quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A mensagem de Fátima (i)

Escrito por Joseph Ratzinger







«Uma entrevista dada pelo Papa João Paulo II a um pequeno grupo de católicos alemães, em Novembro de 1980, foi reciclada e provou manter um persistente interesse na cabeça dos obcecados com o segredo. Em resposta a uma questão acerca do que é o Terceiro Segredo, o pontífice terá dito: "Dada a seriedade do seu conteúdo, de forma a não encorajar o poder do comunismo mundial a levar a cabo certos golpes, os meus antecessores na Cadeira de Pedro preferiram diplomaticamente adiar a sua publicação. Por outro lado, seria suficiente para todos os cristãos saber isto: se há uma mensagem na qual se diz que os oceanos invadirão a terra; que, de um momento para o outro, milhões de pessoas morrerão... deixa de haver utilidade em realmente querer publicar a mensagem. Muitos querem conhecer o segredo por pura curiosidade, ou porque gostam de sensacionalismos, mas esquecem-se de que saber implica para eles uma responsabilidade. É perigoso querer satisfazer apenas a curiosidade, se se está convencido de que nada podemos fazer contra a catástrofe anunciada"

Neste ponto, o Papa pegou no seu rosário e declarou: "Este é o remédio contra o mal! Rezar, rezar e não perguntar mais nada. Pôr tudo nas mãos da Mãe de Deus!". Prosseguiu dizendo: "Temos de estar preparados para passar, num futuro não muito distante, por grandes desafios que vão exigir de nós a própria vida, e uma entrega total a Cristo  e por Cristo. Através das vossas e das minhas orações, é possível aliviar esta provação, mas já não é possível preveni-la porque esta é a única forma de a Igreja ser efectivamente renovada. Quantas vezes, com efeito, a renovação da Igreja não foi efectuada num mar de sangue? Desta vez, não será de outra maneira. Temos de ser fortes, temos de nos preparar, devemos confiar-nos a Cristo e à Sua Santa Mãe, e estar atentos, muito atentos, à reza do terço".


Nada disto era muito esclarecedor - ou consolador - mas na falta de informação segura, quaisquer declarações proferidas por papas e prelados que tinham visto o Terceiro Segredo eram vorazmente agarradas e analisadas à exaustão, em busca de pistas. Em 1984, o então Bispo de Fátima, Cosme do Amaral, disse a uma audiência universitária em Viena que o Terceiro Segredo não falava de um holocausto nuclear. Sugeriu que se referia a uma crise na Cristandade na forma de uma perda de fé generalizada e massiva. Quer tenha sido previsto quer não, era óbvio, a partir dos números cada vez mais baixos de frequentadores das igrejas, confessionários, seminários e conventos, que o rebanho de fiéis na Igreja Católica em muitos países, especialmente na Europa, estava de facto a apagar-se.


"Na vasta maioria das nações industrializadas, a participação na missa caiu para menos de dez por cento", lamentava uma organização sediada no Canadá chamada Fatima Center. "Na Alemanha, por exemplo, menos de cinco por cento de todos os católicos vão regularmente à missa e os números não são muito melhores na América do Norte. Desde o fecho do Concílio Vaticano II no início de 60, a Igreja tem assistido ao declínio da sua influência e autoridade para níveis nunca vistos de mais de 1800 anos! Muitos teólogos e as autoridades de Fátima acreditam hoje que esta crise no seio da Fé Católica é o tema do ainda não divulgado Terceiro Segredo de Fátima e contém a resposta dos céus para o caos generalizado e a confusão no seio da Igreja".





O cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, falou vagamente dos "perigos que ameaçam a fé e a vida dos cristãos e, portanto, do mundo", numa entrevista dada à publicação italiana Gazettino di Venezia. No entanto, rejeitou as especulações feitas pelo padre Rene Laurentin, um especialista nas aparições marianas. Na televisão italiana, o padre Laurentin sugeria que a Virgem Maria tinha predito um período de discórdia da doutrina católica, conduzindo a graves divisões na Igreja. Laurentin foi mais longe e sugeriu que João XXIII tinha optado por não divulgar o Terceiro Segredo em 1960 com medo de causar mais divisões internas.

Ratzinger exortou os fiéis a não se preocuparem com "fantasias e ficções". Muito poucas pessoas conheciam o Terceiro Segredo de Fátima e o padre Laurentin não era uma delas. Nenhum dos três papas que tinham lido o segredo julgou conveniente divulgá-lo. "Tiveram boas razões para a sua decisão", disse Ratzinger sem mais explicações. Foi igualmente vago numa entrevista a uma estação de rádio portugueesa. "Para os que estão curiosos, posso assegurar: a Virgem não está envolvida em sensacionalismo, nem quer alimentar medos, ou dar visões apocalípticas".


Isto não bate certo com as aparições marianas numa área remota perto da cidade japonesa de Akita. A Virgem Maria, na forma de uma estátua de madeira que chorava e sangrava, falou alegadamente com uma freira no local, por três vezes, em 1973. A última foi a 13 de Outubro, aniversário da última aparição de Fátima. Nossa Senhora de Akita, como ficou conhecida, transmitiu três mensagens. A terceira lembra anteriores pronunciamentos. Alerta contra castigos em massa mais terríveis do que nunca. Se as pessoas não se arrependem e melhoram, disse a Virgem Maria, "o fogo cairá dos céus e varrerá grande parte da humanidade, tanto os bons como os maus, não poupando padres nem fiéis. Os sobreviventes ficarão tão desolados que invejarão os que morreram".







Nossa Senhora prosseguiu: "A obra do Diabo infiltrar-se-á até na Igreja de tal forma que veremos cardeais contra cardeais, bispos contra bispos. Os padres que me venerarem serão escarnecidos e atacados pelos seus congéneres; as igrejas e os altares serão saqueados. A Igreja estará cheia dos que aceitam compromissos e o Diabo pressionará muitos sacerdotes e almas consagradas a deixar o serviço do Senhor".

Era matéria sensacional, apocalíptica e uma garantia para alimentar os medos dos crentes, precisamente o que Ratzinger assegurava aos ouvintes da rádio portuguesa em 1999 que a Virgem não empreendia. Uma comissão de inquérito investigou os acontecimentos e mensagens de Akita reclamados pela freira. Em 1988, a Igreja aceitou-os como dignos de crédito. A declaração foi anunciada pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Ratzinger.


De todas as teorias mais populares acerca do Terceiro Segredo, aquela que parece levar a palma na passagem do milénio, é a de que Nossa Senhora de Fátima profetizou que a Igreja ficaria minada pela apostasia e pela corrupção. Altos responsáveis da Igreja - talvez mesmo o mais alto - cairiam sob a influência de Satanás. Alguns clérigos defendem que o Terceiro Segredo ia muito mais longe do que simplesmente avisar dos perigos. Previa o fim do Cristianismo.










O Arcanjo S. Miguel calcando o Demónio


(...) Alguns católicos tradicionalistas estão convencidos de que todos os ocupantes do trono papal desde que Pio XII morreu em 1958 têm sido a tal ponto enganadores e mentirosos que não merecem o título de Papa. Os tradicionalistas - não confundir com os católicos regulares que possuem uma visão mais "tradicional" ou conservadora - gostariam de regressar às crenças e práticas no seio da Igreja anteriores à grande varridela de mudanças modernizantes trazida pelo Concílio Vaticano II. João XXIII queria "abrir as janelas ao mundo", como ele dizia. Ao fazê-lo, deixou entrar um enxame de dissidentes.

O Vaticano II reviu a liturgia do "Rito Romano" com séculos de idade. Também advogou a aproximação e unidade das diferentes Igrejas cristãs e a promoção de mais diálogo entre fés completamente diferentes. Outra das suas ideias liberalizantes incluía a aceitação do direito dos indivíduos a seguir a religião da sua escolha. Os tradicionalistas ficaram boquiabertos. Alguns objectavam sobretudo contra as mudanças no ritual da missa. Outros sentiam-se mais geralmente alienados, tanto que saíram da Igreja principal e abriram as suas próprias capelas, igrejas, escolas, seminários e mosteiros no seio de dioceses já existentes.


Os mais inconformados de todos eram os chamados sedevacantistas. Os membros deste relativamente novo movimento crêem que os maçons se infiltraram na única Igreja verdadeira ao mais alto nível com o fim de a destruir. Os sedevacantistas dizem que o Vaticano II foi uma farsa. Denunciam João XXIII e os seus sucessores como heréticos. Paulo VI (1963-78), João Paulo I (1978) e João Paulo II (1978-2005) não eram verdadeiros católicos e portanto desempenharam ilegitimamente o cargo. Eram "anti-papas" e lançaram o Vaticano na apostasia. Bento XVI é culpado do mesmo. A sua visão de Fátima é que o Terceiro Segredo se referia a esta crise no seio da Igreja. Era altamente relevante em 1960, logo antes do Vaticano II, mas a hierarquia da Igreja tentou deliberadamente suprimi-lo».


Len Port («O Fenómeno de Fátima. Graça divina, ilusão ou fraude?»).



«(...) Realizaram-se já várias consagrações formais (numa delas, inclusive, a Rússia foi nomeada explicitamente) - mas ficaram sempre por cumprir todos [ou alguns] dos requisitos que Nossa Senhora pedira em Fátima: que o Papa, em conjunto com todos os Bispos católicos do Mundo, consagrasse(m) a Rússia, pelo seu nome, e em cerimónia solene e pública. 

Recentemente ainda (2001), o Papa João Paulo II e 1.500 Bispos visitantes fizeram, em Roma, uma Consagração do Mundo. Muitas pessoas pensaram então que o Papa aproveitaria a oportunidade para realizar o pedido da Virgem de Fátima - mas, para desilusão geral, a Rússia não foi mencionada. 







(...) De um modo significativo, o Cardeal Ratzinger fez assentar todo o fenómeno de Fátima no contexto das “revelações privadas” - que tanto podem ser consideradas “falsas” como “extraordinárias”, tudo dependendo da sua autenticidade. O Cardeal Ratzinger afirma que a Mensagem de Fátima, como todas as “revelações privadas” cuja autenticidade foi aprovada pelas autoridades da Igreja "pode ser um válido auxílio para compreender e viver melhor o Evangelho na hora actual; por isso, não se deve transcurar. É uma ajuda que é oferecida, mas não é obrigatório fazer uso dela". Por outras palavras: segundo o Cardeal Ratzinger, ninguém na Igreja é obrigado a seguir a Mensagem de Fátima: nem o Papa, nem os Bispos, nem os Sacerdotes, nem os leigos. Acreditar em Fátima - incluindo a Consagração da Rússia e a devoção dos Cinco Primeiros Sábados - fica ao critério de cada um. Se quisermos, poderemos simplesmente ignorá-la por completo - como se o Milagre do Sol nunca tivesse acontecido; como se aqueles pedidos de Nossa Senhora tivessem sido feitos por um fantasma! Fátima não passa de uma “ajuda”: nós poderemos aproveitá-la ou não, a nosso bel-prazer.

Bento XIV, um dos Papas mais eruditos da História da Igreja, afirma com toda a razão que estas revelações não podem ser sustentadas com apoio na Fé; elas "requerem, antes, uma adesão de fé humana ditada pelas regras da prudência, que no-las apresentam como prováveis e religiosamente credíveis". Todavia, ao fazer esta citação do Papa Bento XIV, o Cardeal Ratzinger ardilosamente aparenta ignorar um aspecto que é tão extraordinário acerca das aparições de Fátima, e que as retira da categoria de outras “revelações privadas”: o espantoso Milagre do Sol, que prova que Fátima é algo mais do que apenas “religiosamente credível”.

(...) Apesar dos seus melhores esforços para encerrar definitivamente “o livro da história de Fátima”, a aliança Sodano/Ratzinger/Bertone não foi bem sucedida com a conferência de imprensa de 26 de Junho de 2000. Por todo o Mundo, os Católicos bem informados não acreditaram, pura e simplesmente, que uma visão de “um Bispo vestido de Branco” - bastante obscura e sem uma única palavra - pudesse ser todo o conteúdo de um segredo guardado a sete chaves pelo Vaticano durante quarenta anos.






A melhor testemunha de apoio ao clamor de que tinha por força de faltar ali qualquer coisa foi (ironia do destino!) o próprio Cardeal Ratzinger, quando foi entrevistado pela revista Jesus em 1984 - entrevista que já analisámos devidamente. - Então, o que teria acontecido à "profecia religiosa" que o Cardeal nessa altura mencionou, referente aos "perigos que ameaçam a Fé e a vida do Cristão e, consequentemente, do Mundo"? - E o que pensar da sua afirmação (em 1984) de que "o conteúdo deste 'Terceiro Segredo' é anunciado nas Sagradas Escrituras e que tem sido dito, muitas e muitas vezes, em várias outras Aparições de Nossa Senhora, a começar por esta, de Fátima, no seu conteúdo já conhecido"? É que nesta visão do “Bispo vestido de Branco” não existe nada que repita o que tem vindo a ser dito em muitas outras Aparições Marianas - porque, nesta visão, a Virgem Santa Maria não diz absolutamente nada. Ora, se o Cardeal Ratzinger/versão 2000 vem dizer que o “Bispo vestido de Branco” era o Papa João Paulo II escapando à morte, em 1981, então porque é que o Cardeal Ratzinger não o revelou em 1984, declarando assim que o Terceiro Segredo fora totalmente cumprido? 

A conclusão incontornável a que chegaram muitos bons e fiéis católicos foi a de que tinha de existir um outro documento que permitisse continuar para além da visão.

(...) Cresce a convicção de que, de facto, existem dois documentos contendo o Terceiro Segredo...».

(«O Último Combate do Demónio», editado e compilado pelo Padre Paul Kramer).



«A terceira parte do segredo revelado a 13 de Julho de 1917 na Cova da Iria-Fátima (Na transcrição, respeitou-se o texto original mesmo quando havia erros e imprecisões de escrita e pontuação, os quais, aliás, não impedem a compreensão daquilo que a vidente quis dizer).



Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia. Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe.

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: o Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz emensa que é Deus: "algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante" um Bispo vestido de Branco "tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre". Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz e troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns atrás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus.


Tuy-3-1-1944».





COMENTÁRIO TEOLÓGICO

Quem lê com atenção o texto chamado terceiro «segredo» de Fátima, que depois de longo tempo, por disposição do Santo Padre, é aqui publicado integralmente, ficará presumivelmente desiludido ou maravilhado depois de todas as especulações que foram feitas. Não é revelado nenhum grande mistério; o véu do futuro não é rasgado. Vemos a Igreja dos mártires deste século que está para findar, representada através duma cena descrita numa linguagem simbólica de difícil decifração. É isto que a Mãe do Senhor queria comunicar à cristandade, à humanidade num tempo de grandes problemas e angústias? Serve-nos de ajuda no início do novo milénio? Ou não serão talvez apenas projecções do mundo interior de crianças, crescidas num ambiente de profunda piedade, mas simultanemanete assustadas pelas tempestades que ameaçavam o seu tempo? Como devemos entender a visão, o que pensar dela?


Revelação pública e revelações privadas - o seu lugar teológico




Antes de encetar uma tentativa de interpretação, cujas linhas essenciais podem encontrar-se na comunicação que o Cardeal Sodano pronunciou, no 13 de Maio deste ano, no fim da Celebração Eucarística presidida pelo Santo Padre em Fátima, é necessário dar alguns esclarecimentos básicos sobre o modo como, segundo a doutrina da Igreja, devem ser compreendidos no âmbito da vida de fé fenómenos como o de Fátima. A doutrina da Igreja distingue «revelação pública» e «revelações privadas»; entre as duas realidades existe uma diferença essencial, e não apenas de grau. A noção «revelação pública» designa a acção reveladora de Deus que se destina à humanidade inteira e está expressa literariamente nas duas partes da Bíblia: o Antigo e o Novo Testamento. Chama-se "revelação", porque nela Deus Se foi dando a conhecer progressivamente aos homens, até ao ponto de Ele mesmo Se tornar homem, para atrair e reunir em Si próprio o mundo inteiro por meio do Filho encarnado, Jesus Cristo. Não se trata, portanto, de comunicações intelectuais, mas de um processo vital em que Deus Se aproxima do homem; naturalmente nesse processo, depois aparecem também conteúdos que têm a ver com a inteligência e a compreensão do mistério de Deus. Tal processo envolve o homem inteiro e, por conseguinte, também a razão, mas não só ela. Uma vez que Deus é um só, também a história que Ele vive com a humanidade é única, vale para todos os tempos e encontrou a sua plenitude com a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por outras palavras, em Cristo Deus disse tudo de Si mesmo, e portanto a revelação ficou concluída com a realização do mistério de Cristo, expresso no Novo Testamento. O Catecismo da Igreja Católica, para explicar este carácter definitivo e pleno da Revelação, cita o seguinte texto de S. João da Cruz: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra - e não tem outra -, Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única (...) porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d'Ele outra realidade ou novidade» (CIC, n.º 65; S. João da Cruz, A Subida do Monte Carmelo, II, 22).

O facto de a única revelação de Deus destinada a todos os povos ter ficado concluída com Cristo e o testemunho que d'Ele nos dão os livros do Novo Testamento vincula a Igreja com o acontecimento único que é a história sagrada e a palavra da Bíblia, que garante e interpreta tal acontecimento, mas não significa que agora a Igreja pode apenas olhar para o passado, ficando assim condenada a uma estéril repetição. Eis o que diz o Catecismo da Igreja Católica: «No entanto, apesar de a Revelação ter acabado, não quer dizer que esteja completamente explicitada, E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance no decorrer dos séculos» (n.º 66). Estes dois aspectos - o vínculo com a unicidade do acontecimento e o progresso na sua compreensão - estão optimamente ilustrados nos discursos de despedida do Senhor, quando Ele declara aos discípulos: «Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas  não as podeis suportar agora. Quando vier o Espírito da Verdade, Ele guiar-vos-á para a verdade total, porque não falará de Si mesmo (...) Ele glorificar-Me-á, porque há-de receber do que é meu, para vo-lo anunciar» (Jo 16, 12-14). Por um lado, o Espírito serve de guia, desvendando assim um conhecimento cuja densidade não se podia alcançar antes porque faltava o pressuposto, ou seja, o da amplidão e profundidade da fé cristã, e que é tal que não estará concluída jamais. Por outro lado, esse acto de guiar é «receber» do tesouro do próprio Jesus Cristo, cuja profundidade inexaurível se manifesta nesta condução por obra do Espírito. A propósito disto, o Catecismo cita uma densa frase do Papa Gregório Magno: «As palavras divinas crescem com quem as lê» (CIC, n.º 94; S. Gregório Magno, Homilia sobre Ezequiel 1, 7, 8). O Concílio Vaticano II indica três caminhos essenciais, através dos quais o Espírito Santo efectua a sua guia da Igreja e, consequentemente, o «crescimento da Palavra»: realiza-se por meio da meditação e estudo dos fiéis, por meio da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, e por meio da pregação daqueles «que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade» (Dei Verbum, n.º 8).




Neste contexto, torna-se agora possível compreender correctamente o conceito de «revelação privada», que se aplica a todas as visões e revelações verificadas depois da conclusão do Novo Testamento; nesta categoria, portanto, se deve colocar a mensagem de Fátima. Ouçamos o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre isto também: «No decurso dos séculos tem havido revelações ditas "privadas", algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. (...) O seu papel não é (...) "completar" a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente numa determinada época da história» (n.º 67). Isto deixa claro duas coisas:

1. A autoridade das revelações privadas é essencialmente diversa da única revelação pública: esta exige a nossa fé; de facto, nela, é o próprio Deus que nos fala por meio de palavras humanas e da mediação da comunidade viva da Igreja. A fé em Deus e na sua Palavra é distinta de qualquer outra fé, crença, opinião humana. A certeza de que é Deus que fala, cria em mim a segurança de encontrar a própria verdade; uma certeza assim não se pode verificar em mais nenhuma forma humana de conhecimento. É sobre tal certeza que edifico a minha vida e me entrego ao morrer.

2. A revelação privada é um auxílio para esta fé, e manifesta-se credível precisamente porque faz apelo à única revelação pública. O Cardeal Próspero Lambertini, mais tarde Papa Bento XIV, afirma a tal propósito num tratado clássico, que se tornou normativo a propósito das beatificações e canonizações: «A tais revelações aprovadas não é devida uma adesão de fé católica; nem isso é possível. Estas revelações requerem, antes, uma adesão de fé humana ditada pelas regras da prudência, que no-las apresentam como prováveis e religiosamente credíveis». O teólogo flamengo E. Dhanis, eminente conhecedor desta matéria, afirma sinteticamente que a aprovação eclesial duma revelação privada contém três elementos: que a respectiva mensagem não contém nada em contraste com a fé e os bons costumes, que é lícito torná-la pública, e que os fiéis ficam autorizados a prestar-lhe de forma prudente a sua adesão [E. Dhanis, Sguardo su Fatima e bilancio di una discussione, em: La Civiltà Cattolica, CIV (1953-II), 392-406, especialmente 397]. Tal mensagem pode ser um válido auxílio para compreender e viver melhor o Evangelho na hora actual; por isso, não se deve transcurar. É uma ajuda que é oferecida, mas não é obrigatório fazer uso dela.


Assim, o critério para medir a verdade e o valor duma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Quando se afasta d'Ele, quando se torna autónoma ou até se faz passar por outro desígnio de salvação, melhor e mais importante que o Evangelho, então ela certamente não provém do Espírito Santo, que nos guia no âmbito do Evangelho e não fora dele. Isto não exclui que uma revelação privada realce novos aspectos, faça surgir formas de piedade novas ou aprofunde e divulgue antigas. Mas, em tudo isso, deve tratar-se sempre de um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são, para todos, o caminho permanente da salvação. Podemos acrescentar que frequentemente as revelações privadas provêm da piedade popular e nela se reflectem, dando-lhe novo impulso e suscitando formas novas. Isto não exclui que aquelas tenham influência também na própria liturgia, como o demonstram por exemplo a festa do Corpo de Deus e a do Sagrado Coração de Jesus. Numa determinada perspectiva, pode-se afirmar que, na relação entre liturgia e piedade popular, está delineada a relação entre revelação pública e revelações privadas:  a liturgia é o critério, a forma vital da Igreja no seu conjunto alimentada directamente pelo Evangelho. A religiosidade popular significa que a fé cria raízes no coração dos diversos povos, entrando a fazer parte do mundo da vida quotidiana. A religiosidade popular é a primeira e fundamental forma de «inculturação» da fé, que deve continuamente deixar-se orientar e guiar pelas indicações da liturgia, mas que, por sua vez, a fecunda a partir do coração.

Desta forma, passámos já das especificações mais negativas, e que eram primariamente necessárias, à definição positiva das revelações privadas: Como podem classificar-se de modo correcto a partir da Escritura? Qual é a sua categoria teológica? A carta mais antiga de S. Paulo que nos foi conservada e que é também o mais antigo escrito do Novo Testamento, a primeira Carta aos Tessalonicenses, parece-me oferecer uma indicação. Lá, diz o Apóstolo: «Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias. Examinai tudo e retende o que for bom» (5, 19-21). Em  todo o tempo é dado à Igreja o carisma da profecia, que embora tenha de ser examinado, não pode ser desprezado. A este propósito, é preciso ter presente que a profecia, no sentido da Bíblia, não significa predizer o futuro, mas aplicar a vontade de Deus ao tempo presente e consequentemente mostrar o recto caminho do futuro. Aquele que prediz o futuro pretende satisfazer a curiosidade da razão, que deseja rasgar o véu que esconde o futuro; o profeta vem em ajuda da cegueira da vontade e do pensamento, ilustrando a vontade de Deus enquanto exigência e indicação para o presente. Neste caso, a predição do futuro tem uma importância secundária; o essencial é a actualização da única revelação, que me diz respeito profundamente: a palavra profética ora é advertência ora consolação, ou então as duas coisas ao mesmo tempo. Neste sentido, pode-se relacionar o carisma da profecia com a  noção «sinais do tempo», redescoberta pelo Vaticano II: «Sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis interpretar o tempo presente?» (Lc. 12, 56). Por «sinais do tempo», nesta palavra de Jesus, deve-se entender o seu próprio caminho. Ele mesmo. Interpretar os sinais do tempo à luz da fé significa reconhecer a presença de Cristo em cada período de tempo. Nas revelações privadas reconhecidas pela Igreja - e portanto na de Fátima -, trata-se disto mesmo: ajudar-nos a compreender os sinais do tempo e a encontrar na fé a justa resposta para os mesmos (in Congregação para a Doutrina da Fé, A Mensagem de Fátima, Paulinas, 2000,  pp. 26-27 e 39-45).


«Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé etc.»













Continua


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