha mente, não me deixando tempo para pensar a respeito delas. Não conseguia sequer desacelerá-las o suficiente para reconhecê-las. Por fim, a raiva tomou conta de mim e dei um murro na mesa.

Don Juan sacudiu-se da cabeça aos pés, engasgando-se de tanto rir.

- Faça o que fez a noite passada - incentivou-me, piscando. - Diminua sua velocidade.

Minha frustração tornou-me muito agressivo. Logo apresentei alguns argumentos absurdos; então tive consciência do meu erro e me desculpei por minha falta de limite.




- Não se desculpe - disse ele. - Devo dizer-lhe que a compreensão que está buscando é impossível neste momento. Os cernes abstractos das histórias de feitiçaria nada significam para você agora. Mais tarde, quero dizer daqui a alguns anos, poderão fazer sentido perfeito para você.

Implorei a Don Juan que não me deixasse no escuro, que discutisse os cernes abstractos. Não estava sendo claro para mim o que ele queria que eu fizesse com eles. Assegurei-lhe que meu estado de consciência intensificada actual poderia ser de grande ajuda para mim, permitindo-me compreender sua discussão. Incentivei-o a se apressar, pois eu não podia garantir quanto tempo esse estado iria durar. Avisei-o de que em breve voltaria ao meu estado normal e me tornaria um idiota maior do que era naquele momento. Disse-o meio de brincadeira. Seu riso revelou-me que ele o tomara como tal, mas fiquei profundamente afectado pelas minhas próprias palavras. Uma tremenda sensação de melancolia invadiu-me.

Do Juan segurou suavemente meu braço, puxou-me para uma poltrona confortável e então sentou-se diante de mim. Fitou fixamente os meus olhos, e por um momento fui incapaz de quebrar a força de seu olhar.

- Os feiticeiros espreitam-se a si mesmos constantemente - comentou numa voz reconfortadora, como se tentando acalmar-me com o som da sua voz.

Desejei dizer que meu nervosismo havia passado e que provavelmente havia sido causado pela falta de sono, mas ele não me permitiu dizer alguma coisa. Assegurou-me de que já me havia ensinado tudo o que tinha para saber sobre a espreita, mas eu ainda não recuperara meu conhecimento da profundeza da consciência intensificada, onde o tinha armazenado. Disse-lhe que sentia a desagradável sensação de estar bloqueado. Parecia haver alguma coisa trancada dentro de mim, que me fazia bater portas e chutar mesas, que me frustrava e me tornava irascível.

- Essa sensação de estar bloqueado é experimentada por todo o ser humano. É um lembrete da existência de nossa conexão com o intento. Para os feiticeiros, essa sensação é ainda mais aguda, precisamente porque o seu objectivo é sensibilizar seu elo de conexão até que possam fazê-lo funcionar à vontade.

"Quando a pressão de seu elo de conexão é grande demais, os feiticeiros aliviam-na espreitando-se a si mesmos".




- Ainda acho que não compreendo o que quer dizer por espreitar - disse eu. - Mas em certo nível penso que sei exactamente o que quer dizer.

- Tentarei ajudá-lo a esclarecer o que sabe, então. Espreitar é um procedimento muito, muito simples. Espreitar é um comportamento especial que segue certos princípios. É um comportamento secreto, furtivo, ilusório, designado a provocar um choque. E quando você se espreita a si mesmo, você se choca a si mesmo, usando seu próprio comportamento de um modo implacável e astucioso.

Explicou que, quando a consciência de um feiticeiro ficava enredada pelo peso de suas aquisições perceptivas, o que estava acontecendo comigo, o melhor, ou talvez o único remédio, era usar a ideia da morte para proporcionar esse choque de espreita.

- A ideia da morte, portanto, é de importância monumental na vida de um feiticeiro - continuou Don Juan. - Mostrei-lhe coisas inumeráveis a respeito da morte para convencê-lo de que o conhecimento de nosso fim iminente e inevitável é o que nos dá sobriedade. Nosso engano mais custoso como homens comuns é ceder à ideia de que somos imortais. É como se acreditássemos que, não pensando a respeito da morte, nos podemos proteger dela.

- Precisa concordar, Don Juan, que não pensar sobre a morte com certeza nos protege de nos preocuparmos com ela.

- Sim, isso serve a tal propósito, mas esse propósito não tem valor para os homens comuns e representa uma caricatura para os feiticeiros. Sem uma visão clara da morte, não há ordem, nem sobriedade, nem beleza. Os feiticeiros lutam para conquistar essa revelação crucial, de modo a ajudá-los a perceber no nível mais profundo possível que eles não têm nenhuma garantia sequer de que suas vidas continuarão além do momento. Essa realização dá aos feiticeiros a coragem para serem pacientes e no entanto agirem, coragem de serem complacentes sem serem estúpidos.

Don Juan fixou seu olhar em mim, sorriu e balançou a cabeça.

- Sim - continuou ele -, a ideia da morte é a única coisa que pode dar coragem aos feiticeiros. Estranho, não é? Dá aos feiticeiros a coragem de serem astutos sem serem presunçosos e, acima de tudo, dá-lhes a coragem de serem implacáveis sem serem convencidos.



Sorriu outra vez e cutucou-me. Disse-lhe que estava absolutamente aterrorizado pela ideia da minha morte, que pensava a respeito com frequência, mas que certamente isso não me dava coragem ou me incentivava a agir. Apenas me tornava cínico ou fazia com que eu caísse em estado de profunda melancolia.

- Seu problema é muito simples - disse ele. - Você fica facilmente obcecado. Estive-lhe dizendo que os feiticeiros se espreitam a si mesmos para quebrar o poder de suas obsessões.  Há muitas maneiras de se espreitar a si mesmo. Se não deseja usar a ideia de sua morte, use os poemas que lê para mim.

- Como disse, Don Juan?

- Disse-lhe que há muitas razões pelas quais gosto de poemas. O que eu faço é espreitar-me a mim mesmo com eles. Provoco um choque em mim com eles. Escuto e, enquanto você lê, interrompo meu diálogo interno e deixo meu silêncio interior ganhar impulso. Então a combinação do poema e do silêncio desfecha o golpe.

Explicou que os poetas inconscientemente anseiam pelo mundo dos feiticeiros. Por não serem feiticeiros no caminho do conhecimento, os anseios são tudo o que têm.

- Vamos ver se você pode sentir sobre o que estou falando - disse, estendendo-me um livro de poemas de José Gorostiza. Abri-o na página marcada, e ele apontou o poema de que gostava.


... este incessante morrer obstinado,
esta morte vivente,
que te retalha, ó Deus,
em tua rigorosa obra
nas rosas, nas pedras,
nos astros indomáveis
e na carne que se queima,
como uma fogueira acesa por uma música,
um sonho,
um matiz que atinge o olho.

... e tu, tu próprio,
talvez tenhas morrido eternidades de eras aí fora,
sem que saibamos a respeito,
nos refugos, migalhas, cinzas de ti;
tu que ainda estás presente,
como um astro imitado por sua própria luz,
uma luz vazia sem astros
que nos alcança,
escondendo
sua infinita catástrofe.


José Gorostiza


(In O Poder do Silêncio, Nova Era, 13.ª edição, 2010, pp. 133-138).


Continua


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