quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Louvor da Matéria

Escrito por António Telmo 



Mosteiro dos Jerónimos

«A cifra, primeira na ordem do reino, que cala o mistério da História de Portugal, é o "manuelino". Ponhamos, porém, esta afirmação no modo hipotético. Se ela vier a confirmar-se, isto é, se for possível demonstrar que por detrás do "manuelino" está uma organização esotérica, então, qualquer que ela seja, identificar-se-á com o Reino, porquanto os símbolos fundamentais do "manuelino" - a cruz da potência e a esfera armilar - eram simultaneamente os símbolos régios.

(...) Surge aqui, todavia, um dos mais perturbantes enigmas da História de Portugal. Alude Mário de Sampaio Ribeiro, no seu breve estudo Do Sítio do Restelo e das suas Igrejas de Santa Maria de Belém, a uma "reviravolta" que se teria dado no espírito de D. Manuel e que situa, com rigorosa precisão, em 1513, reviravolta que outros historiadores relacionam com uma mudança de atitude para com os judeus, de protector nos primeiros anos do seu reinado e de perseguidor nos restantes, mas que Sampaio Ribeiro, escondendo mais do que diz, refere às relações do rei com a Ordem de Cristo. A entrega a uma Ordem contemplativa como a dos Jerónimos do Templo de Santa Maria que pertencia de direito, conferido pelo Infante, à Ordem guerreira de Cristo, a súbita suspensão dos trabalhos nas Capelas Imperfeitas orientados por Mestre Boitaca, o afastamento deste da obra de edificação dos Jerónimos, tudo acontece na volta muito próxima do ano de 1513. Para Mário de Sampaio Ribeiro, Boitaca "foi talvez o último iniciado das confrarias de pedreiros livres que viveu entre nós". Conta Frei Jacinto de São Miguel que, tendo ele sido repreendido pelo rei por desrespeitar um grande do Reino, teria respondido: "Senhor V. A., em os seus reinos pode fazer quantos grandes quiser, mas não a um mestre Boytac porque isso só Deus o faz".

(...) A entrega do Mosteiro aos frades Jerónimos pode ser interpretada como o modo que o rei encontrou de assegurar a conservação dos conhecimentos iniciáticos, que, a ficarem na posse dos Cavaleiros de Cristo, dada a corrupção da Ordem (se é verdade o que afirma Mário de Sampaio Ribeiro), poderiam vir a perder-se definitivamente. Em resultado das investigações de Américo Castro, sabe-se hoje que os frades Jerónimos receberam dos fraticelli a ideia de Joachim de Flora que anunciava depois das idades do Pai e do Filho, a vinda do Paracleto. Convém consultar neste sentido, além do próprio Américo Castro (Aspectos del Vivir Hispanico), Almir Bruneti (A Lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português, Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1975) e os livros de Agostinho da Silva publicados pela Guimarães Editores, Reflexão e Aproximações, assim como uma entrevista que sobre o assunto deu ao suplemento literário A Ilha do Jornal da Madeira».

António Telmo («História Secreta de Portugal»).


«O projecto áureo português de um Império do Espírito Santo não é (...) documentável em termos de historiografia positivista, baseando-se unicamente em dados paleográficos. Tão pouco é apreensível na perspectiva epidérmica, reducionista ou deformante de uma teoria da história de cariz comtista ou materialista. Eis porque só o aproximaram ou intuíram, de mais perto ou de mais de longe, aqueles raros historiadores, pensadores e poetas que, partindo de uma filosofia do espírito, foram capazes de superar tais limitações teóricas ou ideológicas.


O espírito religioso e cavaleiresco de dedicação a uma causa sobre-humana, tal como se simboliza no ciclo romanesco da Demanda do Graal; a crença numa teoria providencialista da história, como a que subjaz à lenda de Ourique ou ao mito do Quinto Império; a convicção de que não há obstáculos terrenos que valham contra o serviço de Deus; a crença no valor sem limites da individualidade heróica, fundamento de uma concepção verdadeiramente aristocrática da vida; a pertença do Monarca, como do Cavaleiro ou do Clérigo, não tanto ao relativo da existência terrena (que tem obviamente valor e realidade), como ao que nela é presença do absoluto, investindo de transcendência a sua missão e o seu lugar neste mundo - são fenómenos estranhos à vivência moderna, dificultando pois a leitura do texto truncado, mas verídico, onde ficou expresso, para que o conhecêssemos, aquele projecto áureo. Mas são fenómenos que a clara razão obscurecedora do "século das luzes", o discurso da idade "positiva", a redução da grande complexidade psicológica e antropológica do ser humano à sua minimização pela ideia simplista da luta de classes ou pela obsessão de ver exclusivamente o interesse económico em todos os actos, enfim, o abstraccionismo do social, julgando poder eliminar a "diferença" qualitativa e decisiva do individual, não logram tocar, fazer desaparecer ou destruir».

António Quadros («Portugal, Razão e Mistério II»).


«Em absoluta acepção, depois de precavermos o risco de cair em uma interpretação mitológica da teologia - poderíamos inferir que o Mistério da Trindade de certa forma funciona e opera como símbolo da relação do espírito e da matéria, da acção e da paixão, da direita e da esquerda. O espírito é o elemento eidético, a matéria é o elemento dinâmico (leia-se: potencial), sendo a natureza o elemento noético. Um crente pode relacionar a glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sem dúvida; e um descrente pode relacionar as noções de pai, mãe e filho. E veremos como o filho só é filho porque há pai e há mãe. Natureza não há por si, sem ter sido determinada na prévia cópula do sopro, do fogo e da água, do espírito e da matéria, como virtualidades específicas do ser, ou como atributos ônticos».

Pinharanda Gomes («Pensamento e Movimento»).




Louvor da Matéria

Tecto da Igreja no Mosteiro dos Jerónimos

1. O «manuelino» é a arquitectura da Árvore, porque a matéria do mundo é a madeira.

2. A madeira é o que cresce indefinidamente, é o princípio da multiplicação sem divisão.

3. As árvores crescem em direcção ao Sol, mas quanto mais se aproximam da luz mais fundo mergulham as raízes na terra.

4. Alimenta-se de luz a árvore do mundo, como as pobres e belas árvores dos nossos campos.

5. A matéria é a árvore sephirótica.

6. Há corpos sem matéria de tão densos que são.

7. Todos os pontos da totalidade infinita estão unidos entre si por uma árvore invisível.

8. Esta árvore não cresce de baixo para cima, mas do alto para o abismo. Compete ao homem justo inverter em si a corrente que vem das alturas, concitando as vozes mais fundas do abismo a um cântico de louvor.

9. Eu sou o fruto da árvore; serei a semente que apodrecerá nas águas inferiores ou que germinará nas águas superiores, criando um novo futuro.

10. Os últimos produtos da árvore são as folhas secas, que dela se soltam, que se amontoam no chão do Outono, até que venha o vento frio do Inverno e as espalhe sobre a terra para formar o húmus onde as sementes germinarão.

11. As belas cores do Outono são o resultado da decomposição dos corpos (Gustavo Meyrink).

12. O mal são as cascas, o exterior, o rígido que está morto no vivo, mas que pode ser queimado, purificado no fogo do fim do mundo.

13. Em grego, matéria diz-se úlê, palavra que corresponde a silva no latim. Em português, matéria é madeira, que se arranca das florestas.


14. Se quando falamos em matéria pensássemos em madeira, não diríamos tantos disparates sobre o que ela é, sobre o que são as suas relações com o espírito. Aristóteles e Platão e os outros gregos pensaram a matéria através de uma palavra que tinha como sentido imediato madeira ou floresta. Foi uma grande vantagem.

15. Há ainda outra conotação, matéria e mater, matéria e mãe.

16. As raízes e as matrizes.

17. Uma árvore pode ter muitas raízes, mas o número exacto é três. Pode ter muitos ramos, mas o número exacto é sete.

18. Um ensinamento maçónico: ««O Grande Arquitecto do Universo edificou o Templo do Mundo sobre a Madeira».

19. Por isso a arte da carpintaria, que parece auxiliar a maçonaria, é-lhe anterior.

20. A planta do Templo é a árvore dos números e das letras. Por isso, uma árvore pode ter muitas raízes, mas o número exacto é três: keter, hochmah, binah, a coroa, a sabedoria e a inteligência. Daqui tudo deriva e tudo cresce, conhecendo o Abismo. Por isso uma árvore pode ter muitos ramos mas o seu número exacto é sete.

21. A suprema arte do carpinteiro trabalha com a matéria do mundo e os aprendizes têm de transformar-se em pássaros para não sentirem a vertigem sobre os altos andaimes.

22. Em tiferet, no centro dos centros, já não há o perigo de cair, porque o baixo é o alto e o alto é o baixo. O Sol não cai, imóvel no centro do seu sistema. Pois para que lado se há-de cair, se já não há lado?

23. O ser em si dos filósofos, o ser que em si tem o seu princípio, é como um pássaro que voa de ramo em ramo, sustentado, não pelas asas, mas pelo que move as asas.

24. O ser em si, livre por não ter o seu princípio noutro ser, é, mais do que o pássaro, o voo.

25. O pássaro foi pensado na ideia (em Aziluth) como voo puro, foi criado como arcanjo em Beriah, formado na energia de uma imagem em Yetzirah, feito como pássaro em Aziah. Mas de Keter a Malcuth, pela linha vertical, a ideia é um relâmpago, onde o pássaro é o voo e o voo o pássaro.

26. O pássaro dos Jerónimos, da coluna do oriente, é um galo, a visão imediata do Sol, a essência ígnea do homem redimida de seiva em flor vermelha.




27. Nos reis, em D. Manuel por exemplo, o galo é substituído pela águia, essa senhora dos vastos domínios do Sol, ser absoluto sem vertigens.

28. A vertigem é a sensação do vórtice que anima o mundo, sem se estar no centro desse vórtice. A sensação periférica.

29. E até lá? O pavor da queda e a sedução dela.

30. Meu Deus, que farei de mim quando me encontrar sem este corpo em que me estabeleci e firmo e que guarda a minha alma? (in Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editores, 1989, pp. 23-25).


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