sábado, 10 de novembro de 2012

Génesis

Escrito por Santo Agostinho 




«[a] negação da eternidade do mundo, firma-se, originalmente, na teologia cristã: na revelação dos textos sagrados, nas verdades da fé, nos argumentos especiosos sobre a impossibilidade de um real infinito numérico, de uma série causal infinita, de uma infinidade de almas imortais, na distinção agostiniana entre tempo e mundo, ou entre tempo vazio e tempo pleno, com a introdução na filosofia do conceito de tempo - que os antigos não distinguiam da vida e filosoficamente ignoraram - como forma necessária das aparências, dos fenómenos e da existência do ser.

Firma-se a tese, mais recentemente, nas hipóteses fundamentais da ciência moderna quanto à degradação da energia, à desintegração da matéria ou à expansão do universo e, em geral, está ela suposta em todo o processo científico pois a negação da eternidade do mundo é imprescindível à afirmação da irrealidade do mundo sensível que é, de um modo mais patente ou mais secreto, o ponto de partida e o permanente suporte do característico ideísmo da ciência moderna.

A tese está, pois, no cerne da tradição cristã e abrange, do mais alto ao mais baixo, toda a modernidade, de tal modo que aparece com a mesma evidência à mentalidade, até em seus estados ingénuos e oníricos, de todo o homem moderno, seja ele mais sábio ou ignorante, mais dedicado à positividade científica ou mais entregue à reflexão especulativa. Chega a provocar um álgido estremecimento verificar como a tese da eternidade do mundo tão radicalmente desapareceu sem que deixasse qualquer vestígio significativo na filosofia moderna, na simples cultura, na imagética do homem. Alguns, como Kant, ainda a lembram mas só para dela fazerem uma antinomia exemplificativa da inviabilidade da metafísica. Outros, como Nietzsche, ainda talvez a vislumbrem naquilo a que chamam "o eterno retorno" que, porém, nada mais é do que o modo cristão, a imagem com que o ritual litúrgico representa a perenidade da natureza em ciclos que se repetem».

Orlando Vitorino («Exaltação da Filosofia Derrotada»).


«A memória do homem "antigo" (...) é algo de totalmente distinto da nossa memória, pois na sua consciência o passado e o futuro não existem como perspectivas criadoras de uma determinada ordem; e o "presente" puro, que Goethe tanto admirava nas manifestações do mundo antigo, sobretudo de expressão plástica, impregna esse mundo de uma plenitude que nos é completamente desconhecida».

Oswald Spengler («A Decadência do Ocidente»).



Criação do Mundo: ela não é intemporal nem foi estabelecida segundo um plano novo de Deus, como se Deus tivesse querido depois o que antes não quisera.


De todos os seres visíveis o maior é o Mundo; de todos os invisíveis o maior é Deus. Mas que o Mundo existe - vemo-lo nós; que Deus existe - cremo-lo. De que Deus fez o Mundo não temos mais segura garantia para o crer do que o próprio Deus. Onde o ouvimos? Em parte alguma melhor, com certeza, do que nas Santas Escrituras onde um seu profeta disse:

No princípio fez Deus o Céu e a Terra (1).


Então este profeta estava lá quando Deus criou o Céu e a Terra? Não. Mas esteve lá a Sabedoria de Deus pela qual se fizeram todas as coisas, que se transmite também às almas santas, faz delas os amigos e profetas de Deus, e, no seu íntimo, silenciosamente, lhes conta as suas obras.

Também lhes falam os anjos de Deus que vêem sempre a face do Pai e anunciam a sua vontade a quem é preciso. Era um deles o profeta que disse e escreveu:


No princípio fez Deus o Céu e a Terra.


E é tal a autoridade que tem, como testemunho, para que acreditemos em Deus, que, pelo mesmo Espírito de Deus (que por revelação lhe deu a conhecer estas coisas) predisse com tanta antecedência a nossa fé.

E por que é que ao Deus eterno aprouve criar, então, o Céu e a Terra que antes não tinha criado? Se os que isto perguntam pretendem que o Mundo é eterno, sem princípio e, portanto, parece que não foi feito por Deus, estão muito afastados da verdade e deliram atingidos da enfermidade mortal de impiedade. Porque, além das vozes proféticas, o próprio Mundo pelas suas mudanças e revoluções tão bem ordenadas, como pelo esplendor de todas as coisas visíveis, proclama silenciosamente, a bem dizer, não só que foi feito, mas também que não pôde ser feito senão por Deus inefável e invisivelmente grande, inefável e invisivelmente belo.




Outros há que confessam que o Mundo foi feito por Deus; todavia, não admitem que ele tenha tido começo no tempo mas sim começo na sua criação: de uma maneira difícil de compreender, foi feito desde sempre. Julgam estes que, com tal maneira de dizer, defendem Deus de certa temeridade fortuita, não se vá crer que lhe veio de repente ao espírito a ideia, jamais antes concebida, de fazer o Mundo, e que foi determinado por uma vontade nova - Ele até então absolutamente imutável. Não vejo como, em outras questões, poderão sustentar esta opinião, sobretudo acerca da alma. Se pretendem que ela é co-eterna com Deus, torna-se-lhes impossível explicar donde adveio uma infelicidade nova, nunca antes por ela experimentada na eternidade. Se disserem que ela sofreu sempre alternativas de infelicidade e de felicidade, terão, então, de afirmar esta alternativa também para sempre - mas, então, seguir-se-ia o absurdo de, nos momentos em que se diz feliz, mesmo neles não poder sê-lo, se prevê a sua infelicidade e torpeza futura. E se não prevê, mas crê que será sempre feliz, e essa falsa crença a torna nesse caso feliz - nada se pode afirmar de mais insensato.

E, se se pensar que sempre, no decurso dos séculos infinitos, ela suportou alternativas de infelicidade e de felicidade, mas que agora, finalmente libertada, não voltará a cair na infelicidade, fica-se, pelo menos, obrigado a admitir que ela nunca foi verdadeiramente feliz mas vai apenas começar a sê-lo de uma felicidade nova que não engana. Confessar-se-á, então, que qualquer coisa de novo lhe aconteceu, qualquer coisa de grande e de magnífico que ela jamais antes conhecera durante a sua eternidade. Se negarem que Deus, por um desígnio eterno, foi a causa desta novidade, terão também que negar que Ele é o autor da felicidade - o que é uma abominável impiedade. Se disserem que o próprio Deus, por um novo desígnio decidiu que a alma será doravante feliz para sempre - como é que o mostrarão então alheio à mutabilidade que nem mesmo eles querem admitir? Mas, se se confessar que a alma foi criada no tempo e que em nenhum momento do futuro ela perecerá, à maneira de um número que tem começo mas não tem fim, de maneira que, depois de ter experimentado uma vez a infelicidade e desta se ter libertado, ela não voltará a conhecê-la, ninguém duvidará de que isso acontecerá sem prejuízo para a imutabilidade dos desígnios de Deus. Creia-se, pois, também que o Mundo pôde ser feito no tempo sem que, ao fazê-lo, Deus tenha mudado o seu desígnio e a sua vontade eterna.

Não se deve imaginar uma extensão infinita de tempos antes do Mundo, nem também uma extensão infinita de lugares fora do Mundo, porque antes do Mundo não há tempos nem fora dele há lugares.



Quanto àqueles que admitem connosco que Deus é o autor do Mundo, mas nos põem a objecção do tempo do Mundo, vejamos o que esses mesmos respondem acerca do lugar do Mundo. Porque da mesma forma que nos perguntam: - porque o fez Ele em tal momento em vez de o ter feito em tal outro?, assim também se lhes pode perguntar: - porque o fez aí em vez de o ter feito noutro sítio? Efectivamente, se imaginam antes do Mundo extensões infinitas de tempos no decurso das quais, parece-lhes, Deus não podia ficar inactivo, - pois imaginem também, fora do Mundo, extensões infinitas de lugares. E se disserem que também aí o Omnipotente não se pode manter inactivo, não serão eles obrigados a sonhar, como Epicuro, com inúmeros mundos (com a única diferença de que em vez de, como ele, atribuírem a sua formação e dissolução aos movimentos fortuitos dos átomos, dirão que foram criados por Deus)? Não será o que se conclui, se não admitirem que Deus se mantém inactivo na imensidade sem limites desses lugares que se estendem por todos os lados à volta do Mundo, nem será o que se conclui, se não admitirem que esses mundos não poderão ser destruídos por causa alguma, como eles pensam também do nosso Mundo? Lidamos com os que pensam, como nós, que Deus é um ser incorpóreo, criador de todas as naturezas distintas da sua. Quanto aos outros, seria demasiado indigno admiti-los nesta discussão acerca da religião; principalmente porque, àqueles que crêem que se deve prestar culto a uma multidão de deuses, estes filósofos os superam em nobreza e autoridade e por isso, por muito afastados que pareçam estar da verdade, estão, todavia, dela mais próximos que todos os outros.

A respeito da substância de Deus, que não incluem num lugar, nem nele a delimitam, nem fora dele a deixam, mas antes, como convém pensar acerca de Deus, reconhecem que ela está inteiramente toda com uma presença incorpórea em toda a parte - acaso dirão que esta está ausente desses espaços tamanhos que se estendem fora do Mundo? Acaso dirão que ela ocupa unicamente o lugar deste Mundo tão exíguo em comparação dos espaços infinitos? Não creio que cheguem a cair em tal palavriado. Reconhecem, pois, que não há senão um Mundo, formando sem dúvida uma massa corpórea imensa mas limitada e circunscrita no seu lugar e que é obra de Deus. O que eles respondem a propósito dos espaços que se estendem sem limites para fora do Mundo quando perguntam: porque é que Deus nada fez aí? que o digam a si próprios a propósito dos tempos ilimitados decorridos antes do Mundo, quando perguntam: porque é que Deus nada fez então? Se Deus estabeleceu o Mundo no lugar onde está e não noutro, quando nesses espaços infinitos todos os lugares tinham os mesmos direitos de serem escolhidos, - não se segue por certo que Ele o fez por acaso e não por uma razão divina, embora esta razão escape a toda a inteligência humana. Pela mesma razão não é lógico atribuir a uma decisão fortuita que Deus criou o Mundo em tal tempo em vez de em tal outro, mesmo que no passado tenha havido uma infinidade de tempos igualmente anteriores sem diferença alguma para ser preferido um tempo a outro.

Se dizem que são vãos os pensamentos dos homens que imaginam espaços infinitos, pois que não há lugar algum fora do Mundo, responder-se-lhes-á que também é vão imaginar tempos passados em que Deus nada fazia, já que tempo não há antes do Mundo.


Para o Mundo como para os tempos o começo é o mesmo: um não precede o outro.


Se, de facto, a verdadeira diferença entre a eternidade e o tempo consiste em que não há tempo sem mudança sucessiva, ao passo que a eternidade não admite mudança alguma, - quem não verá que o tempo não teria existido, se não tivesse sido feita uma criatura que desloca tal ou tal coisa por um qualquer movimento? Essa mudança, esse movimento cedem o seu lugar e sucedem-se, e, não podendo existir ao mesmo tempo em intervalos mais curtos ou prolongados de espaço, dão origem ao tempo. Pois que Deus, cuja eternidade exclui a menor mudança, é o criador e o ordenador dos tempos, como é que se poderá dizer que Ele criou o Mundo depois dos espaços de tempo? Eu não vejo - a não ser que se diga que antes do Mundo já existia uma criatura cujos movimentos teriam determinado o curso dos tempos. Mas as Sagradas Escrituras, absolutamente verídicas, afirmam que «no princípio fez Deus o Céu e a Terra» (Gén. I, 1), para nos darem a entender que Ele nada tinha feito antes; porque, se tivesse feito alguma coisa antes de tudo o que fez, seria dessa coisa que estaria escrito «no princípio Deus fê-la». Está pois fora de dúvida que o Mundo foi feito, não no tempo, mas com o tempo. O que efectivamente se faz no tempo, faz-se depois de algum tempo e antes de outro - depois do que foi (praeteritum), antes do que será (futurum). Mas não poderia haver passado algum, porque não havia criatura alguma capaz, pelos seus movimentos sucessivos de realizar o tempo. Foi, pois, com o tempo que o Mundo foi feito pois que, ao criar o Mundo, Deus criou nele o movimento sucessivo. Assim o demonstra a própria ordem dos seis ou sete primeiros dias: estão lá nomeadas uma manhã e uma tarde, até que, acabadas todas as obras de Deus ao sexto dia, o sétimo nos descobre, num grande mistério, o repouso de Deus. Mas de que dias se trata - é difícil, impossível mesmo, fazer disso uma ideia, quanto mais exprimi-la» (in A Cidade de Deus, Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, Vol. II, pp. 993-1002 ).




(1) In principio fecit Deus coelum et terram (Génesis, I, 1.).

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